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WALTER
PRAXEDES
Docente na
Universidade Estadual de Maringá, Departamento de Ciências Sociais; Doutor em Educação
pela USP e co-autor de O Mercosul e a sociedade global (São
Paulo, Ática, 1998) e Dom Hélder Câmara: Entre o poder e a
profecia, publicada no Brasil pela Editora Ática (1997) e na Itália
pela Editrice Queriniana (1999)
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Ensaio sobre a cegueira:
a cegueira como metáfora no livro de
José Saramago
Walter Praxedes
 No
romance Ensaio sobre a cegueira (1995), de José Saramago, a
cegueira descrita é representada através de inúmeras metáforas. Já
no início da narrativa as personagens são acometidas pelo chamado
"mal branco", impossível de ser diagnosticado como um dos tipos já
conhecidos de cegueira. Considerando a cegueira como metáfora, ao
longo deste romance Saramago tenta explicar como as pessoas vão se
tornando cegas no mundo contemporâneo, como inexplicavelmente
ocorreu com o primeiro cego, primeira personagem apresentada na
narrativa, que cegou quando conduzia o seu automóvel: de repente a
realidade tornou-se indiferenciada à sua volta.
Quando o "primeiro cego" chegou ao
consultório do oftalmologista para tentar descobrir uma solução para
o seu problema de visão, o médico considerou o caso urgente e
passou-o à frente dos demais pacientes que aguardavam pela consulta.
Porém, a mãe de um menino que aguardava sua vez não se sensibilizou
diante da urgência do paciente inesperado e "...protestou que o
direito é o direito, e que ela estava em primeiro lugar, e à espera
a mais de uma hora. Os outros doentes apoiaram-na em voz baixa, mas
nenhum deles, nem ela própria, acharam prudente insistir na
reclamação, não fosse o médico ficar ressentido e depois pagar-se da
impertinência fazendo-os esperar ainda mais" (EC: 22).
A pressa e insensibilidade desses
pacientes diante de um indivíduo com um problema considerado mais
urgente pelo médico talvez seja um primeiro indício apresentado pelo
narrador de que a cegueira pode ser provocada pelo distanciamento
existente entre os indivíduos nas sociedades modernas. Um
distanciamento que leva cada um a observar apenas os seus próprios
interesses, interesses tais que só serão limitados pelo cálculo da
conveniência: "...na verdade, sentencia o narrador deste romance,
ainda está por nascer o primeiro ser humano desprovido daquela
segunda pele a que chamamos egoísmo, bem mais dura que a outra, que
por qualquer coisa sangra" (EC: 169).
O egoísmo como cegueira é novamente
mencionado quando o transeunte que ajuda o primeiro cego a voltar
para casa aproveita-se da ocasião para roubar-lhe o automóvel. Mas o
narrador não realiza um julgamento apressado da atitude do ladrão, e
considera-o um "...simples ladrãozeco de automóveis sem esperança de
avanço na carreira, explorado pelos verdadeiros donos do negócio,
que esses é que se vão aproveitando das necessidades de quem é
pobre" (EC: 25). Pelo visto, o narrador relativiza a importância do
crime do roubo para colocar em evidência o seu julgamento sobre os
motivos que levam os indivíduos a buscarem os seus interesses por
meios escusos: "...No fim das contas, estas ou outras, não é assim
tão grande a diferença entre ajudar um cego para depois o roubar e
cuidar de uma velhice caduca e tatibitate com o olho posto na
herança" (EC: 25).
Diante das necessidades animais os
humanos deixam em segundo plano os seus vínculos afetivos e
princípios morais, como o faz o rapazito estrábico que diante da
fome deixa de chorar a ausência da mãe, e como fazem os cegos que
preferem seguir as "razões do estômago" a se preocuparem com o
destino dos colegas de infortúnio que são mortos quando tentavam
alcançar as caixas de alimentos deixadas pelos soldados no pátio do
manicômio, e "...ninguém parecia interessado em saber quem tinha
morrido" (EC: 92).
A personagem "rapariga dos óculos
escuros" também será apresentada na narrativa com a mesma
generosidade com que, a princípio, o narrador tentou relativizar a
atitude do "ladrão de automóvel". Considerada prostituta, a moça é
defendida dos julgamentos preconceituosos, peremptórios e
definitivos: "Ela tem, como a gente normal, uma profissão, e também
como a gente normal, aproveita as horas que lhe ficam para dar
algumas alegrias ao corpo e suficientes satisfações às necessidades,
as particulares e as gerais. Se não se pretender reduzi-la a uma
definição primária, o que finalmente se deverá dizer dela, em lato
sentido, é que vive como lhe apetece e ainda por cima tira daí o
prazer que pode." (EC: 31)
A simpatia do narrador para com a
personagem "rapariga dos óculos escuros" provoca uma nova absolvição
da moça, desta vez no episódio em que ela reage ao assédio sexual do
"ladrão de automóveis", causando-lhe um ferimento na perna, mesmo se
depois tal ferimento levará o ladrão a procurar a ajuda de um
soldado, recebendo por isso uma inesperada rajada de tiros. Numa
digressão, o narrador menciona, então, um tipo de cegueira
impossível de ser superada pelos humanos, que é a cegueira provocada
pela impossibilidade de previsão de todas as consequências,
desejadas ou não, do seus atos:
"... se antes de cada acto nosso nos
puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas
a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as
possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a
mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar.
Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se
distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e
equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles,
infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo,
para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que
isso é que é a imortalidade de que tanto se fala" (EC: 84).
Cegueira é também a insensibilidade e a
indiferença diante do infortúnio do outro, como as sofre o próprio
médico ao tentar avisar o Ministério da Saúde sobre a epidemia de
cegueira. O médico, então, conclui: "É desta massa que nós somos
feitos, metade de indiferença e metade de ruindade" (EC: 40). Para
se livrarem rapidamente de suas responsabilidades, enquanto o
Ministro da Saúde e seu assessor acreditavam que o problema
atingiria apenas uma minoria, trataram de isolar os cegos
contagiados em um manicômio de modo a que estivessem longe da vista
dos demais e não pudessem incomodar, analogamente à maneira como as
sociedades modernas tratam os indivíduos considerados loucos. Ao
chegarem ao local em que ficariam reclusos, o médico e sua esposa
percebem o significado do tratamento que estão recebendo: "Isto é
uma loucura", constata o médico, e sua esposa concorda: "Deve ser,
estamos num manicômio" (EC: 48).
Para isolar os cegos do restante da
sociedade ainda sã, o governo dirige aos cegos um tratamento
disciplinar impessoal, hierarquizado e autoritário, transformando o
manicômio em um campo de concentração, como se pode constatar no
comunicado divulgado aos internos através de um alto-falante:
"O Governo está perfeitamente
consciente das suas responsabilidades e espera que aqueles a
quem esta mensagem se dirige assumam também, como cumpridores
cidadãos que devem de ser, as responsabilidades que lhes
competem, pensando que o isolamento em que agora se encontram
representará, acima de quaisquer outras considerações pessoais,
um acto de solidariedade para com o resto da comunidade
nacional. Dito isto, pedimos a atenção de todos para as
instruções que se seguem, primeiro, as luzes manter-se-ão sempre
acesas, será inútil qualquer tentativa de manipular os
interruptores, não funcionam, segundo, abandonar o edifício sem
autorização significará morte imediata... décimo quinto, esta
comunicação será repetida todos os dias, a esta mesma hora, para
conhecimento dos novos ingressados. O Governo e a Nação esperam
que cada um cumpra o seu dever. Boas noites" (EC: 50-51).
De fato, logo que um dos cegos
necessitou de medicamentos para um ferimento ocorrido em um conflito
com a rapariga dos óculos escuros, a quem tentara molestar, e se
dirigiu para o portão para falar com os soldados que guardavam o
manicômio, recebeu uma rajada de tiros a queima-roupa e morreu. A
atitude do soldado revela tanto o seu medo de cegar quanto a
cegueira representada pelo cumprimento estrito da ordem recebida por
ele para não tolerar as indisciplinas dos cegos. O narrador
demonstra com isso que tanto o medo de cegar quanto o cumprimento
cego às normas tornam os indivíduos cegos diante das necessidades
dos outros. Comentando a ação do seu subordinado o sargento
responsável pela guarda do manicômio não se mostrou menos
insensível: "Deste-lhe cabo do canastro, disse. Depois, lembrando-se
das rigorosas ordens que lhe haviam sido dadas, gritou, Cheguem-se
para trás, isto pega-se" (EC: 81). Mais adiante na narrativa, o
sargento e os soldados também ficam cegos, numa indicação de que
medo, insensibilidade e crueldade também compõem o rol dos males do
espírito que levam à cegueira descrita por Saramago.
Um grupo de cegos denominados pelo
narrador como "cegos malvados" percebeu que se usasse da violência
poderia extorquir os poucos objetos de importância financeira que
porventura ainda estivessem em poder dos demais cegos, sequestrando
a comida que era depositada no pátio pelos soldados. E então,
"...onde deveria ter sido um por todos e todos por um, pudemos ver
como cruelmente tiraram os fortes o pão da boca aos débeis... (EC:
205). Na busca do lucro, mesmo que ilusório, os cegos malvados
decidem exigir um pagamento pela entrega da comida antes destinada a
todos, mas por eles saqueada. Por isso o narrador vai considerar
essa disputa pela vantagem na distribuição dos alimentos como uma
forma de cegueira. Diante do horror provocado pelas disputas por
comida, a mulher do médico sente o desconforto de continuar a ver e
a testemunhar a degradação humana e se sente momentaneamente incapaz
de lutar contra a opressão exercida pelos cegos malvados. Além do
testemunho da mulher do médico o narrador especula com a hipótese da
presença de um escritor, um "cego contabilista", registrando a
opressão e a exploração de uns cegos por outros cegos. Sua conclusão
é que o escritor acaba optando pelo lado mais conveniente aos seus
interesses imediatos e egoístas:
"Chegando a este ponto, o cego
contabilista, cansado de descrever tanta miséria e dor, deixaria
cair sobre a mesa o punção metálico, buscaria com mão trêmula o
bocado de pão duro que havia deixado a um lado enquanto cumpria
a sua obrigação de cronista do fim dos tempos, mas não o
encontraria, porque outro cego, de tanto lhe pôde valer o olfato
nesta necessidade, o tinha roubado. Então, renegando o gesto
fraterno, obnegado impulso que o tinha feito acudir a este lado,
decidiu o cego contabilista que o melhor, se ainda ia a tempo,
seria regressar à terceira camarata lado esquerdo, ao menos, lá,
por muito que se lhe esteja revolvendo o espírito de honesta
indignação contra as injustiças dos malvados, não passará fome."
(EC: 161)
Logo depois, os cegos malvados decidiram
novamente chantagear os demais, oferecendo-lhes a comida que estava
em seu poder somente se as mulheres se submetessem aos seus desejos.
O narrador parece demonstrar, assim, que pode não haver limite para
a degradação humana. Entre os cegos passa a ocorrer, então, um
debate moral em torno da possibilidade de atenderem ou não a
exigência dos cegos malvados: "O primeiro cego começara por declarar
que mulher sua não se sujeitaria à vergonha de entregar o corpo a
desconhecidos em troca do que fosse, que nem ele o quereria nem ele
o permitiria, que a dignidade não tem preço, que uma pessoa começa
por ceder nas pequenas coisas e acaba por perder todo o sentido da
vida" (EC: 167). O discurso do marido pareceu desproposital à esposa
que contestou-o: "Sou tanto como as outras, faço o que elas
fizerem". O marido resistiu: "Só fazes o que eu mandar...", E a
esposa retorquiu: "Deixa-te de autoridades, aqui não te servem de
nada, estás tão cego como eu". O marido ainda tentou uma admoestação
moral contra a esposa: "É uma indecência". Mas a esposa se revela
consciente de sua condição de igualdade em relação ao marido e às
outras mulheres: "Está na tua mão não seres indecente, a partir de
agora não comas..." E o narrador concluiu o debate: "...foi esta a
cruel resposta, inesperada em pessoa que até hoje se mostrara dócil
e respeitadora do seu marido". (EC: 168). A decisão do grupo será
atender à exigência dos cegos malvados, submetendo o corpo das
mulheres à violência do outro grupo em troca dos alimentos. Em meio
à degradação de suas vidas os cegos se apegarão ao que lhes parecerá
como essencial. Mesmo as convenções morais mais arraigadas no
imaginário individual e coletivo cedem diante da necessidade de
alimentos e do medo da opressão exercida pelos malvados. A decisão
de acatar a exigência dos cegos malvados será assimilada pelo grupo
com um verdadeiro ritual sexual assim descrito pelo narrador:
"Há que dizer, ainda, que duplamente
estão estas mulheres folgando, assim são os mistérios da alma
humana, pois a ameaça, de todos os modos próxima, da humilhação
a que irão ser sujeitas, acordou e exacerbou, dentro de cada
camarata, apetites sensuais que a continuação da convivência
havia debilitado, era como se os homens estivessem pondo nas
mulheres desesperadamente a sua marca antes que lhas levassem,
era como se as mulheres quisessem encher a memória de sensações
experimentadas voluntariamente para melhor se poderem defender
da agressão daquelas que, podendo ser, recusariam." (EC: 169)
Aos poucos os humanos vão retornando,
assim, à sua condição animal, suspensas muitas das suas aquisições
culturais. Inúmeras são as situações em que o comportamento dos
cegos no manicômio é descrito como próprio de animais: Desconfiados
os cegos ficavam "...tensos, de pescoço estendido como se farejassem
algo..." (EC: 49); eram "trazidos em rebanho" e "esbarravam uns nos
outros" (EC: 72); se movimentavam "...de gatas, de cara rente ao
chão como suínos" e os soldados os viam como "...imbecis que se
moviam diante dos seus olhos como caranguejos coxos, agitando as
pinças trôpegas à procura da perna que lhes faltava" (EC: 105). Os
relacionamentos sexuais entre os cegos eram recriminados por eles
mesmos como próprios de porcos. Quando as mulheres chegam à camarata
dos malvados para atender suas exigências, o comportamento deles é
descrito como se fosse de animais: "De dentro saíram gritos,
relinchos, risadas... Depressa, meninas, entrem, entrem, estamos
todos aqui como uns cavalos, vão levar o papo cheio, dizia um
deles... Os cegos relincharam, deram patadas no chão...".
O líder dos cegos malvados, portador de
uma arma que lhe garantia a submissão dos demais, comportava-se como
um gorila que escolhe para si as fêmeas do grupo: "...Excitado,
enquanto continuava a apalpar a rapariga, passou à mulher do médico,
assobiou outra vez, esta é das maduras, mas tem jeito de ser também
rica fêmea. Puxou para si as duas mulheres, quase se babava quando
disse, Fico com estas, depois de as despachar passo-as a vocês". (EC:
176) Quando terminava o ato sexual com a rapariga dos óculos
escuros, o líder dos cegos malvados "...sacudiu-se todo, deu três
sacões violentos como se cravasse três espeques, resfolegou como um
cerdo engasgado, acabara" (EC: 177).
Uma das mulheres não resiste aos maus
tratos recebidos e morre. A violência sofrida pela morta, agride
psicologicamente às demais mulheres e a mulher do médico conclui, ao
retornar à sua camarata e ao seu esposo: "...já não somos as mesmas
mulheres que daqui saímos... o inominável existe, é esse o seu nome,
nada mais" (EC: 179).
O narrador também dá a voz a um cego
que, como um animal domesticado que a tudo se adapta, aceita cômoda
e fatalisticamente a situação em que viviam os cegos reclusos:
"Que isto, meus senhores, é comer e
dormir. Bem vistas as coisas, nem se está mal de todo. Desde que
a comida não venha a faltar, sem ela é que não se pode viver, é
como estar num hotel. Ao contrário, que calvário seria o de um
cego lá fora, na cidade, sim, que calvário. Andar aos tombos
pelas ruas, todos a fugirem dele, a família apavorada, com medo
de se aproximar, amor de mãe, amor de filho, histórias, se
calhar faziam-me o mesmo que me fazem aqui, fechavam-me num
quarto e punham-me o prato à porta por muito favor. Olhando a
situação a frio, sem preconceitos nem ressentimentos que sempre
obscurecem o raciocínio, havia que reconhecer que as autoridades
tiveram visão quando decidiram juntar cegos com cegos, cada qual
com seu igual, que é a boa regra da vizinhança, como os
leprosos..." (EC: 109).
O medo, o comodismo e o fatalismo levam
uma pessoa a se habituar a tudo, "...sobretudo se deixou de ser
pessoa..." (EC: 218). Para o narrador e suas personagens, a
tolerância às situações de opressão são também sintomas de cegueira:
"O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros, São palavras
certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou,
o medo nos fará continuar cegos..." (EC: 131)
Numa próxima noite de horror e violência
contra as mulheres, será a mulher do médico, armada pela visão e uma
tesoura, que superará o medo e irá lutar pela libertação de todos os
cegos do domínio dos malvados matando o seu líder:
"A cama do chefe dos malvados
continuava a ser a do fundo da camarata, onde se amontoavam as
caixas de comida. Os catres ao lado do seu tinham sido
retirados, o homem gostava de mexer-se à vontade, não ter de
tropeçar nos vizinhos. Ia ser simples matá-lo. Enquanto
lentamente avançava pela estreita coxia, a mulher do médico
observava os movimentos daquele que não tardaria a matar, como o
gozo o fazia inclinar a cabeça para trás, como já parecia estar
a oferecer-lhe o pescoço. Devagar, a mulher do médico
aproximou-se, rodeou a cama e foi colocar-se por trás dele. A
cega continuava no seu trabalho. A mão levantou lentamente a
tesoura, as lâminas um pouco separadas para penetrarem como dois
punhais. Nesse momento, o último, o cego pareceu dar por uma
presença, mas o orgasmo retirara-o do mundo das sensações
comuns, privara-o de reflexos, Não chegarás a gozar, pensou a
mulher do médico, e fez descer violentamente o braço. A tesoura
enterrou-se com toda a força na garganta do cego, girando sobre
si mesma lutou contra as cartilagens e os tecidos membranosos,
depois furiosamente continuou até ser detida pelas vértebras
cervicais." EC: 185)
Em uma situação de crise como essa as
identidades se desintegram provocando a situação de incerteza que
inviabiliza a convivência, uma vez que as concepções e valores
humanos perdem o seu poder de sedimentar os relacionamentos.
Isolados do mundo, reclusos no manicômio transformado em campo de
concentração, se já não o era antes, a mulher do médico percebe o
perigo da perda da própria identidade: "...tão longe estamos do
mundo que não tarda que comecemos a não saber quem somos, nem nos
lembramos sequer de dizer-nos como nos chamamos, e para quê, para
que iriam servir-nos os nomes, nenhum cão reconhece outro cão, ou se
lhe dá a conhecer, pelos nomes que lhes foram postos, é pelo cheiro
que identifica e se dá a identificar, nós aqui somos como uma outra
raça de cães, conhecemo-nos pelo ladrar, pelo falar, o resto,
feições, cor dos olhos, da pele, do cabelo, não conta, é como se não
existisse... (EC: 64).
Esta constatação da mulher do médico
pode ser assimilada à opção do próprio narrador, que não utiliza de
nomes próprios, mas de sinais exteriores ou dos papéis sociais
desempenhados pelos indivíduos, para designar as personagens,
tornando homóloga a história que conta à sociedade contemporânea, na
qual a impessoalidade dos relacionamentos no mercado ou nas
organizações burocráticas tornam dispensável o conhecimento sobre o
nome e a verdadeira identidade de cada ser individual.
A personagem "mulher do médico", a única
a não cegar em toda a narrativa, permite interpretarmos que são os
seus valores e ações que a tornam imunizada contra o contágio.
Quando o marido, já contagiado, solicita-lhe que não se envolva com
o seu problema: "Deixa-me, deixa-me". Ela discorda: "Não deixo,
gritou a mulher, que queres fazer, andar aí aos tombos, a chocar
contra os móveis, à procura do telefone, sem olhos para encontrar na
lista os números de que precisas, enquanto eu assisto tranquilamente
ao espectáculo, metida numa redoma de cristal à prova de
contaminações. Agarrou-o pelo braço como firmeza e disse, Vamos, meu
querido" (EC: 39). Logo depois, a mulher simula estar cega para ser
levada na ambulância que recolheria o marido contagiado. Durante
todo o relato a mulher do médico tentará manter a lucidez, se
esforçando para resistir à degradação e tentando colaborar para que
os cegos se não pudessem viver inteiramente como pessoas, que ao
menos não vivessem inteiramente como animais.
Com o caos da civilização provocado pela
generalização da cegueira, os habitantes passam a vagar pela cidade
em busca de comida e abrigo. Será a mulher do médico que vislumbrará
uma saída para o grupo de cegos sob os seus cuidados: "...se nos
separarmos seremos engolidos pela massa, destroçados... por isso o
que proponho é que, em lugar de nos dispersarmos, ela nesta casa,
vocês na vossa, tu na tua, continuemos a viver juntos..." (EC: 245).
O médico logo entende o alcance destas palavras: "Disseste que há
grupos organizados de cegos..., isso significa que estão a ser
inventadas maneiras novas de viver, não é forçoso que acabemos
destroçados como prevês" (EC: 245). O mais experiente do grupo
conclui: "Regressamos à horda primitiva, disse o velho da venda
preta, com a diferença de que não somos uns quantos milhares de
homens e mulheres numa natureza imensa e intacta, mas milhares de
milhões num mundo descarnado e exaurido" (EC: 245). O olhar da
mulher do médico além de desvelar o mundo para os outros cegos
permite que ela enxergue a necessidade de união do grupo, pois para
ela "...organizar-se já é começar a ter olhos" (EC: 282).
O autor expressa dessa forma tanto os
valores sociais que quer condenar como a crueldade, o egoísmo, a
indiferença, o consumismo e a competição, que fazem com que os cegos
estejam "sempre em guerra" (EC: 189), quanto os valores que pretende
que prevaleçam como o respeito ao outro, a dignidade, a coragem, a
solidariedade, e a convivência. Se, por um lado, Saramago dá a
entender que a racionalidade capitalista das sociedades modernas
centrada no individualismo egoísta pode levar ao caos, com a
degradação da convivência humana e do meio ambiente, a união do
grupo proposta pela mulher do médico pode fazer com que prevaleçam
entre os humanos os vínculos afetivos e os valores éticos.
Neste livro, portanto, o autor expõe a
cegueira para evidenciar a importância do olhar, como nos explica a
professora Teresa Cristina Cerdeira da Silva:
"... esse Ensaio sobre a cegueira
pode ser lido inversamente como um ensaio sobre a visão. Esses
cegos chegaram ao fundo do poço de onde puderam ver surgir suas
fraquezas, sua arrogância, sua intolerância, sua impaciência,
sua violência, a monstruosidade dos universos concentracionários.
Mas assistiram também à sua própria força, à sua solidariedade,
à sua generosidade, ao seu espírito revolucionário e à revisão
de seus próprios preconceitos. Este, repito, é um ensaio sobre a
visão: do outro, das relações humanas, das linguagens e seus
clichês, da verdade, do poder e até dos gêneros literários nesse
romance que, como se sabe, se quer ensaio. Porque este não é
tão-somente um romance cujo assunto é a cegueira, mas também um
ensaio entendido como experiência, experimentação que revele a
possibilidade de enxergar para além das aparências, para além
dos seus próprios limites convencionais." (SILVA, 1999: 294)
A cegueira pode ser encarada, assim,
como um conjunto de representações falsas que embora surjam na
própria vivência, nas relações sociais cotidianas, podem se
autonomizar e passar a dominar o vivido, bloqueando a apreensão da
realidade e a práxis, e impedindo a busca do novo. Tais
representações dissimulam a realidade, uma vez que alguns cegos
"...não o são apenas dos olhos, também o são do entendimento" (EC:
213) e assim difundem o seu mal como ocorre quando um "...olho que
está cego transmite a cegueira ao olho que vê..." (EC: 111).
A cegueira que se alastra sobre as
sociedades modernas no mundo contemporâneo, na forma como é descrita
por Saramago é tanto mais surpreendente porque, como escreveu
Lefebvre "...el projecto subyacente a la modernidad de una
absoluta primacia del saber, de la razón, de la ciencia y de la
técnica, suscitó la contrapartida: el antisaber, la antirrazón (sinrazón
e irracionalismo), la antiteoría... Se puede considerar la hipótesis
de una descomposición de la sociedade en Occidente. No es la peor
hipótesis. Los síntomas de disolución de la cultura, de la vida
social no son ni escasos ni difíciles de descubrir; (LEFEBVRE,
1983: 213).
Esse tipo de cegueira impede que os
riscos produzidos pelo desenvolvimento da sociedade industrial sejam
antevistos e equacionados através de um redirecionamento ou da
limitação deste próprio desenvolvimento. Como o autor expressa pela
voz da mulher do médico "...o tempo está-se a acabar, a podridão
alastra, as doenças encontram as portas abertas, a água esgota-se, a
comida tornou-se veneno" (EC: 283), e é preciso pressa para que
identifiquemos as causas destes problemas gerados pelos próprios
humanos em nossa época, e consigamos superá-los. O escritor-cidadão
quer, assim, utilizar-se de sua expressão para trabalhar contra a
degradação do homem e da sociedade, contra o sofrimento e a
exploração. A epidemia de cegueira descrita é a alegoria sobre o
horror vivenciado mas não visto; o olhar é a capacidade de ver e de
reparar os males da convivência humana nas sociedades
contemporâneas: "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara" (EC: 7).
Referências
COSTA, Horácio (1997). José
Saramago - O período formativo. Lisboa, Editorial Caminho, 389
p.
______ (1999). "Alegorias da
desconstrução urbana: The memoirs of a survivor, de Doris
Lesing, e Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago". In:
BERRINI, Beatriz (org.). José Saramago: uma homenagem. São Paulo,
EDUC, pp. 127-148.
GOLDMANN, Lucien (1967). Sociologia
do romance. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 223 p.
LEFEBVRE, Henri (1983a). La
presencia y la ausencia - contibucion a la teoria de las
representaciones. México, D.F., Fondo de Cultura Economica, pp.
277.
SILVA, Teresa Cristina Cerdeira da
(1989). José Saramago – Entre a história e a ficção: uma saga de
portugueses. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 278 p.
SARAMAGO, José. Ensaio sobre a
cegueira (1996). São Paulo: Cia. das Letras, 310 p. (EC)
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versão para imprimir (arquivo em pdf)
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