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PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil



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Falácias acadêmicas, 2:
o mito do Consenso de
Washington
Paulo Roberto de Almeida
Mais um poderoso inimigo, mas algo
fantasmagórico
Continuando minha série sobre as
“falácias acadêmicas” – inaugurada por artigo sobre o mito do
neoliberalismo, publicada na
Espaço Acadêmico n. 87,
agosto de 2008, pretendo agora tratar do segundo mito mais abusado
dos últimos 20 anos, aquele que pretende que, em algum momento, a
América Latina se dobrou a um conjunto de injunções vindas de
Washington e aplicou esse pacote “neoliberal” com uma inconsciência
ingênua que teria beirado a irresponsabilidade. Esse “pacote” de
prescrições relativas à condução macroeconômica nos países
latino-americanos recebeu o nome – inclusive porque ele foi
auto-atribuído – de “Consenso de Washington” (doravante: CW). Os
problemas reais e supostos do CW – e o mito daí decorrente – começam
justamente por esse “acidente geográfico”, não puramente
circunstancial, posto que reveladores de uma coincidência infeliz: o
selo de origem o condenou a ser visto, desde o início, com
desconfiança, quando não o situou no limite da rejeição e do repúdio
ideológico por parte de toda uma categoria de “produtores
acadêmicos”.
Caberia registrar, com efeito, que as
famosas regras de política econômica – na verdade, tão desconhecidas
quanto vilipendiadas – jamais teriam assumido a importância que
podem ter assumido no debate político-midiático do continente se o
fato de elas terem sido elaboradas (não necessariamente aplicadas
concretamente) e divulgadas a partir da “capital do Império” não
trouxesse esse estigma de nascimento, quase um pecado original, que
praticamente converteu o CW numa entidade virtual, numa figura
metafísica, geralmente vazia de conteúdo, mas inacreditavelmente
repleta de ataques condenatórios e de slogans acusatórios que beiram
o ridículo, pela superficialidade das diatribes e a inconsistência
das acusações.
Leio, por exemplo, num livro do marxista
paquistanês, mas exilado em Londres desde sempre, Tariq Ali,
recentemente editado no Brasil, Piratas do Caribe (Rio de
Janeiro: Record, 2008), o seguinte trecho: “A América Latina é um
continente em que uma alternativa essencialmente social-democrata ao
capitalismo neoliberal está crescendo a partir das bases e
contaminando a política por todos os lados.” (p. 9)
Como alternativa, Tariq Ali se refere
aos atuais “piratas” do Caribe: Hugo Chávez, da Venezuela, Daniel
Ortega, da Nicarágua, Rafael Correa, do Equador, e Evo Morales, da
Bolívia. Os dois últimos, aliás, seriam dificilmente enquadráveis na
categoria “piratas do Caribe”, mas podemos deixar esse outro
acidente geográfico de lado e ir ao essencial, uma vez que esse
livro representa uma condenação explícita do CW e um libelo contra
as políticas e medidas econômicas identificadas com tal “receituário
neoliberal”. O mais surpreendente no livro de Tariq Ali –
provavelmente decepcionante para o governo brasileiro – é a
condenação formal da administração em curso no Brasil, como estando
justamente identificada com o CW. O que afirma Ali, que deve
descontentar absolutamente os governantes atuais do Brasil?
“Há uma ironia no fato de que tanto
seus aliados em Washington e na Europa quanto seus opositores em
casa concordam em ver Lula como um Tony Blair tropical. Como seu
equivalente inglês [Ali escreveu quando Blair ainda era o
primeiro-ministro britânico], está pronto a agradar praticamente
em qualquer nível, cercado de assessores e camaradas totalmente
leais ao CW e corruptos até a alma”. (p. 53) [Lula] “De fato se
tornou um Tony Blair tropical, sucedendo a Tatcher protagonizada
por Fernando Henrique Cardoso.” (p. 54)
Acredito que muitos no Brasil, e em
outros países da América Latina, tenderiam a concordar com o que
escreveu Tariq Ali, uma vez que os “manifestos de oposição” contra a
política econômica do governo Lula – muitos deles circulando pouco
tempo depois da inauguração do governo – receberam significativo
volume de assinaturas, demonstrando grande adesão nas faculdades de
ciências sociais aplicadas e de humanidades em geral. [Para uma
visão geral dos argumentos mais recorrentes nesses manifestos, e uma
crítica a eles, remeto a meu artigo:
“Onde foram parar os manifestos econômicos de oposição?”,
Espaço Acadêmico, nº 41, outubro de 2004. Acredito, também, que
a rejeição demonstrada por esses acadêmicos à política econômica do
governo brasileiro atual – e, de forma geral, aos supostos ditames
do CW – represente, em primeiro lugar, uma ignorância parcial ou
total do que sejam, efetivamente, as medidas de política econômica
preconizadas no tão famoso quanto desconhecido consenso.
Em vista dessa realidade, pretendo, no
presente ensaio, apresentar o CW em sua integralidade original e
discutir, em seguida, alguns exemplos práticos de sua aplicação (ou
falta de) em países selecionados, tratando inclusive de alguns casos
considerados paradigmáticos. Estes estão muito próximos de nós,
sendo representados, respectivamente, pelo Chile – como suposto
exemplo de adesão ao CW – e pela Argentina, que seria um eloqüente
exemplo de seu fracasso. O mesmo Tariq Ali, por acaso, afirma o
seguinte sobre a Argentina: “A Argentina é um caso interessante a
ser estudado. O seu colapso foi uma mensagem para o mundo como um
todo, não apenas para a América Latina. Se você seguir os ditames de
Washington, isso é o que pode acontecer também com você.” (p. 57).
Tariq Ali está, obviamente, equivocado sobre o que ocorreu
exatamente na Argentina, mas o seu “indiciamento” constitui, aliás,
um típico exemplo da superficialidade, dos equívocos e da ignorância
sobre o CW, de resto fartamente exibidos por outros críticos em
nossas academias.
Tendo já abordado, parcialmente com base
nas regras do CW, da suposta adesão do Brasil ao que seria o
“neoliberalismo” desenhado em Washington – ver meu artigo
“A indiscutível leveza do neoliberalismo no Brasil: uma avaliação
econômica e política da era neoliberal”, Espaço Acadêmico,
nº 10, março de 2002, pretendo
dispensar aqui um novo tratamento do caso brasileiro, pelo menos em
detalhe. Vamos ao que interessa, portanto, em relação a essas
famosas regras.
As famosas regras do Consenso de
Washington, em versão resumida
Trata-se de dez regras de ajuste
econômico, formalizadas por ocasião de um seminário realizado em
Washington, no final dos anos 1980, ao cabo de dez anos de reformas
econômicas conduzidas em diversos países da América Latina. O
encontro tentava, justamente, fazer o balanço do que, exatamente,
tinha sido aprendido na região (e fora dela) como experiência
prática da penosa fase de crises recorrentes dos anos (e décadas)
anteriores, ademais dos problemas estruturais e características
sistêmicas desde sempre: inflação renitente, emissionismo
irresponsável, choques do petróleo, crise da dívida, moratória,
desequilíbrios cambiais e de balanço de pagamentos, pobreza
generalizada, desigualdades extremas etc.
O que ocorreu, portanto, não foi uma
decisão dos órgãos oficiais de Washington, vinculados de alguma
forma à elaboração de “prescrições” de política econômica – que
seriam as duas “sisters in the woods”, FMI e BIRD, e o Departamento
do Tesouro dos EUA –, mas sim um “resumo-síntese” de um consenso
puramente acadêmico, que não pretendia ser apresentado como
“receituário” obrigatório de implementação de políticas econômicas
“neoliberais. Tratava-se apenas como um trabalho de reflexão e uma
colaboração intelectual ao esforço de ajuste e de reformas.
O CW deve, portanto, ser entendido
exatamente pelo que ele foi, ou é, e não pelo que seus supostos
inimigos ideológicos pretendem que ele seja: uma contribuição ao
esclarecimento de políticas que “deram certo”, não um “pacote”
imposto desde o alto. Este é o quadro situacional e o contexto
intelectual pelos quais devem ser avaliados o CW – e seus
desenvolvimentos posteriores – e como tais considerados em qualquer
trabalho de avaliação que se pretenda fazer em torno dele, como o
que agora se empreende. Vamos, agora, à sua substância.
Resumidamente, ele toca nos seguintes
pontos: disciplina fiscal, reorientação das despesas públicas,
reforma tributária, liberalização financeira e comercial, taxa
cambial, abertura aos investimentos estrangeiros, privatização,
desregulação e garantia de contratos e direitos de propriedade.
Caberia recordar, desde já, que as regras do CW não foram
estabelecidas por economistas liberais para orientar governos
desejosos de uma política econômica “ortodoxa”. Trata-se de um
conjunto de prescrições de política econômica, formalizadas a
posteriori – como acontece geralmente com os modelos econômicos,
que nada mais são do que a formalização genérica de uma experiência
passada, geralmente bem-sucedida, pois raramente se constroem
modelos a partir de fracassos –, para tentar sintetizar o que estava
acontecendo com países como Chile e México, que desde o início dos
anos 1980 tentavam enquadrar-se no chamado mainstream economics,
depois de décadas de políticas erráticas e experiências
substitutivas.
O autor das propostas foi o economista
John Williamson, que, num artigo intitulado “O que Washington
entende por reforma da política [econômica]”,
fazia o balanço de quase dez anos de ajuste na América Latina,
depois da crise da dívida externa, em 1982. Os países mais avançados
nesse processo de ajuste eram o Chile e o México. Ao contrário do
que muitos pensam, portanto, foram as políticas já adotadas de forma
independente por países da região que serviram de “modelo” para que
o economista, a partir das medidas concretas de política econômica
de seus governos, apresentasse seu esquema de “receitas
bem-sucedidas de ajuste”. Essas receitas cobriam dez áreas de
reformas econômicas e políticas, nomeadamente as seguintes:
1) disciplina fiscal;
2) prioridades nas despesas públicas;
3) reforma tributária;
4) taxa de juros de mercado;
5) taxa de câmbio competitiva;
6) política comercial de integração aos
fluxos mundiais;
7) abertura ao investimento direto
estrangeiro;
8) privatização de estatais
ineficientes;
9) desregulação de setores controlados
ou cartelizados;
10) direitos de propriedade.
Em sua versão original, as regras
enunciadas por Williamson pouco se ocupavam de equilíbrio no balanço
de pagamentos, da liberalização financeira, de desregulação
bancária, não implicavam a diminuição do papel do Estado (como
acusam, sem razão, muitos críticos apressados) e não necessariamente
condicionavam o sucesso dessas políticas à manutenção de uma baixa
taxa de inflação. John Williamson afirmava expressamente que suas
regras eram mais “instrumentos de política”, do que um conjunto de
objetivos ou resultados que devessem ser elevados à categoria de
dogma. Elas estavam longe, portanto, de representar um remédio para
economias doentes, pois que tinham sido concebidas como um conjunto
de princípios para, justamente, manter as economias
latino-americanas em estado “saudável”, sem a necessidade de
correções de rumo brutais, com intervenção do FMI e pacotes de ajuda
“impostos de fora”.
Em relação à acusação de que essas
regras condenavam as economias latino-americanas à recessão, cabe
registrar que o CW nunca pretendeu, nem poderia, ser um “receituário
de desenvolvimento”; ele estava unicamente destinado a fornecer
“instrumentos de política econômica” para facilitar o processo de
reformas e de ajuste num momento de crise, como era o caso da dívida
externa. Esses instrumentos deveriam, assim, fornecer as condições
mínimas da estabilidade, após a qual políticas especificamente
desenhadas para estimular ou facilitar o desenvolvimento econômico
deveriam ser concebidas e implementadas pelos governos da região.
As regras do Consenso de Washington,
explicadas em detalhe
Vejamos agora cada um dos pontos de
maneira mais argumentativa.
1. Disciplina fiscal
Todos aqueles que conhecem a história
econômica da América Latina têm presente o quadro de descalabro
financeiro cercando as finanças públicas da maior parte dos países.
Na verdade, nem precisaria conhecer essa história trágica para saber
que desequilíbrios orçamentários levam à acumulação de dívida
pública, sustentada em emissões contínuas de títulos governamentais,
daí à elevação dos juros e a um ciclo infernal de novas emissões
apenas para cobrir o serviço (juros) da dívida. Basta considerar
apenas o orçamento doméstico, ou suas próprias receitas e despesas,
para saber que déficits contínuos na conta corrente produzem uma
conta salgada que corre o risco de se tornar inadministrável. Como,
a rigor, governos não vão à falência, e sempre possuem a capacidade
de avançar sobre as rendas dos cidadãos e das empresas, o processo
pode levar a conseqüências extremas, deixando uma “herança maldita”
para o governo seguinte ou as futuras gerações.
Não se trata, propriamente, de um
problema confrontando escolas econômicas ou orientações políticas
distintas, ainda que o próprio Williamson se permita cutucar alguns
crentes do “estímulo fiscal”. Diz ele que “os crentes de esquerda no
estímulo keynesiano, por meio de grandes déficits orçamentários, são
quase uma espécie em extinção”. Trata-se, basicamente, da
sustentabilidade das contas públicas, e aqui o ideal seria não
permitir que o déficit orçamentário não excedesse uma dada relação
entre a dívida pública e o PIB. Pelos critérios de Maastricht, como
se sabe, o déficit orçamentário permitido é de, no máximo, 3% do
PIB, sendo que a dívida pública não deveria exceder 60% do PIB.
Talvez sejam relações razoáveis, mas tudo depende de como está sendo
construído esse déficit – se for para investimento é obviamente
melhor do que para novas despesas correntes continuadas – e de qual
é o perfil da dívida em função do nível dos juros e do calendário de
amortização.
Uma trajetória que contemple, por
exemplo, aumentos generosos de salários para o funcionalismo público
– em total desproporção do que se paga no setor privado – e criação
de novos cargos públicos em função de critérios totalmente
políticos, sem correspondência quanto ao nível e qualidade dos
serviços públicos, pode constituir uma receita segura para uma
bomba-relógio de natureza fiscal, da mesma forma como a concessão de
aposentadorias e pensões em clara dissociação com os recolhimentos
havidos na fase ativa dos beneficiários. O Brasil, justamente,
parece enfrentar alguns desses problemas na presente fase, o que
certamente vai ter repercussões mais graves alguns anos mais à
frente. Tampouco adianta, como também se pratica por aqui, cobrir
essas novas despesas buscando novas fontes de arrecadação ou
aprofundando a “extração” fiscal sobre os contribuintes e as
empresas: o único resultado desse tipo de medida é reduzir o espaço
da poupança privada – que deveria ser usada para o investimento
empresarial – o que obviamente terá efeitos negativos sobre a taxa
de criação de empregos, de crescimento da renda e outros impactos
que os economistas chamam de convite à irresponsabilidade política:
inflação e fuga de capitais.
2. Prioridades nas despesas públicas
Deixando de lado despesas militares –
que são consideradas um domínio da segurança nacional, fora,
portanto, do alcance de simples tecnocratas – todas as outras
despesas são passíveis de racionalização e, eventualmente, de
redução, pela via dos ganhos de eficiência. Existem três fontes de
gastos públicos que parecem inevitáveis em toda e qualquer
circunstância: gastos previdenciários (supondo-se um regime de
repartição, e não de capitalização); investimentos públicos,
sobretudo em infra-estrutura; saúde e educação, considerados
corretores de desequilíbrios existentes no mercado (devendo,
portanto, beneficiar os mais pobres).
É óbvio, mesmo para o mais “direitista”
dos economistas, que prioridade nas despesas públicas não quer dizer
redução de gastos sociais, e sim eliminação ou pelo menos diminuição
de outras despesas evitáveis, como os subsídios públicos. Existem
muitos subsídios, diretos e indiretos, que poderiam ser cortados ou
reduzidos, e nem todo mundo têm consciência de que eles existem.
Quando o governo, por exemplo, escolhe não aumentar o preço da
gasolina em compasso com a cotação do petróleo nos mercados
internacionais, ele pode estar subsidiando o transporte da classe
média, em detrimento do número muito maior que usa transporte
público. Quando ele concede empréstimos governamentais a industrias
“estratégicos”, aplicando uma taxa de juros que é a metade daquela
que ele mesmo usa para remunerar seus títulos da dívida pública, ele
está subsidiando uma categoria privilegiada da população.
Mas mesmo os gastos com saúde e educação
podem estar profundamente distorcidos por um perfil exageradamente
concentrado destes últimos na educação superior, por exemplo, que no
Brasil contempla, como sabemos, muito mais recursos do que os
alocados aos dois níveis anteriores. Da mesma forma, quando o
governo permite que operações de mudança de sexo sejam cobertas pelo
sistema geral de saúde pública ele pode estar, ipso facto,
retirando recursos que poderiam ir para cuidados preventivos ou
saneamento básico para populações de baixa renda.
3. Reforma tributária
Não existe, a rigor, nada de liberal no
sistema tributário, um expediente a que recorrem todos os governos
conhecidos desde a noite dos tempos. Trata-se de uma extração
forçada, para fins supostamente públicos, mas cuja incidência
repercute de modo diferenciado segundo a base escolhida e a forma de
“captura” da renda pessoal.
Existem, basicamente, duas grandes
formas de coleta de recursos pelo Estado: de maneira direta sobre a
renda dos cidadãos individualizados (com uma aplicação progressiva
das alíquotas definidas), e de maneira indireta sobre o consumo de
todos os cidadãos (o que recomendaria taxar menos produtos básicos,
que serão os mais amplamente, e talvez exclusivamente, adquiridos
pelos mais pobres, e de forma mais “agressiva” produtos supérfluos
ou de consumo conspícuo). Outras taxas são cobradas sobre serviços
específicos, dependendo de quem os use (estradas, aeroportos, etc.).
Com relação ao imposto de renda, o
consenso parece ser de que a base deveria ser ampla e as alíquotas
marginais reduzidas (para evitar elisão e evasão fiscal, fuga de
capitais, etc.). Por outro lado, impostos indiretos excessivos
acabam penalizando os mais pobres de maneira desproporcional, que
podem pagar mais impostos (em relação à renda pessoal) do que os
ricos. Esse fenômeno é muito conhecido em vários países
latino-americanos, mas poucos governos têm a coragem de enfrentá-lo,
uma vez que os impostos sobre os consumos são mais fáceis de cobrar
e passam quase despercebidos (quando sua incidência não está
expressa no preço dos produtos). Não é preciso dizer nada sobre o
imposto de transações financeiras, que é cumulativo ao longo da
cadeia produtiva e, portanto, altamente irracional do ponto de vista
social e da capacidade competitiva de um país.
4. Taxa de juros de mercado
Isto significa, simplesmente, que ela
não dever ser manipulada pelos governos e sim determinada pelo
equilíbrio da oferta e da procura por dinheiro na economia. Se o
governo precisa fixar alguma taxa, que ela seja positiva (ou seja,
superior à inflação, caso contrário provocaria fuga de capitais).
Ela também deve ser moderada, de forma a estimular o investimento e,
se possível, neutra entre os desejos dos poupadores por uma taxa
estimulante e os dos investidores por uma taxa adequada ao seu
retorno. Uma taxa muito “positiva” pode ter um efeito devastador
sobre a dívida pública.
Um mercado de créditos extremamente
concentrado ou cartelizado tende a produzir altas taxas de juros,
razão pela qual um setor financeiro aberto à competição representa
um bom estímulo à manutenção de taxas de mercado moderadas. Se o
governo, por outro lado, pretende determinar de forma muito
intrusiva o que os banqueiros podem ou devem fazer com seus
depósitos – ou seja, estabelece muitas regras para o crédito
direcionado a setores, ademais do alto volume de depósito
compulsório – ele pode contribuir para juros anormalmente elevados.
5. Taxa de câmbio competitiva
Da mesma forma como os juros, o câmbio
também deve ser determinado pelo mercado, o que parece coincidir com
a escolha da vasta maioria dos países que adota o regime de
flutuação de suas moedas. John Williamson diz preferir uma “taxa de
câmbio em equilíbrio fundamental”, o que, no caso de um país em
desenvolvimento, significa que ela deve ser “suficientemente
competitiva para promover uma taxa de crescimento das exportações
que faça a economia crescer à taxa máxima permitida pelo seu
potencial de oferta, ao mesmo tempo em que mantém o déficit de
transações correntes em uma proporção tal que possa ser financiado
em bases sustentáveis”. Ele acrescenta que a taxa de câmbio não
deveria ser mais competitiva do que essa relação; do contrário, ela
poderia produzir pressões inflacionárias desnecessárias, assim como
limitar os recursos disponíveis para o investimento doméstico.
Essa taxa de câmbio competitiva é o
elemento essencial de uma política econômica orientada para fora, na
qual as restrições de balanço de pagamentos são superadas
essencialmente pelo crescimento das exportações, não por um programa
de substituição de importações. Uma orientação para fora e
exportações crescentes – sobretudo em setores não tradicionais –
constitui uma fórmula de sucesso para uma economia dinâmica.
6. Política comercial de integração
aos fluxos mundiais
A visão mercantilista da maior parte dos
políticos – em especial na América Latina – faz com que eles vejam
com bons olhos as exportações, mas condenem como se fosse um pecado
as importações. Na verdade, abertura às importações é relevante para
ajustar o setor produtivo a um setor exportador que possa ser
competitivo internacionalmente, do contrário o excesso de proteção
penalizará a oferta doméstica e tornará o país mais pobre.
Licenciamento de importações constitui, aliás, uma fonte inevitável
de corrupção, cabendo tão somente um sistema tarifário transparente.
7. Abertura ao investimento direto
estrangeiro
Como já indicado, a liberalização dos
fluxos financeiros não é considerada uma prioridade. Em
contrapartida, o fechamento ao investimento direto estrangeiro pode
ser visto como propriamente contraproducente. O IED traz não apenas
capital, mas conhecimento e é um grande indutor de ganhos de
produtividade. Ele pode ser conseguido, também, por conversão da
dívida; mas tende a ser desestimulado em virtude de reações
nacionalistas que podem ser economicamente prejudiciais. Em geral,
empresas estrangeiras contribuem muito mais para o desempenho
exportador e, portanto, o IED é também um gerador de divisas.
8. Privatização de estatais
ineficientes
Como regra geral, empresas privadas são
geridas de forma mais eficiente do que suas equivalente estatais,
inclusive por uma questão de estímulos ligados ao lucro e pela falta
de uma fonte fácil de recursos baratos. A privatização também traz
ganhos fiscais diretos e indiretos, uma vez que o Estado se
desobriga de fazer investimentos para os quais o seu Tesouro pode
estar depauperado. Com exceção de muito poucos setores públicos
(como o fornecimento de água, por exemplo), serviços “coletivos”
podem ser fornecidos de maneira eficiente por empresas privadas, sob
um regime de concessão monitorado por um sistema regulatório
preferencialmente aberto a regras de competição em mercados
relativamente abertos.
Não é necessário, tampouco, lembrar o
assalto a empresas públicas conduzido por políticos ávidos por
práticas clientelísticas, o que por sua vez redunda em desvios
financeiros, quando não em corrupção aberta. Empresas públicas
tendem a distorcer as condições de concorrência e as regras do jogo
num setor determinado, em função do acesso que elas podem conseguir
aos mecanismos decisórios do Executivo. Por fim, nas condições
atuais de capacitação técnica e educacional dos recursos humanos e
de amplo acesso a capitais e tecnologia, a rationale que
presidiu ao estabelecimento de tantas estatais na América Latina e
alhures – qual seja: a falta de capacidade técnica e de capitais no
setor privado – não mais se justifica em bases racionais.
9. Desregulação de setores
controlados ou cartelizados
A América Latina é uma das regiões mais
reguladas e burocratizadas no plano internacional, com tantos
controles estatais que o “capitalismo de compadrio” e os estímulos à
corrupção aparecem quase como inevitáveis. Monopólios e cartéis, ou
seja, falta de competição, são uma das fontes mais comuns de preços
altos, má qualidade nos produtos e serviços, corrupção e
comportamentos rentistas inaceitáveis numa economia moderna. A
regulação não se exerce apenas no fornecimento de bens ou serviços,
mas também no cipoal de regras que determinam a entrada e saída de
capitais, a remessa de lucros, os fluxos de tecnologia sob
licenciamento, o ingresso de investimentos diretos, a existência de
barreiras à entrada em novas atividades, bem como taxas e
contribuições de todo tipo.
Para exercer o devido controle – que ele
mesmo se impôs – sobre todos esses setores, o Estado precisa contar
com um exército de funcionários, nem sempre pagos adequadamente e,
portanto, abertos, em princípio, a possibilidades de corrupção ou a
condutas pouco transparentes. A desregulação não significa
descontrole ou ausência de regras; ao contrário: ela costuma andar
junto com agências reguladoras, criadas em função de uma visão de
longo prazo das necessidades do país, não na perspectiva de um
governo temporário, e mantidas de forma independente à equipe que
ocupa por um tempo limitado os mecanismos do Estado.
10. Direitos de propriedade
O CW não pretende tanto se referir aqui
à propriedade intelectual – embora esta também seja
insuficientemente protegida na América Latina – quanto chamar a
atenção para o respeito aos contratos e para a estabilidade de
regras. A instabilidade jurídica aumenta os custos de transação e é
responsável por uma perda concomitante do PIB da região. Juízes que
pretendem fazer justiça social terminam por “criar” leis, em lugar
de apenas interpretar e aplicar a legislação em vigor.
O que aconteceu, antes e
independentemente do Consenso de Washington?
A “interpretação” deformada feita por
certos setores acadêmicos na América Latina a propósito de processos
de ajuste e reforma empreendidos por alguns países pretende que o CW
tenha sido responsável por todos os problemas acumulados na região
ou pelos desafios na agenda dos atuais governantes. Eles atribuem a
“onda neoliberal” que percorreu alguns países desde o início dos
anos 1980 a uma espécie de diretiva emitida em Washington e
implementada de forma canônica por governos submissos ou
suficientemente enfraquecidos economicamente para não resistir às
pressões combinadas dos EUA e das entidades do capitalismo global.
Como vimos anteriormente, o CW foi, na
verdade, estabelecido a posteriori, depois que alguns países
decidiram se lançar na penosa via dos ajustes e da reforma, a
começar pelo México – a primeira vítima da crise da dívida de 1982 –
e depois pelo Chile – o que não tem nada a ver com a ditadura de
Pinochet, orientada por uma visão anacrônica, tão dirigista e
estatizante quanto certos modelos “desenvolvimentistas”, estimulados
antes e depois desses experimentos inovadores. Como todo modelo, o
CW é em grande medida artificial, consistindo numa tentativa de
síntese das medidas que supostamente teriam resultado em desempenho
econômico satisfatório nas fases seguintes. Trata-se, obviamente, de
uma simplificação de uma complexa realidade e de um conjunto de
variáveis bastante sensíveis a um “mix” determinado de políticas,
que jamais pode se desenvolver da mesma forma em dois países
diferentes.
Interpretações de processos complexos
são naturalmente sujeitas a caução, na medida em que não se pode
isolar experimentos reais para fins de simulação ou teste
controlado. Espíritos ingênuos tendem a confundir o CW com essa
coisa diáfana chamada neoliberalismo e este, a rigor, não tem quase
nada a ver com o CW, pois eles pertencem a dois universos
diferentes. Em todo caso, em qualquer discussão sobre o
“neoliberalismo” latino-americano sempre são trazidos em evidência
os casos da Argentina, como exemplo de “fracasso”, o do Chile, como
modelo supostamente bem sucedido – embora nem sempre com medidas em
sintonia com a “ortodoxia” presumida do CW – e, eventualmente, o do
México, o país que, alegadamente, teria iniciado o ciclo de
conversões “neoliberais” desde o início dos anos 1980.
O que parece evidente, numa análise
prima facie, é que há uma concentração quase obsessiva sobre o
caso argentino para “demonstrar” o fracasso das receitas
“neoliberais” para promover crescimento e igualdade na América
Latina. Não se pode analisar em profundidade o desenvolvimento do
ciclo completo do ajuste e reformas nessa vasta região; mas se pode,
ao menos, examinar o caso argentino, para verificar se ele se
conforma, ou não, ao suposto modelo prêt-à-porter, que seria
disseminado pelos “profetas” de Washington como via milagrosa para o
crescimento sustentado.
Vejamos, portanto, como se pode avaliar
a experiência argentina, em função dos mesmos critérios que
orientaram a primeira versão do CW (existem, pelo menos, duas
outras, mais centradas sobre as políticas sociais ou sobre o papel
das instituições na implementação das políticas recomendadas). Como
julgar a Argentina, por meio do benchmark das regras
estabelecidas no CW?
O “neoliberalismo” argentino:
1) disciplina fiscal: a Argentina esteve
longe de cumprir este requisito básico do CW, de que são prova os
contínuos déficits provinciais – problema associado ao federalismo
também presente em outros países –, bem como o crescimento
irresponsável da dívida pública, até o ponto inevitável da ruptura e
do calote;
2) prioridades nas despesas públicas: o
governo do presidente Menem passou toda a primeira metade dos anos
1990 empenhado em modificar a Constituição para sustentar seu
projeto de reeleição, embora não tenha obtido um mandato com a mesma
extensão que pretendia;
3) reforma tributária: ela foi feita de
forma parcial, tanto que a capacidade “extratora” do Estado
argentino sempre foi muito baixa, comparativamente com a carga
fiscal do Brasil, cuja burocracia da Receita sempre foi muito
eficiente para fechar vários “buracos” na teia tributária;
4) taxa de juros de mercado: de fato, os
juros foram liberalizados, mas os desequilíbrios crescentes
acumulados do lado fiscal e a falta de competitividade dos produtos
argentinos, por força de uma inflação ainda importante, levaram o
Estado a aumentar progressivamente o nível dos juros, em descompasso
com as necessidades de investimento no país;
5) taxa de câmbio competitiva: trata-se,
provavelmente, da mais eloqüente negação de uma regra tida como
essencial pelo autor do CW. A Argentina, ou melhor, o ministro
Domingo Cavallo, fixou formalmente o valor do peso em dólar (1 por
1), no plano que teve início em 1991, preservando a mesma camisa de
força durante dez anos seguidos. O regime de conversibilidade,
assegurado por um sistema de “currency board”, constituiu,
provavelmente, a mais significativa ruptura da Argentina com um
elemento central do CW;
6) política comercial de integração aos
fluxos mundiais: de fato, ocorreu uma significativa liberalização
comercial ao início do processo de estabilização; mas os
desequilíbrios cambiais e inflacionários acumulados ao longo do
tempo levaram a forte perda de competitividade externa, o que
determinou nova onda de protecionismo tarifário, de expedientes
para-tarifários (como uma “taxa de estatística”, por exemplo), além
de outros mecanismos defensivos (antidumping e salvaguardas
extensivas);
7) abertura ao investimento direto
estrangeiro: de fato ocorreu, numa primeira fase, mas inviabilizada
depois pela alta valorização do peso e a perda de competitividade
adquirida em função da amarra cambial;
8) privatização de estatais
ineficientes: o processo ocorreu, nem sempre de forma transparente,
ou aberta à concorrência pública, e os recursos auferidos não
serviram de abatimento da dívida pública, que continuou numa
trajetória de crescimento;
9) desregulação de setores controlados
ou cartelizados: ela foi conduzida sem preparação ou planejamento
adequados, processo que resultou em novos monopólios privados, não
controlados por nenhuma agência reguladora;
10) direitos de propriedade: o
“capitalismo de compadrio”, a transformação dos sindicatos em
negócios rendosos para as máfias nele encasteladas e diversas outras
práticas arbitrárias dos agentes públicos continuaram a alimentar um
ambiente de negócios pouco propício a um crescimento sustentável no
país platino.
Muito antes desses processos pouco
condizentes com a estrita racionalidade econômica ocorrerem na
Argentina, o Chile já tinha enveredado pelo caminho dos ajustes e da
reforma, itinerário por certo facilitado pela ausência de
“perturbações” democráticas, mas nem por isso isento de percalços
próprios da ideologia militar, tão centralizadora, estatizante e
dirigista quanto a ideologia econômica de outros regimes militares
na região. Na verdade, o processo de “disciplinamento” econômico dos
militares chilenos se deu apenas após uma grave crise bancária, a
persistência de focos inflacionários importantes, alto desemprego e
desequilíbrios no abastecimento alimentar, o que determinou o apelo
a economistas identificados com a “escola de Chicago” e os
princípios liberais da escola “austríaca” de Von Mises e Hayek.
O importante a registrar é que muito
tempo antes de qualquer “consenso” se formar em Washington, ou de
técnicos do FMI ou do Tesouro americano virem a Santiago – o que,
aliás, nunca ocorreu, fora das visitas de trabalho do FMI para fins
de artigo IV – formular recomendações ou prescrições de política
econômica, o Chile já tinha decido empreender vasta reforma de seu
sistema econômico, num sentido amplamente liberalizante. Em outros
termos, foi o Chile quem deu a “receita” para a construção de um
“modelo” de ajuste e reformas, não o contrário. Foram essenciais em
seu processo de ajuste e reformas, a manutenção da disciplina
fiscal, a liberalização comercial e financeira – o que não
significou, em absoluto, liberdade completa para os capitais, mas,
sim, mecanismos de esterilização dos fluxos puramente financeiros,
como a famosa “quarentena” –, políticas de atração de investimentos
diretos e uma cuidadosa gestão monetária que trouxe a inflação
chilena a níveis “europeus”. Em suma, o Chile fez o seu “dever de
casa”, mas isso não significou converter-se de forma acrítica ao
“neoliberalismo”, seja lá o que isso queira dizer. O Chile de fato
desregulou, privatizou, liberalizou, mas tudo isso de forma
planejada, consciente e administrada pelo Estado.
A julgar pelo desempenho respectivo de
cada um dos países, não é preciso lembrar quem acumulou crescimento
ao longo de mais de dez anos – a ponto de ter sido chamado de
“tigre” ou “puma” latino-americano – e quem soçobrou na crise e na
moratória, derrubando presidentes como quem brinca com um castelo de
cartas. Longe de representar uma “derrota” do neoliberalismo, como
pretendem alguns, de forma totalmente equivocada, o caso argentino é
um exemplo cabal de reformas incompletas, mal conduzidas ou de erros
primários de gestão macroeconômica, a começar pelo câmbio fixo e
pela indisciplina fiscal, em total desacordo com as prescrições – se
houvesse – do CW. De outra parte, longe de representar qualquer tipo
de “vitória” para o mesmo CW, o caso do Chile é um modelo de
pragmatismo e de cautela da implementação de medidas – elas sim –
ortodoxas de política econômica, que asseguraram seu crescimento
durante praticamente toda a década de 1990 e a estabilidade do poder
de compra de sua moeda.
Concluindo de forma inconclusiva: não
existem soluções-milagre em economia
Como examinado ao longo deste breve
ensaio analítico do famoso CW e sua não-aplicação, de fato, na maior
parte dos paises latino-americanos, o panorama regional é
suficientemente diversificado para descartar qualquer explicação
simplista do tipo pretendido por certos “analistas acadêmicos” para
o sucesso de alguns e o fracasso de outros. A Argentina não
fracassou devido ao CW, assim como o Chile não foi bem sucedido
devido a uma aplicação submissa de suas recomendações, ainda que
muitas das “receitas” empregadas neste país andino guardem uma
grande interface filosófica e prática com aquelas regras (mais de
puro bom senso, ou de julgamento sereno das experiências econômicas
bem sucedidas, do que de aplicação cega de alguma “pomada maravilha”
macroeconômica).
Muito da “agitação intelectual” em torno
do suposto neoliberalismo desses países não encontra, assim, suporte
na realidade. Dessa forma, o mito do CW pode ser considerado uma
criação da esquerda latino-americana, que precisava dispor de um
novo inimigo ideológico, na figura do neoliberalismo, depois que
outros velhos mitos – como, por exemplo, aquele preferido pelo mais
“perfeito idiota latino-americano”, o escritor uruguaio Eduardo
Galeano: o do subdesenvolvimento induzido pela dominação
imperialista – entraram em desuso, por uso e abuso na fase anterior.
O que sobrou, finalmente, de toda essa agitação em torno de um
conceito que não merecia essa publicidade mal concebida e mal
dirigida? Praticamente nada, a não ser: slogans de um lado, e
silêncio do outro.
Isso não impediu,
obviamente, o manancial de bobagens que continuam a ser disseminadas
em torno de um suposto neoliberalismo dominador, que teria ocupado
todos os desvãos das políticas econômicas dos países
latino-americanos ao longo de duas décadas. Quando se vai examinar a
realidade, a única constatação possível de ser extraída é que os
supostos inimigos ideológicos do neoliberalismo e do CW não sabem do
que estão falando, nem apresentam dados fiáveis para confrontá-los à
realidade. Nessas condições, qualquer diálogo racional é impossível.
Mas diálogo é provavelmente a última coisa que desejam os
agitadores de slogans...
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