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JOSÉ DE SOUZA MARTINS
Professor de Sociologia da Faculdade
de Filosofia da USP, é autor de A Sociabilidade do Homem
Simples (2ª edição revista e ampliada, Contexto, 2008) e
A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34, 2008).

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A herança de 68:
os movimentos divididos e as ilusões mescladas
José de Souza Martins
Apenas alguns dias depois do golpe
militar de 31 de março de 1964, li na porta do banheiro masculino
que ficava no fim do primeiro lanço de escada da Faculdade de
Filosofia, na rua Maria Antônia, esta ponderação: “Em terra de cego,
quem tem um olho emigra.” Em 1968, os estudantes tomariam o prédio
da Faculdade. Acabariam sendo atacados por grupos direitistas
organizados, da Universidade Mackenzie, o prédio incendiado com
coquetéis molotov e todos seríamos deportados para a Cidade
Universitária. Em 1977 teríamos nossas acomodações definitivas numa
construção de melancólicas paredes brancas. Logo nos primeiros dias,
um estudante grafitou com enormes letras vermelhas, manuscritas, num
dos corredores de acesso às salas de aula: “Parede, eu te livro
dessa brancura!”
É nesse desencontrado imaginário de
ceticismo, esperança e ímpeto libertador que se pode compreender
1968 aqui nos trópicos. O maio de 68 francês era outra coisa. O que
aqui aconteceu pouco tem a ver com o que aconteceu na França. Lá os
estudantes arrebataram a bandeira da luta de classes das mãos da
classe operária, uma circulação de elites nas lutas sociais. Aqui as
ilusões se mesclaram. Aqui era a classe média alcançada pelo arrocho
salarial da ditadura que alimentara esperanças de ascensão social
por meio da Universidade e experimentara a luta dos excedentes no
começo daquele ano, os aprovados para os quais a Universidade não
tinha vagas. Os banidos da esperança, os sem futuro, agarravam-se às
asas do último avião.
O movimento estudantil estava dividido e
as esquerdas dividiam-se mais ainda. Tinham uma concepção do
processo, que vivíamos, norteada pelo marco de realidades muito
diferentes da nossa. Os estudantes tentavam encaixar-se na luta de
classes, embora fossem de uma classe que não luta nem tem contra o
que lutar, a classe média, uma classe híbrida e da ordem. Reivindica
em nome de interesses, mas não tem como lutar contra estruturas
sociais sem negar-se e anular-se.
Os acontecimentos de 1968, na rua Maria
Antônia, longe de terem sido expressão de convergência de idéias e
de propósitos e de um grande encontro político, foram expressão de
divisão, de falta de clareza quanto ao que acontecia no Brasil. As
fantasias juvenis da Maria Antônia, libertárias e belas, não davam
conta nem mesmo do que estava em andamento lá dentro do prédio. Os
estudantes atacaram a Universidade imaginando que por esse meio
atacavam a ditadura e, em conseqüência, atacavam o capitalismo.
Queriam uma revolução social com o que era apenas um vago projeto de
reforma política da Universidade. Atacaram a instituição como se
fosse um remanescente da sociedade feudal e demoliram justamente um
dos últimos poderes de afirmação da liberdade de pensamento e de
criação no contexto de um regime ditatorial.
Depois de anos de disputa política com
os comunistas, a direção do movimento estudantil estava nas mãos da
Ação Popular, dissidência da Juventude Universitária Católica. Os
estudantes sussurravam no saguão da Faculdade informações sobre um
levante próximo da classe operária nas fábricas de Osasco. De fato,
a greve teve início em 16 de julho e expandiu-se para várias
indústrias. A Cobrasma foi ocupada. De comum entre o sindicalismo de
Osasco e a liderança dos ocupantes da Faculdade de Filosofia a forte
presença da Ação Católica, em oposição ao Partido Comunista e outras
organizações de esquerda, que só se aproximariam em meados dos anos
setenta.
O ministro do Trabalho, coronel
Passarinho, voou para Osasco, decretou intervenção no Sindicato, pôs
o Exército nas ruas e nas fábricas, prendeu gente. A greve operária
durou três dias. A aliança operário-estudantil terminava ali. A
ocupação da Faculdade de Filosofia terminou em outubro, as aulas
transferidas para a Cidade Universitária. Pouco depois, em abril de
1969, professores seriam aposentados compulsoriamente, com
vencimentos proporcionais ao tempo de serviço. Do movimento
estudantil, muitos iriam para a prisão e o exílio, outros para a
luta armada e a morte.
Ao contrário do que aconteceu na França
de maio de 1968, aqui pouco sobrou das lutas da Maria Antônia. A
repressão ao movimento enfraqueceu a Universidade, privou-a de
docentes de renome, abriu caminho para uma reforma universitária de
cima para baixo. Mesmo assim, no caso da USP, levou à desagregação
da Faculdade de Filosofia e à formação dos Institutos, fortalecendo
várias áreas científicas. Antigos valores sociais se tornaram
subitamente anacrônicos. Novos valores surgiram. A experiência do
confronto e da impotência ante as imensas e invisíveis forças da
ordem tornou obsoletas concepções relativas à interdição da
atividade política à mulher, quebrou tabus, abriu caminhos. Mostrou,
sobretudo, a dominância do cotidiano no processo político. Os jovens
da Maria Antônia insurgiram-se contra a vida cotidiana em nome da
História. O cotidiano os derrotou, demoliu as inconciliáveis utopias
do futuro longínquo, gerou um novo e atualizado conformismo social,
amansou corações e mentes, sepultou os mortos. Legou-lhes a imensa
parede branca do vazio para que nela grafitassem o vermelho da
liberdade.
Publicado em O Estado de S. Paulo [Caderno Cultura],
domingo, 11 de maio de 2008, p. D7.
José de Souza Martins, professor de Sociologia da Faculdade
de Filosofia da USP, é autor de A Sociabilidade do Homem
Simples (2ª edição revista e ampliada, Contexto, 2008) e
A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34, 2008).
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