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RAYMUNDO DE LIMA
Formado em Psicologia, Mestre em Psicologia Escolar (UGF) e
Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP).
Atualmente é professor do Depto. Fundamentos da Educação, na
área de Metodologia da Pesquisa, da Universidade Estadual de
Maringá (UEM)

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A primazia da pesquisa e seu efeito colateral
na universidade
Raymundo de Lima
Comparado com o baixo desempenho nas
olimpíadas na China, em 2008 e nas anteriores, a produção científica
no Brasil é vitoriosa; cresceu 133% nos últimos dez anos. Em 2007,
foram publicados 26.369 artigos científicos em revistas
estrangeiras. Isto representa 1,75% da produção mundial, que "ainda
é pequeno o número de pesquisadores brasileiros em redes
internacionais", diz Elizabeth Balbachevsky, pesquisadora da
Universidade de São Paulo (USP).
A USP foi a universidade que mais
publicou: 4.804. Em segundo lugar ficou a Unicamp, com 1.743
artigos, seguida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
com 1.516 artigos publicados.
A Universidade Estadual de Maringá (UEM)
manteve a 20ª posição no ranking nacional, conforme a Capes, com 272
artigos publicados no ano de 2007. Entre 2001 e 2005, a UEM é a 17ª
dentre as universidades brasileiras, com 1.366 artigos publicados,
segundo levantamento do Instituto Lobo, a partir da base de dados
Thompson-ISI. A Universidade Estadual de Londrina (UEL) é 23ª, com
632 artigos (Folha de S. Paulo,14/01/2008).
Para o pró-reitor de Pesquisa e
Pós-Graduação da UEM, Nilson Evelázio de Souza, a classificação da
universidade é boa e deve melhorar, pois, pelos dados do Instituto
de Informação Científica (ISI), até julho, a instituição já tinha
209 artigos publicados. A adoção de bolsas de iniciação científica
para 2008/2009 contribuirá para criar uma ambiência de pesquisa em
todos os cursos da UEM e de outras universidades públicas orientadas
para ensinar “com” pesquisa.
É significativo o Brasil ter conseguido
133% no ranking mundial. Mas, se o compararmos com a China, que
cresceu 416% na sua produção científica, ocupando assim o 2º lugar,
o Brasil ocupa 15º lugar, um ponto na frente da Rússia, e um ponto
da frente de Taiwan - a pequena ilha-país. Os Estados Unidos
continuam no 1º lugar com 344.375 artigos, isto é, cresceu 14%. O
Brasil é o único País da América Latina que aparece entre os 20.
Pesquisa e universidade
A produção científica nacional está
diretamente associada com a eficiência das nossas universidades
públicas e institutos de pesquisas. É consenso que a boa formação
profissional deve incluir o aprendizado da pesquisa científica.
A maioria dos professores das
universidades públicas brasileiras realiza pesquisas individuais e
em grupos, que geram mais investimentos para a instituição e maior
prestígio dos pesquisadores. É a pesquisa que proporciona
atualização e revisão nas idéias sedimentadas dos professores,
sobretudo naqueles que vivem somente do ensino.
A bolsas de iniciação científica
contribuem para formação de estudantes com autonomia no pensamento e
na ação. Ensinar ‘com’ pesquisa representa um grande avanço
comparado ao ensino reprodutivista, instrucionista, verboso, sem
pesquisa, que ainda persiste na maioria das escolas e universidades
privadas.
Contudo, ainda persiste o instrucionismo
em nossas escolas e universidades, com professores abusando dos
argumentos de autoridade nas suas aulas, repetindo idéias e
slogans dos autores consagrados ou mitos que não resistem uma
análise mais apurada sobre seus feitos reais para a humanidade. Em
vez de formar estudantes com atitude de pesquisa, esses professores
ainda visam formar discípulos crentes em dogmas, sem autocrítica e
sem autonomia de pensamento e ação.
Efeito colateral
Um efeito colateral da pesquisa
acadêmica é o baixo investimento nos cursos e órgãos dedicados à
atividade de ensino. Menga Ludke e Julio Diniz Pereira, convidados
do 2º Fórum das Licenciaturas realizado na UEM, em agosto/2008,
coordenado pela pró-reitora de Ensino, Ednéia Rossi, argumentaram
sobre os efeitos do desprestígio das licenciaturas em relação aos
cursos de formação de pesquisadores. Hoje, os "professores
privilegiam as pesquisas de pós-graduação em detrimento dos cursos
de graduação; os que detestam dar aulas comentam brincando o seu
desejo de uma universidade sem alunos", observa Pereira (2000).
Nos anos 1970, Wladimir Kourgannoff
(1990), em “A face oculta da universidade”, havia previsto o
desprestígio das licenciaturas na França com a introdução dos
programas de pesquisa na universidade. Haveria uma primazia da
pesquisa nas universidades naquele país que poderia causar a
degradação do trabalho docente, que, por exemplo, deixaria de ter
importância para a admissão e progressão na carreira docente.
O autor francês ainda questionava se
“todo professor universitário deve ser pesquisador?”. “Todo
professor universitário tem vocação para ser pesquisador?” “Será que
está em curso querer limitar o papel das universidades públicas à
formação de pesquisadores”, logo, displicentes quanto à demanda – e
direito – dos alunos terem boas aulas e uma formação integral?
Nos dias de hoje, no Brasil, os alunos
se queixam – e com razão – de professores mais apaixonados com suas
pesquisas, que gastam muito tempo de uma aula falando de suas teses
de doutorado, em vez de dar boas aulas na graduação. Existe a
suspeita de que há professores investindo mais tempo e dedicação no
planejamento das aulas de mestrado e doutorado.
Ensino ‘com’ pesquisa
Há consenso que um bom ensino
hoje é um “ensino ‘com’ pesquisa”. O mal de uma aula está no mero
reprodutivismo e no instrucionismo, observa Demo (2004). Além de
ensinar ‘com’ pesquisa também a universidade deve estender o
conhecimento aonde o povo está.
Na prática, observamos que o pretenso
equilíbrio de investimentos financeiros e profissionais entre o
ensino, a pesquisa e a extensão está mais no discurso e menos como
práxis nas universidades brasileiras. É fato que a pesquisa está em
primeiro lugar como investimento tanto pelos gestores como pelos
profissionais que trabalham nas IES.
Por seu lado, é possível estabelecer uma
associação entre a mediocridade do ensino escolar, no Brasil, com
sua tradição verbosa e doutrinadora, porque está mais preocupado em
formar quadros ideológicos do que ensinar ‘com’ pesquisa
verdadeiramente científica. A mediocridade de nossa escola pública
e particular é visível nos rankings, e uma das causas pode estar no
baixo investimento de um ensino ‘com’ pesquisa. Alunos, pais e
professores precisam acordarem para investirem em um ensino menos
ideológico e mais científico, que prepare os estudantes tanto para o
exercício da cidadania, como para sobreviver no mercado globalizado.
Pensar criticamente
a realidade concreta
é tão necessário como saber se virar numa economia de mercado. Até
agora nossa escola tem sido incompetente, abstracionista, idealista,
e pouco investe na formação da verdadeira atitude científica. Um
autor denomina de “senso comum pedagógico” o estilo de nossas
escolas.
Parece que ainda vale para os dias de
hoje a crítica dos pioneiros pela educação nova, ainda nos anos
1930, contra o ensino meramente verboso das escolas e da maioria das
universidades, sobretudo nos cursos de humanidades.
No campo das ciências exatas, uma
pergunta sobressai: qual o futuro do ensino superior dos cursos de
Matemática e Física nas escolas, quando sabemos que a maioria dos
seus alunos são orientados unicamente para serem
pesquisadores?
A competição infernal para publicar ("publish
or perish") os resultados das pesquisas parece necessária para dar
visibilidade a instituição de ensino superior, mas há que perguntar
sobre seus efeitos colaterais: stress, fogueira das vaidades,
desprezo para com os que pouco ou nada escrevem, etc. Os
vocacionados mais para a docência, que não publicam, mas que dão
boas aulas precisam ser valorizados com incentivos, em vez da
reprodução de discursos eleitoreiros dos reitores, chefes de centros
e de departamentos.
Ninguém duvida que o ato de pesquisar
contribui para a formação do estudante e para a elevação do
status científico de uma universidade. A atividade de pesquisa
não deve obscurecer e nem desprestigiar sua base de sua formação, o
ensino. A universidade não deve se mirar apenas na classe dominante
dos pesquisadores, e deixar que os professores sejam transformados
em profissionais de segunda classe.
Referências
CARVALHO, Alonso Bezerra. Educação
e liberdade em Max Weber. Ijuí:
Unijuí, 2004.
DEMO, Pedro. Professor do futuro e
reconstrução do conhecimento. Petrópolis: Vozes, 2004.
PEREIRA, Julio D.
Formação de professores: pesquisas,
representações e poder. B.
Horizonte: Autêntica, 2000.
LÜDKE, Menga. A complexa relação entre
o professor e a pesquisa. In: O papel da pesquisa na formação e
na prática dos professores. Campinas: Papirus, 2001, p. 27-54.
__________. O professor e sua formação
para a pesquisa. In. Eccos – revista científica. São Paulo:
v. 7, n. 2, p. 333-349, jul-dez/2005.
KOURGANOFF, W. A face oculta da
universidade. São Paulo: Unesp, 1990.
LIMA, Raymundo de.
Sobre o erro no ensino e na pesquisa. Disponível em: <http://www.espacoacademico.com.br/076/76lima.htm>
Set/ 2007.
O aluno que aprendeu somente repetir compulsivamente frases
prontas, plagiadas da boca de um autor ou professor em vez
de assumir o trabalho de pensar, analisar e contextualizar
tanto as palavras como os acontecimentos, ainda não sabe ser
crítico porque não foi bem educado nesta habilidade. Um
aluno que age como se fosse um boneco ventríloquo do seu
mestre, ainda que posicionado criticamente, não está sendo
verdadeiramente crítico, porque, tal atitude ‘critica’ deve
ser construída pelo próprio sujeito criativo; por outro
lado, se auto-engana o professor que troca seu compromisso
profissional de problematizar as coisas para ser um “líder”
para os seus pupilos, já alertava o sociólogo Max Weber
(Cf.: LIMA, R. O professor ‘sua’ ética e a política.
Disponível em:
www.espacoacademico.com.br ).
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