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As relações de produção na Inglaterra criaram
Thomas Cook - Parte II
João dos Santos Filho
São os homens que
produzem as suas representações, as suas idéias, etc., mas os
homens reais, actuantes e tais como foram condicionados por um
determinado desenvolvimento das suas forças produtivas e do modo
de relações que lhe corresponde, incluindo até as formas mais
amplas que estas possam tomar. A consciência nunca pode ser mais
do que o Ser consciente; e o Ser dos homens é o seu processo da
vida real. (MARX, 1976: 25)
A
idéia de locomoção e viagens surge com o aparecimento do homo
sapiens, em todos os cantos do planeta há marcas e relatos de
encontros entre povos, via cooperação, assimilação, dominação e
conflitos. Todos esses encontros deixaram marcas por meio das
pinturas rupestres e achados arqueológicos que hoje ajudam a
reescrever com maiores detalhes a historia das primeiras
civilizações da humanidade.
A existência dessa gama de vestígios e o
avanço das técnicas de pesquisa arqueológicas permitem observar
vários tipos de povos em estágios diferentes de civilização que
compunham e habitavam os diferentes espaços do planeta. Esse mosaico
composto de diferentes grupos sociais vai de certa forma
caracterizar aquilo que chamamos de cultura universal e que se
constitui no produto máximo de expressão de civilização.
Com o aparecimento de povos com estágios
culturais diferentes que refletem o nível de desenvolvimento das
suas relações de produção, o processo de dominação vai surgir em
diferentes etapas e por diferentes meios. No inicio tudo era
resumido no processo de submissão ao trabalho servil, escravo e
assalariado, hoje esse movimento é mais sutil não necessariamente
necessita de uma força física para intimidar o outro, basta deixar o
processo de globalização neoliberal fluir em seus blocos econômicos.
Assim, entendemos que o processo de
dominação na história mantém uma lógica de exploração para com o
outro, ou seja, o mais desenvolvido mantém o domínio sobre os menos
desenvolvidos, como escreveu Karl Marx em seu texto clássico ”O
Método da Economia Política”, afirmando:
A sociedade burguesa é a organização
histórica mais desenvolvida, mais diferenciada da produção. As
categorias que exprimem suas relações, a compreensão de sua
própria articulação, permitem penetrar na articulação e nas
relações de produção de todas as formas de sociedade
desaparecidas, sobre cujas ruínas e elementos se acham
edificadas, e cujos vestígios, não ultrapassados ainda, levam de
arrastão desenvolvendo tudo que fora antes apenas indicado que
toma assim toda a sua significação etc. (MARX, 1982: 17)
A revolução industrial ocorrida na
Inglaterra foi resultado de um processo que por condições peculiares
de sua história vinha sendo gestada desde que a [...] imigração foi
estimulada pela realeza que, em várias ocasiões, sobretudo no inicio
do século XIV, se empenhou em fundar, com a ajuda desses iniciadores
estrangeiros, uma indústria nacional. (MANTOUX, sd: 24) A descoberta
das grandes invenções foi um estimulo aos produtos manufaturados, o
apoio de estruturas bancarias e o descobrimento da alquimia
cientifica no processo de metais e o domínio do vapor como impulsão
o aproveitamento dos conhecimentos de engenheiros franceses,
alemães, holandeses e italianos fizeram desse país a Meca dos
grandes experimentos e obras que aceleraram o processo de acumulação
do Capital.
O processo de desenvolvimento
capitalista vai encontrar espaço e as condições ideais para se
expandir na Inglaterra, o transporte de passageiros por ferrovias
vem servir ao movimento da economia, pois o deslocamento de pessoas
e mercadorias traz consigo uma fluidez mercadológica antes não
experimentada. Serviços novos aparecem, transferências de capital
movimentam trabalho vivo e o trabalho morto, a riqueza apesar de
centralizada aparece e manda sua sombra para setores da classe
trabalhadora:
A construção de caminhos-de-ferro
foi provavelmente o fator mais importante na promoção do
progresso econômico europeu nos anos 1830 e 1840. De novo a Grã
- Bretanha, onde a primeira linha pública de passageiros (de
Stockton a Darlington) se abriu em 1825, foi à pioneira e pôde
agir como consultora e fornecedora no estrangeiro. (HENDERSON,
1979: 19)
A economia se diversifica em larga
escala, aparece a necessidade de aperfeiçoar as ferrovias para que
sejam usadas para de transporte de passageiros com destinos
determinados para a prática de viagens de lazer, saúde e negócios,
surge então à atividade turística em sua plenitude moderna,
alcançando um perfil alocado principalmente ao setor de serviços.
Os pólos de desenvolvimento econômico
surgiram, subúrbios se desenvolvem, pois eram redutos de uma classe
média que consumia praias e áreas de veraneio e as estradas de ferro
acenavam futuras linhas para o transporte de passageiros. A ferrovia
significa valorização das terras e imóveis e em um ano a ferrovia
havia transportado:
Quarenta e oito milhões de
passageiros utilizaram as ferrovias do Reino Unido em um único
ano (1845). Homens e mulheres já podiam ser transportados ao
longo de três mil milhas de via férrea na Grã-Bretanha (1846). (HOBSBAWM,
1982: 322)
Thomas Cook, foi na verdade um pioneiro
do turismo “moderno”, graças ao desenvolvimento da Inglaterra como a
primeira potencia a se industrializar e a praticar as leis de
mercado favorecidas por uma população trabalhadora capaz de consumir
produtos. Cook cria o turismo de massa ferroviário, com tarifas
reduzidas, viagens em grupo, pacote de viagens, fez campanhas
publicitárias, promoções para conquistar clientela. Sua ação vai
permitir que a classe operária imite os comportamentos da nobreza e
passem a freqüentar as praias e os balneários do momento, antes
tidos como redutos dos ricos.
Tópicos a serem pesquisados para
entender o papel de Thomas Cook na História do Turismo
O personagem que tinha tido um papel,
mesmo que não considerado relevante na história de uma nação e
posteriormente por diversas razões alcança projeção mundial. Pode
ser objeto de um processo de autofagia plena e começa a ser produto
de uma história que acaba em alguns momentos incorporando atos
artificiais, ou até recuperando sua importância, segundo os
interesses das classes dominantes. Nesse sentido, a historiografia
de um país pode criar destruir, resgatar e fabricar heróis, segundo
sua capacidade expansionista de impor materialmente e simbolicamente
sua força de mercado ao mundo.
Portanto, qualquer personagem da
história pode muitas vezes ser montado e moldado segundo os
interesses do Capital, nesse sentido, não podemos, como afirma Karl
Marx, deixar que interesses acima dos homens vivos deixem espaço
para aqueles que:
Pretendem, portanto escrever uma
história do passado que faça resplandecer com o maior brilho a
glória de uma pessoa que não é histórica e daquilo que ela
imaginou: não interessa, pois, evocar quaisquer acontecimentos
realmente históricos nem sequer as intrusões da política na
história. Em compensação, interessa fornecer um escrito que não
repouse num estudo sério, mas sim em montagens históricas e em
ninharias literárias [...] (MARX, 1976: 53)
A luta por uma historiografia nacional
autentica e que seja o reflexo dos atos de um povo só podem existir
quando realizamos um processo constante de autocrítica da mesma e
agregamos a ela novos saberes produto de estudos científicos.
Nesse sentido, podemos passar a refletir
algumas questões:
1 – Parte da literatura editada em
português existente que faz menção ao personagem Thomas Cook,
aparece por meio de pequenos comentários nos inúmeros livros
editados, muitas vezes em forma de nota. E com um conjunto de
informações repetitivas sem qualquer reflexão que não seja a mera
descrição dos dados biográficos desse personagem. Com raras exceções
existem obras que caracterizam historicamente Cook ensaiando
indagações procedentes. Mesmo com o perigo de cometer alguns
equívocos involuntários, podemos destacar algumas obras de autores
brasileiros; a) Turismo no Percurso do Tempo. Organizado por Mirian
Rejowski; b) História das Viagens e do Turismo de Ycarim Melgaço
Barbosa; c) Manual de iniciação ao turismo de Margarita Barreto; d)
Aspectos Multidisciplinares da História e Turismo de Haroldo Leitão
Camargo. In. Como aprender e como ensinar.
Gostaria de registrar que existem
centros brasileiros de pesquisa e investigadores que estão
orientando teses, monografias e trabalhos sobre o papel de Thomas
Cook na história do turismo, porém na atualidade o que se consegue
de dados se restringe a fatos biográficos e descontextualizados do
processo histórico que estava ocorrendo na Inglaterra.
2 – A literatura referente à histórica
do processo de industrialização da Inglaterra traduzida para o
português na qual tive acesso entre as quais as obras do historiador
de Eric J. Hobsbawm, Paul Mantoux, Frédéric Mauro, William Otto
Henderson e outros que estão mencionados na bibliografia deste
trabalho. Não mencionam nem de forma secundária o nome de Thomas
Cook, mesmo quando escrevem sobre o desenvolvimento do transporte
ferroviário inglês, essa ausência pode significar duas hipóteses; A
primeira àquela que considerava que o direito ao lazer e turismo
estava reservado a uma nobreza já decadente, porém ainda portadora
de recursos financeiros e a uma forte burguesia que se encostava ao
estilo de vida aristocrata; A segunda, por Thomas Cook ser um pastor
batista que desenvolvia um trabalho de recuperação a alcoólicos ter
ousado a programar viagens para as classes sociais populares em
localidades tidas como redutos exclusivos dos ricos.
Portanto, a historiografia inglesa pelos
fatores arrolados no começo deste texto relega ao esquecimento
Thomas Cook, quem sabe por ter criado e desenvolvido um turismo de
massa e popular que no fundo subvertia a estratificação social
daquela sociedade, pois dava certas condições ao proletariado e a
classe media de usufruírem do turismo de montanhas, termal e dos
balneários que eram considerados uma terapia medicinal entre a
classe dominante.
O turismo na Inglaterra foi resultado de
um processo de desenvolvimento histórico, econômico e industrial
aliado ao avanço dos meios de transporte marítimo e ferroviário.
Porem, o Grand Tour é uma prática que existia desde o século
XVI e vai até 1798 com a Revolução Francesa, que permitiu a classe
social dominante enviar ao exterior seus filhos com tutores para
prepará-los para o comando político da Inglaterra ensinando-os a
serem:
Este viaje tenía el
objetivo primordial de enseñar a estos jóvenes candidatos los
saberes y los logros de los estados europeos modernos, y
sobretodo en su parte italiana, el esplendor de las antiguas
civilizaciones griega y romana, aunque uno de los fines
principales era el de formar un cuerpo de diplomáticos,
políticos, abogados y militares bien capacitado. El turismo en
ese momento constituía, como se explicará de nuevo más adelante,
una ciencia más que una actividad de ocio, una materia más entre
las que se debían formar los lords ingleses. (GARAY, 2004: 5)
O objetivo da classe dominante com seus
filhos da aristocracia e da poderosa burguesia era desenvolver um
processo que viesse garantir para as gerações futuras o comando
político e econômico do país. Dando a eles a vivencia e oportunidade
para conhecer culturas e sistemas políticos mais avançados
culturalmente. E em casos específicos o Estado inglês custeava parte
dessas viagens para futuros diplomatas, e para aqueles que ocupariam
cargos no governo, com isso a Inglaterra fazia uma ponte imaginária
com o continente europeu, segundo o escritor Edmund Swinglehurst:
O objetivo era tirar os rapazes de
circulação durante aqueles anos inconvenientes que antecediam a
idade adulta e educá-los – embora os mais críticos acreditassem
que eles não faziam nada além de farrear e contrair sífilis. (SWINGLEHURST,
2001: 104)
Portanto, a atividade turística já era
desenvolvida e pertencia exclusivamente às classes aristocratas e a
burguesia emergente que avançava com o empreendedorismo de Thomas
Cook junto ao transporte ferroviário que se massifica e se
populariza, segundo a turismóloga da Universidade de São Paulo
professora Mirian Rejowski, baseada em seus estudos e leituras:
[...] Cook começou a tratar as
viagens que organizava, porque acreditava que elas abriam a
mente e aumentavam a sede pelo conhecimento, no processo de
quebra de barreiras de classes e nacionalidades, promovendo a
tolerância e a benevolência cristã entre os homens. Também
argumentava a favor dos benefícios do contato com a natureza e
da recreação. Para ele, todos, ricos e pobres, tinham o direito
de viajar, e a ferrovia havia chegado para tornar isso possível.
(REJOWSKI, 2002: 54)
Se Thomas Cook foi pioneiro do turismo
utilizando-se de um pré-trade turístico possível e existente na
metade do século XIX, a historiografia inglesa que o havia colocado
em um papel secundário recupera-o posteriormente perante a história
do turismo. Além do que entendemos que o próprio desenvolvimento
desse fenômeno mundial resgata Thomas Cook do esquecimento e o
resgata perante a historiografia internacional, essa parece ser a
explicação mais plausível para essas dúvidas sobre o personagem.
Com isso, não invalidamos nossas
afirmações primeiras da hegemonia que a história inglesa tem sobre
as historias nacionais, o que alertamos de forma mais sistemática é
que historiadores ingleses minimizam o papel de Thomas Cook e a
literatura brasileira sobre turismo, quando o aborda o faz quase
sempre com o mesmo discurso, repetitivo, descritivo e até ufanista,
mas descontextualizado da abordagem dentro dos parâmetros da
economia política.
Comentários e reflexões para futuras
investigações
Em primeiro lugar entendemos que o
fenômeno turismo já aparece sinalizado na realidade social desde o
processo que o homem se organiza para a sua subsistência (caça,
pesca e coleta). “A primeira condição de toda história humana é
evidentemente a existência de seres humanos vivos” (Marx: 1976.
p18). E para desenvolver essas atividades de subsistência e garantir
a existência de categorias dadas pela categoria trabalho, à
realidade movimenta essas atividades por meio do caráter da relação
dialética entre o lúdico, lazer e o trabalho.
O trabalho para ser executado vai
depender de rituais mágicos e, portanto não é entendido como castigo
ou obrigação, mas sim, como algo livre de qualquer ato de opressão,
pelo menos na sociedade igualitária, veja Karl Marx em mais um de
seus inúmeros escritos:
[...] é a sociedade que regula a
produção geral e me possibilita fazer hoje uma coisa, amanhã
outra, caçar de manhã, pescar à tarde, pastorear à noite, fazer
crítica depois da refeição, e tudo isto a meu bel-prazer, sem
por isso me tornar exclusivamente caçador, pescador ou crítico.
(MARX, 1976: 41)
Se trabalho expressa uma condição
fundamental para a existência humana, o não trabalho é o outro lado
da moeda e, portanto o lazer aparece quando surge o trabalho. O
livro de Paul Lafargue: “O direito à Preguiça” é um alerta sobre
isso, quando faz aquele relato dramático das condições de vida e da
necessidade de diminuir drasticamente o tempo de trabalho das
classes trabalhadoras.
O importante é demonstrar que o turismo
segundo o desenvolvimento das relações de produção vai sendo
sinalizado de formas diferentes porem associativas no decorrer do
processo histórico, como fato para um argumento poderoso podemos
citar o livro “Popol Vuh” do povo Maya-quiché da Guatemala
encontrado pelo Frei dominicano Francisco Ximénez em 1701. O Popol
Vuh foi escrito entre 1545 a 1555 segundo o historiador Paulo Suess
que organizou o livro A Conquista Espiritual da América Espanhola
afirma que. ”POPOL VUH, cujo autor é desconhecido, já leva em
conta os estragos da conquista” (Suess: 1992. p. 36).
Apesar de o livro mencionar as alegrias
e o modo de vida Quiché mostra também o contato como os espanhóis,
quando em um discurso de lamentação afirma:
Así hablaban los
reyes mientras ayunaban. Y los pueblos grandes y pequeños les
llevaban piedras preciosas, metales, la miel más dulce,
pulseras, esmeraldas y plumas azules.
Hubo muchas
generaciones de hombres y reyes antes de que vinieran los
españoles a nuestra tierra […]. (POPOL
VUH, sd: 113)
Esta obra por sua riqueza histórica,
apesar de já expressar traços marcantes da dominação espanhola,
apresenta um lado magnífico da sociedade Maya - quiché plenamente
estratificada voltada para a prática do lazer / cerimonial e do
esporte. Perante a história da humanidade o Popol Voh é um dos
tesouros mais valiosos que foi salvo dos Autos de Fé que os
espanhóis fizeram contra as chamadas idolatrias da civilização Maya.
A queima de bibliotecas e de objetos sagrados foi imensa e
decorrente dos processos inquisitoriais que os acusavam de coisas
pertencentes ao diabo.
O testemunho que esse livro representa
para o resgate da história Quiche abre caminhos pra entender os
povos pré-colombianos de centro América, em que aparece uma
civilização onde o gosto pelo rito, atos cerimoniais religiosos e
mágicos começa pelo nascimento do ser, passa pela adolescência
prepara a iniciação sexual, a união conjugal e a própria morte.
Todas as relações sociais, portanto passam por um processo de
leitura de um real montado por atividades lúdicas e de um lazer que
vão sinalizar uma forma especifica de turismo naquele período
histórico.
Em uma das muitas passagens do livro
Popol Voh fica explicito que a sociedade Mayas cultua de forma
intensa a integração do homem com a natureza no sentido da vida e da
morte, desenvolvendo uma harmonia com os animais, no divertimento
lúdico, ritual e na prática do deslocamento (viagens) por isso o
império Maya se expandiu pelo continente. É esse ponto que queremos
mostrar a sensibilidade de uma nação em que a sua existência
funde-se num sincretismo natureza, homem e animal:
Como sentián que el
final de sus días estaba próximo, Balam-Quitzé, Balam-Acab y
Mahucutah empezaron a despedirse de sus hijos. Iqui-balam
no tuvo ningún hijo. Cantaron el Camucú, un canto de
mucha triteza, porque tristeza sentiían en sus corazones cuando
se despidieron de sus hijos en la cima del cerro Hacavitz.
Hijos, nosotros nos
vamos y no volveremos; ya se acaban nuestros días, ya hemos
cumplido nuestra misión; cuiden sus casas y su pueblo; planten
la tierra y recuerden el lugar del que hemos venido. En memoria
de nosotros les dejamos este presente. Así les dijeron mientras
les entregaban un envoltorio cerrado y cosido. No supieron qué
contenía adentro porque nunca abrieron el envoltorio; solamente
lo guardaron con mucho cuidado.
Y simplemente
desaparecieron nuestros padres y abuelos. No estaban enfermos;
no sentían dolor ni agonía. Como sólo desaparecieron, no fueron
enterrados por sus mujeres y sus hijos; sólo quemaron copal ante
el envoltorio. Así fue el fin de Balam-Quitzé, Balam- Acab,
Mahucutah e Iqui- Balam, nuestros primeros padres.
Los hijos no
olvidaron los sabios consejos de sus padres. Decidieron un día
ir a visitar en el oriente el lugar de dónde habían venido.
Tres fueron los que hicieron el viaje: Cocaib, Coacutec y
Coajau. Se pusieron en camino; pero antes se despidieron de
sus hermanos y parientes:
– Volveremos; no
moriremos.
Seguramente
pasaron sobre el mar antes de llegar donde el señor Nacxit,
monarca del oriente. Nacxit los recibió y les dío las
insignias del poder y de la majestad. De allá vienen los
insignias del Ahpop Y del Ahpop- Camhá. Les
entregaron polvos de diferentes colores, perfumes, flautas, la
señal del tigre, del venado, del pájaro, el caracol, plumas de
diferentes colores. Todo vino de
Tulán, del oriente. (POPOL VUH, sd: 106 e 107).
Esta referencia contida no interior do
livro dos Mayas, demonstra uma sociedade em que o culto aos deuses é
o motor de sua história, segundo o escritor colombiano César
Valencia Solanilla em um texto na internet comenta:
Los mayas, al igual
que los aztecas, tenían un gusto particular por los ritos y las
ceremonias, las fiestas, los carnavales y todas estas formas
ceremoniales colectivas en que se combinaban la danza, la música
y el canto. Periódicamente se representaban piezas de índole
religiosa, épica, histórica y burlesca, que sirvieron para
mantener viva la memoria cultural de su pasado. La mayoría de
estas obras tenían carácter didáctico, pero fueron duramente
perseguidas por los españoles, que veían en estas formas
artísticas la expresión de la idolatría y la resistencia al
poder de la corona. Al parecer existieron muchas pequeñas obras
dramáticas, vinculadas con la celebración de las cosechas y la
agricultura, como el llamado Festival de los Elotes, que
es un canto a la tierra para solicitarle sus favores, o los
festivales de celebración del maíz. (VALENCIA SOLANILLA, 2000:
17)
Uma segunda questão a ser analisada é
que a literatura sobre Thomas Cook existente no Brasil traduzida
para o português, com exceção de algumas obras que já mencionei
neste trabalho se apresenta de forma limitada nas referencias a esse
personagem. Os discursos se restringem a dados bibliográficos pouco
contextualizados no processo de desenvolvimento do capitalismo.
O acesso à literatura em inglês não é
fácil de ser encontrada como também em espanhol, nossas bibliotecas
em termos de obras sobre o fenômeno do turismo e da produção
literária latino-americana mantêm ainda grande timidez na busca
desses assuntos Essa situação amparada ao fato de que o ensino no
Brasil historicamente primeiramente esteve ancorado nas idéias
européias e posteriormente norte-americanas, acabou relegando a um
papel secundário as visões de latinidade, esquecemos e muitas vezes
nós negamos a sermos latinos.
Essa repulsa pelo continente
latino-americano nos desvia de nossas raízes étnicas e produz uma
literatura brasileira que tentou resgatar essa latinidade esquecida,
entre os vários intelectuais contemporâneos que assim procederam
podemos citar as obras de Darcy Ribeiro e Octavio Ianni.
Uma última questão a ser mencionada é
que a maioria dos professores responsáveis pelas disciplinas
especifica do turismo de uma forma ou de outra dão uma ênfase
demasiada (forte) a Thomas Cook como o iniciador do turismo no
mundo. Essas leituras que são passada aos alunos acabam muitas
vezes produzindo as seguintes compreensões:
1- O personagem histórico Thomas Cook,
só se tornou conhecido e considerado pela literatura inglesa e
mundial quando foi recuperado por via dos estudos sobre o fenômeno
turístico que começaram a ser objeto de interesse do capitalismo e
dos centros de pesquisa. Por esse motivo, como mencionamos
anteriormente no início deste trabalho, os grandes historiadores
ingleses conhecidos mundialmente em nenhum momento cita-o. Essa
omissão pode vir a ajudar a comprovar que o mesmo desempenhou na
história da nação inglesa um papel de pouco destaque para o conjunto
das modificações estruturais que estavam ocorrendo na época.
Apesar dessas reflexões e do esforço em
querer entender o valor de Thomas Cook para a história do turismo, a
compreensão desse personagem no cotidiano do meio acadêmico e
estudantil nós leva as seguintes indagações:
A) O turismo começou na Inglaterra com o
desenvolvimento do capitalismo;
Pergunta-se: Antes do capitalismo não
havia turismo? Será que as categorias mais simples não poderiam
estar exprimindo relações subordinadas de um todo mais desenvolvido?
Como comenta Karl Marx no “O método da Economia Política”.
A categoria turismo é resultado do
desenvolvimento do processo histórico e, portanto sua existência
aparece sob diferentes tonalidades e em períodos diversos por meio
de manifestações consideradas travestidas em outras categorias que
na verdade são expressões derivadas do turismo, isto é, aproximações
de um todo mais desenvolvido. Assim com esse entendimento, o turismo
não pode ser compreendido como sendo algo que aparece de repente
como aqueles que acreditam que esse fenômeno surge com o capitalismo
e na Inglaterra.
Ocorreu é que o turismo sempre esteve
presente na realidade social, porém sua manifestação durante a
história da humanidade surge sob diferentes e aproximadas
essencialidades. Com esse pressuposto claro da existência do
fenômeno turístico na história da humanidade, a nação que estiver
com os meios de produção mais desenvolvida consegue produzir um
Thomas Cook que revolucionou na prática e organizou o chamado
turismo moderno.
Portanto, apesar da Inglaterra ter saído
na frente não foi ela que inventou o turismo e as viagens, pois as
mesmas são frutos do surgimento dos homens, por isso a
historiografia mundial sobre o turismo deve ser rediscutida perante
a história das civilizações Incas, Mayas, Astecas e Guaranis. Vamos
deslocar o eixo das discussões sobre a história do desenvolvimento
da humanidade de uma visão eurocentrista para outra fundada na volta
de nossa latinidade e descobrir que a história da civilização da
humanidade é o resultado de todo um processo de etnias, culturas e
sistemas que estão dentro de uma determinada “economia política” em
que todos os povos latinos devem escrevê-la, pois são os atores da
sua civilização, como comenta o historiador cubano Raúl Enrique
Gómez Treto:
La historia
latinoamericana – y caribeña – se há presentado con inmoderada
frecuencia como una historia marginal, periférica, en relación
con las historias supuestamente centrales de la humanidad:
fundamentalmente con la historia eurocentrista. Es cierto que
aún hoy es mucho lo que se ignora de la llamada historia
precolombina de América, pero también es mucho lo que vamos
desvelando, descubriendo, y que nos fuerza a recomponer y
redimensionar en forma más realista, proporcionada e integral
nuestra historia regional en relación con la del resto del
mundo. (GÓMEZ TRETO, 1996: 44)
Finalmente registro que a literatura
sobre o fenômeno turístico em inglês, francês e até espanhol,
existente no Brasil “parece” não ser de fácil acesso para estudiosos
e pesquisadores. Além do que nossas editoras apresentam certa
timidez mercadológica para traduzir obras importantes nesse campo.
Esse fato não deixa de serem também resquícios fortíssimos de uma
base de preconceitos para com esse assunto. Bem como, a facilidade
de traduzir algumas obras depende do interesse que as editoras
estrangeiras dão a alguns escritores específicos.
Com isso concluímos que a hegemonia de
dominação de uma historiografia pelas nações mais desenvolvidas a
outros países é uma realidade, que permanece na literatura
universal. E merece ser refletido com maior profundidade como é o
caso de Thomas Cook.
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