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PAULO DENISAR FRAGA
Professor de Filosofia, Metodologia da
Ciência e Pesquisa da Universidade Federal de Alfenas, MG.
Mestre em Filosofia pelo Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas da Unicamp, SP

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Autoconservação e sacrifício: o drama prototípico
de Ulisses como dominação da natureza
Paulo Denisar Fraga
Introdução
Em sua já clássica
Dialética do esclarecimento, Theodor Adorno e Max Horkheimer
enfrentam, sob os escombros da II Grande Guerra, o problema de
explicar por que o mundo iluminado pela sabedoria da razão e pelos
préstimos da ciência, ao invés de conduzir os homens à emancipação,
dá testemunho do curso de uma nova barbárie.
O esclarecimento, antes
visto generosamente por Kant como a saída do homem de seu estado de
menoridade,
encontra agora, no arrojo do texto de Adorno e Horkheimer, não mais
a explicitação do vir à luz a que outrora quis trazer os homens, mas
a de sua face obscura que, eivando pela contradição a face que
iluminava, desenha a dialética de seu próprio evolver – a dialética
da razão esclarecida.
A linguagem e o método
de exposição dos autores tornam essa obra um texto complexo e
difícil. Propositalmente, escrevem de forma assistemática para se
resguardarem do vício das estruturas lógico-lingüísticas
hierárquicas próprias ao esclarecimento, haja vista ser este o
objeto central de seu exame crítico.
Não por acaso, o livro traz por subtítulo a expressão “Fragmentos
filosóficos”, que, aliás, foi o título da primeira versão da
obra.
Baseada num conceito
transepocal de esclarecimento, que deita raízes desde os primórdios
da humanidade, não se restringindo à ilustração dezoitista, a
análise do entrelaçamento entre mito e razão esclarecida é o estudo
que funda e orienta a obra, constituindo-se, como dizem os autores,
naquele que oferece “o fundamento teórico dos seguintes”. A tese
mestra aí contida é de via dupla: “o mito já é esclarecimento
e o esclarecimento acaba por reverter à mitologia”.
Tendo-se isso por
pressuposto,
este texto retoma aspectos da interpretação de Adorno e Horkheimer
sobre a Odisséia de Homero, mormente os relacionados ao drama
de tipo prometéico entre autoconservação e sacrifício,
contradição que enreda a própria potência da racionalidade moderna e
enseja um tema profundo que questiona a civilização.
Para tanto, segue-se pelo fio condutor
de que a compreensão da figura de Ulisses
– como exemplo prototípico do movimento mito-esclarecimento-mito –
reputa a temática do domínio da natureza (externa e interna)
como um problema central que articula e dá inteligibilidade ao
enredo crítico-teórico dos capítulos fundamentais da Dialética do
esclarecimento.
Trata-se de um tema candente, vertido em
um dos principais textos da filosofia do século XX, publicado há
exatos 60 anos, cujo teor mantém peculiar atualidade num tempo em
que o mundo presencia como nunca o evento do retorno do recalcado na
forma externa da vingança da natureza, ou, como mais simplesmente se
nomeia, crise ecológica.
Subjugação da natureza e
eclipse do programa do esclarecimento
Já na primeira frase do
capítulo “O conceito de esclarecimento”, Adorno e Horkheimer deixam
clara sua opinião de que, a rigor, o programa do esclarecimento
falhou: “No sentido mais amplo do progresso do pensamento, o
esclarecimento tem perseguido sempre o objetivo de livrar os homens
do medo e de investi-los na posição de senhores. Mas a terra
totalmente esclarecida resplandece sob o signo de uma calamidade
triunfal”, que sobrepôs-se aos propósitos emancipatórios do
esclarecimento, cujo programa “era o desencantamento do mundo. Sua
meta era dissolver os mitos e substituir a imaginação pelo saber”.
Para além disso, o poder
absoluto que o progresso científico-racional concentrou em si mesmo
foi de tal monta que não guardou escrúpulos nem com o que a ciência
e a razão teriam de mais generoso. Parece ser este o sentido da
formulação segundo a qual, “sem a menor consideração consigo mesmo,
o esclarecimento eliminou com seu cautério o último resto de sua
própria autoconsciência. Só o pensamento que faz violência a si
mesmo é suficientemente duro para quebrar os mitos”.
A dureza do
esclarecimento para com os mitos exigiu-lhe um esforço tal que
terminou por comprometer os pudores que ainda guardava em sua carta
de intenções. Aliás, vale dizer que a palavra cautério diz
respeito à cauterização de partes vivas do organismo.
Porém, aqui não se tratava propriamente da cauterização comum de
simples feridas, mas da parte viva da natureza que, mesmo em sua
dimensão externa, continua sendo, como insistiu Marx, “o
corpo inorgânico do homem”.
E, de outro lado, da cauterização interna da própria sensibilidade
humana, a parte “sobrante” e “excedente” ao cálculo, isto é, ao
processo de matematização do pensamento.
Numa palavra, para
Adorno e Horkheimer o esclarecimento migrou de sua promessa de
libertar o homem do medo e do sofrimento para um processo brutal de
dominação do homem sobre a natureza e do homem sobre o homem. Isso,
num sentido mais geral, explica por que Adorno e Horkheimer afirmam
que “a aporia com que nos defrontamos em nosso trabalho revela-se
assim como o primeiro objeto a investigar: a autodestruição do
esclarecimento”.
Baseado em que a
superioridade do homem reside em sua capacidade de saber, o
esclarecimento elevou-se a pretensões de
auto-suficiência tais
que impediram “um casamento feliz do entendimento humano com a
natureza das coisas e o acasalaram, em vez disso, a conceitos vãos e
experimentos erráticos”.
O saber converteu-se em mera técnica, submetendo o pensamento ao
jugo dos fatos dados; ao passo que o saber técnico, tornado fonte do
poder, não conhece limites para seus procedimentos.
Quebrando a ordem animista da natureza,
todas as diferenças são suprimidas. Não há mais nenhuma distinção,
exceto a operada pela arbitrariedade do conceito. A natureza é
decretada caótica para que a síntese da ciência tudo possa reunir na
sua total unificação. Assim,
“o mundo torna-se o caos, e a síntese, a
salvação”. Nada mais pode escapar à plaina niveladora da ciência: “O
que não se submete ao critério da calculabilidade e da utilidade
torna-se suspeito para o esclarecimento”.
A razão esclarecida interessa-se por
desencantar a natureza justamente na medida em que planeja legitimar
a redução desta a mero objeto para o manejo técnico do mundo. Por
isso, Adorno e
Horkheimer dizem que o casamento que o entendimento humano conseguiu
com a natureza das coisas foi homologado com a marca de um ato
patriarcal, segundo a legenda de que “o entendimento que vence a
superstição deve imperar sobre a natureza desencantada”. Isso revela
que, no mais fundamental, “o que os homens querem aprender da
natureza é como empregá-la para dominar completamente a ela e aos
homens”.
A questão não está em
desconhecer ou negar o desenvolvimento técnico-científico da
humanidade, mas em assumir uma posição vivamente crítica que recusa
a dispensa da reflexão pelos cânones da pretensa imparcialidade da
lógica científica. Pois, para os autores, o problema reside em que,
“no trajeto para a ciência moderna, os homens renunciaram ao sentido
e substituíram o conceito pela fórmula”.
Desde Galileu, o procedimento racional foi coisificando-se na frieza
lógica da matematização. “O pensar reifica-se num processo
automático e autônomo, emulando a máquina que ele próprio produz
para que ela possa finalmente substituí-lo”.
Desde Darwin, o princípio segundo o qual a sobrevivência segue a lei
do mais apto enquanto os demais perecem, já constituía “uma teoria
da evolução orgânica sem a pretensão de impor imperativos éticos à
sociedade”.
Enredo material da dominação
Considerando que Adorno “desconfia
profundamente de todo conceito de cultura que olvide suas origens
contaminadas na desigualdade social”, Martin Jay observou que “a
contradição irredutível mais fundamental [...] é a divisão entre o
trabalho manual e o trabalho intelectual, que está na base da
dialética do iluminismo”.
No tocante a isso, cabe inicialmente
anotar que os próprios autores recorrem a uma citação direta da
dialética do senhor e do escravo – da Fenomenologia do espírito
de Hegel –, quando este se refere a que o senhor interpõe entre ele
e a natureza a figura do escravo para desfrutar do objeto produzido
de forma pura, isto é, sem trabalho.
Ainda que, em seus escritos de Jena, Hegel tenha reconhecido alguns
problemas da mecanização industrial para o homem, a crítica de
Adorno e Horkheimer não pode aceitar a concepção idealista de Hegel
da natureza como uma determinação devinda da idéia,
devendo sua influência sobre o homem ser inteiramente subsumida no
processo de ascensão do pensamento puro.
Por tal razão, compete entender, inclusive pelo teor da seqüência do
texto, que a citação de Hegel situa-se em meio a uma tematização
materialista do trabalho, cuja perspectiva franqueia um diálogo com
o modo marxiano de conceber o problema.
Na sua teoria do trabalho estranhado,
Marx deixa claro que, pelo estranhamento do objeto, a relação do
homem com a natureza torna-se estéril, sem frutos, donde o homem
acha-se dela apartado e, assim, extraviado da universalidade de seu
ser humano-natural: “o trabalho estranhado faz, por conseguinte: do
ser genérico do homem, tanto da natureza quanto da faculdade
genérica espiritual dele, um ser estranho a ele, um meio
da sua existência individual. Estranha do homem o seu próprio
corpo, assim como a natureza fora dele, tal como a sua essência
espiritual, a sua essência humana”.
Estranhado em sua vida e em sua
percepção, a natureza aparece ao homem como coisa que o enfrenta; e
não como algo que o complementa. Aí radica a gênese material da
obsessiva dominação instrumental da natureza. A respeito, por
ocasião dos 50 anos da Dialética do esclarecimento, Robert
Kurz escreveu: “Na medida em que se rebaixa a natureza a ‘uma mera
objetividade’, e o objeto isolado a um mero ‘exemplar’ de uma
espécie (e, portanto, a uma abstração), o sujeito onipotente, por
sua vez, torna-se ‘mero possuir, mera identidade abstrata’, que só
enfrenta o mundo, a fazer cálculos, com a pretensão de submetê-lo e
dominá-lo”.
Ao contrário do que pensam certos
ecologistas, a crítica marxiana demarca ser o problema da relação
homem–natureza não primeiramente derivado de uma questão moral de má
educação do espírito humano, mas do estranhamento nascido no solo da
mediação essencial do homem com a natureza, isto é, um
problema que não nasce abstratamente do juízo humano sobre
ela, e sim das condições reais do trabalho, que daí degeneram
num processo de abstração subjetiva frente à natureza. Os contornos
dessa idéia ressoam literalmente no texto frankfurtiano: “A
distância do sujeito com relação ao objeto, que é o pressuposto da
abstração, está fundada na distância em relação à coisa, que o
senhor conquista através do dominado”.
De fato, confirmando Jay, para Adorno e
Horkheimer mesmo a expressão desenvolvida da organização científica
acha-se articulada com a divisão social do trabalho: “A forma
dedutiva da ciência reflete ainda a hierarquia e a coerção. Assim
como as primeiras categorias representavam a tribo organizada e seu
poder sobre os indivíduos, assim também a ordem lógica em seu
conjunto – a dependência, o encadeamento, a extensão e união dos
conceitos – baseia-se nas relações correspondentes da realidade
social, da divisão do trabalho”.
Mesmo que, pelo precário desenvolvimento
da técnica, para os antigos a questão do domínio da natureza se
refletisse mais no aspecto interno da renúncia do que no
técnico-externo, é extremamente significativo que, ao relerem a
Odisséia como modelo primitivo da civilização esclarecida,
Adorno e Horkheimer arrolem o episódio das sereias para sugerir que
nele já estaria presente o germe da divisão moderna do trabalho.
Ulisses amarra-se para ouvir as sereias sem ceder aos seus encantos
fatais. Os remadores vogam surdos, com os ouvidos entupidos de cera.
Ou seja, quem usufrui não trabalha. E quem trabalha não usufrui. Se
Ulisses acha-se amarrado e se, quem sabe, desta vez as sereias não
cantam,
em que pese ele acreditar ouvi-las, isso é só um reforço daquilo que
Hegel mostra em sua dialética do senhor e do escravo: o senhor que
domina goza apenas na ilusão de ser livre, assim como o faz o
capitalista moderno em sua relação reificada com a mercadoria.
Outro aspecto
materialista situa-se, ainda, no núcleo da relação de dupla
determinação entre o homem e a natureza. A dominação técnica da
natureza, eivada pela ineliminável contradição de o homem estar
ontologicamente vinculado a uma condição natural, redunda numa
dependência ainda maior da natureza, uma vez que Adorno tem presente
que “a principal motivação para a existência do próprio aparato
conceitual é algo não-conceitual, a saber, buscar na natureza os
meios de vida para os humanos”.
Realmente, não é por acaso que Adorno e Horkheimer deixam
transparecer, ao comentarem a motivação de Ulisses frente ao
ciclope, que os feitos do herói aventureiro de Homero se dão a
partir de uma simples, porém decisiva, questão: a de que
Ulisses agiu “premido pela necessidade”.
Se o homem, para se
conservar, foi sempre obrigado a se opor à pujança do natural, então
a questão do domínio da natureza, da formação do espírito humano
para fins de sua autoconservação, não é nova, mas histórica e
antiqüíssima. Ela remonta aos primeiros esboços da vontade humana,
confundindo-se com o próprio processo civilizatório. Mais
precisamente, à relação entre o homem e os mitos, lida pelos autores
frankfurtianos como inextrincável entrelace entre mito e
esclarecimento. Eis o que constitui uma das razões básicas pelas
quais Adorno e Horkheimer irão encontrar no Ulisses da Odisséia
de Homero o personagem modelar do “intelecto autocrático”
do esclarecimento.
Dialética ulissiana: primado da
autoconservação
Mito e ciência moderna nascem ambos da
luta pela autoconservação. O homem é um ser carente e finito, tendo
a incontornável necessidade de deparar-se com as forças da natureza
para permanecer vivo. A rigor, isso constitui o fundamento básico
que dá sentido para o que se pode chamar de autoconservação, astúcia
e (auto-)sacrifício ou renúncia de si.
Se o decurso da imanência positivista
determina que o esclarecimento não pode suportar nada mais além de
si, se ele tem a tendência de inanimar tudo, é porque ele representa
a compulsão da autoconservação, onde o eu torna-se exclusivo banindo
toda a diferença. A respeito, Olgária Matos observou que “a ciência
se reporta a uma natureza não mais qualitativa e animada, mas
quantitativa e formalizada. O mito antropomorfiza a natureza, a
ciência a objetiva para dominá-la intelectualmente, para reduzi-la à
dimensão do mesmo – o sujeito. A alteridade é negada porque a
simples existência do outro é a fonte de angústia”.
Esse caráter compulsivo da
autoconservação explica, portanto, a sua conspiração contra toda e
qualquer coisa que lhe seja exterior – “o eu se torna tão importante
para si que tudo o que lhe é exterior, outro em relação a si,
não tem valor nenhum a não ser um, negativo: o outro é visto como
hostil, perigoso e devendo ser dominado”.
Daí desdobra-se a dominação da natureza pelo processo da
subjetivação, formalização e padronização do mundo. É o que resume
Max Horkheimer ao dizer que “a história da civilização ocidental
poderia ser escrita em termos do crescimento do ego”, que substituiu
a dominação pela força bruta pela dominação espiritual planejada,
onde a natureza não passa de “simples instrumento para o homem”.
Numa passagem da Dialética do
esclarecimento, tal questão aparece nitidamente:
“A exclusividade das
leis lógicas tem origem nessa univocidade da função, em
última análise no caráter coercitivo da autoconservação”. A
essa afirmação corrobora o argumento de que a autoconservação
“culmina sempre na escolha entre a sobrevivência ou a morte, escolha
essa na qual se pode perceber ainda um reflexo no princípio [da
lógica] de que, entre duas proposições contraditórias, só uma pode
ser verdadeira e só uma falsa”.
Como prova a favor desse primado da
autoconservação, está ainda o fato de que se Ulisses pode lograr o
socorro de Polifemo com o ardil do nome, não é apenas porque os
impávidos ciclopes não tenham ainda chegado a um estado racional
avançado a ponto de saber separar as palavras das coisas e, assim,
compreender que um homem pode se chamar “Ninguém”.
Isso porque esta, como se retomará adiante, embora verdadeira, é uma
questão secundária. A questão principal, com efeito, é outra: a de
que os ciclopes vivem na terra da fartura e não
precisam se preocupar com a autoconservação. Essa é, diga-se de
passagem, a causa para que os versos esclarecidos de Homero possam
se espantar com o fato do ciclope não temer a Zeus e ser um “monstro
que pensa sem lei”.
Por isso Adorno e Horkheimer afirmam que “a abundância não precisa
da lei e a acusação civilizatória da anarquia soa quase como uma
denúncia da abundância”, no que reside, eles não se furtam de dizer,
“uma secreta confissão de culpa da própria civilização”,
que instalou o reino da desigualdade econômica e social.
Destarte, se Polifemo não separa palavra
e coisa, é porque o “seu eu”, imerso na natureza, ainda não passou
pelas adversidades da vida (ainda não se formou frente à natureza).
Neste sentido, Ulisses foi o seu mestre. Não por ensinar-lhe a
distinção entre palavra e coisa, mas sim por expô-lo à
vulnerabilidade. O grito de socorro do ciclope “Dolosamente
Ninguém quer matar-me, sem uso de força”
é a sua primeira preocupação importante com a autoconservação, ao
mesmo tempo que, à diferença dos demais ciclopes que o abandonam,
Polifemo grita porque já sabe, pelo seu olho furado – mesmo
que ainda não o soubesse bem explicar –, que “Ninguém”
definitivamente era alguém. Pela dor, ele percebe o dolo.
Nesse mesmo sentido é notório, também,
que o gigante despreza os deuses ao ser advertido por Ulisses de
que, em respeito a eles, não os devia violentar: “Nós, os ciclopes,
não temos receio de Zeus poderoso, nem dos mais deuses beatos, pois
somos mais fortes que todos”.
Entretanto, após ferido, Polifemo prontamente humilha-se, oferece
hospitalidade a Ulisses e roga sua cura ao deus Poseidon, seu pai.
De certo modo, é uma passagem da condição natural à cultura, cujo
trânsito se cumpre pela violência que expõe o ciclope ao problema da
autoconservação.
A tragédia do ciclope se dá por sua
hýbris (excesso), que Ulisses já conhecia na ira de Aquiles e a
evita respeitando os limites do métron (medida). Assim,
declara Polifemo como ímpio e legitima sua violência sobre ele, mas
sua pretensa superioridade civilizada desmascara-se no truque que
frauda o socorro solidário dos irmãos do ciclope. A hýbris se
contrapõe à sophrosýne (sabedoria) e métron vem de
mêtis (astúcia),
denotando que, em certas condições, o saber é astucioso pela razão
de que a hýbris traz a punição pela falta cometida. Aí radica
a legitimação moral e religiosa da renúncia de si, a domesticação da
natureza interna do espírito pela invenção da culpa e do castigo.
Certamente, neste ponto, a Dialética do esclarecimento
comunica-se com um tema nietzscheano da Genealogia da moral,
para quem “o genuíno efeito do castigo” deve promover “a
intensificação da prudência, o controle dos desejos”, o que “doma o
homem”.
Ulisses, tanto no caso das sereias
quanto no do ciclope Polifemo (para citar apenas dois dos confrontos
da subjetividade emergente contra as potências da natureza na
Odisséia), é-lhes inferior fisicamente, não podendo enfrentá-los
de forma direta. Por isso deve ser cauteloso, controlar seus
apetites instintivos e calcular friamente a hora em que pode quebrar
o encanto (a força) das potências míticas, o que ele faz por meio da
astúcia. Astúcia que Adorno e Horkheimer definem como “o
desafio que se tornou racional”.
Ulteriormente, nesse jogo, a questão da
autoconservação torna-se a motivação básica decisiva para a ciência,
assim como em Ulisses ela está na base da formação do eu. Tal
hegemonia faz com que o fato de a ciência ser o meio mais eficaz
para a autoconservação não só determine o seu poderio, como explique
a sua exclusividade contra tudo o que a rigor não esteja diretamente
ligado à autoconservação, como é o caso da arte e da filosofia.
Essa observação de Rodrigo Duarte é
importante por trazer à lembrança o problema-chave da
autoconservação: o de que nela o eu precisa abstrair-se da natureza
para não perecer. Mas essa abstração é problemática, porque ela
significa separar-se de algo de que o eu não pode separar-se – algo
que é o mais indispensável à sua conservação, ou seja, a própria
natureza.
É o que está bem compreendido nesta
formulação de Marx: “O homem vive da natureza significa: a
natureza é o seu corpo, com o qual ele tem de ficar num
processo contínuo para não morrer. Que a vida física e mental do
homem está interconectada com a natureza não tem outro sentido senão
que a natureza está interconectada consigo mesma, pois o homem é uma
parte da natureza”.
De uma tal determinação
decorre que “toda tentativa de romper as imposições da natureza
rompendo a natureza, resulta numa submissão ainda mais profunda às
imposições da natureza”.
Trata-se, portanto, do
problema que Adorno e Horkheimer denominam de situação em que o
homem subtrai-se ao sacrifício (permanece vivo) sacrificando-se. Em
termos da racionalização identitária moderna, isso se expressa na
absolutização unilateral da abstração conceitual, na qual a
capacidade intelectiva da espécie humana esquece de sua pertença ao
gênero animal e daquilo que Adorno advertiu na Dialética negativa:
que, como parte da realidade que visa dominar, o conceito tem origem
em algo não-conceitual. Por isso mesmo, Adorno preconiza que é
necessário pensar com o conceito para além do conceito, “voltando-o
para o diferente em si mesmo”.
No confronto com o ciclope Polifemo,
Ulisses se vale do ardil do nome para safar-se do sacrifício de ser
devorado pelo apetite antropofágico da enorme e assustadora
criatura. Esse recurso denota uma alteração no mundo da linguagem
mítica. No estatuto mítico do destino, a palavra deveria ter um
poder direto sobre as coisas, coincidindo expressão e intenção.
Diferentemente, “a astúcia [...] consiste em explorar a distinção,
agarrando-se à palavra, para modificar a coisa”, fazendo surgir o
que Adorno e Horkheimer chamam de “consciência da intenção”, onde,
“premido pela necessidade, Ulisses se apercebe do dualismo, ao
descobrir que a palavra idêntica pode significar coisas diferentes”.
Sabendo que Oudeis pode se referir tanto a “herói” quanto a
“ninguém”, Ulisses logra quebrar o encanto do nome.
Para Adorno e Horkheimer, “Ulisses
descobre nas palavras o que na sociedade burguesa plenamente
desenvolvida se chama formalismo”. E acrescentam que “o preço de sua
validade permanente é o fato de que elas se distanciam do conteúdo
que as preenche em cada caso e que, à distância, se referem a todo
conteúdo possível, tanto a ninguém quanto ao próprio Ulisses”. Nesta
abstração, os autores vêem no ardil de Ulisses, que safa-se do
sacrifício denominando-se “Ninguém”, uma adaptação da linguagem a
algo que está morto, nulificado, o que para eles já constitui, no
texto da Odisséia, “o esquema da matemática moderna”,
no qual “a
multiplicidade das figuras se reduz à posição e à ordem, a história
ao fato, as coisas à matéria”. Com a lógica formal viabilizando o
processo da calculabilidade do mundo, “o número tornou-se o cânon do
esclarecimento. As mesmas equações dominam a justiça burguesa e a
troca mercantil”.
No episódio das sereias, onde Adorno e
Horkheimer vêem prefigurar a divisão moderna do trabalho, Ulisses
abre uma ferida sobre sua natureza interna ao desfrutar da arte das
canções amarrado, ou seja, reprimindo seu desejo de deixar-se
envolver livremente por elas, num encontro que afetou todas as
canções, ilustrativo da laboração da música ocidental sob o
“contra-senso que representa o canto na civilização”.
Nos dois episódios, Ulisses se separa da
natureza. Não apenas da natureza externa, porquanto também
aliena-se/estranha-se de sua natureza interna. No caso das sereias,
reprime o desejo da fruição livre da arte. No caso do ciclope,
prefere negar-se a si próprio como “ninguém”, no lugar de dar vazão
ao instinto de enfrentá-lo pela força da espada. Em ambos, impera a
força racional como repressão da natureza interna do homem. Num
caso, tem-se o rigor da razão contra a sua perturbação pelas
paixões. Noutro, tem-se mais concretamente a força racional
substituindo a força bruta.
Como escreveu Nietzsche, “todos
os instintos que não se descarregam para fora voltam-se para
dentro – isto é o que chamo de interiorização do homem: é
assim que no homem cresce o que depois se denomina sua ‘alma’”.
Na luta pela autoconservação, a razão
precisa eliminar tudo o que porventura lhe possa trazer o elemento
do desequilíbrio a perturbar a prudência bem-medida de suas ações
estratégicas. Por isso Ulisses desiste de enfrentar Polifemo pela
espada valendo-se da negação de sua identidade e amarra-se ao mastro
da nau para ouvir as sereias. Afinal, tanto o impulso contra
o ciclope, quanto o desejo de ir ter com as sereias o
levariam à morte. Estão aí já lançadas as bases gerais da
razão instrumental calculadora, indispensáveis à efetivação prática
da unidade entre dominação do homem sobre a natureza e do homem
sobre o homem: “Todo
o esclarecimento burguês está de acordo na exigência de sobriedade,
realismo, avaliação correta de relações de força. O desejo não deve
ser o pai do pensamento. Mas isso deriva do fato de que, na
sociedade de classes, todo poderio está ligado à consciência
incômoda da própria impotência diante da natureza física e de seus
herdeiros sociais, a maioria”.
Ulisses encarna o advento do eu
esclarecido para a dominação da natureza: “‘onde há perigo cresce
também o que salva’” – repetem os filósofos frankfurtianos citando
Hölderlin –, sendo que este eu dá-se como “unidade que é
tão-somente na multiplicidade de tudo aquilo que é negado por essa
unidade”,
pois é no pressuposto do separar-se da natureza que se prefigura a
formação da consciência racional, com o que o eu pode elevar-se
acima das potências naturais do mundo mítico. Não por acaso,
doravante, na história das idéias, o pleito de uma relação mais
direta e imediata com a natureza convencionou-se chamar de
romantismo, agregando-se a esta expressão uma irredutível
desconfiança de ela conter universalmente algo de ingênuo e
reprovável, ou mesmo de reacionário, quando, na verdade, ela pode
incluir significados mais progressivos.
Dialética ulissiana: malogro da
astúcia no auto-sacrifício
Entrementes, a astúcia esclarecida que
se subtrai ao sacrifício supõe sempre a aceitação de um
auto-sacrifício, seja na automutilação de si pela repressão dos
desejos, seja na separação de si frente à natureza externa. A
astúcia paga com o preço de seus próprios sonhos, dizem os autores,
pois é somente sob esses subterfúgios que Ulisses sobrevive ao
confronto mortal com as forças míticas. De maneira que “o espírito
subjetivo que exclui a alma da natureza só domina essa natureza
privada da alma imitando sua rigidez e excluindo-se a si mesmo como
animista. [...]. O esquema da astúcia é a dominação da natureza
mediante essa assimilação”.
Aí já está semeada a maioria das mazelas que a abstração logicista
da ciência moderna vai sofrer rumo à sua recaída na mitologia, onde,
ao fim e ao cabo, “a dominação da natureza, sem o que o
espírito não existe, consiste em sucumbir à natureza”.
Nesse ínterim é que Adorno e Horkheimer
asseveram que “a história da civilização é a história da introversão
do sacrifício. Ou, por outra, a história da renúncia”,
uma vez que a “negação da natureza no homem” é o “núcleo de toda
racionalidade civilizatória”.
Ora, como dizem os autores, “no instante
em que o homem elide a consciência de si mesmo como natureza”
converte todos os fins para os quais ele vivia em meros meios, que
assim aparecem como os verdadeiros fins. Desse modo, tornando a
natureza um mero meio de manipulação para a sobrevivência, o homem
elide algo que não poderia elidir, pois, enquanto ser natural, não
pode se alienar da natureza sem estranhar-se de si mesmo. Com
efeito, a natureza é a fonte por excelência da vida e, portanto, de
qualquer autoconservação efetiva.
Essa relação reflexa entre o homem e a
natureza explica a tese de Adorno e Horkheimer segundo a qual “quem
pratica a renúncia dá mais de sua vida do que lhe é restituído, mais
do que a vida que ele defende”,
pois, como diz outra passagem igualmente complexa do livro, “a
constituição do eu corta exatamente aquela conexão flutuante com a
natureza que o sacrifício do eu pretende estabelecer. Todo
sacrifício é uma restauração desmentida pela realidade histórica na
qual ela é empreendida”.
Destarte, é a dialética do próprio
elemento da astúcia que mostra que Ulisses está tão longe quanto
junto dos mitos. Longe, porque no ardil da astúcia “a
oposição do ego sobrevivente às múltiplas peripécias do destino
exprime a oposição do esclarecimento ao mito”.
Junto, porque, na incontornável implicação da renúncia, a
astúcia confessa a sua queda na mitologia, pois, como Adorno
observou em Mínima moralia, “nos mitos, a concessão de uma
graça era a aceitação do sacrifício”.
De fato, como interpreta Olgária Matos lendo os autores, “o núcleo
comum entre sacrifício ritual e a ratio abstrata
burguesa é o princípio da troca, o equivalente”
– princípio aprendido na fase juvenil do pensamento, na relação
“comercial” dos homens com os deuses, como pode-se ver desde a
Ilíada.
A Odisséia é obra exemplar para
Adorno e Horkheimer porque a força do ardil ulissiano é o protótipo
da automatização do pensamento esclarecido na ciência moderna, que,
no jugo da natureza reduzida a esquemas quantitativos, vale-se de um
método inflexível, o qual marginaliza a sensibilidade do pensamento
para a esfera do não-científico, lugar destituído de qualquer
crédito. Mutatis mutandis, é um paralelo do modo como
Ulisses, para enfrentar as potências míticas, enrijeceu a sua
sensibilidade em prol da frieza do cálculo racional.
Portanto, o malogro da
astúcia ulissiana sob as gêmeas figuras do auto-sacrifício e da
renúncia é o mesmo malogro do conhecimento na abstração da lógica
científica sob a figura da regressão à mitologia. Coisa que aparece
de forma clara na similaridade terminológica de uma passagem da
Introdução à controvérsia sobre o positivismo na sociologia alemã.
Referindo-se ao distanciamento sujeito–objeto como a base da
história do espírito, mostrando quais eram as esperanças do
positivismo no uso que fez disso, ao mesmo tempo que asseverando o
resultado do seu engano, Theodor Adorno escreveu:
No distanciamento do sujeito em
relação ao objeto, que realiza a história do espírito, o sujeito
se esquivava da superioridade real da objetividade. Sua
dominação era de um mais fraco sobre um mais forte. De outro
modo, talvez a auto-afirmação da espécie humana não teria sido
possível como, certamente, também o processo da objetivação
científica. Mas, quanto mais o sujeito se apropriava das
determinações do objeto, tanto mais ele se convertia,
inconscientemente, em objeto. Eis a pré-história da coisificação
da consciência. O que o cientificismo simplesmente apresenta
como progresso sempre constituiu-se em sacrifício.
É assim que a autoconservação por meio
da astúcia casa-se com a renúncia e o sacrifício, seja na aurora da
espiritualidade humana, seja em sua hora tardia na ciência avançada.
Questão que Adorno e Horkheimer já tinham adiantado em seu
“Prefácio” ao dizerem que os conceitos de sacrifício e renúncia
“revelam tanto a diferença quanto a unidade da natureza mítica e do
domínio esclarecido da natureza”.
Isto posto, numa paráfrase do que Engels
atribuiu a Adam Smith quanto à propriedade privada em sua economia
política,
pode-se dizer que, na aurora da civilização, Ulisses procedeu como
Lutero ao tempo da Reforma. Lutero combateu a natureza exterior da
religião para internalizar a religiosidade no homem. Ulisses
combateu o sacrifício exterior para internalizá-lo como renúncia no
homem. Historicamente, essa renúncia se radicalizou ao ponto de hoje
a hýbris não estar mais nas atitudes antropofágicas de
Polifemo, nem nos excessos do destemor de Aquiles na Ilíada,
mas precisamente naquilo que Nietzsche diagnosticou: “Híbris é hoje
nossa atitude para com a natureza, nossa violentação da natureza com
ajuda das máquinas e da tão irrefletida inventividade dos
engenheiros e técnicos”.
Não esquecendo de que, na tragédia grega, hýbris significava
o orgulho e a arrogância do herói – e estes, enquanto tais, eram os
elementos responsáveis por sua queda.
Conclusão
No fim das contas, o elemento comum que
permite apreender, tanto o malogro do programa do esclarecimento –
em sua recaída na mitologia –, quanto a acusação de que o mito já
era esclarecimento, deriva-se do processo geral e histórico de
dominação da natureza. Elemento por sinal reputado por Rodrigo
Duarte como aquele que desempenha um papel central em toda a obra de
Adorno.
Para ilustrar com as palavras dos
próprios autores:
A essência do esclarecimento é a
alternativa que torna inevitável a dominação. Os homens sempre
tiveram de escolher entre submeter-se à natureza ou submeter a
natureza ao eu. Com a difusão da economia mercantil burguesa, o
horizonte sombrio do mito é aclarado pelo sol da razão
calculadora, sob cujos raios gelados amadurece a sementeira da
nova barbárie. Forçado pela dominação, o trabalho humano tendeu
sempre a se afastar do mito, voltando a cair sob o seu influxo,
levado pela mesma dominação.
Ou ainda, de forma mais
clara, com as de Max Horkheimer, que assinalam o lugar do problema
ao mesmo tempo em que acenam para a sua dimensão utópica: “A
enfermidade da razão está no fato de que ela nasceu do impulso do
homem para dominar a natureza, e a sua ‘recuperação’ depende da
compreensão interna da natureza da doença original, e não de uma
cura de seus sintomas posteriores”.
Ao fim e ao cabo, a
verdade inconveniente contida na dialética prototípica da
autoconservação e do sacrifício interpõe uma questão de fundo para o
dilema ecológico-social do capitalismo tardio e da sociedade de
consumo, que não pode ser contornado com ardis eufemísticos sob pena
de agravar ainda mais suas conseqüências: até que ponto e em que
condições poderá a humanidade se conservar e se desenvolver sem
meter-se num auto-sacrifício cada vez mais rotundo e irreversível?
Certamente que não sob as condições do reinado do capital, que só se
reproduz como produção destrutiva, onde o valor de troca, malgrado
sempre pressupor um valor de uso, retroage sobre este aniquilando
sua autonomia, com o interesse da troca sobrepondo-se à necessidade
do uso, fazendo com que à natureza, fonte original do valor de uso,
só se atribua reconhecimento quando presa aos fins instrumentais
mercantis.
Se Ulisses, o mais
astuto dos homens, que Adorno e Horkheimer apresentam como “trocador
ocasional” e “protótipo do indivíduo burguês”,
quando supõe-se a salvo, deseja reassumir seu verdadeiro nome em
bazófia que lança do mar ao ciclope cegado, mas este, guiado pelo
som, atira-lhe um rochedo que quase afunda a sua nau, isto indica
simbolicamente que o sacrifício implicado na luta pela
autoconservação não é algo de que se possa livrar facilmente. Tanto
que Ulisses o carregou consigo até o próprio lar em Ítaca, para onde
regressou, mesmo sob a proteção de uma deusa, ainda negando-se como
um mendigo.
Essa original
interpretação dos poemas homéricos por Adorno e Horkheimer, que
considera a Odisséia “um dos mais precoces e representativos
testemunhos da civilização burguesa ocidental”,
reitera a sua atualidade frente às evidências claras do colapso
ambiental, ao passo que a teoria da imbricadura entre
autoconservação e sacrifício soa como luminar advertência
contra o discurso da racionalidade fundada no valor de troca, que
segue impondo o seu brutal domínio da natureza como um progresso
insuspeito, quando não se apropriando instrumentalmente dos próprios
temas ambientais.
Luminar
sim, pois, para Adorno e Horkheimer, não se trata de ceder
indiretamente ao irracionalismo,
desacreditando sem mais a razão e a ciência modernas, mas de
evidenciar suas contradições e “preparar um conceito positivo do
esclarecimento, que o solte do emaranhado que o prende a uma
dominação cega”, para desbloquear dialeticamente, pela força da
negação da crítica, as tendências emancipadoras ainda existentes.
Sem pôr em causa a cultura como valor, “a questão é que o
esclarecimento tem que tomar consciência de si mesmo, se os homens
não devem ser completamente traídos. Não é da conservação do
passado, mas de resgatar a esperança passada que se trata”.
Referências
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negativa. 5. ed. Madrid: Taurus, 1992.
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sobre o positivismo na sociologia alemã. In: BENJAMIN, W. et al.
Textos escolhidos. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 215-263.
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reflexões a partir da vida danificada. São Paulo: Ática, 1992.
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regressão da audição. In: BENJAMIN, W. et al. Textos escolhidos.
São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 173-199.
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7. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
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Dicionário mítico-etimológico da mitologia grega. 4. ed. e 3.
ed. Petrópolis: Vozes, 2000. 2 v.
______. Mitologia grega. 15.
ed. Petrópolis: Vozes, 2000. v. 1.
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A odisséia. São Paulo: Atena, 1960. p. 7-16.
DUARTE, Rodrigo. Adornos:
nove ensaios sobre o filósofo frankfurtiano. Belo Horizonte: Ed.
UFMG, 1997.
______. Mímesis e racionalidade:
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Loyola, 1993.
ENGELS, Friedrich. Esboço de uma
crítica da economia política. Temas de ciências humanas, São
Paulo, v. 5, p. 1-29, 1979.
HEGEL, Georg W. F. Enciclopédia das
ciências filosóficas em compêndio (1830). São Paulo: Loyola,
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______. Fenomenologia do espírito.
7. ed. rev. Petrópolis/Bragança Paulista: Vozes/USF, 2002.
HOMERO. Odisséia. 3. ed. São
Paulo: Melhoramentos, s.d.
HORKHEIMER, Max. Eclipse da razão.
São Paulo: Labor do Brasil, 1976.
JAY, Martin. As idéias de Adorno.
10. ed. São Paulo: Cultrix, 1995.
JAMESON, Fredric. O marxismo
tardio: Adorno, ou a persistência da dialética. São Paulo: Ed.
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KAFKA, Franz.
O silêncio das sereias.
Folha de São Paulo, 6 maio 1984. Disponível em: <
http://almanaque.folha.uol.com.br/kafka2.htm >.
Acesso em: maio 2007.
KANT, Immanuel. Resposta à pergunta:
que é “esclarecimento” (“Aufklärung”)? In: ______. Textos
seletos. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1985. p. 100-117.
KURZ, Robert. Até a última gota.
Folha de São Paulo, São Paulo, p. 5:5, 24 ago. 1997.
LÖWY, Michael; SAYRE, Robert.
Romantismo e política. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993.
LUFT, Celso Pedro. Pequeno
dicionário da língua portuguesa. 2. ed. São Paulo: Scipione,
1984.
MARX, Karl. Manuscritos
econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004.
A respeito, numa passagem do livro, explicam: “Se a opinião
pública atingiu um estado em que o pensamento
inevitavelmente se converte em mercadoria e a linguagem em
seu encarecimento, então a tentativa de pôr a nu semelhante
depravação tem de recusar lealdade às convenções
lingüísticas e conceituais em vigor, antes que suas
conseqüências para a história universal frustrem
completamente essa tentativa” (Adorno, T. W.; Horkheimer, M.
Dialética do esclarecimento, p. 12).
Tal é, por sinal, o movimento lógico visado por Hegel em sua
Fenomenologia do espírito, obra que abriga, em seu
capítulo IV, a conhecida dialética do senhor e do escravo
citada por Adorno e Horkheimer. Entretanto, esta observação
não deve anular a percepção da influência da dialética
hegeliana sobre a Dialética do esclarecimento, e de
Hegel ser um autor com quem especialmente Adorno permaneceu
em constante diálogo ao longo de suas obras.
Sobre tal passo, é interessante lembrar que Schmied-Kowarzik
considera que, nos Manuscritos de 1844, Marx
retoma, mesmo sem os ter conhecido, a temática
homem–natureza dos textos hegelianos de Jena (Schmied-Kowarzik,
W. Práxis e responsabilidade, p. 107).
Não admira, portanto, que um pensador marxista que não
aceita secundarizar a importância da questão ecológica,
Michael Löwy, tenha tomado a iniciativa de contribuir, na
área da política, com Robert Sayre, para a distinção das
vertentes progressistas e revolucionárias do romantismo (Cf.
Löwy, M.; Sayre,
R. Romantismo e política).
Para uma análise das relações de troca na Ilíada,
obra que narra a guerra de Tróia, que precede a Odisséia,
ver Türcke, C. O nascimento mítico do logos. In: De Boni, L.
A. (Org.). Finitude e transcendência, p. 81-90.
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