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FRANKLIN LEOPOLDO E SILVA
Professor do Departamento de Filosofia da
Universidade de São Paulo – USP.

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Literatura e experiência histórica em Sartre: o engajamento
Franklin Leopoldo e Silva
Um livro possui sua verdade
absoluta na época. É vivido como revolta, como penúria. Com
muito menos intensidade, por certo, e por muito menos gente: mas
da mesma maneira. É uma emanação da intersubjetividade, uma
relação viva de raiva, de ódio, ou de amor entre aqueles que o
produziram e aqueles que o recebem. Em meio a uma época, cada
palavra, antes de ser histórica ou origem de um processo social,
é de início um insulto, um apelo ou uma confissão [...]. As
idéias são instrumentos ou fugas, os atos nascem da
intersubjetividade e a perturbam, como as emoções de uma alma
individual.
Começamos
citando esse texto por três razões, que são as três relações nele
estabelecidas. Em primeiro lugar, a ligação entre o compromisso e o
livro, talvez a definição mais simples e direta do engajamento
intelectual. Em segundo lugar, o vínculo entre intersubjetividade e
história, a nos mostrar que a gênese da palavra histórica está na
fala intersubjetiva. Em terceiro lugar, a relação entre idéias, atos
e subjetividade singular indicada pela analogia entre as emoções e a
alma individual.
Numa leitura mais atenta, contudo, as três relações
podem ser remetidas àquela que é mencionada em último lugar, como se
as duas outras nascessem dela. Com efeito, a verdade absoluta que um
livro possui na sua época não deriva de uma fundamentação objetiva
ou de uma descrição analítica que nos proporcionasse alguma
explicação total do tempo histórico, elaborada por via de mediações
científicas. A verdade do livro é vivida primeiramente como a
verdade da revolta e da miséria, numa dimensão absoluta que se dá
dentro da experiência subjetiva. Essa vivência, menos intensa do que
a das carências subjetivas é, entretanto, semelhante devido ao
caráter direto da participação do sujeito no absoluto vivido da
verdade, no contexto de uma intersubjetividade em que os sentimentos
são partilhados: o ódio, a raiva, o amor que constroem a comunicação
entre os interlocutores, isto é, os produtores e os receptores. E
assim a palavra traz primeiramente a carga subjetiva da produção de
um significado absolutamente direto, na medida em que serve
para insultar, para apelar, para confessar, ainda em termos de
relação imediata, entre os sujeitos, muito mais emotiva do que
socialmente estruturada. Tudo se passa como se houvesse alguma
pretensão de comunicação intersubjetiva direta, algo que, no
entanto, sofreria sempre a perturbação derivada dos próprios cortes
constituintes de uma intersubjetividade problemática. Então, a
palavra que se quer instrumento, de algum modo, tem a sua utilidade
frustrada pela opacidade relativa que torna impossível uma
comunicação intersubjetiva governada pela instrumentalidade, isto é,
pela univocidade pragmática do significado. A palavra parece
participar da incompletude expressiva das emoções.
Na própria dimensão originária de uma fala mais
direta, as palavras já encontram os obstáculos que se interpõem na
passagem do dizer ao ouvir – ou mais precisamente entre a produção
da escrita e a recepção pela leitura, pois é dessa relação que na
verdade se trata. Mas não se cogita aqui de qualquer alusão a um
possível drama da incomunicabilidade. Trata-se, antes, da estrutura
da relação entre a produção do texto e a sua apreensão, uma relação
que na prosa é sempre transitiva, entendendo-se por isso a dupla
atividade de constituição das significações, sempre dependente tanto
do escritor quanto do leitor. Ora, se no princípio dessa relação
estão os vínculos vivenciais que se podem manifestar pelo insulto,
pelo apelo, pelo amor e pelo ódio, o estrato intersubjetivo da
comunicação nunca aparecerá como uma instância transpessoal ou
objetiva, constituída pelas subjetividades singulares que se
relacionam. Dito de outro modo, quando as palavras se traduzirem em
processos sociais, elas jamais serão apenas operadores desses
processos, porque a dimensão subjetiva produtora de significações
não se perderá; ela se transformará ao encontro da dimensão objetiva
pela qual se apreendem as significações, o que só pode ser feito por
uma nova produção e por outros sujeitos participantes da
relação.
A palavra se torna histórica da mesma forma que a
ação: através de uma produção subjetiva da qual emana algo que se
desprende do sujeito, que dele se distancia a ponto de até mesmo
tornar-se estranha ao próprio sujeito que a produziu. Assim como no
caso da ação, temos de considerar duas faces que se manifestam
muitas vezes como contradição entre dois pólos opostos, que talvez
possam ser designados como subjetividade produtora e objetividade
produzida. E a mesma dificuldade se interpõe como distância
mediadora entre o sujeito que não mais reconhece a palavra subjetiva
socializada e o agente que não mais reencontra a intenção subjetiva
nos resultados históricos da ação. Tanto a palavra quanto a ação
perturbam a intersubjetividade porque os projetos intencionais
tendem a ser sempre necessariamente superados pelos outros, e isso
simplesmente porque os outros também falam e também agem a partir de
seus próprios projetos, outras tantas expressões da subjetividade.
Não nos surpreenderemos tanto com essa analogia se compreendermos
suficientemente as condições em que, para Sartre, palavra e ação
estão unidas por uma íntima relação. Quais são essas condições?
Em suma, a literatura é, por essência, a
subjetividade de uma sociedade em revolução permanente. Numa tal
sociedade ela superaria a antinomia entre a palavra e a ação.
Decerto, em caso algum ela seria assimilável a um ato: é falso
que o autor aja sobre os leitores, ele apenas faz um
apelo à liberdade deles, e para que suas obras surtam qualquer
efeito, é preciso que o público as assuma por meio de uma
decisão incondicionada. Mas numa coletividade que se retoma sem
cessar, que se julga e se metamorfoseia, a obra escrita pode ser
condição essencial da ação, ou seja, o momento da consciência
reflexiva.
Dissemos há pouco que as intenções subjetivas se
perdem nas condições objetivas em que são lançadas, na sociedade e
na história. Entretanto, na relação dialética entre as instâncias
subjetiva e objetiva, essa perda é constitutiva de realidade e de
significação, isto é, torna-se, de algum modo, ganho. Num certo
sentido, o escritor perde a significação subjetiva de sua obra
quando o leitor a assume, conferindo-lhe suas próprias
significações. Mas isso está dentro da relação transitiva, isto é,
do “apelo à liberdade” que define a obra. Esta nada seria se o
leitor não a assumisse por si mesmo, ou seja, se não se tornasse, na
leitura, também um produtor de significação. É uma consciência
reflexiva que faz contato com a obra; um sujeito leitor é aquele que
se encontra reflexivamente na obra; e esse encontro é por si mesmo
significativo no sentido de produzir significações. Atender
livremente, como leitor, ao apelo livre do escritor, é a
atividade de assumir a obra. O escritor não age sobre o leitor
porque não pode subordinar à sua a liberdade do leitor. Mas este,
aceitando o apelo, aceita um pacto de ação, de produção de
significação; eis aí uma ação que pode se constituir como condição
de outras ações. Essa relação entre liberdades constituiria uma
espécie de subjetividade social, que não anularia os sujeitos
singulares em questão, mas que nasceria deles, superando-os e
conservando-os, numa retomada constante da coletividade por si
mesma. Nesse sentido, “a obra escrita pode ser condição essencial da
ação”, nascida da reflexão enquanto atividade de significação.
Mas, assim como para que haja produção de
significações por parte do leitor é preciso que este não aceite a
obra como conjunto cristalizado de significações dadas, assim
também, para que a sociedade exerça essa função subjetiva de
retomar-se constantemente a partir da reflexão despertada pela
literatura, é necessário que ela não se veja como cristalizada em
suas estruturas; é preciso que os próprios significados de
indivíduo, de sociedade e das relações entre eles sejam
permanentemente postos em questão. Constante julgamento e
metamorfose, tais são as características dessa subjetividade de
uma sociedade. O escritor não age sobre o leitor;
tampouco este age movido imediatamente pelo escritor; mas
ambos agem a partir do encontro de liberdades que se expressa na
produção reflexiva de significações. Seria este o “reino da
liberdade humana. É claro que se trata de uma utopia. [...] Mas a
utopia nos permitiu vislumbrar em que condições a idéia de
literatura poderia manifestar-se na sua plenitude e na sua pureza.
Tais condições, sem dúvida, não são preenchidas hoje; e é hoje que é
preciso escrever”.
O engajamento deve ser pensado a partir de uma
experiência negativa da transitividade: não estão dadas as
condições em que a coletividade, na forma de público leitor, pode
responder com liberdade à liberdade do escritor; em que indivíduo e
coletividade se expressariam na retomada constante de si mesmos como
subjetividade social; em que não haveria dissociação entre
exigências subjetivas e exigências coletivas, a literatura sendo a
manifestação dessa reciprocidade ou a manifestação do universal
concreto. Ao enunciar essa idéia de literatura, estamos também
enunciando uma idéia de sociedade e, correspondentemente, as idéias
de indivíduo e de coletividade. E ao dizer tudo isso estamos dizendo
“que se trata de uma utopia”, que nada disso está realizado, que
nada disso talvez seja sequer realizável, mas que ainda assim “é
hoje que é preciso escrever”.
O engajamento deve ser pensado a partir de tudo o que
nos falta para realizar a idéia de literatura e a idéia de
sociedade, num regime de reciprocidade definido pela liberdade. A
condição da transitividade é a reciprocidade das liberdades. Assim,
a literatura engajada tem como horizonte um compromisso livre que
talvez jamais venha a existir e que, no entanto, é o componente
essencial da própria idéia de literatura. O critério e a motivação
do engajamento é a experiência da impossibilidade de uma literatura
que corresponda à sua idéia. Isso significa que no centro da própria
proposta de engajamento estão enunciações cujas referências são
inexistentes, não apenas no presente, mas também como possibilidade.
Ora, pode o inexistente motivar uma conduta, e mesmo orientá-la de
modo mais efetivo do que a realidade consolidada? Pode a experiência
negativa da literatura como reciprocidade de liberdades constituir
um meio de visar algum horizonte positivo para a própria literatura?
Estamos diante de uma questão ética.
E não apenas porque estaríamos falando do que a literatura deve
ser – ou do que a sociedade deve ser –, mas por causa de
uma profunda ambigüidade moral: escrever hoje não pode
significar sujeitar-se simplesmente às condições sociais dadas para
a literatura; isso seria fazer uma literatura justificadora e não
criticamente comprometida. Ao mesmo tempo, não há condições de se
fazer uma literatura que corresponda à sua idéia, pois as condições
sociais o impedem. Assim, seria preciso fazer uma literatura que
pusesse em questão a si mesma e as condições históricas de sua
elaboração. Ainda assim, esta literatura, que seria a realização
incompleta – ou mesmo negativa – de si mesma, somente se
justificaria pela transitividade, isto é, pelo apelo à liberdade do
leitor e pela possibilidade de que este correspondesse a tal apelo,
o que, como vimos, é um requisito que não pode ser preenchido nas
condições atuais. Pois o apelo a que o leitor produza significações
que coloquem a ele e à sociedade em questão já é em si mesmo
um chamamento à sua liberdade.
Na relação transitiva em que o leitor é chamado a
participar como produtor de significações, cabe ao escritor o elo
originante deste vínculo, arcar com a responsabilidade inerente à
criação da obra a partir da qual há de se produzir o apelo. Uma vez
que o homem é originariamente liberdade, e posto que liberdade é
escolha originária, isto é, invenção simultânea do ato, do critério,
do valor e da finalidade, esse começo radical que, em cada ato,
define o sujeito como projeto de si mesmo (para-si), é sempre
responsabilidade em sentido total e absoluto. Que a liberdade
absoluta seja vivida na contingência é apenas um sinal de que a
contingência, sendo também absoluta, deixa o homem entregue a si
mesmo. É exatamente a ausência de uma essência pré-determinante que
confere à existência esse estranho e paradoxal caráter absoluto. “O
homem, que se explica simultaneamente por tantas e tantas causas, no
entanto carrega sozinho o peso de si mesmo. Nesse sentido, a
liberdade pode passar por uma maldição, ela é uma maldição. Mas é
também a única fonte da grandeza humana”.
A fatalidade da liberdade está em que ela é um poder que o
homem possui e ao qual, ao mesmo tempo, está irremediavelmente
submetido na medida em que não pode se furtar a exercê-lo. Aí
estaria, talvez, o princípio do engajamento, como que já inscrito na
própria estrutura ontológica da subjetividade enquanto processo
existencial marcado pela contingência.
A contingência universal manifesta-se concretamente
na facticidade que define cada situação histórica através dos
limites que a época impõe ao exercício da liberdade. Como
compatibilizar os limites das ações livres com o caráter absoluto da
liberdade? Seria cômodo fugir ao paradoxo entendendo que o alcance
da liberdade seria sempre relativo às limitações históricas da época
em que se vive. Mas o relativismo é um álibi, na medida em que me
permite dividir a responsabilidade pelos atos e pelas conseqüências
das minhas decisões subjetivas com as condições objetivas nas quais
me é dado viver. Ora, o caráter originário e radical da liberdade
impede de aceitar o meio-termo relativista. Assim, por paradoxal que
seja, é preciso compreender a liberdade experimentada como absoluto
dentro dos limites da situação histórica. “Bem longe de sermos
relativistas, afirmamos bem alto que o homem é um absoluto. Mas ele
o é na sua hora, no seu meio, na sua terra. O que é absoluto, o que
mil anos de história não podem destruir, é essa decisão única,
incomparável, insubstituível, que ele toma em tal ou qual momento, a
propósito de tais ou quais circunstâncias”.
Dito de outro modo, a liberdade não é relativa porque cada ato, cada
decisão, cada escolha, ocorrem num regime de singularidade, isto é,
na superação e na conservação da particularidade das condições
subjetivas e da generalidade das condições objetivas. O sujeito não
é livre em si mesmo, porque nenhum sujeito existe em si
como coisa ou como entidade metafísica, já que a subjetividade nada
mais é do que o movimento de autoconstituição de si mesma, num
processo totalizante de identificação destinado a nunca se
completar.
Já que nunca se é livre para deixar de ser livre, não
se pode praticar a evasão. O escritor não pode evadir-se da sua
hora, de seu meio, de seu tempo, pois, quando tenta fazê-lo, o faz
ainda a partir de uma liberdade situada que escolhe mascarar. A
fatalidade da liberdade supõe então o grande arco que une escolha e
responsabilidade, mesmo quando os resultados objetivos das ações não
correspondam às intenções subjetivas. Nesse sentido, o engajamento
em Sartre tem algo da aposta pascaliana: é preciso apostar, vous
êtes embarqué. Mas, como fatalidade e liberdade se identificam,
como o destino é sempre a construção prática de uma vida e de uma
história, a responsabilidade é assumida como corolário de uma
liberdade da qual não se pode fugir. Esta é a razão pela qual é
necessário que o escritor “abrace estreitamente sua época; ela é sua
única chance; ela é feita para ele e ele é feito para ela”.
Este é o significado concreto da situação, como hora e como lugar da
liberdade, mas ao mesmo tempo como escolha absoluta, isto é, como
invenção de si e de seu tempo.
Por que invenção? Porque a liberdade é antes de tudo
a experiência da possibilidade enquanto compromisso com o futuro. A
noção de projeto existencial – e de projeto histórico – faz com que
“uma época, como um homem, seja antes de tudo um futuro”.
Entenda-se: a escolha é radical porque nela não está implicada
necessariamente a realização; uma escolha é sempre um começo de ação
que pode ou não se realizar ou que pode realizar-se de modo
inteiramente diverso de seu propósito inicial, pois a decisão
compromete o futuro enquanto projeto. É por isso que o teor
ético – ético-político – do engajamento exclui completamente
qualquer cálculo moral. É como se a possibilidade fosse uma
experiência em si mesma e o compromisso com o futuro fosse uma
aposta no inexistente, ou naquilo que não existe ainda. Nesse
sentido, a contingência, se de um lado limita a certeza pela
ausência de necessidade, de outro abre o campo do possível, que
significa a ação livre motivada não pela realidade – pelo presente –
mas pelo inexistente – pelo futuro que ainda não é real. E, como
essa experiência do que não é, sendo apenas possível, é escolha
radical, é também invenção de finalidade e de valor de modo imanente
à ação. Assim, é pela imanência do sujeito a si mesmo, isto é, à sua
liberdade, que ele pode transcender-se a si mesmo e à sua época,
negar a condição presente em nome de uma condição futura.
Contingência e negação permitem o exercício da liberdade pela qual o
“homem inventa o homem”.
Percebemos, assim, a relação entre a definição da
literatura engajada como liberdade que apela à liberdade e à
compreensão da literatura como negatividade, algo que está ligado ao
entendimento da arte como liberdade de negar o existente por via da
intencionalidade imaginante da consciência. Mas é preciso explicitar
essa negatividade ou esse poder negador, pois ele pode ser entendido
como uma irresponsabilidade inerente ao artista. Isso ocorreu no
caso da negatividade romântica pela qual o gênio se isola do mundo;
por uma literatura governada pelo princípio da arte pela arte, como
em Flaubert; pela negatividade da palavra que recusa a
transitividade significativa e se encerra na sua pura materialidade,
como em certas tendências modernas da poesia; ou pela contestação
surrealista da ordem da significação. Para Sartre, em nenhum desses
casos a negatividade aparece como instrumento de engajamento, pois
em nenhum deles há um compromisso verdadeiro com a negação. São
exercícios solipsistas nos quais a literatura trai a sua função
transitiva. Ou são meios de que o artista se serve para separar a
liberdade da responsabilidade. A negatividade autêntica se expressa
no procedimento literário pelo qual é oferecido ao leitor um
“espelho crítico” diante do qual ele é levado a negar a si mesmo e
ao contexto de sua experiência histórica. Isso só é possível na
prosa, razão pela qual, pelo menos na contemporaneidade, o romance é
o gênero de arte em que o engajamento se torna possível.
Há que se levar em conta, entretanto, que o escritor
é um intelectual, mas que nem todo intelectual é um escritor de
romances, razão pela qual é preciso dizer algo acerca dessa questão
mais geral que é o engajamento do intelectual, entendendo o processo
histórico de seu aparecimento e de sua transformação. Através dessa
análise, Sartre chega a distinções históricas importantes: o
intelectual na Idade Média, isto é, o clérigo, situa-se dentro de um
determinado regime de interlocução definido pelo círculo fechado
daqueles que têm acesso às letras, e que na sua quase totalidade
estão ligados à Igreja. O intelectual dos séculos XVI e XVII também
escreve para outros intelectuais, mas sua referência sócio-política
é a nobreza, que exerce um mecenato direto e indireto, e o desejo do
mecenas é ver-se retratado na obra que patrocina. O intelectual do
século XVIII é aquele que já se relaciona com um público no sentido
moderno do termo, e tem uma relação orgânica com a burguesia
enquanto classe ascendente, como é o caso dos philosophes. No
século XIX a burguesia, agora classe dominante, já não necessita
mais de laços orgânicos com o intelectual que a represente, e surge
então uma espécie sutil e complicada de recusa mútua, que não exclui
a dependência do intelectual do público burguês, como se vê em
Flaubert. Há uma dissolução do público a partir da condição ambígua
do intelectual, que recusa sua classe de origem sem que, entretanto,
venha a desvincular-se dela.
Essa separação problemática tem sua razão no fato de
que a burguesia consolidada já não precisa tanto de intelectuais que
a justifiquem, mas muito mais de técnicos que atuem como
funcionários do progresso naquilo que realmente interessa: a
promoção do saber prático. O intelectual contemporâneo surge quando
esse “técnico do saber prático” toma consciência, em si mesmo e
através de seu trabalho, do caráter formal da universalidade
proclamada pela burguesia nos grandes princípios das revoluções
modernas. Ao perceber que os princípios universais são abstratos e
mascaram interesses concretos de classe, o “técnico do saber
prático” objetiva sua crise de consciência em crítica
do sistema, tornando-se assim um intelectual, isto é, assumindo um
compromisso de negação do presente que é, ao mesmo tempo, de
construção do futuro. O técnico torna-se um intelectual quando
coloca seus instrumentos de conhecimento da realidade a serviço de
uma decifração crítica dessa mesma realidade. Mais concretamente,
quando recusa o humanismo universalista e abstrato como o pano de
fundo de uma sociedade pautada por interesses particularistas
impostos pela classe dominante.
Assim, como todo sujeito, o intelectual é aquele que
conhece o mundo, a si mesmo e se dá a conhecer aos demais
objetivando as significações vividas no plano de uma consciência
separada de si mesma e que expressa singularmente as condições
gerais de uma sociedade dividida. Essa objetivação da subjetividade
nesse caso se faz, porém, por meio de instrumentos racionais de que
o intelectual dispõe, e que lhe foram primeiramente fornecidos pela
burguesia em vista de sua própria justificação. A origem da
consciência crítica é, pois, a contradição vivida subjetivamente e
objetivada no compromisso de representá-la intelectualmente. É
preciso acrescentar que essa representação e o engajamento que ela
supõe também são permeados pela contradição.
As contradições situam-se primeiramente, como é
óbvio, na experiência humana concreta que se desenvolve como
história individual e coletiva; mas situam-se também no plano da
expressão, isto é, na passagem do processo vivido de
subjetivação ao plano objetivo em que esse processo deve
expressar-se através da linguagem. Essa passagem é complexa porque
não se trata simplesmente do trânsito linear da subjetividade à
objetividade: a própria subjetividade se forma pela incorporação
individual das condições objetivas que depois são exteriorizadas por
sujeitos singulares, isto é, por indivíduos que são
particulares na medida em que carregam em si a universalidade de que
participam, nos vários aspectos da existência. Esse paradoxo da
existência, que consiste em estar em si estando fora de si,
manifesta-se na atividade expressiva pelo jogo de presença e
ausência das significações. “Se o escritor adota a linguagem
corrente, não é apenas na medida em que a linguagem pode transmitir
um saber, mas também na medida em que não o transmite”.
Aqui não se trata apenas da velha idéia de que haveria no fazer
artístico uma luta pela expressão derivada da diferença entre o que
deve ser expresso e os meios expressivos de que se dispõe,
dificuldade que levaria o artista a inventar e a criar. Para Sartre,
essa diferença, que na verdade é uma contradição, deve ser vista
como constitutiva da expressão.
Para que haja transitividade no sentido do apelo de
uma liberdade à outra na produção de significações, a linguagem
utilizada pelo escritor não pode ser, evidentemente, uma estrutura
léxica e gramatical consolidada, como no limite acontece com as
linguagens técnicas em que a eficiência instrumental depende da
univocidade dos significados. O escritor, diz Sartre, utiliza a
língua comum que se desenvolve livremente, aquela em que os acordos
tácitos são demasiado frágeis para garantir uma estabilidade
significativa. Ao mesmo tempo, há um campo de possibilidades
instrumentais que são dados em cada época, e que possui limites
definidos dentro dos quais o escritor deve se mover. Ele o fará
contraditoriamente: ao mesmo tempo em que os limites restringem as
possibilidades expressivas, estas se realizarão pela transgressão
desses mesmos limites. As duas coisas ocorrem ao mesmo tempo porque
o escritor, simultaneamente, se submete às limitações e as
transcende, como acontece com todo exercício de liberdade em
situação. Haverá assim uma deformação no próprio ato de
constituição da expressão. E a subjetividade que se objetiva ao
expressar-se também sofrerá deformação. Isso significa que, na
dimensão objetiva, o resultado da expressão pode ser mais ou
menos do que a intenção subjetiva, assim como pode ser
outra coisa ou também outra coisa.
Se de um lado essa deformação frustra a intenção
significativa (Sartre diz que a época nos rouba o pensamento), de
outro ela manifesta a liberdade e a transitividade constitutivas da
literatura, ou o seu regime próprio de relação intersubjetiva. O
engajamento literário exige a transitividade porque a literatura tem
uma função, que é falar ao outro, e de modo a que este produza atos
de significação que o levem a conhecer-se e ao seu contexto. Essa
função é social, mas isso não rebaixa a literatura – ou não
deveria rebaixá-la – a simples instrumento ideológico. Como vimos,
essa função social é cumprida por via da liberdade, do apelo da
liberdade do escritor à liberdade do leitor. Mas, também como vimos,
essa função é cumprida conscientemente na medida em que a prosa
literária fale o mais diretamente possível acerca do tempo e do
espaço historicamente compartilhados. É nesse sentido que Sartre
entende que pode emitir um julgamento (negativo) acerca do espírito
de análise de Proust e da omissão de Flaubert e Baudelaire em
relação aos acontecimentos da época em que viveram. A época de cada
um é também a sua oportunidade de vida, e a sua “única chance”. Ela
lhe concerne, pois, intimamente. Até porque, na medida em que o
escritor não pode se evadir, ele exprimirá sua época e sua situação
nas próprias tentativas de evasão, como Sartre mostra nos estudos
sobre Baudelaire e Flaubert.
Enfim, a função social da literatura deriva de que
ela é sempre uma produção histórica, e de que os escritores não
detêm o privilégio de uma subjetividade supra-histórica, sendo
também eles histórias individuais, processos existenciais de
subjetivação inscritos na contingência. O engajamento é, na sua
acepção mais geral, se assim podemos dizer, conseqüência de que o
homem é uma questão para si mesmo, e uma questão, ao mesmo tempo,
pessoal, social, metafísica e histórica, que se constrói no
entremeio de uma relação em que a subjetividade somente se revela ao
objetivar-se, revelação que supõe, portanto, um processo em que a
subjetividade não se dissolva nas determinações objetivas. Um
conhecimento que saiba manter essa tensão dialética é aquele que
Sartre designa como o do homem total, que não é uma
representação totalizada do homem, mas das múltiplas significações
que o totalizariam. “Totalmente engajado e totalmente livre”,
por mais difícil que seja essa elaboração de uma representação
totalizante feita de oposições e contradições, que devemos
considerar sinteticamente, embora sem a pretensão de chegar a
uma síntese acabada. E por isso mesmo a literatura não pode
ser doutrina, não pode ser exposição de totalidades, sobrevôo
universal, tese definitiva sobre a “natureza” humana, nem pode ter
qualquer critério diretor que não seja a responsabilidade do
escritor. Este é, na verdade, responsável pelo engajamento e pela
literatura, e cada um deve resolver, como puder, os eventuais
conflitos que venham a nascer 0dessa indissociabilidade. “Lembro,
com efeito, que na ‘literatura engajada’, o engajamento não pode, em
nenhum caso, fazer esquecer a literatura e que nossa preocupação
deve ser a de servir à literatura infundindo-lhe sangue novo, assim
como servir à coletividade tentando lhe oferecer a literatura que
lhe convém”.
Referências
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