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GONZALO ADRIÁN ROJAS
Doutor Ciência Política (USP). Pesquisador
Colaborador e Pós-doutorando no Departamento de Ciência Política
– IFCH/Unicamp. Professor da Escola Nacional Florestan Fernandes
do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (ENFF/MST).

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Paulo
Ribeiro da Cunha. Aconteceu longe demais. A luta pela terra
dos posseiros de Formoso e Trombas e a Revolução Brasileira
(1950-1964). São Paulo, Editora Unesp, 2007, 306 pp.
Aconteceu longe demais
Gonzalo Adrián Rojas
Nós sempre tivemos a
visão de que se haveria uma revolução operário-camponesa, aqui o
nosso papel era fundamentalmente com as massas camponesas. Outro
fator importante era que estávamos sob o fogo da vitória da
Revolução Chinesa. A Grande Marcha nos causou um entusiasmo
enorme, aí houve uma guinada à luta camponesa com o
Manifesto de Agosto.
Nós acreditávamos que, no Brasil, o movimento camponês era o
início de um movimento de libertação nacional. O estado de Goiás
era eminentemente agrário e por isso o P.C.B. tinha uma tradição
muito grande de lutas no campo.
Valter Waladares,
participante da guerrilha, entrevista de Ana Lúcia Nunes para o
jornal A nova democracia, ano IV, n° 129, abril de 2006.
As classes subalternas, por definição, não
estão unificadas; portanto, a importância da política radica na
possibilidade da sua unificação histórica. Diferentemente das
classes dominantes, cuja unidade orgânica se dá no Estado ou na
sociedade política, a história das classes subordinadas é uma função
desagregada e descontínua da história da sociedade civil. Na esteira
de Gramsci, podemos entender as classes subalternas como um
conjunto heterogêneo de frações de classes que não formam parte do
bloco histórico dominante em uma formação econômico-social dada.
Com espírito militante e rigor acadêmico, Paulo
Ribeiro da Cunha convida-nos a atravessar esta ponte que liga
as lutas dos posseiros de Formoso e Trombas em Goiás
(1950-1964) e a atualidade das lutas populares no Brasil.
A pouco conhecida “República de Formoso e Trombas”,
uma vitória na história construída dialeticamente pelo campesinato
brasileiro na sua luta pela terra, é analisada no marco dos
processos políticos da sua época. O autor debruça-se, assim, na
análise dos processos de
ocupação e das lutas que o precederam, da fase de resistência, do
período da luta revolucionária e do papel de José Porfirio,
principal liderança que se incorporou como militante comunista nesse
mesmo processo da luta.
Em termos teóricos, o livro reflete com profundidade
as elaborações acerca das relações sociais no Brasil – feudais ou
capitalistas? – um debate encerrado na “academia”, mas que ainda se
encontra em aberto entre os movimentos populares. Retoma, assim, as
teses de Caio Prado Junior, Alberto Passos Guimarães e Nelson
Werneck Sodré, bem como as polêmicas decorrentes desse debate.
Ao problematizar, em termos teóricos e políticos, o
conceito de campesinato, Cunha introduz agudas observações às teses
desenvolvidas por Eric Hobsbawm e Eric Wolf, privilegiando como
sujeito da história o povo organizado e criticando, assim, as
análises marxistas – as quais denomina “ortodoxas” – centradas no
proletariado urbano enquanto sujeito. Os traços essenciais
dessas críticas estão presentes em intelectuais militantes do
PCB como Mário Alves e Nestor Vera, os quais reavaliam o papel do
campesinato, que passa a adquirir centralidade no processo
revolucionário brasileiro.
O autor retoma, portanto, a trajetória do PCB –
partido do qual foi militante – fazendo, no entanto, emergir as
dificuldades da intervenção do Partido, principalmente no campo, em
virtude de vários fatores: sua debilidade, tanto organizativa, como
da sua formação teórica, bem como as crises políticas nacionais e
internacionais que o afetaram naquele momento.
Abordando, em particular, a formação de PCB no estado
de Goiás, Cunha faz um levantamento dos elementos que dificultaram
sua inserção no campo até a década de 1950. Procura, pois, apontar
as mudanças ocorridas nas políticas e nos elementos delineadores da
estratégia política do PCB e de seu Comitê Central, mudanças estas
concernentes à luta de Formoso e Trombas, no marco da crise
do XX Congresso de PCUS, assim como aos impasses e às dicotomias
entre lideranças intelectuais e camponesas até 1964.
Desta forma, resgata o processo de luta e a
intervenção do PCB nesta região, analisando, assim, a complexa
articulação, entre o PCB, a Associação dos Trabalhadores e
Lavradores Agrícolas de Formoso e Trombas (fundada em 1955) e a
criação dos Conselhos de Córregos, que viabilizaram e facilitaram a
comunicação e a atuação dos posseiros que resistiam à repressão
policial. É, pois, através deste resgate que tenta demonstrar que o
real poder político estava inserido naquilo que denomina Núcleo
Hegemônico, o eixo político e organizacional condutor do
processo de luta na região, sendo a Diretoria da Associação composta
de uma maioria comunista.
O autor propõe uma discussão política,
necessariamente polêmica e aberta, acerca do caráter das revoluções
camponesas, criticando deste modo as leituras preconceituosas e
superficiais sobre o PCB do referido período. Considera, a partir
dessa crítica, ser um equívoco a avaliação, após 1954, da
possibilidade de um completo controle orgânico do comitê central de
todo o processo político, independentemente das particularidades
regionais e locais, nas quais os militantes comunistas estavam
inseridos.
Cunha faz uma reconstrução sistemática e polêmica.
Sistemática por conter a expectativa de restauração da ponte entre
um passado de lutas e a atualidade; polêmica porque, muitas vezes,
tanto em sua sagaz crítica aos críticos do PCB, como na sua idéia de
autonomia política das direções locais, parece existir uma excessiva
diferenciação entre a direção e os quadros intermediários, algo
difícil de ser imaginado num partido com a característica
organizativa do PCB, ou seja, formalmente centralista democrática,
mas, nos fatos, muito provavelmente centralista burocrática.
Cunha também nos faz lembrar que a estratégia das
Ligas Camponesas (LC), dirigidas por Francisco Julião, gerou
resultados diametralmente opostos aos esperados. No momento em que
abandona a linha legalista em 1962 propõe, externamente ao PCB, a
fundação de um Partido Revolucionário. Os resultados – dúbios –
dessa fundação acarretaram, pois, a perda da sua influência junto ao
campesinato e o crescimento, junto
ao PCB, de setores da Igreja e da Ação Popular (AP). A
debilidade das LC faz com que elas se ausentem da fundação da
Confederação dos Trabalhadores da Agricultura (CONTAG), controlada
pelo PCB e aliada à AP. O autor não temeu a intenção do “moralista”
de julgar se essa possibilidade era correta, reconhecida e coerente,
procurando, assim, analisar como se justifica essa posição política
ou quando e como os atores pensaram as possibilidades fornecidas
pela realidade para organizar sua ação. É importante antecipar a
seguinte elucidação: tanto as estratégias políticas “reformistas”
como as “revolucionárias” foram derrotadas, embora não de maneira
definitiva. Disto resulta que, na tentativa de análise do processo
político não se deve confundir categorias políticas com categorias
analíticas.
Finalmente, é através de uma importante reflexão que
o livro nos mostra que as lutas não começam sempre do zero ou do
mesmo ponto de partida; há sempre uma tradição de luta que devemos
recuperar para o entendimento as lutas atuais como sua continuidade;
e esse é um aporte político de suma importância. Sem dúvida, as
ditaduras militares na América Latina procuraram destruir essa
memória histórica das lutas dos setores subalternos, através das
prisões, assassinatos e desaparecimentos. Mas qualquer alternativa
contra-hegemônica que procure construir um novo bloco histórico deve
reconstruir essas pontes, tal como pretende o autor. Neste sentido,
Aconteceu longe demais... é um livro que combina, na dose
certa, a energia de um militante e o rigor teórico e acadêmico de um
importante pesquisador.
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