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DAL
RI, N.M.; VIEITEZ, C.G. Educação Democrática e Trabalho Associado
no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e nas Fábricas de
Autogestão. São Paulo: Ícone: FAPESP 2008.
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As
implicações da educação democrática e trabalho associado
Osney Marcos Cardoso
A obra Educação democrática e trabalho associado
no movimento dos trabalhadores rurais sem terra e nas fábricas
de autogestão, publicada pela Ícone Editora e pela Fapesp, em 2008,
é resultado de um trabalho de pesquisa, tendo como problemática
central estudar dentro das Organizações de Trabalho Associado (OTAs),
a educação ligada à autogestão ou ao autogoverno dos trabalhadores.
Entendendo o capitalismo como um sistema
essencialmente destrutivo gerando entre suas conseqüências a
destruição e a precarização da força de trabalho e a degradação do
meio ambiente, os autores partem de uma crítica à educação
capitalista, chegando às propostas educacionais alternativas do
Movimento dos Sem Terra (MST) e da Associação Nacional dos
Trabalhadores em Empresas de Autogestão (Anteag) que tem uma visão e
uma pratica diferenciadas da educação oficial.
O livro proporciona o entendimento de como as
contradições existentes no sistema capitalista, possibilitam o
aparecimento de formas de trabalho alternativas, as quais estão
ligadas às formas educacionais anti-hegemônicas autogestionárias.
Em relação às experiências econômicas populares, que
têm surgido em vários países do mundo e que têm sido definidas como
formas econômicas alternativas ao capitalismo ou formas
econômicas não-capitalistas, os autores enfatizam que há
necessidade de cuidados na utilização desses termos, tanto pela
falta de suporte empírico e teórico para confirmá-los, quanto pelo
fato de continuarem a se configurar como propriedades privadas que
participam do mercado capitalista. Entretanto, os autores salientam
que isto não diminui sua relevância, pelo fato de modificarem
significativamente as relações de trabalho no interior dos
empreendimentos.
Dentre as formas de organização que estão sob a
denominação de alternativas ou de economia solidária, a
justificativa dos autores, por se interessarem especificamente pelas
empresas e cooperativas de autogestão urbanas ligadas à Anteag e as
cooperativas de produção agropecuária (CPAs) do MST, está no fato de
que são as organizações nas quais ocorrem as maiores modificações
nas relações de produção e na gestão dos empreendimentos e que
apresentam uma maior preocupação com o aspecto educacional. É
preciso destacar que estas duas organizações sempre consideraram a
educação como estratégica para a consecução de seus objetivos.
A Anteag não chegou a sistematizar uma pedagogia, e
suas atividades educacionais mais importantes, que foram analisadas
neste livro, são os cursos oferecidos para os dirigentes e as
denominadas Bolsas Autogestionárias para dirigentes e trabalhadores
do chão de fábrica. Em relação ao MST, foram investigadas neste
trabalho a escola de ensino médio e profissional, Instituto de
Educação Josué de Castro (IEJC) e a escola de educação fundamental
pública Construindo o Caminho (ECC), por serem emblemáticas da
proposta educacional do Movimento.
Há duas questões investigativas as quais o livro
procura responder, sendo a primeira básica e a segunda subsidiária:
Qual a força determinante da organização das ações educacionais da
Anteag e da proposta educacional do MST? A proposta ou a pedagogia
da Anteag e do MST contém elementos válidos para a elaboração de um
programa educacional para as classes dos trabalhadores em geral?
Em resposta a primeira questão, os autores demonstram
no decorrer do trabalho que a proposta educacional da Anteag e do
MST, se constroem em torno de três eixos determinantes: a) a
reestruturação das relações de produção com base no trabalho
associado de autogoverno dos trabalhadores; b) a influência de
elementos teóricos e de certas correntes pedagógicas; c) a luta de
classes. Estes elementos combinados deram existência à visão
pedagógica da Anteag e do MST. Entretanto, o trabalho associado é
dentre elas a determinante, já que se consolida como vetor político
e ideológico articulando as outras duas.
Em face do segundo questionamento proposto no livro,
os autores entendem que o que eles têm é a hipótese de que visando o
aprofundamento do debate e o aperfeiçoamento das idéias, objetivando
a construção de um programa educacional para a classe dos
trabalhadores, as experiências educativas da Anteag e do MST, que
vêm sendo desenvolvidas no transcorrer de mais de duas décadas devem
ser aproveitadas.
Dentre as inovações de maior importância trazidas
pelas escolas do MST, os autores enfatizam a gestão democrática da
escola e a união do ensino com o trabalho produtivo, que é fruto da
incorporação de uma longa discussão no campo educacional da tese do
trabalho como princípio educativo
Sendo a democracia um dos princípios pedagógicos do
MST, nas escolas do movimento, a participação da comunidade escolar
não se dá de forma facultativa num viés liberal. Participar do
governo da escola é uma tarefa pedagógica obrigatória, extrapolando
a condição de um direito, para se tornar uma obrigação. A gestão da
escola é considerada como uma tarefa orgânica regular no MST. E este
fato pode ser notado claramente tanto no IEJC como na ECC.
Na escola capitalista, a organização escolar não
costuma ser apresentada como um fator pedagógico importante, sendo
vivenciada sem maiores reflexões e preocupações. No entanto, para os
autores a organização da escola é um importante elemento pedagógico,
é um currículo que se encontra oculto por não fazer parte dos
conteúdos programáticos.
Apesar dos progressos conseguidos, os autores
ressaltam que tanto o trabalho associado quanto a educação que se
articula a ele, são formas organizacionais de transição, que
emergem tanto como recusa dos sujeitos sociais a certos
determinantes capitalistas, como parte de um processo que busca
construir uma sociedade democrático-igualitária ou socialista.
Os autores entendem que o trabalho associado de
autogoverno democrático constitui uma espécie de infra-estrutura das
ações e organizações educativas do MST e da Anteag. Desta forma,
acreditam que as organizações escolares engendradas são elas mesmas
formas de trabalho associado informal ou potencial, ou seja, a
educação aparece indissociável do trabalho associado.
Uma organização de trabalho associado é, em geral, um
empreendimento econômico privado, mas pertencente a um grupo de
trabalhadores que surge e se expande em função de quatro elementos
chaves: o desemprego estrutural; a precarização do mercado de
trabalho; a ideologia; e a autonomização do trabalho.
Diferente da maioria das cooperativas que são criadas
com poucos conflitos, nos casos das empresas de autogestão e das
cooperativas do MST, o conflito de classes é parte constitutiva de
seu processo de criação, já que ao questionar a natureza da
propriedade e suas funções, bem como as liberdades constitucionais
desfrutadas pelos capitalistas para delas dispor, acabam despertando
a ira das classes dominantes, especialmente no caso do MST, em
virtude do alcance e da radicalidade de suas ações.
O MST e a Anteag são entidades independentes e muito
diferentes. No MST o conflito surge logo no início com o processo de
ocupação de terras. Já na transformação das empresas em
autogestionárias, não há uma política de confronto com a empresa
capitalista convencional. No plano mais geral, envolvendo a política
e a concepção de mundo, o MST busca uma transformação social rumo ao
socialismo, enquanto a Anteag preocupa-se com a expansão das
empresas de autogestão. Entretanto, elas têm pontos comuns em
relação à organização do trabalho associado e, em correspondência
com esta, à organização de atividades educacionais de orientação
democrática.
Os autores consideram que a sociedade capitalista é
constituída concomitantemente por relações de produção endógenas às
unidades de produção, e por relações exógenas de intercâmbio de
mercadorias. O trabalho associado altera as relações endógenas
capitalistas das unidades de trabalho, introduzindo relações de
natureza democráticas, já que a propriedade pertence ao coletivo de
trabalhadores, bem como são eles como um todo que devem diretamente
administrar o empreendimento. Assim, o caráter de mercadoria que a
força de trabalho tem no capitalismo tende a ser desarticulado nas
OTAs.
Entretanto, o segundo pilar do modo de produção
capitalista, do intercâmbio das mercadorias, continua inalterado nas
OTAs, ou seja, elas continuam sendo reguladas pela lei do valor ou
do intercâmbio de mercadorias da mesma forma que uma empresa
capitalista. Especificamente nas organizações aqui estudadas o MST e
a Anteag, aparentemente não há visão ou esforços práticos que
busquem alterar esta realidade.
É também necessário considerar que as OTAs não se
configuram como um local de relações de trabalho harmoniosas, mas
sim como um local em que a velha luta de classes entre o capital e o
trabalho se desenrola, sob novas formas. Assim, tanto as CPAs,
quanto as empresas de autogestão enfrentam dificuldades e
contradições.
Apesar das contradições e dificuldades existentes nas
CPAs, elas são uma forma de organização da economia nos
assentamentos que se mostram superiores à pequena propriedade
individual e também a outras formas de organização no campo, bem
como a de muitas famílias que vivem empregadas na cidade.
Em resumo, o MST e a Anteag abriram um front
de luta no território primordial do controle sobre a produção.
Este front, no entanto, na atual etapa da luta é restrito
a certos segmentos e está autocontido. Todavia, parece
lógico supormos que o movimento democrático apenas poderá
avançar com a agregação crucial dessa contribuição se a trilha
aberta for expandida, e se o movimento vier a encetar a luta em
todas as principais instâncias da sociedade. Esta flexão é tanto
mais importante quanto é historicamente evidente que aqueles que
detêm os privilégios nada entregarão sem luta (DAL RI; VIEIEZ,
2008, p.326)
Para as pessoas e especialmente para os educadores
alinhados com a perspectiva de uma visão de mundo mais democrática,
a leitura deste livro é tarefa obrigatória, pois propicia a
oportunidade de conhecer propostas educacionais alternativas
vinculadas a movimentos sociais reconhecidos internacionalmente, mas
que costumam ser retratados por grande parte da mídia de forma
distorcida e demoníaca.
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