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MARLI AURAS
Professora Titular do CED/UFSC, aposentada.

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Waldir
José Rampinelli (Org.) O preço do voto – Os bastidores de uma
eleição para reitor. Florianópolis: Editora Insular, 2008, (2ª
edição revisada e ampliada).
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Considerações históricas sobre o preço do voto para reitor ou do
coronelismo tosco ao coronelismo ilustrado
Marli Auras
A discussão que se travou acerca da educação
brasileira em 1823 na primeira Assembléia Nacional Constituinte,
logo após a proclamação da Independência, é largamente expressiva no
que tange aos rumos históricos que a questão escolar tomaria no
âmbito do processo de formação do Brasil. Os constituintes, em sua
ampla maioria formada por bacharéis em direito e por clérigos,
professaram “uma confiança exaltada na eficiência das leis (...) e
criam poderem, pela via legislativa, construir a nação independente”.
(Este formalismo, aliás, perdurará ao longo de toda a nossa
história.) Nenhuma discussão séria foi por eles travada com relação
à instrução pública, gastando-se o tempo no arrastar de
questiúnculas sobre a premiação a ser dada a quem apresentasse um
tratado de educação para a mocidade brasileira. A partir, no
entanto, do momento em que os senhores constituintes passaram a
discutir, “a pedido de estudantes brasileiros em Coimbra”,
a necessidade de criação de universidades em nosso país, a questão
das primeiras letras não mais veio à tona. Embora nos trabalhos
constituintes os discursos tenham sido mais efusivos com relação a
importância do ensino superior (afinal, tratava-se de questão
demandada entre pares, já que não havia representação popular na
Constituinte), nem mesmo assim houve proposta para a efetiva criação
de universidades no território nacional.
O processo de independência do Brasil não foi
radicalizado (na América Latina, fomos os únicos a manter a
monarquia), o grosso da população permaneceu ignorante das tramas
oficiais. “Depois da Independência, as fórmulas amplas e
universalizantes do liberalismo retórico foram definidas nos seus
termos concretos, ficando evidentes os seus limites. A partir de
então, ficaria claro para quem e por quem tinha sido o país feito
independente. Para as elites que tiveram a iniciativa e o controle
do movimento, liberalismo significava apenas liquidação dos laços
coloniais. Não pretendiam reformar a estrutura de produção nem a
estrutura da sociedade. Por isso a escravidão seria mantida, assim
como a economia de exportação. (...) A fachada liberal construída
pela elite europeizada ocultava a miséria, a escravidão em que vivia
a maioria dos habitantes do país. Conquistar a emancipação
definitiva e real da nação, ampliar o significado dos princípios
constitucionais foram tarefa relegada aos pósteros”.
Numa sociedade mantida sob o jugo da escravidão qual
seria mesmo a importância de uma educação pública (no sentido de
popular)? Praticamente nenhuma, pois a riqueza de então era
produzida pela mão-de-obra cativa e o escravo, esta “ferramenta
vocálica”, aprendia a trabalhar trabalhando (e a ferro e fogo, como
acentuava o Professor Florestan Fernandes). A desconversa dos
constituintes em relação a educação popular tinha sentido: a escola
de primeiras letras poderia e deveria ser anunciada, mas não seria
efetivada para o conjunto da população, por ser paradoxal naquele
contexto histórico. Algumas dessas escolas de primeiras letras,
aqui e acolá, em condição de eterna indigência (sem formação de
professores, sem prédio escolar adequado, sem material escolar
condizente, sem obrigatoriedade escolar, etc.), teriam que surgir
para que umas e outras crianças, que fossem livres e sadias,
pudessem aprender a ler e escrever e, sobretudo, pudessem aprender
(e disseminar) a virtude da morigeração, dos bons costumes, do que,
enfim, era tido como boa educação. Afinal, nossos governantes, sem
abrir mão da escravatura, pretendiam alçar o Brasil a condição de
“nação civilizada” e, para tanto, não poderiam dar inteiramente as
costas ao imperativo iluminista de semear escolas. Como vimos,
neste mister o terreno da política oficial era pouco fértil e as
escolas, então, existiriam sim, mas seriam ralas e raquíticas.
Mais que aprender conteúdos propriamente ditos
(repito, não havia cuidado para com a formação de professores;
qualquer um dentre os poucos que sabiam ler e escrever - geralmente
ligados à igreja ou à polícia -, desde que fosse considerado
morigerado, poderia ser professor), havia a férrea preocupação
governamental para com as posturas públicas, para com o
disciplinamento, para com a manutenção da ordem. “Civilizar (...)
significava, antes de mais nada, estender o raio de ação da
autoridade, significava generalizar o princípio da ordem”.
A ampliação e disseminação do conhecimento, a formação de espíritos
indagativos, a inventividade enfim, estavam fora de questão. Nas
poucas e parcas escolas de primeiras letras os alunos tinham que
aprender a ler através do uso de catecismos católicos, a religião
oficial do Estado imperial brasileiro.
Os senhores do Brasil monárquico resolviam o problema
da educação de suas próprias crianças no âmbito particular, o de
suas respectivas casas, mediante o trabalho de preceptores. Depois,
enviavam seus jovens para cursar universidades européias ou, numa
condição então crescentemente considerada melhor, em alguma escola
superior criada aqui mesmo no Brasil, para que, num “nobre
estímulo”, tais jovens bem nascidos não tivessem mais que sofrer as
agruras de cruzar o Atlântico e ainda ter que permanecer “ali
debaixo dos mais duros tratamentos e opressão” (referência a
Universidade de Coimbra)
.
O processo de formação cultural e profissional dos
bacharéis da Faculdade de Direito de São Paulo, entre 1827 e 1887,
foi atravessado pelo imperativo político da formação de quadros para
o atendimento da demanda da burocracia estatal. “Desde cedo, os
cursos jurídicos nasceram ditados muito mais pela preocupação de se
constituir uma elite política coesa, disciplinada, devota às razões
do Estado, que se pusesse à frente dos negócios públicos e pudesse,
pouco a pouco, substituir a tradicional burocracia herdada da
administração joanina, do que pela preocupação em formar juristas
que produzissem a ideologia jurídico-política do Estado nacional
emergente. (...) o ‘segredo’ do ensino jurídico no Império foi,
justamente, o de nada ou quase nada haver ensinado a respeito de
ciências jurídicas. (...) os interesses políticos associados às
camadas populares não estiveram presentes na vida acadêmica. (...)
uma coisa é certa: o ímpeto com que se manifestaram as
reivindicações populares durante a revolução descolonizadora e mesmo
no curso da construção do Estado Nacional não encontrou na vida
acadêmica paulista espaço para se materializar”.
A vida acadêmica desses bacharéis-aprendizes-do-poder, que, uma vez
graduados, vieram a ocupar cargos importantes na burocracia estatal
em constituição (ministros, presidentes de províncias, deputados,
juizes de direito, delegados de polícia, inspetores, etc.), esteve
longe de implicar no aprendizado de questões que tivessem a ver com
a democratização da sociedade brasileira. O poder era entendido como
“monopólio das elites brancas, proprietárias, livres e - agora, sim
– letradas. (...) [Deste modo] o liberalismo adquiriu, na sociedade
brasileira durante a vigência do período monárquico, uma forma
acentuadamente conservadora, centrada em torno da salvaguarda dos
direitos de propriedade (...). Disso resulta o significado da arte
da prudência e da moderação política (...) o repúdio ao radicalismo”.
Nossa formação histórica ocorreu a partir da
disseminação de uma forte posição eurocêntrica. As elites políticas
imperiais não tinham dúvida de que a civilização (para elas, no
entanto, um conceito “algo frouxo”)
provinha sobretudo da Inglaterra e da França. O influente Conselho
de Estado, considerado o cérebro da monarquia e composto, na grande
maioria, por bacharéis em Direito, entendia que “fora da Europa
somente os Estados Unidos eram considerados modelo aceitável. Uma
vez apenas aparece [no conjunto das 144 atas consultadas relativas
as reuniões, por décadas, do Conselho] um país latino-americano, o
México, quando da discussão da legislação de minas. No que se refere
à América do Sul, os conselheiros não divergiam do conjunto da elite
política que nela via apenas nações turbulentas, caudilhescas, pouco
propícias à garantia das liberdades públicas e hostis ao Brasil como
nação e como monarquia. Ásia e África estão totalmente ausentes”.
Tal projeto de formação, fruto da política do amplo e
férreo domínio das forças conservadoras, tem revelado todo o seu
vigor e pertinácia no longo desdobrar da história deste país. Entre
nós, o fim da escravidão como política oficial só foi possível como
último recurso, depois da viabilização de várias estratégias, legais
ou não, que buscavam, a todo custo, alongar mais e mais a
permanência do trabalho cativo. Quando, por fim, foi abolida
oficialmente a escravidão (Lei Áurea, 1888), com ela ruiu também a
própria monarquia. Em 1889, através de um golpe militar, a República
foi proclamada, sem que tal fato significasse uma ruptura
fundamental no andamento do processo histórico de formação do
Brasil. “A debilidade das classes médias e do proletariado urbano
propiciou a preponderância das oligarquias rurais até 1930. (...) As
condições de vida dos trabalhadores rurais continuaram as mesmas;
permaneceram o sistema de produção e o caráter colonial da economia,
a dependência em relação aos mercados e capitais estrangeiros”.
A novel república, então formalmente proclamada, sem
povo, sem participação popular efetiva, também seria mantida sob
rédeas curtas pelos de cima, a serviço da reprodução dos seus
próprios interesses. A vasta legião de negros ex-escravos e de
brancos pobres ficaram/continuaram relegados ao deus-dará (o que,
para os primeiros, já poderia significar algum vislumbre de
esperança no horizonte, se tivermos presente que a igreja católica
esteve, como religião oficial, de braços dados com o regime
escravocrata...).
No século XIX, como já vimos, a escola pública
brasileira de primeiras letras não foi efetivada. Alguns cursos
superiores foram criados para atender, sobretudo, a demanda das
elites. Interessante destacar que, embora descentralizasse,
delegando às províncias e/ou aos municípios a responsabilidade para
com a oferta da instrução básica (sem oferecer diretrizes e bases
nacionais para tal intento, uma vez que a primeira Lei de Diretrizes
e Bases da Educação Nacional, LDB, data de 1961, ou seja, a exatos
139 anos após a proclamação da independência!), o governo central
jamais descurou de manter em suas próprias mãos a questão do ensino
superior, que lhe dizia (e lhe diz) diretamente respeito. As
primeiras universidades brasileiras serão erguidas somente na
primeira metade do século XX, ao longo do qual, com bastante vagar e
eivada por problemas, também a escolarização básica vai sendo
efetivada via aumento da matrícula. A democratização da educação
escolar passa a ser uma exigência do processo de modernização pelo
qual o país passa. Mas tal modernização, no interior da
especificidade do processo histórico brasileiro, ocorreu/ocorre de
modo conservador, largamente excludente. Como o definido
politicamente lá atrás, com prudência e moderação, sem radicalismos.
Com muito custo, o governo nacional assumiu/assume a obrigatoriedade
escolar como dever do Estado. Já é possível afirmar-se, hoje, que o
grosso das crianças brasileiras frequentam a escola pública, mas
nossas crianças estão numa escola que se caracteriza fortemente pela
baixa qualidade da educação que oferece e pelas altas taxas de
evasão e repetência. Face à nossa história, tal quadro não é
consentâneo? Assim como não são também coerentes a indigência dos
serviços prestados pela política de saúde pública, a continuidade da
segurança nos velhos moldes repressivos, o subemprego, o minguado
salário mínimo, os cortiços e favelas esparramados pela paisagem de
nossas grandes cidades, enfim, a miséria generalizada? Não somos
considerados, hoje, um país economicamente portentoso, mas
socialmente injusto? Aliás, dados estatísticos comparativos entre
países têm evidenciado que no quesito concentração de renda a taça
do mundo (ainda) é nossa. Até quando? As universidades, sobretudo
as públicas, nada têm a ver com a (re)produção desta realidade tão
desigual?
O momento presente entendido como trabalho pretérito,
como resultado da ação dos homens e das mulheres que nos
antecederam, ao procedermos o seu inventário, nos possibilita
percebermos nele fortes expressões da dialética
continuidade/descontinuidade. O considerável recuo no tempo
processado neste texto procurou evidenciar o quanto nosso passado
não passou, ainda é presente.
Acaba de sair do prelo da Editora Insular, em
Florianópolis, a segunda edição, revista e ampliada, da obra O
preço do voto – Os bastidores de uma eleição para reitor, sob a
organização do professor Waldir José Rampinelli. A primeira edição,
de 2004, já esgotada, teve como objeto a eleição de 2003 para a
escolha do reitor da UFSC. A segunda, por sua vez, incorpora artigos
que tratam da última eleição, realizada em 2007, também relativa ao
âmbito da UFSC. Professores, estudantes, jornalistas e servidores
técnico-administrativos que participaram intensamente desses
processos eleitorais produziram um expressivo conjunto de escritos
com a preocupação de contribuir, cada um a seu modo, para o
entendimento do ocorrido. Há na obra indicações de fontes primárias
expressivas e, como não poderia deixar de ser, fartas e sérias
denúncias. Afinal, o livro expressa o compromisso de seus autores
com a necessidade de avançar o debate (e as práticas!) acerca da
democratização da universidade, fato que implica defesa
intransigente do caráter público (no sentido de popular) e gratuito
desta instituição escolar. “A privatização do espaço universitário
guarda estreita relação com os processos de corrosão da esfera
pública, em especial nas formações sociais dependentes como a
brasileira. (...) esta deterioração da esfera pública, estreitamente
vinculada ao processo de mercantilização das relações sociais, é
incompatível com o debate aberto e a participação efetiva da maioria
nos processos decisórios fundamentais”.
O livro ora em referência registra/denuncia a
ocorrência de fortes embates, não propriamente acadêmicos – como
seria de se esperar, em se tratando de uma instituição pública de
ensino superior –, durante o período das eleições para a escolha do
reitor. “Ao invés de aproveitarmos o processo eleitoral para criar
uma inteligibilidade recíproca, de debatermos e valorizarmos as
diferenças exercitando a prática republicana, este é vivido como uma
suja batalha travada com armas desiguais, onde um lado tem a força
do dinheiro e do poder institucional”. A obra torna
público, por exemplo, que a Agência de Comunicação da UFSC ficou em
silêncio, alheia ao que estava acontecendo no campus; que
ex-reitores atuaram intensamente como cabos eleitorais; que festas
de formandos foram patrocinadas pela chapa da situação; que amplas
cervejadas “chapa branca” rolaram no Bar do Pida (funcionário da
UFSC); que o Núcleo de Processamento de Dados foi utilizado a favor
da candidatura Prata/Paraná; que houve ameaças a docentes e
técnico-administrativos de perdas de suas funções
gratificadas/cargos comissionados, bem como para tantos outros de
promessas de acesso a essas mesmas funções; que houve ameaças a
alunos de perdas de suas bolsas de estudos; que, dos 11 diretores de
centros que constituem a Universidade, 7 arregaçaram as mangas em
favor da chapa Prata/Paraná. “Rodolfo [Pinto da Luz, por três vezes
reitor da UFSC] partidariza sempre que pode as consultas para reitor
na universidade, utilizando-se de toda a pressão externa, retirando
a autonomia do campo científico. Consegue mobilizar parte da elite
dominante catarinense em torno do empreendimento. A ação costuma
envolver desde o governador de plantão, os partidos de direita,
parcela considerável da mídia e seus intelectuais orgânicos, bem
como parte das empresas que tem negócios com a instituição”.
Por falar em empresas que têm negócios com a Universidade, os dois
mais recentes Boletins da Apufsc, o 633 e o 634, das duas últimas
semanas de abril do corrente, trazem farta e seríssimas denúncias
sobre o trabalho das fundações no âmbito da UFSC, notadamente no
caso da Fundação de Ensino e Engenharia de Santa Catarina, FEESC.
Manchetes dos Boletins referidos (cuja agudeza dispensa
comentários): “Dívida com Previdência ameaça futuro da Feesc”,
“Fundações se apropriam de patrimônio público que é a universidade”,
“Feesc faturou R$ 444 milhões em seis anos – Caixa da Fundação, no
entanto, só dispunha de R$ 4,3 milhões”.
Desde a criação da UFSC, em 1960, todos os reitores
(com exceção do reitorado de Diomário de Queiroz e Nilcéa Pelandré,
1992-1996), sufragados ou não pelas urnas, provinham do campo das
forças políticas conservadoras e “mantinham com os governos
militares uma convivência pacífica ou um apoio entusiasta”.
Como vimos explorando neste texto, tudo isso é coerente com nossas
raízes históricas, das quais herdamos o que presentemente somos e
sofremos, sem trocadilhos, um pobre país rico.
Para concluir este artigo e afirmar, mais uma vez, a
importância da leitura e da discussão acerca do livro O preço do
voto - Os bastidores de uma eleição para reitor, transcrevo um
trecho do Posfácio da Segunda Edição, de autoria do professor
Rampinelli, organizador da obra: “A hegemonia de dois centros (...)
– CTC e CCS - inviabiliza, hoje, a chegada à Reitoria de qualquer
candidato que não seja seu ou apoiado por suas forças. Isso deveria
ser preocupante para toda a universidade, tendo-se em conta que
parte significativa do CTC [Centro Tecnológico] já se deslocou da
UFSC, buscando sua razão de ser basicamente no mercado; ao passo que
muitos integrantes do CCS [Centro de Ciências da Saúde] nem chegaram
à universidade, tamanho o número de profissionais com 20 horas de
trabalho” (p. 225-226).
Resgatar e aprofundar o compromisso público das
Universidades Federais, como a UFSC, não é condição fundamental para
o avançar da democratização econômico-social do país? Não é tarefa
nossa, na condição de “pósteros”, conquistar a emancipação
definitiva e real da nação e ampliar o significado dos princípios
constitucionais (como bem registrou a historiadora Emília Viotti da
Costa, referida no início deste escrito)?
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