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PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil



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Falácias acadêmicas, 1: o mito do neoliberalismo
Paulo Roberto de Almeida
1. Da pouco nobre arte de ser falaz
Falácia, segundo os bons dicionários, é a qualidade
ou o caráter do que é falaz, que, por sua vez, é um adjetivo
sugerido como sendo o equivalente de enganador, ardiloso ou
fraudulento, ou, ainda, quimérico, ilusório ou enganoso. Pois bem,
ao longo de minhas “peregrinações” acadêmicas, tenho tido a
oportunidade de deparar-me com exemplos de afirmações, argumentos,
postulações, teses ou artigos inteiros que correspondem ao caráter
enganador ou, até mesmo, fraudulento contido nesse adjetivo.
Comecemos esta série por um dos mais recorrentes em nossos tempos.
Como sabem todos aqueles que convivem com a
literatura acadêmica na área de ciências sociais, nenhum conceito
tem sido tão equivocadamente mencionado no ambiente universitário,
nas últimas duas décadas, quanto o epíteto “neoliberal”, junto com o
seu correspondente coletivo e doutrinal, o “neoliberalismo”. A
incidência estatística de seu (mau) uso é tão notória, que se
poderia falar de uma verdadeira epitetomania anti-neoliberal,
dirigida contra todas as políticas econômicas associadas, de perto
ou de longe, ao chamado mainstream economics, este
representado pelas correntes ortodoxas de pensamento e suas práticas
econômicas correspondentes.
Junto com o substantivo usado e abusado de
globalização, ou, ainda, o tão mais detestado quanto praticamente
desconhecido programa econômico do “consenso de Washington”, o
neoliberalismo converteu-se, simultaneamente, em um xingamento e em
um slogan de uso praticamente obrigatório por todos aqueles que
pretendem desqualificar e condenar as políticas e as práticas da
escola econômica convencional. Eles o fazem, supostamente em nome de
uma outra orientação, de uma doutrina ou de uma escola, que seriam,
alegadamente, heterodoxas, alternativas e até mesmo opostas às
primeiras. Os argumentos e teses utilizados para esse tipo de
condenação são pouco compatíveis com um trabalho analítico sério, ou
seja, capazes de passar pelos testes da coerência, relevância,
compatibilidade com os dados da realidade e passíveis de aferição,
independentemente dos próprios argumentos que sustentam a acusação.
Nesse sentido, o neoliberalismo já se converteu em um
mito acadêmico, isto é, deixou de significar uma realidade empírica,
aferível por dados extraídos de alguma situação concreta, para
passar a representar uma entidade nebulosa, definida de modo muito
pouco precisa, aplicada a diferentes conjunturas de países e
políticas vagamente caracterizadas como pertencendo ao domínio dos
“livres mercados”, em oposição ao que seria uma regulação estatal
mais estrita. Não se é neoliberal por vontade própria, mas apenas
por ter sido assim catalogado por aqueles que detêm o monopólio
dessa classificação, que são, invariavelmente, os opositores de
supostas idéias “neoliberais”.
Por certo, existem muitos outros abusos acadêmicos em
relação a diversos conceitos que são usados indevidamente no
panorama pouco rigoroso das nossas “humanidades”, entre eles o de
classe, o de imperialismo, o de burguesia e vários do mesmo gênero.
Contudo, o manancial de falácias que brota sem cessar a partir do
uso inadequado do adjetivo “neoliberal” é provavelmente o mais
abundante e o mais disseminado de que se tem registro desde os anos
1980. São tantas as variedades de uso e as manifestações
qualitativas – ainda que superficiais – em torno desse termo, que
fica difícil ignorá-lo como o campeão absoluto de referências numa
série analítica que pretende, justamente, examinar alguns exemplos
de falácias acadêmicas. Seu uso é tão corrente e banal que pode ser
espinhoso selecionar uma “falácia” representativa de toda uma
corrente de pensamento que se propõe aqui submeter ao crivo da
crítica argumentada e sistemática.
Encontrei, porém, no contexto de minhas leituras, um
texto suficientemente representativo de uma falácia acadêmica
associada ao dito conceito e perfeitamente ilustrativo do mito
mencionado no título deste ensaio. Vou proceder à citação do texto
em questão, submetendo o trecho selecionado à crítica que pretendo
fazer de toda uma orientação doutrinal muito comum nos meios ligados
à comunidade universitária que se move em torno das chamadas
humanidades. Os únicos critérios que me guiam na releitura crítica
do texto em questão são aqueles que se espera encontrar em todo e
qualquer trabalho acadêmico: clareza na descrição ou exposição dos
fatos, coerência na apresentação dos argumentos, relevância do
discurso para a realidade de que se pretende tratar e sua adequação
aos dados dessa própria realidade.
2. As novas roupas do velho imperialismo, em sua
fase neoliberal
Deparei-me, num típico volume que deve figurar entre
as leituras obrigatórias ou recomendadas de vários cursos dentro
dessa área, com a seguinte afirmação:
“...o produto social da globalização, o
neoliberalismo tem sido o mais dramático possível. Em pouco
tempo esse novo regime de acumulação desagregou sociedades,
tornou os ricos mais ricos e ampliou a pobreza em praticamente
todos os cantos do mundo, especialmente as nações da periferia,
onde a barbárie social vem esgarçando o tecido social e
incrementando a violência em todos os sentidos.” (autor:
Edmilson Costa; artigo: “Para onde vai o capitalismo? Ensaio
sobre a globalização neoliberal e a nova fase do imperialismo”;
in Pedro Bohomoletz de Abreu Dallari (coord.), Relações
Internacionais: Múltiplas Dimensões; São Paulo: Aduaneiras,
2004, p. 201-233; cf. p. 206.)
Existe ainda outra frase extraída do mesmo artigo que
me parece adequada ao propósito de avaliar criticamente o mito do
neoliberalismo em certo pensamento acadêmico contemporâneo, embora
esta acima me pareça uma perfeita síntese de tudo o que existe de
equivocado e falacioso no “pensamento” universitário em torno desse
conceito onipresente e polivalente. Vejamos em todo caso o
complemento ideal a ela:
“O neoliberalismo é a síntese de todo esse
processo de mudanças profundas que estão ocorrendo no sistema
capitalista: funciona como uma espécie de gerenciador
ideológico, político, econômico, social e cultural dessa nova
fase do imperialismo. Trata-se de uma ideologia primitiva para
os tempos atuais, com postulados do século XVIII e meados do
XIX, época do capitalismo concorrencial, mas com um apelo
espantoso ao senso comum. A ideologia neoliberal procura
manipular os sentimentos mais atrasados das massas, revigorando
os preconceitos, açulando o individualismo, distorcendo o
significado das coisas, reduzindo os fenômenos à sua aparência,
de forma a ganhar os corações e mentes para o jogo do livre
mercado e da livre iniciativa.” (Idem, op. cit., p. 219)
Não vale a pena alertar para a incoerência de se
destacar o caráter “primitivo” de uma ideologia que, sendo de meados
do século XIX, tem mais ou menos o mesmo grau de “primitivismo” que
o marxismo, nem para a inconsistência de se vincular a defesa do
livre mercado e da livre iniciativa a “sentimentos atrasados das
massas”, já que a mesma ideologia estaria, supostamente, “açulando o
individualismo”. Pedir um mínimo de coerência analítica seria exigir
demais de um autor que, manifestamente, distorce o “significado das
coisas”, reduz o fenômeno do liberalismo à sua aparência, com o
provável objetivo de ganhar os corações e mentes de alguns
estudantes para o livre jogo dos seus argumentos ilusórios.
Passemos, portanto, a examinar cada uma das partes dessas
afirmações, elas mesmas espantosas, em relação ao neoliberalismo,
com a atenção que nos requer este exemplo consumado de fraude
intelectual (se é verdade que este último adjetivo se aplica ao caso
em questão).
3. O neoliberalismo como produto de uma imaginação
confusa
Em primeiro lugar, o neoliberalismo nunca foi um
“produto social da globalização”. Esta é um processo tão velho
quanto os empreendimentos marítimos dos mercadores fenícios da
antiguidade e as aventuras em mares desconhecidos dos navegadores
ibéricos do final do século XV. Em suas manifestações mais comuns,
ela vem sendo aceita tranquilamente até pelos mais empedernidos
opositores desse processo, aqueles que, sob inspiração francesa,
acreditam que “um outro mundo é possível” e que pedem por “uma outra
globalização”, que deveria ser não assimétrica e, preferencialmente,
não capitalista. Quanto ao neoliberalismo, a rigor, ele não tem nada
a ver com a globalização, podendo ser teoricamente encontrado em
diversos sistemas econômicos, bastando com que as práticas
econômicas se ajustem ao que se tem, via de regra, como os
fundamentos do sistema liberal: liberdade de iniciativa, pleno
respeito à propriedade privada e aos contratos, defesa do
individualismo contra as intrusões do Estado e, de modo amplo, um
conjunto de instituições e práticas que buscam garantir, tanto
quanto possível, a liberdade dos mercados.
A rigor, o neoliberalismo não existe, sendo apenas e
tão somente um revival, ou renascimento, de uma velha escola
de pensamento econômico e de orientações em matéria de políticas
econômicas que se filiam ao antigo liberalismo doutrinal que surge
na Grã-Bretanha a partir dos séculos XVII e XVIII. Aliás, nenhum
“neoliberal” consciente e conseqüente se classificaria dessa
maneira: ele apenas diria que segue os princípios do liberalismo
(econômico ou político, não vem ao caso diferenciar aqui os dois
sistemas, que não são idênticos, mas tampouco estranhos um ao outro)
e ponto final; todo o resto seria dispensável. Neoliberal é, como já
referido, um epíteto criado pelos opositores do liberalismo ou, se
quisermos, um conceito que busca evidenciar, justamente, o retorno
do antigo liberalismo, depois de um longo intervalo marcado por
práticas e orientações claramente intervencionistas e estatizantes.
Mas continuemos. Deixemos de lado a caracterização de
“dramático” aplicada a esse “produto”, pois isto corresponde a uma
apreciação inteiramente subjetiva do autor, carente de qualquer
fundamentação empírica. Esclareça-se, de imediato, que o “produto”
não conforma, absolutamente, um “novo regime de acumulação”, que
seria, supostamente, uma forma de organização social da produção e
da distribuição de bens e mercadorias historicamente inédita para os
padrões conhecidos do capitalismo. Ora, o liberalismo – e seu
sucedâneo contemporâneo, que seria “neo” – está longe de ser novo e
menos ainda de conformar um regime de acumulação, posto que
configurando uma filosofia ou orientação geral nos terrenos da
política e da economia. Acumulação é um termo geralmente associado
ao pensamento econômico marxista, que denota formas genéricas de
apropriação dos resultados sociais do processo de produção, o que
pode ocorrer em regime de livre concorrência, de monopólio, de
propriedade estatal ou de modalidades mistas dessas configurações
produtivas. Aparentemente este autor demonstra pouco rigor na sua
utilização do ferramental conceitual marxista; em benefício próprio,
deveria ser mais cuidadoso com sua terminologia estereotipada.
Pretender, agora, que esse “novo regime” desagregou
sociedades equivaleria a afirmar que o neoliberalismo foi
responsável pela desestruturação de várias nações que conheceram a
aplicação de políticas neoliberais. Olhando-se, honestamente, um
mapa dinâmico do planeta, o que poderíamos constatar é que as únicas
sociedades verdadeiramente desestruturadas da atualidade são algumas
nações africanas que conheceram processos traumáticos de
instabilidade política e social, algumas até atravessando guerras
civis abertas e conflitos étnicos ou religiosos intermitentes, ou
surtos violentos de conflitos tribais que se arrastam na quase
indiferença das nações mais ricas do planeta, estas efetivamente
“neoliberais” ou simplesmente liberais.
Com efeito, se podemos caracterizar algumas
sociedades como mais liberais do que outras, estas parecem ser as
nações do chamado arco civilizacional anglo-saxão (Estados Unidos,
Grã-Bretanha, Canadá, Irlanda, Austrália, Nova Zelândia), sendo elas
seguidas como menor rigor doutrinal (e maior pragmatismo) pelos
países nórdicos ou escandinavos (Noruega, Suécia, Dinamarca e
Finlândia). Quanto aos países da Europa ocidental, essencialmente
capitalistas em seu “modo de produção”, eles têm alternado práticas
e políticas liberais – ou politicamente “direitistas”, para sermos
simplistas – com outras tantas práticas e políticas mais
social-democráticas, geralmente conduzidas por partidos de esquerda
ou progressistas. No fundo, não se vê bem como distinguir essas
políticas entre elas, a não ser no plano da retórica eleitoral.
Em nenhum outro continente ou região podemos
distinguir países e sociedades verdadeiramente “neoliberais”, se
formos rigorosos na utilização desse conceito. De fato, pretender
que países latino-americanos, que empreenderam programas de ajuste e
de estabilização macroeconômica depois de longas e recorrentes
crises econômicas trazidas por processos inflacionários e de
desequilíbrio no balanço de pagamentos, sejam ou tenham sido
“neoliberais” – qualquer que seja o entendimento que se dê a esse
conceito – representaria abusar em demasia desse conceito,
retirando-lhe qualquer precisão metodológica e adequação à realidade
empírica que nos é dada observar ao longo das últimas décadas.
Olhando com lupa, talvez se pudesse dizer que o Chile
se apresenta como um país mais “neoliberal” do que a média dos
latino-americanos. Ora, não se pode dizer que a sociedade chilena
esteja “desestruturada”, a qualquer título. Colocando a lupa em
outras sociedades da região, o que se observa é que existem, sim,
alguns países bem mais desestruturados: os primeiros que aparecem
são a Bolívia, a Venezuela e o Equador, com a possível inclusão da
Argentina nesse conjunto. Pois bem, dificilmente se poderia dizer
que eles estão assim por causa do neoliberalismo. Ao contrário. Em
cada um deles, o que se observou, ao longo dos últimos anos, por
acaso coincidentes com seus respectivos processos de
desestruturação, foi, justamente, a aplicação de políticas
dirigistas, estatizantes, intervencionistas, heterodoxas e, até,
socialistas; ou seja, tudo menos políticas liberais. O autor deve
estar com suas lentes embaçadas por preconceitos ideológicos, o que
o impede de constatar a simples realidade de políticas econômicas
que são efetivamente aplicadas nos diversos países considerados.
4. O neoliberalismo produz miséria e é sinônimo de
barbárie?
O que dizer, em seguida, da suposta ação do
neoliberalismo, que teria ampliado “a pobreza em praticamente todos
os cantos do mundo, especialmente as nações da periferia”? Trata-se,
mais uma vez, de afirmação desprovida de qualquer fundamentação
empírica, não se podendo apoiá-la em praticamente nenhum exemplo de
sociedade reconhecidamente “neoliberal”, qualquer que seja. A
África, como vimos, afundou de fato na pobreza e na desesperança –
embora ela venha crescendo novamente nos últimos anos –, mas essa
evolução dificilmente poderia ser creditada à ação do
neoliberalismo. Desafio o autor do texto selecionado a provar o
contrário.
Quanto às duas nações “periféricas” que mais
progressos fizeram na elevação gradual de uma miséria abjeta para
uma pobreza aceitável, a China e a Índia, o que se observou, nas
últimas duas décadas, foi um conjunto de reformas, várias ainda em
curso, conduzidas justamente na direção de mecanismos de mercado,
não de orientações estatizantes ou de planejamento centralizado. A
renda per capita tem se elevado, progressivamente, em ambos
os países, especialmente na China, que deu saltos espetaculares na
redução da pobreza e na abertura de setores inteiros de sua economia
à livre iniciativa e ao capital estrangeiro (todo ele capitalista e,
supostamente, neoliberal). Quanto à Cuba socialista, ela conseguiu
realizar a proeza de passar da maior renda per capita da América
Latina em 1960 – não escondendo o fato de que ela era bem mal
distribuída – para um patamar abaixo da média, em 2006, confirmando
o consenso de que o socialismo é bem mais eficiente em repartir de
modo relativamente igualitário a pobreza existente do que em criar
novas riquezas.
Pode-se, talvez, alegar que as mudanças econômicas
ocorridas na China vêm sendo feitas sob a égide do planejamento
estatal e sob a firme condução do Estado chinês, que mantém controle
sobre setores ditos estratégicos da economia do país. Essa realidade
não elimina o fato de que todas as reformas operadas apresentam um
caráter essencialmente capitalista e, portanto, tendencialmente
neoliberal, ainda que não na versão “quimicamente” pura do modelo
original anglo-saxão. O estilo ou a forma não pode sobrepor-se à
essência do sistema, caberia registrar. Neste caso, nosso autor ou é
cego ou é intelectualmente desonesto, ao não querer reconhecer esses
dois processos de “enriquecimento capitalista”, que se desenvolvem
sob os olhos de todo o planeta há aproximadamente duas décadas. Suas
lentes estão completamente fora de foco ou muito sujas,
aparentemente. Um pouco de estatística não lhe faria mal.
O fato de que, em vários desses processos – tanto em
países desenvolvidos quanto em países em desenvolvimento –, os ricos
estejam se tornando mais ricos não impede o outro fato concomitante
de que os pobres estejam se tornando menos miseráveis. Quem não
quiser tomar minha afirmação como um argumento de fé, pode conferir
os dados apresentados por estudiosos da distribuição mundial de
renda, como Xavier Sala-i-Martin, cujas evidências e conclusões já
resumi neste artigo: “Distribuição mundial de renda: as evidências
desmentem as teses sobre concentração e divergência econômica”,
Revista Brasileira de Comércio Exterior (Rio de Janeiro: Funcex,
ano XXI, n. 91, abril-junho 2007, p. 64-75; disponível:
http://www.pralmeida.org/05DocsPRA/1716DistMundRendaRBCE.pdf).
Se existem sociedades nas quais a “barbárie social
vem esgarçando o tecido social e incrementando a violência em todos
os sentidos”, como pretende o autor, elas estão longe de representar
um modelo de “acumulação” ou de organização social da produção que
seja liberal ou neoliberal, sendo mais efetivamente caracterizadas
pelo autoritarismo político e pelo extremo intervencionismo
econômico do Estado, quando não entregues à violência política,
religiosa ou tribal, pura e simples, como parece ser o caso de
alguns países do continente africano ou do Oriente Médio.
A afirmação carece, assim, de qualquer embasamento na
realidade, sendo uma construção puramente mental de um autor
manifestamente enviesado contra o que ele crê ser “neoliberalismo”,
quando nenhum exemplo concreto desse sistema é discutido ou sequer
aventado. Para um autor como esse, ser contra o neoliberalismo
significaria se posicionar contra o livre comércio, contra o
ingresso do capital estrangeiro, contra a administração em bases de
mercado de inúmeros serviços públicos, contra a fixação dos juros e
da paridade cambial pelo livre jogo da oferta e demanda de crédito e
de moeda, enfim, preservar o controle estatal de inúmeras atividades
com impacto social.
Se formos examinar, contudo, os dados econômicos
relativos à renda, riqueza e prosperidade de um conjunto
significativo de países, estabelecendo duas colunas, nas quais se
colocaria, de um lado, os mais “neoliberais” – abertura ao comércio
e aos investimentos, menor regulação estatal de atividades de
produção e distribuição, fluxo livre de capitais e fixação dos juros
e câmbio pelo mercado – e, de outro, os países menos propensos à
abertura e mais inclinados à regulação estatal, e certamente quanto
ao movimento de capitais – como são em grande medida os da América
Latina, do Oriente Médio e da quase totalidade da África – teríamos
uma correspondência quase perfeita entre maiores coeficientes de
abertura, isto é, maior grau de “neoliberalismo”, e maior renda e
prosperidade. O “quase perfeita” vem por conta de países de grande
mercado interno – como os EUA – que apresentam pequeno coeficiente
de abertura externa (apenas no que tange ao peso do comércio
exterior no PIB), sem no entanto deixar de serem abertos às
importações e atrativos aos capitais estrangeiros. Ou seja, a
liberalização em comércio e em investimentos e um ambiente de
negócios favorável à iniciativa privada constituem, sim, poderosas
alavancas para a formação de riqueza e a distribuição de
prosperidade.
5. O neoliberalismo é um mito, mas alguns ingênuos
não sabem disso
Em qualquer hipótese, porém, o neoliberalismo é um
mito, tanto pelo lado das acusações infundadas dos anti-neoliberais,
como pelo lado dos promotores da própria doutrina liberal, uma vez
que todos os Estados modernos, sem exceção, apresentam graus
variados de intervenção no sistema econômico e de regulação da vida
social. Uma série estatística sobre níveis de tributação e gastos
públicos, ao longo do século XX, revelaria um avanço regular e
constante da intermediação estatal nos fluxos de valor agregado e de
dispêndio total, confirmando o papel sempre relevante do Estado na
repartição setorial da renda total e na correção das desigualdades
mais gritantes introduzidas pelos regimes puros de mercado. Aliás,
falar em “Estado liberal” é uma total contradição nos termos, tanto
o substantivo desmente o seu suposto adjetivo.
O que estava, contudo, em causa na análise conduzida
neste ensaio de simples avaliação crítica de um dos mitos mais
difundidos na academia não era, propriamente, a evolução econômica
das modernas sociedades de mercado, e sim a afirmação – que vimos
totalmente desprovida de qualquer fundamentação empírica – de que
existe algo chamado neoliberalismo sendo ativamente praticado pelos
Estados modernos e de que essa doutrina e prática seriam
responsáveis por todas as misérias da sociedade contemporânea.
Trata-se de uma das fabulações mais inconsistentes de que se tem
notícia na produção acadêmica tida por séria e responsável.
Os dados disponíveis, revelados por organismos
internacionais e por uma variedade razoável de organizações
independentes, confirmam a melhoria sustentada dos padrões de vida
em diferentes regiões do planeta, tanto mais rápida e disseminada
quanto mais integrados estão esse países e regiões aos fluxos
mundiais de comércio, tecnologia e investimentos. Assim, considerar
que a “acumulação” neoliberal ampliou a pobreza em todos os cantos
do mundo, aprofundou as desigualdades e provocou o cortejo de
misérias que são registradas em áreas jamais tocadas por políticas e
práticas neoliberais – qualquer que seja o entendimento que se dê ao
conceito em questão –configura um tipo de fraude que só consegue ser
repetido impunemente em salas de aula universitárias porque a
academia brasileira é pouco responsável no “controle de qualidade”
dos cursos da área de humanas e nos métodos de avaliação de docentes
manifestamente despreparados para cumprir o programa do qual são
encarregados. Para sermos mais precisos, estamos em face de uma
desonestidade intelectual que só encontra paralelo em apresentações
de mágicos de circos mambembes.
Termino por aqui minha primeira análise de uma
falácia acadêmica detectada em livros utilizados em universidades
brasileiras. De fato, o mito do neoliberalismo – que não guarda a
mínima correspondência com a realidade verificável – oferece um
exemplo concreto desse tipo de prática, mais comum do que se pensa,
aliás, em nosso ambiente universitário. A um simples trecho
selecionado de um artigo do autor aqui examinado pode-se aplicar o
conjunto de caracterizações dicionarizadas e conectadas ao termo
“falácia”: enganador, ardiloso, fraudulento, quimérico e ilusório.
Outros exemplos certamente existem: eles também serão trazidos a
exame no momento oportuno. Concluo com um aviso à maneira dos
franceses: à suivre... |
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