Contribuição à história do marxismo no Brasil (1987-1994)
A esquerda marxista e o PT (I)
Antonio Ozaí da Silva
A polêmica sobre as Tendências no PT
O PT é a síntese possível das tensões existentes
entre as diversas posições em seu interior e da tensão entre estas e
a conjuntura política nacional e internacional. A questão das
tendências insere-se neste contexto.
Desde as origens, o PT herdou uma tensão permanente –
ora manifesta, ora latente – entre a composição heterogênea que lhe
é característico, devido às diversas forças políticas que aderiram
ao seu projeto, e o caráter partidário que ele procurou impingir em
sua trajetória. A formação da Articulação
dos 113
e a adoção das eleições proporcionais para os órgãos dirigentes,
menos para as direções executivas, colocou num novo patamar a
problemática da existência das Tendências e das relações entre
estas.
Já o 4º Encontro Nacional, realizado em 1986,
em São Paulo, aprovou uma resolução preliminar sobre essa questão e
incumbiu o Diretório Nacional a formular uma proposta de
regulamentação do direito de Tendências. Nesse período,
intensificou-se o debate sobre as Tendências.
A nova resolução, aprovada no 5º EN,
reconheceu a existência das Tendências e estabeleceu normas para sua
conduta.
A resolução considerou rigorosamente incompatível com
o caráter do PT a existência, velada ou ostensiva, de partidos em
seu interior, concorrentes do próprio PT. A partir de então, o PT
não mais admitiria em seu interior organizações com política
particulares em relação à política geral do PT, com direção e
representação pública próprias; com disciplina própria, implicando
inevitavelmente em dupla fidelidade; com estrutura paralela e
fechada; com jornais públicos e de periodicidade regular.
Por outro lado, o 5º EN pretendia estimular o
“debate político visando a sua dissolução (das organizações com
características de partidos) e a completa integração de seus
militantes na vida orgânica petista, podendo vir a se transformar em
legítimas Tendências do partido”.
O 5º EN designou o DN para elaborar uma
proposta de regulamentação, baseada nos princípios da “Resolução
sobre as Tendências” aprovadas. Às vésperas do 7º EN, o DN
aprovou majoritariamente a nova regulamentação, a qual afirma:
“A Tendência interna caracteriza-se por
submeter-se ao programa e não às resoluções do PT, por
reconhecê-las explicitamente como partido estratégico na
construção do socialismo e por diferenciar-se nas propostas
alternativas ou complementares relacionadas com aspectos
parciais da política, da estrutura ou do funcionamento do
partido”.
Pela regulamentação aprovada, as Tendências não
podiam ter expressão pública exterior ao partido, mantinham o
direito de publicar seus jornais – compatíveis com a regulamentação
de Tendências e distribuídos internamente – e podiam dispor de
escritórios e sedes próprias, desde que não constituíssem
instrumentos de organização externa ao PT e de funcionamento
autônomo em relação a este. Podiam ainda realizar campanhas de
arrecadação financeira, mas seus militantes permaneciam sujeitos a
cumprir com seus deveres perante o partido.
As relações políticas internacionais permaneceram
como prerrogativa da direção nacional do PT. No caso das Tendências,
estas relações deveriam ter caráter informativo e de intercâmbio e
precisavam ser previamente comunicadas às instâncias responsáveis.
As Tendências ficaram obrigadas a acatar as deliberações do partido
e não aquelas determinadas por seus alinhamentos internacionais.
A aprovação desse regulamento permitiu que a tese da
proporcionalidade em todas as instâncias dirigentes do PT fosse
implementada. “Essa medida tem o sentido de consolidar nossa
tradição pluralista e impulsionar a construção da unidade
partidária”, afirmava as resoluções do 7º EN.
A resolução sobre as Tendências do 5º EN
representou o início de um processo inacabado. Mesmo a
regulamentação do 7º EN não superou em definitivo essa problemática.
O 1º Congresso reconheceu que estas resoluções tiveram um “papel
importante nas dissoluções dos partidos dentro do PT, na recusa do
modelo monolítico e na afirmação da democracia e pluralismo inerente
ao PT”.
No entanto, persistia o “fracionamento da ação
pública do Partido especialmente no movimento sindical”. De acordo
com o 1º Congresso, a adesão de algumas tendências à regulamentação
era apenas tácita, pois estariam ainda mantendo “sedes e
jornais públicos, em choque com as posições do conjunto do partido”.
No 1º Congresso, o debate sobre as Tendências
tornou-se ainda mais acalorado. A tese da Articulação
defendia a dissolução das Tendências, postura compartilhada pela
Projeto Para o Brasil (PPB) e parte da Vertente
Socialista (VS). A depender dessas forças políticas, as
Tendências só poderiam existir em caráter provisório, “formando-se e
desfazendo-se a cada momento de decisão”. Tal proposta suspendia a
regulamentação do direito de tendência aprovada nos 5º e 7º
encontros nacionais.
Diante das resistências, a coordenação da
Articulação, reunida dias antes do congresso, formulou uma
emenda substitutiva a seu próprio texto. Esta previa o direito das
Tendências manterem um funcionamento regular, com espaços para
reuniões, boletins e finanças, desde que internas ao partido;
proibia a existência de frações públicas, com atuação exterior ao
partido, relações internacionais próprias e centralismo obrigatório.
Esta proposta dividiu a plenária da
Articulação.
A resolução aprovada caracteriza as Tendências como
“agrupamentos de militantes que se organizam para defender, no
interior do partido, determinadas posições políticas, não podendo
assumir expressão pública ou definir-se como permanentes”. O texto
enfatiza que “as deliberações ou posições das tendências não podem
se sobrepor ou se chocar ao encaminhamento prático das decisões
partidárias”. Argumenta, por outro lado, que “a unidade do partido
demandará um processo político para por fim às verdadeiras frações
que atuam no partido”.
A polêmica sobre as Tendências reflete transformações
substanciais ocorridas com a evolução do PT. O quadro partidário,
comparativamente ao 5º EN, havia mudado radicalmente. As Tendências
passaram por processos internos que modificaram qualitativamente
suas posições, configurando uma nova correlação de forças no
interior do partido.
Não se trata, portanto, de uma questão restrita à
discussão sobre o tipo e o caráter da organização. A evolução de
cada tendência em particular encontra-se indissoluvelmente
relacionada com a trajetória do partido nos anos recentes e com os
acontecimentos em nível internacional.
O caso da Vertente Socialista é emblemático,
pois se situa numa posição pendular entre a participação na
Articulação e a crítica à mesma, entre a crítica e a
convergência em relação às correntes organizadas no PT. É um
movimento oscilante: entre a ortodoxia e a heterodoxia.
Na outra ponta, temos o Partido Revolucionário
Comunista (PRC), cuja trajetória, da ortodoxia à negação do
marxismo-leninismo, ilustra a radicalidade das mudanças. Em ambos,
houve setores que resistiram. Para compreender essa dinâmica, é
preciso examinar cada organização separadamente. Comecemos, então,
pela Vertente Socialista.
A Vertente Socialista (VS)
Formada oficialmente em seu 1º Encontro Nacional, em
Belo Horizonte, nos dias 23 a 26 de março de 1989, a VS é
síntese de um movimento crítico às posições da “Articulação dos
113”. Ela expressa a confluência de vários setores,
destacando-se a corrente política liderada por Eduardo Jorge, Carlos
Néder, Roberto Gouveia, Aldo Leite, Adriano Diogo, Anízio Batista,
Waldemar Rossi, entre outros.
Fundadores da
“Articulação 113”, esse grupo aglutinou a militância
petista presente nos movimentos sociais na zona leste da capital
paulistana, principalmente o Movimento pela Saúde.
Algumas das suas lideranças tinham experiência política anterior ao
PT; outros estavam ligados ao movimento sindical; a maioria tinha
militância nas comunidades de base e pastorais ligadas à igreja.
Já nos anos 1985-86, esse setor adotou uma política
de contestação às posições que predominavam na Articulação,
apresentando textos e emendas nas reuniões internas desta e,
posteriormente, nos espaços públicos dos encontros e plenárias do
partido. Quando, no início de 1987, a Articulação buscou
consolidar o projeto de se constituir nacionalmente enquanto
Tendência, esses militantes romperam publicamente e formaram o
Poder Popular e Socialismo (PPS). A formação do
Poposo,
como ficou conhecido, se deu no processo que antecedeu o Encontro
Estadual do PT-SP, realizado em 1987.
O PPS concluía que a Articulação
cumprira um papel importante para o PT, enquanto elemento motivador
da retomada pelas bases do projeto partidário original e como fator
que assegurou a continuidade e o crescimento do partido. Suas
análises da sociedade brasileira eram coincidentes. As divergências
se davam no plano das formulações táticas e eram mais nítidas quanto
à construção partidária.
Em primeiro lugar, os dissidentes discordavam do
caráter transitório e, ao mesmo tempo centralizador, que a
Articulação assumira nestes anos – restrita às reuniões
esporádicas próximas à realização dos encontros partidários e com a
existência de um núcleo dirigente que passara a moldar a
Articulação e, conseqüentemente, o partido, segundo suas
concepções. Criticaram ainda o discurso preconceituoso da corrente
majoritária contra os que ousavam divergir. A crítica destes também
se dirigia ao setor minoritário: a Alternativa Operária e
Popular. Viram nessa articulação algumas das características
presentes na Articulação, principalmente o caráter
transitório e sua heterogeneidade.
O PPS defendeu o distensionamento das relações
internas com o aprofundamento da democratização das estruturas
partidárias: a proporcionalidade nas direções executivas e a
regulamentação do direito de tendência. Por outro lado, comungava
com a Articulação na condenação categórica à existência de
partidos dentro do PT. Defensor do PT como um partido estratégico da
revolução brasileira, o PPS rejeita a postura daqueles que o
imaginavam como um partido tático e participavam nele com o objetivo
de viabilizarem suas próprias organizações e projetos políticos,
assumidos ou dissimulados. A superação deste problema, segundo o
PPS, exigia a luta política – e não administrativa – com o
objetivo de integrar esses setores ao projeto petista.
No início, o PPS não se reivindicou enquanto
Tendência, pois considerava que seu nível de definição política não
correspondia às exigências deste tipo de estrutura. Assumia-se,
então, como um grupo político cujos militantes se aproximavam e se
mantinham unidos por terem práticas semelhantes e alguns princípios
comuns.
Porém, logo mudaria de opinião e passaria a se
apresentar como Tendência interna do PT, com teses e chapas próprias
nos embates partidários. Esta postura rompia com a política
tradicional de bipolarização entre a Articulação e as
Tendências.
No 4º Encontro Estadual do PT de São Paulo, realizado em setembro de
1987, lançou a chapa Poder Popular e Socialismo, que teve 18%
dos votos e expressou um novo rearranjo das forças internas do
partido.
Para o PPS, a política da direção majoritária
tendia a afastar o partido do ideal de um PT de massas e capaz de
mobilizar as bases. Considerava a política predominante
excessivamente moderada e defendia uma postura mais agressiva: com o
lançamento da candidatura Lula à presidência da República, como
objetivo de consolidar uma alternativa dos trabalhadores aliada à
campanha por eleições diretas para Presidente; o combate ao
alargamento da política de alianças; a prioridade da luta popular e
sindical em relação ao institucional.
No plano estratégico, o PPS propugnava pelo
aprofundamento do debate sobre o programa a ser dotado pelo partido,
sobre o socialismo e por uma posição internacionalista e autônoma em
relação a qualquer partido ou Estado socialista. Concordava com a
tese da necessidade do acúmulo de forças, entendida como um processo
de construção do contra-poder operário e popular, com a formação de
organismos de controle e participação das massas – os embriões dos
futuros órgãos do poder socialista.
Essa idéia estava fundamentada numa concepção sobre a
democracia considerada ortodoxa. Para o PPS, os
trabalhadores aprendem em suas lutas “que não basta democratizar o
Estado. Percebem que ampliar a democracia burguesa significa,
apenas, conquistar condições mais favoráveis para continuar a luta
contra a exploração capitalista”. Os trabalhadores aprendem ainda
“que o fim desta exploração só será possível com a transformação da
nossa sociedade em socialista, com os trabalhadores no poder”.
O pecado ortodoxo do PPS estendia-se à
defesa da inevitabilidade da ruptura revolucionária, à defesa
da ditadura do proletariado – com a ressalva de que esta fora
deformada e transformara-se na ditadura sobre o proletariado.
Para o PPS, a ditadura proletária na construção do socialismo
“será proporcional à reação burguesa” e que, vencida resta
resistência, “a construção deve se dar no clima das mais amplas
liberdades políticas, culturais e religiosas”.
A concepção de partido do PPS é coerente com o
exposto acima. Ainda que procurasse inovar e recusasse
categoricamente as experiências vanguardistas do partido de
quadros tradicional, admitia o “caráter necessariamente de
vanguarda de um partido político”. Diante das características da
sociedade brasileira este partido deveria ser de vanguarda e de
massas, ressalva o PPS.
A inovação nesse tema ficou por conta da formulação
partido movimento: “O partido não inventa, não cria um
movimento revolucionário em uma sociedade. Ele comanda este
movimento nos caminhos e momentos que são os da tomada do poder
político”, afirmava. (grifos nosso) Na dinâmica da luta de
classes se constituem diversos movimentos de caráter operário e
popular, sendo o partido um entre outros. Ele não é o “único ator”,
mas tem o “papel destacado e decisivo”.
O caráter socialista e de massas desse partido deveria estar
intrinsecamente relacionado com a democracia interna e com a
concepção de democracia e socialismo.
O PPS foi uma das principais forças políticas
que impulsionaram a formação da VS. Esta herdou suas
concepções e formulações teóricas. Ao projeto de constituição da
VS se somariam outros segmentos políticos de outras regiões. Um
ponto comum entre eles era a crítica à Articulação. Mas havia
uma pluralidade que expressava as particularidades e matizes
políticas diferenciadas, nem sempre conexas entre si.
A realização do 5º EN ofereceu um terreno
fértil à confluência dos vários setores que, embora críticos à
Articulação, não se encaixavam nas estruturas das outras
Tendências petistas. A união do PPS com setores independentes
do partido em Minas Gerais, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará,
Goiás, Pará e Paraná, possibilitou o lançamento da chapa PT pela
Base. Esta chapa conseguiu o apoio de 13% dos delegados (46
votos), elegendo 11 membros para o DN do PT.
Os nomes indicados expressam experiências díspares
unificadas em uma plataforma comum que incorporava as preocupações
levantadas pelos documentos elaborados em São Paulo, Ceará e Goiás.
Não havia um acúmulo de discussão conjunta anterior – alguns dos
seus membros se conheceram às vésperas do encontro.
Os organizadores da chapa PT pela Base
concordaram em manter e aprofundar a articulação que fizeram com o
objetivo de constituir uma tendência nacional interna ao PT, pública
e aberta à participação de todos. Estes esforços confluíram para o
lançamento do Movimento por um PT
Socialista.
Esse movimento lançou, em abril de 1988, sua primeira
tese nacional: “A Construção do PT”. Em agosto do mesmo ano,
lançaria outra tese, esta versando sobre a questão da democracia
interna.
Esses documentos facilitaram a adesão de novos membros ao projeto de
construção da Tendência. Eles expressavam uma concepção de
construção partidária democrática e pluralista, um aprofundamento
das formulações adotadas por PT Pela Base.
Os elementos centrais dessas teses foram retomados de
forma sintética no Manifesto de Constituição da VS, publicado
em março de 1989. Nesse texto, a VS reafirma a defesa da
construção do PT enquanto partido estratégico: como partido
socialista, de massas, democrático e dirigente das lutas sociais e
políticas; como de “tipo novo, que recuse o autoritarismo em matéria
de organização e reivindica uma estrutura orgânica radicalmente
democrática em suas relações internas”.
O manifesto resgata a defesa do direito de tendência
e da proporcionalidade na composição das instâncias executivas. Por
outro lado, elabora uma crítica cortante à prática instituída no PT,
considerada hegemonista e expressada na utilização de métodos
deformados de luta interna, na priorização da disputa dos aparelhos
em detrimento do debate político, no sectarismo e “na redução da
complexa questão das vertentes de pensamento a um problema de
maioria e minoria”.
Para a VS, a conquista da hegemonia é um
processo que pressupõe a disputa de propostas políticas e também a
tentativa de convencimento. Ela critica os que resumem a questão da
democracia interna à aritmética dos braços levantados numa plenária
ou encontro partidário ou ao montante de cédulas numa urna
eleitoral. Essa concepção é estrategicamente fundamental, pois a
forma como se dá a organização do partido fornece indícios da
sociedade que este projeta construir.
Ainda nesse tema, a VS recupera a discussão
sobre o papel dos núcleos de base e a necessidade de
conferir-lhes poder de decisão. Ela propõe a centralização do
partido no sentido de unificar sua intervenção no movimento social e
institucional, ressalvando que deve ocorrer um amplo processo de
discussão.
A VS inova ao propor que o PT assuma o debate
sobre sua ética, estabelecendo “um novo comportamento político”
distinto daquele que se verifica nos partidos burgueses e
burocráticos. Ela se compromete a estabelecer uma nova conduta ética
“que permita um tratamento elevado das divergências onde todas as
posições possam crescer num clima de companheirismo, de confiança e
fraternidade”.
Em junho de 1989, às vésperas do 6º EN do PT, a VS
lançou outra tese na qual procurava aprofundar sua formulação
política. Nesse documento, ela considera que o PT deve colocar a
questão do regime político na discussão da campanha eleitoral,
“relacionando as causas da situação do povo brasileiro com a atual
forma de dominação burguesa no país (e com a própria dominação de
classe e o capitalismo), e conferindo um papel claramente socialista
à candidatura Lula”.
Esse seria o elo de ligação entre a tática e a estratégia.
A VS concebe o governo democrático e popular
como um governo sob hegemonia dos trabalhadores. Este governo,
“ainda que realizando um programa cujas medidas não sejam
explicitamente anti-capitalistas (ou socialista) entrará
inevitavelmente em choque com o capital”. Sua sustentação dependerá
da mobilização e organização popular e das mudanças no próprio
regime. Neste sentido, a VS imagina que a formação da
Frente Democrática-Popular adquire um caráter estratégico e
configura uma “aliança estratégica de classes” – excluídos os
setores da burguesia.
Para a VS, o governo democrático e popular não
poderia restringir-se a ser uma versão melhorada das teses etapistas.
Ele não representa uma “etapa intermediária entre a dominação
burguesa e a conquista do poder pelos trabalhadores”, mas faz parte
do processo de “construção do poder popular e da hegemonia dos
trabalhadores como contra-poder e como contra-hegemonia burguesa”.
Esse, ainda na concepção da VS, “passa necessariamente por
uma ruptura com a dominação burguesa”.
Essas concepções refletem a idéia da construção dos
“embriões” do poder popular. Elas assumem significado especial
diante das experiências do PT nas prefeituras, principalmente no
caso de São Paulo. Foi com esta formulação que a VS – na
época ainda como PPS – bancou a candidatura de Luiza
Erundina, que naquela conjuntura expressava um conteúdo e uma imagem
enfaticamente socialista e radical.
A VS foi uma das principais forças de
sustentação do governo Erundina. Nessa fase, considerava que a
principal função política das prefeituras petistas deveria ser
“impulsionar a participação das massas na vida política, estimulando
a sua auto-organização e conquistando sua adesão a um programa de
transformações sociais”.
Aqui se evidencia como a VS compreendia a
chamada política de acúmulo de forças. Para ela, a ação do partido
nas prefeituras se encaixava na dinâmica de acumulação, cujo
objetivo central não era a ocupação paulatina do Estado burguês e a
sua transformação por dentro, como “os bárbaros em Roma”. Esse
processo deveria ir além deste limite. A existência de “um amplo
movimento de massas organizado, capaz de sustentar e proteger suas
próprias organizações autônomas e independentes” seria a garantia do
seu sucesso.
Essas formulações são mantidas na tese apresentada
por sua Coordenação Nacional ao 7º EN. Utilizando categorias e
conceitos gramscianos, a direção da VS analisa a sociedade
brasileira e aponta o caminho estratégico da “revolução social”,
reafirmando a questão do contra-poder popular e a construção da
hegemonia dos trabalhadores. Permanece a idéia da ruptura
revolucionária.
Por outro lado, os novos conceitos introduzidos no
ideário da VS já refletem o impacto dos acontecimentos no
Leste Europeu e resultariam numa nova maneira de ver o processo
revolucionário no Brasil, no aprofundamento das concepções
anteriores e no surgimento de novas perspectivas teóricas que, no
extremo, expressariam sua negação.
Esta trajetória passava por uma “concepção ampliada
de revolução, decorrente de uma visão ampliada da dominação burguesa
como supremacia”; por uma “visão ampliada” de partido”, por
afirmações como “guerra de posição combinada com guerra de
movimento”, a “centralidade da luta ideológica” etc.
A coordenação priorizou a análise das experiências
socialistas e a discussão sobre o socialismo. Sua elaboração
teórica, embora mantivesse elementos das formulações originais,
relaciona-se à leitura da crise do socialismo real e refletem
as conclusões a que chegou.
Nessa avaliação, a crise desencadeada pela queda do
muro de Berlim não se restringe às sociedades socialistas. É
mais profunda:
“Existe uma crise do socialismo. Esta crise não é
apenas uma crise política, dos modelos políticos e econômicos do
chamado socialismo real. É também uma crise teórica, dos
fundamentos de um marxismo ossificado pelas interpretações
“oficiais”. E é, ainda, uma crise ideológica da esquerda
tradicional, dos pressupostos filosóficos-culturais sobre os
quais se erigiram as doutrinas socialistas das últimas
internacionais”.
Para os redatores da tese, esta crise não expressa a
falência do marxismo – se este for compreendido enquanto
instrumental de análise e de formulação de estratégias políticas.
Teria falido as diferentes “interpretações oficiais” fundamentadas
nas formulações teóricas da II e III Internacionais, desde as
“contribuições leninianas e do “modelo russo”, como o breve
“zinovievismo” e o stalinismo” até o trotskismo”. Todos, na análise
em questão, se apoiariam no mesmo corpo teórico.
Segundo o texto, a superação da crise exige o reexame
histórico das experiências socialistas; a crítica dos pressupostos
filosóficos do “socialismo científico”; a crítica dos fundamentos
teóricos das concepções marxista-leninistas e leninianas sobre o
Estado, a revolução e o partido; e, a crítica dos modelos políticos
e econômicos do socialismo real. Este seria o ponto de
partida para a reelaboração de uma “nova visão do socialismo”.
A VS propõe que se faça o caminho inverso: do
“socialismo científico” ao “socialismo utópico”.
Seria uma “volta às origens” – não ao idealismo pré-marxiano, mas a
retomada de uma “concepção dialética materialista”. Trata-se de
“reatar a tradição do socialismo como projeto socialismo como
projeto humano a realizar”.
Nessa avaliação, o PT ocupa um espaço privilegiado,
pois se constituía como um dos poucos partidos que apresentava as
condições mais favoráveis para liderar o novo movimento socialista.
Esta seria a sua “vocação histórica”. Assim, o PT não seria “o
último partido comunista de uma era de crepúsculo do socialismo, mas
o primeiro partido socialista de um período histórico de renovação
do socialismo e de reencontro com a democracia e com a liberdade”.
A partir destas posições setores da VS,
particularmente a maioria da sua Coordenação Nacional, evoluiu em
direção ao aprofundamento da heterodoxia e à aproximação com as
teses desenvolvidas pela Nova Esquerda (NE), particularmente
o setor liderado por José Genoino. Esta aliança foi selada já no 7º
EN, com a formação da chapa Socialismo e
Liberdade.
Em junho de 1991, a VS apresentou um texto
para o debate onde reafirmava e desenvolvia pontos da tese
apresentada ao 7º EN.
A proximidade com a NE foi fortalecida, tanto em nível das
formulações teóricas quanto nas conversações entre seus dirigentes.
Em sua maioria, convergiam para a proposta da dissolução das
Tendências e a configuração de uma nova maioria dirigente, junto com
a Articulação. Esta convergência resultou na formação do
PPB e o lançamento de tese conjunta ao 1º Congresso.
Uma parte da VS resistiu a este desenlace.
Vários dirigentes e militantes de base questionaram os métodos
utilizados pela maioria da Coordenação Nacional.
Após frisarem que as principais características da tendência, desde
o tempo do PPS, fora sua profunda ligação com os movimentos
sociais e “uma grande preocupação com a democracia interna na
convivência e construção do PT”, eles observam que a VS, embora
tenha avançado no sentido de superar a sua fragilidade teórica, isto
“tem significado um afastamento das bases da tendência na
discussão”.
Um dos exemplos deste distanciamento e
comprometimento da democracia interna teria sido o processo de
elaboração e divulgação da tese PPB. Esses petistas
reivindicam que a VS resgate sua prática anterior, com uma
metodologia que propicie a participação das bases e permita a
elaboração teórica coletiva. Nesse sentido, eles propõem a
realização de uma plenária da Tendência.
Na verdade, até então, as formulações da VS
tinham muito em comum com a NE. O passo dado pela maioria da
coordenação é resultante lógica desta proximidade. O que aconteceu é
que esse setor acompanhou a evolução da NE, enquanto a
minoria passou a diferenciar-se, resgatando formulações originais
dos tempos do PPS.
De fato, a VS se caracterizara, pelo menos em São
Paulo, pela constante realização de plenárias, o que lhe valeu a
alcunha de basista.
Por outro lado, este documento também sugere uma autocrítica, pois
vários dos seus signatários também assumiram o texto do PPB,
o qual foi apresentado como proposta inicial para a discussão, como
uma iniciativa pessoal que resguardava a liberdade de opção por
outras teses.
Mas, as divergências não diziam respeito apenas à
questão do método. Este setor, minoritário na Coordenação Nacional,
considerou que o conceito de partido de interlocução desenvolvido
pela maioria evoluíra para a negação do papel dirigente deste na
sociedade e a conseqüente secundarização da luta de classes.
No 1º Congresso, a maioria da Coordenação Nacional
confirmou a adesão ao PPB. Na prática, a VS implodiu.
Parte dos seus militantes ingressaram em outras Tendências como a
Brasil Socialista (BS) e a Tendência Marxista (TM);
outros se voltaram para a militância desvinculada das Tendências; e,
alguns saíram do PT.
Enquanto a minoria procurava reorganizá-la, Augusto de Franco,
Eduardo Jorge, Roberto Gouveia e outros dirigentes e parlamentares
decretaram o seu fim. Para eles, não teria mais sentido nem mesmo
realizar um novo encontro nacional da tendência.
As diferenças que afloraram, e que se tornaram
públicas no plenário do congresso petista, se acentuaram e
determinaram novos realinhamentos. As divergências diziam respeito à
visão sobre o socialismo, a concepção de democracia, do Estado e do
partido, sobre o papel das Tendências e a política de alianças do
PT.
Uma parcela reivindicou a manutenção da sigla.
A VS foi rearticulada por dirigentes e militantes como, Aldo
Leite, Anísio Batista, Lauro Marcondes, Waldemar Rossi etc. No 8º EN,
a VS, mais o Fórum do Interior,
lideranças nacionais do partido como Vladimir Palmeira e Virgílio
Guimarães, lançaram o manifesto Por uma nova maioria na direção
nacional do PT.
A idéia era estimular a intervenção comum e formar uma chapa que
contemplasse os anseios da base petista, expressados nos encontros
municipais e estaduais.
De fato, havia o consenso entre a esquerda petista (Democracia
Socialista (DS), Fórum do Interior, Hora da Verdade (HV),
Na Luta PT (NLPT), VS e outros grupos regionais), em
torno das questões principais.
Porém, não se concretizou a formação de chapa única.
Diante disso, a VS decidiu participar da chapa Opção de
Esquerda, mas mantendo o compromisso de buscar uma intervenção
comum com o NLPT.
Após o 8º EN, a VS continuaria participando
das discussões entre as forças que compuseram a Opção de
Esquerda. A proximidade com o Fórum do Interior
resultaria na fusão entre ambos, dando origem ao Fórum Socialista.
continua >>>
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