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ADRIANO OLIVEIRA
Doutor em Ciência Política pela UFPE. Pesquisador
do Instituto Maurício de Nassau. Professor da Faculdade
Maurício de Nassau. Professor-Convidado da Pós Graduação em
Ciência Política da UFPE. Membro do Núcleo de Estudos de
Instituições Coercitivas da UFPE.

JOSÉ MARIA NÓBREGA
Doutorando em Ciência Política na UFPE, pesquisador
do Núcleo de Estudos de Instituições Coercitivas da UFPE.
Professor das Faculdades Integradas Barros Melo.

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Segurança pública em Pernambuco: investimentos e homicídios
Adriano Oliveira
& José Maria Nóbrega
Introdução
As discussões em torno da segurança pública no Brasil
são freqüentes na Academia. Trabalhos surgem a cada instante,
abordando diversas temáticas. Adorno (2002) e Zaluar (1999) fazem
uma retrospectiva dos temas relacionados à segurança pública
abordados pelos pesquisadores brasileiros. Estes autores mostram que
as seguintes temáticas são discutidas costumeiramente no espaço
acadêmico: freqüência de homicídios, tráfico de drogas, gestão das
polícias, vitimização, Direitos Humanos, relação civil-militar e
militarização da segurança pública. Recentemente, passou a fazer
parte desta agenda, os temas Crime Organizado e recursos investidos
na segurança pública.
Anuário da Segurança Pública (2007) e Costa (2006)
analisam os recursos investidos na segurança pública por parte da
União e pelos estados brasileiros. Nestes trabalhos, os autores
evidenciam os repasses do Governo Federal para os estados, levando
em consideração o todo investido. Neste caso, os pesquisadores
consideram os recursos disponibilizados para as seguintes áreas:
policiamento, Defesa Civil, inteligência e demais subfunções.
Esses trabalhos procuram desvendar qual é o montante
de recursos disponibilizados para a segurança pública. Isto é
necessário, pois em alguns estados, como Pernambuco, Rio de Janeiro
e Espírito Santo, os homicídios continuam apresentando alta
freqüência. Quando os recursos gastos na segurança pública são
publicizados, adquirimos condições de compreender se estes são
suficientes ou não para diminuir, por exemplo, os altos índices de
homicídios em alguns contextos sociais.
Este artigo evidencia os recursos investidos por
parte do estado de Pernambuco na segurança pública no período de
2001 a 2006. Em seguida, trazemos à tona a seguinte relação:
recursos investidos em segurança pública versus freqüência de
homicídios. A nossa intenção é verificar se o aumento de
investimento em segurança pública é orientado pela variação nos
índices de homicídio.
Investimentos em segurança pública em Pernambuco
No período de 2001 a 2006 os recursos investidos em
segurança pública foram – com exceção do período de 2002 a 2003 –
crescentes. Como mostra o gráfico 1, entre 2001 a 2002 os recursos
aumentaram em 14,8%. De 2002 a 2003, ocorreu uma redução de 5,6%. No
período de 2003 a 2004, o crescimento foi de 24,6%. Entre 2004 e
2005, os recursos sofreram acréscimos de 16,8%. E de 2005 a 2006, os
investimentos cresceram 8,9%.
Em 2001, foram gastos na segurança pública do Estado
de Pernambuco, 511,3 milhões. Em 2006, os recursos disponibilizados
foram 881,7 milhões. Afirmamos, portanto, que no período de 2001 a
2006, os recursos aplicados em segurança aumentaram cerca de 1,7
vezes.
O total de gasto em segurança pública está dividido
pelas seguintes áreas: Policiamento, Defesa Civil, Informação e
Inteligência e Demais Subfunções. Em 2005, por exemplo, foram gastos
544.890.999 milhões na área de policiamento; 58.700.550 com Defesa
Civil; com Inteligência foram gastos 1.419.004; e com a área Demais
Subfunções, 204.169.855.

Gráfico 1
Investimentos em Segurança Pública
realizados pelo Estado de Pernambuco
Fonte: Relatórios do Governo do
Estado de Pernambuco –
http://www.portaldatransparência.pe.gov.br
Comparando os gastos com segurança pública com o de
outros setores do Estado, observamos que no período de 2001 a 2006,
eles superaram os recursos dispendidos com os Poderes Judiciário e
Legislativo. Frisamos que no período analisado, os gastos com os
poderes citados foram crescentes.
Ressaltamos que os recursos disponibilizados para o
Poder Judiciário aumentaram 2,6 vezes no período de 2001 a 2006. No
caso do Poder Legislativo, os recursos foram duplicados.
As principais áreas que recebem mais recursos do
poder estatal em Pernambuco são, por ordem decrescente: encargos
especiais, saúde, previdência social, educação e segurança pública.
No ano de 2006, por exemplo, os recursos disponibilizados para os
encargos especiais representaram 28,21% da receita total do estado.
Os gastos com a área de saúde foram da ordem de 14,98% do total. A
previdência social abocanhou do todo, 14,97%. A educação, 10,69%. E
a segurança pública, 8,38%. Em todo o período analisado, 2001 a
2006, a ordem decrescente de gastos se repete.
Nota Técnica sobre os dados de homicídio
Os dados de homicídios foram resgatados do Sistema de
Informações sobre Mortalidade, da Secretaria de Vigilância em Saúde
do Ministério da Saúde, que centraliza informações das certidões de
óbito emitidas em todo o país. Desde 1979, o Ministério da Saúde
passou a implementar o Subsistema de Informação sobre Mortalidade
(SIM). Pela legislação vigente no Brasil (Lei n. 15, de 31/12/73,
com alterações da Lei n. 6.216, de 30/06/75), nenhum sepultamento
pode ser feito sem a certidão de registro de óbito correspondente.
Esse registro deve ser feito à vista de atestado médico ou, na falta
de médico na localidade, por duas pessoas qualificadas que tenham
presenciado ou verificado a morte.
A causa morte tem como base a Classificação
Internacional de Doenças CID-BR-10 classificada como “agressões” que
tem como característica a presença de uma agressão de terceiros, que
utiliza qualquer meio para provocar danos, lesões ou a morte da
vítima, a partir de 1996. Já para o ano de 1995, temos a CID-BR-9 “Homicídios
e lesões provocados intencionalmente por outras pessoas”.
Homicídios e investimentos em segurança pública
Na secção anterior, evidenciamos que os dispêndios
com a segurança pública são crescentes. Do total da receita do
Estado, os gastos com segurança pública é a quarta prioridade do
Estado. Lembramos, e isto é importante, que os recursos dispendidos
com as áreas de saúde e educação são determinadas pela Constituição
– vinculação constitucional. Portanto, obrigatoriamente, o poder
estatal terá que dispender, todo ano, um porcentual mínimo com a
saúde e a educação.
No caso da segurança pública inexiste uma vinculação
constitucional. Deste modo, o governo tem como prioridade os
investimentos na segurança pública. Se assim não fosse, os recursos
disponibilizados para área poderiam ser menores e não aumentariam
ano a ano. É claro, que os índices de criminalidade, e mais
especificamente, no caso de Pernambuco, a alta freqüência de
homicídios, fazem com que o Governo mostre a opinião pública que
está fazendo algo. E, deste modo, disponibiliza mais verbas em
segurança pública, por necessidade, a qual esta é criada por pressão
dos elevados índices de homicídios. O Governo procura meios de
apresentar ações – “estamos fazendo algo”; “nunca se investiu tanto
em segurança” – na área.
Investir mais, a cada ano, numa dada área, representa
que o Governo dá prioridade a ela. Se o Governo dispensa energia
numa determinada área, emite sinais a opinião pública de que está
procurando resolver um problema vigente. Neste sentido, para o
Governo, especificamente na área da segurança pública, direcionar
mais verbas e energia da sua gestão em segurança representa a busca
de meios para, por exemplo, reduzir as altas taxas de homicídios.
Portanto, tal direcionamento para a segurança pública significa,
para o Governo, a busca de soluções para o problema da
criminalidade, sobretudo a homicida.
Uma relação ou necessidade perversa poderá existir,
ou seja: se investe mais em segurança, contudo, os índices de
criminalidade não são reduzidos, em particular, a freqüência de
homicídios. Portanto, mais recursos precisam ser disponibilizados.
Sendo assim, se um Governo, anualmente, aumenta os recursos para a
segurança pública, mas não observa a redução dos índices de
criminalidade, ele poderá disponibilizar ainda mais tais recursos.
Observamos, com base nessa hipótese, o gráfico 2.
Nele encontramos dois indicadores/variáveis: freqüência de
homicídios por 100.000 habitantes; e gastos com segurança pública.
No ano de 2001, a taxa de homicídios teve o seu ápice no período
analisado: 58,8 homicídios por 100.000 habitantes. Em contrapartida,
os recursos disponibilizados para a segurança foram os menores do
período.
No ano de 2002, a taxa de homicídio foi de 54,4. Em
2003, os homicídios voltam a crescer. Eles decrescem novamente em
2004; mas, em 2005, crescem novamente. Constatamos, portanto, que no
período analisado, as taxas de homicídios apresentam variações
constantes. Deste modo, é impossível apontarmos tendência de queda,
crescimento ou estabilidade dos homicídios.
No caso dos gastos e/ou investimentos em segurança
pública, constatamos que eles apresentam tendência de crescimento.
Isto fica nítido a partir de 2003. Diante da variação da taxa de
homicídios, a qual não apresenta tendência clara de para onde irá, o
governo opta por mais investimentos nesta área. Portanto,
aparentemente, o governo orienta os seus gastos e/ou
investimentos levando em consideração a freqüência de homicídios.

Gráfico 2 – Homicídios versus
gastos com segurança pública
Fontes: Relatórios do Governo do
Estado de Pernambuco –
http://www.portaldatransparência.pe.gov.br; e Datasus –
www.datasus.gov.br
Conclusão
O que podemos concluir com o exposto neste breve
trabalho é que os investimentos feitos na segurança pública do
Estado de Pernambuco não se mostram como uma variável determinante
para a redução satisfatória dos seus elevadíssimos indicadores de
homicídios. Recife, considerada a capital mais violenta do Brasil (WAISELFISZ,
2008), ilustra bem o que estamos a defender como tese neste artigo.
A tendência de crescimento dos homicídios é um evento
de toda a região nordeste, independente da queda recente da
desigualdade social e de renda nesta região do país. Contudo,
Pernambuco se mostra como um caso isolado quanto as verdadeiras
causas das constantes oscilações em seus indicadores. Enquanto os
gastos com segurança pública demonstram ser uma variável importante
para boa parte dos estados mais violentos da federação, em
Pernambuco, quando o analisamos isoladamente, não há qualquer
relação dos investimentos nesta pasta com algum impacto, negativo ou
positivo, nas suas taxas de homicídio (Nóbrega Júnior, 2008).
Concluímos que, mantendo-se a tendência dos últimos
seis anos, o governo de Pernambuco continuará aumento seus
dispêndios na área de segurança pública sem, contudo, obter um
resultado realmente relevante quanto a redução de seus indicadores
de homicídio.
Referências
ANUÁRIO DO FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA.
São Paulo, 2007.
ADORNO, Sérgio. Monopólio estatal da violência na
sociedade brasileira contemporânea. In: MICELI, Sergio (Org.). O
que ler na ciência social brasileira, 1970-2002. São Paulo:
Anpocs; Brasília: Capes, 2002. v. 4.
COSTA, Artur. Relações intergovernamentais e
segurança pública: uma análise do Fundo Nacional de Segurança
Pública. 30° Encontro Anual da ANPOCS. Caxambu, 2006.
NÓBREGA JÚNIOR, José Maria P. da. Homicídios em
Pernambuco e no Brasil: dinâmica e relações de causalidade.
Manuscrito. 2008.
SIM/DATASUS/MS. O Sistema de Informações sobre
Mortalidade.
WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da Violência dos
Municípios Brasileiros – 2008. Rede de Informação Tecnológica
Latino-Americana, RITLA, Instituto Sangari, Ministério da Saúde e
Ministério da Justiça, 2008.
ZALUAR, Alba Um debate
disperso: violência e crime no Brasil da redemocratização. São
Paulo em Perspectiva, v. 13, n. 3, p. 17-23, 1999.
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