Revolução ou revolta? – Parte II –
(Um retorno a Albert Camus em sete pontos)
Raymundo de Lima
4.
Um ex-revolucionário relembra um episódio. Trata-se do
“professor Dennis”, personagem de “As invasões bárbaras”,
que iluminado pela sabedoria de quem se encontra no
estágio final de sua vida, diz ao seu amigo:
“Fim dos anos 70, [a linda chinesa], Guo
Jin vem a Montreal em visita cultural (...). Querendo ser
interessante digo: ‘É extraordinário o que acontece no
seu país. Se soubesse como os invejamos. A Revolução
Cultural de vocês é formidável!’’ Imediatamente vejo
seus belos olhos negros se encherem d´água. E imagino,
horrorizado, que ela pensa: ‘Ou esse cara é um agente da CIA
ou é o maior cretino do ocidente’. Optou pela 2ª.hipótese.
Ela havia limpado pocilgas por dois anos como reeducação
pelo trabalho. Seu pai tinha sido assassinado e sua mãe se
suicidado. E um imbecil franco-canadense, que tinha
assistido aos filmes de Goddard e lido Philippe Solers
achava a Revolução Cultural chinesa formidável! Não dá
mais para ser cretino”
Quando o revolucionário é
"privado do direito de dizer não,
torna-se um escravo”, alerta Camus. O
revolucionário que diz apenas “sim”, que não tem dúvidas
quanto ao seu projeto político, já que o mundo pelo qual luta já
está claramente definido numa teoria e na sua convicção, perdeu
o juízo, literalmente. A revolução consiste no transplante da
idéia para a experiência histórica. O revoltado camusiano é
radicalmente cético. A revolta, induz um movimento que
parte da experiência histórica à idéia, e desta ao ceticismo. A
teoria da revolta vem depois da vivência de uma situação
injusta, que lhe fornecerá os dados sobre os quais ela será
construída (BARRETO, ibid, p.73).
Em O Homem Revoltado, Camus acentua as
diferenças entre essas duas atitudes e suas conseqüências:
“Se se verificasse apenas uma revolução, a
história acabaria. Haveria unidade feliz e morte
satisfeita. Eis o motivo por que todos os
revolucionários visam finalmente a unidade do mundo e agem
como se acreditassem no fim da história. (...). Como o
movimento de revolta desemboca no ‘tudo ou
nada’, (...), o movimento revolucionário do
século XX, tendo atingido as conseqüências mais claras da
sua lógica, exige, de armas na mão, a totalidade histórica.
A revolta é, nessa altura, intimada, sob pena de acusação de
fútil ou de desactualizada, a tornar-se revolucionária. Já
não se trata, para o revoltado, de se deificar a si próprio
como Stirner, ou de se salvar individualmente pela atitude.
Trata-se de divinizar a espécie, como Nietzsche, e de
realizar o seu ideal de super-humanidade, a fim de assegurar
a salvação de todos(...). A maior parte das revoluções
adquire a sua forma e a sua originalidade por meio do crime.
Todas ou quase todas foram homicidas. Mas algumas
praticaram, além disso o regicídio e o deicídio. (...)".
(grifo meu).
5. As revoluções
buscam ideais absolutos (justiça, igualdade, liberdade), e se
afastam das atitudes verdadeiramente críticas. Acontece que para
conquistar o absoluto e ir ao encontro da aspiração coletiva os
agentes da revolução precisarão sacrificar o indivíduo. Daí a
revolta dos sujeitos pensantes-críticos e
criativos. “A revolução fracassa na medida em que o seu
dinamismo interno elimina a crítica e quebra, por seus atos, os
laços de solidariedade. A revolução ao realizar-se
historicamente, diz Camus, perde-se no silêncio ou na mentira”
(BARRETO, ibid,73).
Ou seja, “a tragédia da revolução consiste na
incapacidade de manter o vivo espírito revoltado” que existiu e
deu impulso ao próprio movimento revolucionário. A história das
revoluções contemporâneas nos ensina que após conquistarem o
poder, os revolucionários foram incapazes de serem fiéis a sua
própria pulsão mobilizadora e também de cumprir com os
princípios supostamente éticos divulgados nos discursos,
panfletos, slogans, etc.
A psicanalista Julia Kristeva (1999) alerta que a
revolta pode terminar num niilismo moral, sufocando assim tanto
o ato criativo como o ato político. Para Barreto (ibid), se for
incorporada à revolução ela termina justificando todos os tipos
de crimes do “novo” sistema de valores. A revolta genuína –
camusiana – comporta um grau pulsional mediado pelo logos-razão;
indigna-se em protestos e mesmo em ações políticas (não
partidárias) organizadas contra: as ações de inspiração militar,
o terrorismo fundamentalista, o narcotráfico, a violência
urbana, a corrupção, as diversas injustiças, o cinismo, o
orgulho da ignorância, enfim, é um ato de protesto contra todos
os que não promovem o crescimento dos seres humanos ou engendram
miséria e mortes. Torna-se imperativo em nossa época, ainda,
denunciar aqueles que não defendem suficientemente a vida do
ser humano, dos animais e do planeta, omitindo-se em
nome de sua “causa” mítica ou de um “taticismo político”
justificado ou não.
Desse modo, o espírito revoltado anima-se de uma
atitude expressionista. No fundo, ele busca compartilhar sua
revolta com os outros revoltados, num comprometimento ético em
defesa da vida ex-sistente. Por isso mesmo, os revoltados
camusianos se autorizam fundar algumas amizades verdadeiras e
duradouras em vez das amizades instrumentais, guiadas por
interesses políticos e ideológicos. Denegando o valor da amizade,
os revolucionários buscam “militantes”, “companheiros”,
“camaradas”, que servirão aos quadros do seu projeto de
transformação radical da sociedade. No seu livro “Le Cathecisme
du Revolutionaire”, Netchaiev
ensina que “Ele [o revolucionário]
não deve ter relações pessoais nem coisas ou seres amados. Ele
se deve despojar, inclusive, do seu nome. Tudo nele deve
concentrar-se numa só paixão: ‘a revolução’” (BARRETO,
ibid, 95).
Concluindo: “Eu penso, logo me revolto”
Até a queda do muro de Berlin, pode-se afirmar
que estava em alta uma cultura revolucionária, com suas idéias
de progresso, igualdade, fraternidade. O taticismo pró revolução
socialista fazia de conta que as execuções – expurgos – levadas
a cabo pelos revolucionários no poder contra os supostos
“inimigos do povo”, “burgueses”, e outros bodes expiatórios,
eram atos de “justiça popular”. Nós que amávamos tanto a
Revolução (com R maiúsculo) jamais poderíamos imaginar o
revolucionário virando um genocida. Jamais poderíamos imaginar
que a Revolução produzia ou acobertava personalidades perversas
e criminosas. Defendíamos cegamente todos os atos justificados
pela Revolução, em nome do amor à causa proletária ou do ódio de
“ver o último capitalista enforcado nas tripas do último
burocrata” traidor do socialismo. Passado o clima ideológico pró
revolução, hoje, no mínimo, podemos reconhecer que, na prática,
essa idéia tem se revelado totalitária e, por isso mesmo, barra
o ânimo de revolta que inicialmente a engendrou.
Além de representar um estado de espírito
necessário do sujeito frente a todos os sistemas
políticos e ideologias, a revolta implica um plus em
relação à revolução, tanto porque evita o totalitarismo como
porque ela implica uma condição necessária (subjetiva) ao ato
criativo. Evidentemente, existem diversos graus e tipos de
revolta. A criação artística precisa de liberdade emanada do
sistema político e pulsão anárquica do sujeito, sublimadas.
Quanto mais for desvencilhada do interesse do Estado,
mais genuína a obra será.
“A criação artística é a forma mais
descomprometida da revolta, pois está fora da História. A
arte recusa o mundo em virtude daquilo que lhe falta, e ás
vezes, por causa daquilo que é. Os revolucionários sempre
demonstram uma hostilidade acentuada em relação às
manifestações artísticas. Platão exila da sua República
os poetas; Rousseau considera a arte uma corrupção feita
pela sociedade na natureza; Saint-Just entende ser melhor
uma arte virtuosa do que bela; Pisarev dizia preferir ser um
sapateiro do que um Rafael; Nekrasov, o poeta, trocaria toda
a obra de Puchkine por um pedaço de queijo. Em Marx essa
condenação é mais radical. A única arte revolucionária é
aquela colocada a serviço da revolução. A razão para isto
está no fato de que a arte sem compromisso político impedirá
que a História transforme-se no absoluto. Marx na dúvida de
sua afirmação, pergunta como a arte grega ainda pode ser
bela para nós e responde que essa beleza nada mais é do que
a expressão que essa beleza nada mais é do que a expressão
da nostalgia de uma infância inocente, que perdemos no mundo
adulto em que vivemos” (BARRETO, 1970, p.105).
Parece que o espírito de revolta se sustenta e se
expressa melhor nas artes. Ela seria mais uma exigência estética
do que ética. O artista revoltado pode reconstruir o mundo que o
cerca, seja o mundo dos regimes totalitários ou o mundo da
natureza. Uma literatura ficcionada como “A peste” de Camus
expressa sua revolta sobre uma epidemia e a displicência divina
para contê-la. “A cidade do sol”, do afegão Khaled Housseini, é
uma revolta sublimada contra a opressão sobre as mulheres
daquele país, e contribui para aproximar as mulheres dos homens.
Um quadro como Guernica, que Picasso, não expressa apenas a
revolta de pintor, mas também causa-nos empatia com todos que
denunciam os horrores da guerra. Por outro lado, o ato
terrorista ultrapassa os limites da revolta metafísica, sendo
uma produção de morte, indistinta, cruel. O terrorismo é o
avesso tanto do dionisíaco como do apolíneo, elaborados por
Nietzsche.
Porque é um ato de barbárie, que nada cria, só destrói. Por isso
que o terrorismo não pode ser identificado com um simples ato de
revolta, no sentido camusiano, mas sim, é um ato calculado,
frio, investido somente de dor e morte.
A ficção camusiana é a tradução mais fiel no
plano estético do espírito de revolta. A obra literária cria um
mundo de imagens, amor, ódio, caminhando numa certa coerência
proporciona aos leitores um meio de eles viverem outra situação
de vida e mesmo comparar com a sua realidade concreta. Nesse
sentido, a obra literária de estilo camusiano mais que inspira,
eleva, e pode abrir um caminho para sermos sujeitos
comprometidos em elaborar um pensamento e uma moral da revolta.
Segundo Arendt, a tarefa fundamental de uma obra literária
(ficção) ou “teórica” é descongelar as definições, é livrar o
significado considerado como único tendo em vista a
complexidade dos acontecimentos e as situações demasiadamente
humanas. A revolta com consciência pode nos livrar da
camisa-de-força dos conceitos e das teorias que nos obrigam
soluções canônicas para assuntos complexos e emergenciais. Um
pensamento da revolta, ainda que causado por uma ficção, tem o
poder de dissolver doutrinas e regras aceitas,
incondicionalmente, como também pode dar sentido a revolta
emotiva ou explosiva. Por seu lado, a crítica revolucionária
tende a condenar – ou menospreza – o romance, a ficção, como
sendo uma fuga, uma alienação do sujeito (ler notas 2 e 5). O
revolucionário padrão leva muito a sério o seu projeto e,
raramente, encontra espaço subjetivo para efetivamente “não
perder a ternura”.
Lembrando os mitos, Prometeu e Sísifo, a revolta
atual precisa ser guiada por uma ética forjada pelo sujeito que
vivencia um mundo onde somos cotidianamente devorados e
condenados a um trabalho repetitivo, cujo sentido nos escapa e a
esperança não se sustenta como caminho para ser feliz. Ainda que
essa revolta supere os obstáculos de regramento, repetição,
proibição,
e ignorância,
sua força e sua razão a faz encontrar caminhos de expressão no
social. Porque a revolta é uma filosofia para enfrentarmos
civilizadamente um mundo cada vez mais absurdo e sombrio.
Ainda que o escritor, pintor ou governante possam
ter um certo poder de transformação, há que ele sustentar sua
revolta. Lembrando Calígula, com todo o seu poder diz: “...E
de que me serve ter as rédeas na mão, de que me serve o meu
espantoso poder, se não posso alterar a ordem das coisas, se não
posso fazer com que o sol se ponha ao nascente, com que o
sofrimento diminua e os homens não morram?... (CAMUS,
1963, p. 33).
* * *
O ser humano afirma-se melhor como ser-emancipado
quando sabe o que dizer e quando sabe se calar. A revolta deve
ser permanente, mas guiando-a com razoabilidade e
sabedoria. O exercício pleno da liberdade está no
espírito de revolta – sempre - e não na cultura revolucionária,
diz a história. Lembrando a epígrafe do texto do historiador
Hobsbawm: a revolução que valeu a pena ser vivida ocorreu na
década de 1960, porque seu lema era “Paz e Amor”.
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99-108.
A história registrou dois exemplos emblemáticos de
regramento oficial das expressões humanas: O Código
Hays, nos EUA, e o "jdanovismo". (a) O Código
Hays (também conhecido como Código de Produção) foi
implantado em 1930 e limitou drasticamente a liberdade
de expressão dos filmes produzidos nos Estados Unidos. O
código consistia em uma série de restrições de caráter
moralista impostas aos filmes de Hollywood e foi
implantado por uma comissão de censura presidida na
época pelo diretor da Motion Picture Producers and
Distributors of América (MPPDA), Will H. Hays. A
desobediência ao código gerava a perda automática dos
canais de distribuição do filme e uma multa de 25 mil
dólares (uma fortuna para a época). Com a implantação do
Código Hays não era permitido, entre outras coisas, que
os filmes exibissem cenas evocadoras de sensualidade:
nudez total ou parcial, o beijo “profundo”, as carícias
sugestivas, o estupro, as relações inter-raciais, as
ligações extraconjugais, a homossexualidade. Eram
proibidos os diálogos que contivesse palavrões ou
xingamentos e os filmes que mostrassem temas como o
aborto, a eutanásia e os viciados em drogas. Não era
permitida a apologia ao gangsterismo e ao terrorismo
revolucionário. O crime sempre tinha que ser castigado e
o final feliz deveria ser moralista. Os artigos do
código permaneceram inalterados por cerca de 17 anos,
mas, sob a pressão de alguns criadores corajosos, a
censura começou a cair a partir dos anos 50. Diante da
concorrência da TV e da necessidade dos estúdios de
Hollywood trazerem de volta o público aos cinemas
americanos, vários artigos foram reformulados em 1955 e
depois uma última vez em 1963, antes de ser extinto em
1968 (cf.:http://www.somese.com.br/site/revista/101/P20_cinema.pdf).
(b) O jdanovismo (criado por Andrei
Aleksandrovich Jdanov, 1896-1948) se
constituía num rígido código ideológico, contribuindo
para a implantação do chamado “realismo
socialista” cujo propósito era a “educação dos
trabalhadores para a formação do espírito socialista
entre as massas a pintura exaltava as virtudes do novo
regime, e a força do proletário russo, os heróis dos
romances eram paradigmas do conformismo, as
manifestações culturais dos povos não-russos eliminados
como expressões de chauvinismo nacionalista e as
correntes de vanguarda das ciências combatidas como
ideologias burguesas (entre elas, a biologia de Morgan,
a mecânica ondulatória, a física nuclear, a cibernética
e a psicanálise). Jdanov também foi o promotor da
‘genética proletária’ de Lyssenko. Os artistas e
cientistas que não se enquadravam na linha ideológica
codificada foram depurados. Os reflexos do jvadovismo
foram sentidos no PCF, PCB, entre outros. Reagindo, o
escritor Jorge Amado declarou: "Atrevo-me a dizer
que as ditaduras de esquerda são piores, pois
contra as de direita pode-se lutar de peito aberto: quem
o fizer contra as de esquerdas acaba acusado[queimado]”
(Cf.:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Andrei_Jdanov).
Mais precisamente em “O homem revoltado”, Camus declara
que: “o socialismo é um empreendimento
de divinização do homem e adquiriu certas
características das religiões tradicionais (...). “O
marxismo pode ser entendido como uma espécie de
religião que anuncia um amanhã longínquo”.