LEANDRO KONDER

Filósofo marxista brasileiro. Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor da Universidade Federal Fluminense e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

 

 

Nota do editor:

Os textos desta série foram publicados pelo autor no jornal carioca Tribuna da Imprensa, ao longo do ano de 1990. No final de cada artigo é indicada a data de publicação. Os artigos foram reunidos e publicados em "Intelectuais brasileiros & marxismo" (Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1991). O autor, a quem agradecemos, autorizou a publicação na REA. Também registramos o agradecimento ao Prof. Paulo Cunha.

 

 

Intelectuais Brasileiros & Marxismo

José Guilherme Merquior (1941-1991) *

Leandro Konder**

 

José Guilherme Merquior (1941-1991)Está sendo lançada pela Nova Fronteira uma antologia que reúne ensaios do crítico e diplomata José Guilherme Merquior, selecionados por ele mesmo entre os numerosíssimos trabalhos que escreveu e publicou entre 1964 e 1989. O volume – intitulado Crítica (1964-1989) – proporciona às novas gerações de leitores a oportunidade preciosa de se familiarizarem com marcos extremamente significativos na história da nossa crítica literária. A qualidade da intervenção de Merquior na vida cultural brasileira, ao longo do último quarto de século, não pode ser subestimada: ele costuma abordar seus temas com uma base de conhecimentos de inexcedível solidez; e faz observações sempre argutas e instigantes, ainda quando sejam polêmicas.

Como seu amigo e leitor atento, tenho acompanhado com vivo interesse (e às vezes discutido com alguma veemência) o movimento de seu pensamento. O próprio Merquior, falando desse movimento, no prefácio da antologia que está sendo editada agora, escreve: “Meu trajeto ideológico foi passavelmente errático até desaguar, nos anos oitenta, na prosa quarentona de um liberal neo-iluminista”.

Na minha condição de marxista (numa época em que essa condição é cada vez mais tida como “bizarra”), gostaria de me deter, aqui, em algumas considerações, mais ou menos sumárias, a respeito das relações de Merquior com Marx, nas diversas estações do seu percurso “errático”.

* * *

Nos primeiros artigos que Merquior publicou, no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil e na revista Senhor, não se notava relação alguma com Marx e o marxismo. Embora fustigasse a frouxidão dos versos de alguns poetas conhecidos por suas posições políticas de “esquerda”, o crítico não deixava transparecer qualquer interesse pelo pensamento do autor d’ O capital.

Quando o conheci pessoalmente, em 1962, num festival de cinema russo e soviético, Merquior estava se distanciando de um certo entusiasmo filosófico inicial por Heidegger e estava começando a simpatizar com algumas idéias de Marx, através da leitura de Georg Lukács. No ano seguinte, convidado a ministrar um curso de introdução à estética no Iseb (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), ele me convidou para falar sobre a estética marxista exatamente porque ainda não se sentia à vontade no trato com o assunto.

O ano de 1963 assinala o ponto de maior aproximação entre Merquior (que estava, então, com 22 anos) e o marxismo. No começo de 1964, ele já dava sinais de insatisfação diante do legado de Marx; como o ingresso na carreira diplomática o levou para Brasília, não tive ocasião de discutir com ele as novas posições teóricas que passou a assumir e que me pareciam bastante influenciadas pela leitura de Claude Lévi-Strauss. O golpe de Estado de 31 de março de 1964 criou dificuldades adicionais para nós nos mantermos em contato.

Merquior, como diplomata, ficava visado pela histeria direitista. E eu era intimado a depor em sucessivos inquéritos, como “subversivo”. Apesar dos tropeços, ele me pediu para escrever o texto das “orelhas” de seu primeiro livro, a coletânea Razão do poema, que juntava artigos de inspirações mais ou menos lukacsiana (como “Crítica, razão e lírica” e “Coppelius, ou a vontade alienada”) com o ensaio “Estética e antropologia”, no qual pela primeira vez se explicitavam publicamente as dúvidas em relação a Marx. Merquior falava de uma contradição entre a idéia de uma “integridade humana” (essencial ao humanismo marxista de Lukács) e o caráter “medularmente historicista” da filosofia de Marx, sustentando, a partir daí, que cabia à antropologia cultural determinar em que consistiria o que existe no ser humano de permanente, de constante: “um elemento supratemporal – o inconsciente coletivo – onde certas estruturas anímicas residem como funções a priori do espírito humano”.

Em 1966, Merquior foi mandado pelo Itamaraty para Paris, onde permaneceu até 1970. Se em 1963 ele depositava esperanças em um “neomarxismo revivificado”, a avaliação que passou a fazer no exterior já era acentuadamente negativa. No ensaio Arte e sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin, que a Tempo Brasileiro editou em 1969, Marx ainda é reconhecido como “um dos grandes instauradores da moderna reflexão científica e do amadurecimento das ciências do homem”, porém fica claro que sua contribuição depende de uma releitura impulsionada pela perspectiva de Heidegger: “O pensamento de Heidegger é uma das construções intelectuais mais densas do nosso tempo”.

A “tradição hegeliano-marxista” é severamente questionada, já que manifesta uma “disposição inquietantemente débil” para assimilar as contribuições trazidas pelas análises da cultura moderna e para transformar-se numa concepção efetivamente nova do esforço prático de renovação social. A visão do mundo de Marx, afinal, teria permanecido marcada por um caráter “fortemente metafísico, escatológico e voluntarista”.

A publicação da obra coincidiu com uma situação horrível: estávamos sob a onda de repressão que se abateu sobre nós na esteira do Ato Institucional nº5. Era natural, portanto, que entre os marxistas se ouvissem resmungos irritados contra Merquior. Registrei, contudo, na época, o fato de Arte e sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin ser dedicado à memória de San Tiago Dantas, homem político que inspirava repulsa aos detentores do poder.

Na primeira metade dos anos setenta, ainda poderiam ser reconhecidas as marcas da nova inflexão heideggeriana no trabalho crítico de Merquior. Em 1972, em Saudades do carnaval, Heidegger foi defendido contra as interpretações “engenhosamente injustas” de sua obra feitas na Dialética negativa de Adorno: e os “marxistas neo-hegelianos”, como Adorno, eram acusados de serem “radicalmente surdos à problemática não só do divino, mas até do sacro”. Merquior achava que, hipnotizados pelo “mito soteriológico da revolução político-social”, os marxistas se obstinavam em “ignorar o estado patológico do conjunto da cultura moderna”. E, para que não houvesse dúvida quanto à extensão da palavra conjunto, especificava, entre parênteses: “(liberal ou socialista)”.

Em 1972, uma coincidência nos pôs novamente em contato direto: fui forçado a sair do Brasil e, a convite de amigos, instalei-me em Bonn, na Alemanha; lá estava, servindo na Embaixada do Brasil como funcionário diplomático, recém-doutorado pela Sorbonne, o meu amigo José Guilherme Merquior. Merquior e sua mulher, Hilda, me convidavam freqüentemente para jantar e me ouviam, com paciência e simpatia, mesmo em momentos nos quais eu me tornava impertinente, na minha irritação contra a ditadura militar então estabelecida no nosso país. Lembro-me de que uma noite, aborrecido com as notícias de prisões que me chegavam do Brasil, fiz para os meus anfitriões e para um surpreso visitante (o jornalista Fernando Pedreira) uma exaltada apologia de Lênin. Merquior compreendeu, serenamente, o meu desabafo. E a cada vez que eu acenava com a iminência de uma “explosão revolucionária” na sociedade brasileira ele, solícito, me enchia o copo de whisky.

Posteriormente, quando as injunções da “carreira” o tinham mandado para Londres e meu irmão Rodolfo foi preso no Brasil (e corria perigo de vida), Merquior telefonava da Inglaterra para o Brasil, obtinha notícias recentes e em seguida me ligava para a Alemanha, a fim de me tranqüilizar.

O que pensava, exatamente, merquior a respeito de Marx, ao longo dos anos setenta? Em 1972, em Saudades do carnaval, ele se referia ao “sociologismo reducionista” e ao “reducionismo economista dos fundadores do materialismo histórico”. Em 1974, em Formalismo e tradição moderna, reproduziu uma observação de Octavio Paz sobre duas noções de Marx (“a do Estado como simples expressão da classe no poder, a da cultura como reflexo da realidade social”), mas advertiu, numa nota de pé de página, que a seu ver essas duas noções não eram “assim tão simples, tão unilaterais em Marx”. Nem o Estado aparece no Dezoito Brumário como mera expressão da classe no poder – lembrava Merquior – nem um produto cultural como a dialética de Hegel surge em Marx como mero reflexo da sociedade alemã atrasada do começo do século dezenove. “Contudo – ressalvava o nosso crítico – a média do pensamento marxista esposou inegavelmente essas teses reducionistas”. A restrição do “reducionismo”, então, se aplicaria mais aos seguidores do que aos “fundadores do materialismo histórico”.

No final dos anos setenta, no entanto, determinadas modificações significativas puderam ser notadas nas posições do ensaísta: na Inglaterra, onde fez seu segundo doutorado, Merquior – estimulado por Ernest Gellner – mobilizou-se numa resoluta campanha em defesa da razão e do sentido da objetividade, pela democracia liberal e contra os irracionalismos (entre os quais ele incluía o milenarismo revolucionário, a paranóia dos fascismos, as religiões psicanalíticas, a magia surrealista e todas as crenças a que o espírito inglês permaneceu refratário, conforme expressões utilizadas num dos ensaios de As idéias e as formas).

Em conseqüência da mudança, Heidegger foi descartado. Em O fantasma romântico, o autor de Ser e tempo é depreciativamente incluído no “clero humanístico de direita” e Merquior fala de sua “ontologia fundamental” como um refúgio ideal para vagos literatos, pretensamente “humanistas”, poderem alimentar nostalgias “religiosas” e “abraçar um espiritualismo sem incômodas definições confessionais”.

O novo ângulo também não poderia deixar de acarretar revisões nas críticas feitas a Marx e aos marxistas. No ensaio sobre Rousseau e Weber, Marx voltava a ser considerado responsável pelo feio procedimento “reducionista” dos marxistas em face do Estado. E Merquior esclarecia: “É claro que em trabalhos históricos como O Dezoito Brumário de Louis Bonaparte Marx foi bastante longo no reconhecimento da autonomia tática do Estado em face das classes dominantes. No entanto, há um caminho bastante longo para se ir do reconhecimento dessas eclipses raras, excepcionais, do domínio classista direto, até a compreensão de que existe uma necessidade estrutural do Estado, fundada em suas tarefas coordenadoras, no espaço social da moderna divisão do trabalho”.

A fauna dos marxistas, revisitada, mereceu novos comentários, foi elogiado por ter chegado a “compreender que não bastava abandonar a dialética – era necessário também demolir o mito escato ora indulgente, ora cáusticos. O ex-marxista italiano Lucio Colletti lógico da alienação” (O argumento liberal, 1983). No entanto, o marxismo que girava em torno da teoria da alienação, o marxismo “humanista” e “sem grossura”, o marxismo “difuso” que se difundiu no Rio de Janeiro do começo dos anos sessenta a partir das edições de livros de Lukács em italiano – um marxismo que era mais atmosfera que crença – foi evocado em termos que quase arriscavam “um escorregão no sentimentalismo”, no âmbito de uma áspera polêmica com a “intelligentsia enlatada”, “crassamente ideológica”, integrada por “reducionistas” pretensamente radicais instalados na universidade (O elixir do Apocalipse, 1983). Os “pruridos socializantes” de 1960, com sua simpática ingenuidade generosa, tinham cedido lugar a uma truculência que, em 1980, confundia “processo histórico com acesso histérico”.

Havia, então, marxismos e marxismos. E Merquior se sentiu desafiado a empreender uma análise mais aprofundada do tema. Fixou-se no exame das expressões teóricas mais sofisticadas de correntes de pensamento que influíam com maior vigor na cultura do Ocidente: escreveu seu livro O marxismo ocidental, que saiu originalmente na Inglaterra em 1986 e teve sua tradução brasileira lançada em 1987.

O ensaio mergulhava nas raízes hegelianas da filosofia de Marx, sublinhava a importância da confiança que Hegel e Marx tinham na história e no desenvolvimento industrial. Sustentava, porém, que Marx se havia equivocado em seu esforço de teorizar a revolução socialista como realização “racional” do proletariado europeu. “O marxismo clássico equivocou-se quanto ao seu próprio papel histórico”, escreveu Merquior. E acrescentou: “Quando a Europa era, de fato, revolucionária, o proletariado tinha pouca importância; e quando o proletariado se tornou uma classe poderosa, a Europa deixou de ser revolucionária”.

A partir do livro História e consciência de classe (1922), de Lukács, começaram a se manifestar de maneira mais incisiva as tendências que viriam a plasmar o chamado “marxismo ocidental”. E os “marxistas ocidentais”, segundo Merquior, passaram a se equivocar num plano ainda mais radical do que Marx: passaram a manifestar (com a exceção do italiano Antonio Gramsci) a perversa disposição de condenar, não determinados movimentos da vida cultural no Ocidente, mas a cultura como tal (resvalando para aquilo que os alemães chama de Kulturkritik). Lukács, Ernest Bloch, Adorno, Horkheimer e Marcuse, reagindo contra o determinismo em que se apoiava o “marxismo oficial”, resvalaram para a superestimação indevida das motivações políticas em detrimento do respeito pela força da economia. Tornaram-se vulneráveis à impregnação por parte de “fobias neo-românticas”. A conclusão do ensaio é peremptória: “o marxismo ocidental (1920-1970) foi apenas um episódio na longa história de uma velha patologia do pensamento ocidental cujo nome é, e continua a ser, irracionalismo”.

Os “marxistas ocidentais” deixaram de ser vistos (e criticados) como culpados por não enxergarem “o estado patológico do conjunto da cultura moderna”. Passaram a ser responsabilizados, ao contrário, por insistirem em atribuir traços patológicos até à cultura que preserva características de bom senso e de saúde.

De seu ângulo atual – autodefinido como “liberal neo-iluminista” – Merquior trata de ajustar contas com idéias cujo poder de sedução chegou, de algum modo, a perturbá-lo no passado. E o risco desse movimento é sempre o de levar o crítico a jogar fora o bebê junto com a água do banho.

Há indícios, contudo, de que o nosso ensaísta está atento para o perigo das extrapolações e dos excessos, na farta distribuição de cascudos destinados aos “marxistas ocidentais”, é sintomático que Gramsci seja poupado. O liberal evita dinamitar as pontes que lhe permitem o intercâmbio com as vertentes do marxismo capazes de lhe trazer matéria de reflexão própria para dissolver cristalizações conservadoras.

Vale a pena assinalarmos o fato de que, dando prosseguimento a sua antiga e persistente polêmica com o formalismo na crítica literária, Merquior termina o último ensaio do volume Crítica (1964-1989), que a Nova Fronteira está lançando por estes dias, com uma referência a Gramsci: “Como Gramsci, nós, antiformalistas, podemos combater sendo pessimistas pela inteligência mas otimistas pela vontade”.

19-9-1990

 

* José Guilherme Merquior faleceu em janeiro de 1991, três meses e meio após a publicação deste artigo.

** Filósofo marxista brasileiro. Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor da Universidade Federal Fluminense e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

   

 

 

 

 

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