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JOSÉ PETRUCIO DE FARIAS
JÚNIOR
Doutorando em História Antiga pela Universidade
Estadual Paulista – campus de Franca

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A legitimação do registro biográfico como documento histórico:
Eunápio e suas biografias
José Petrucio de Farias Júnior
Ofereceremos uma
investigação que pretende mostrar as Vidas eunapeanas na
condição de narrativa histórica, porém escrita em formato
biográfico. Isso revelará a plasticidade da composição histórica na
Antiguidade Tardia, período em que nos propusemos a estudar, tendo
em vista o arco cronológico em que Eunápio e a composição de suas
Vidas estão insertos. Sendo assim, discorreremos sobre os vários
aspectos que cristalizam essa maneira de conceber o gênero
biográfico.
A princípio,
convém ressaltar que, no que tange à concepção de História, ao
examinarmos os vestígios que Eunápio delegou em outras obras
escritas por ele, as quais versam sobre a História Universal,
verificaremos uma perfeita sintonia entre essas obras,
declaradamente históricas, e os registros biográficos produzidos
posteriormente. (SACKS, 1986: 63). Com base nisso, revelaremos,
inicialmente, algumas passagens de Eunápio sobre sua concepção de
história impressas em diversas coletâneas organizadas por
Blockley sobre o biógrafo, tais como Excerpta de Sententiis Iussu
Imp. Constantini Porphyrogeniti Confecta.; Malalas; Chronicon,
ed. L. Dindorf, em CSHB XV e Photius, Bibliotheca, ed.
R. Henry, I-II, Paris (1959), todos compilados em O fragmentário
de historiadores clássicos do Baixo Império Romano e as
relacionaremos a Vidas de Filósofos e Sofistas.
Nesse sentido, em
relação à função e aos objetivos da História, Eunápio defende que:
[...] eu
tenho refletido que [...] o maior objetivo e função da história
é registrar eventos com um mínimo de subjetividade e, à luz da
verdade - öτι μαλιστα δíχα τìνος πáφους ‘ες τò αλητèς
àνατεροντα γραφειν,
[...] testemunhas aleatórias, são incapazes de auxiliar nisto.-
ωρπερ äκλητοι μáρκυρες, αùτομáτως èπεισιóντες èς ταυτα
ωφελουσιν ουδéν [...] Se o mais importante dos benefícios da
história é que sucintamente e, em curto espaço de tempo, nós
podemos nos familiarizar com muitos fatos, de verdade um
incontável número deles e, por meio do conhecimento de eventos
passados, angariar experiência dos anos anteriores enquanto
ainda jovem, de tal forma que nós
conheceremos o que deve ser evitado e o que se pretendeu depois.
– εì γàρ ëσχατος öρος των περì την íστορíαν καλων το πολλων
καí àπεíρων πραγμáτων èν òλιγωι χρóνωι καí διà βραχεíας
àναγνωσεως πειραν λαβειν καí γενεσται γéροντας ëτι νéους öντας
δι’ éπιστημην των προγεγóτων. (EUNÁPIO, Exc. de Sent. 1 apud
BLOCKLEY,1983: 09).
O fragmento manifesta uma concepção de história
arraigada à idéia de produção da verdade (το αλεθες) dos
fatos, tal como Heródoto e Tucídides idealizaram no século V a.C.
Naquele momento histórico, a idéia de verdade era, com efeito, o
elemento que diferenciava a História dos demais gêneros discursivos.
Em virtude disso, ela era revelada a fim de que o leitor tivesse
conhecimento de que tinha em suas mãos uma obra de história. Por
outro lado, na Antiguidade Tardia, em especial depois do Movimento
da Segunda Sofistica, o referido termo passou a ser apropriado como
um recurso retórico utilizado para persuadir o leitor acerca da
veracidade das informações disponibilizadas no texto e, assim,
justificar o ponto de vista do intelectual em relação ao passado.
Com isso, percebemos que a apropriação de modelos
clássicos na Antiguidade Tardia, os quais ainda atuavam como
parâmetros para produção discursiva, tiveram seus objetivos
redirecionados. Conforme observamos, o modelo de história propalado
por Tucídides, no IV século, sob a égide do Movimento da Segunda
Sofística, é empregado como mecanismo de persuasão, ou melhor, a
verdade, em vez de caracterizar um tipo de texto, tornou-se um mero
recurso retórico que se manifesta no texto com a finalidade de
angariar a atenção do leitor e mudar seu comportamento a partir da
leitura da obra. Em outros termos, manipula-se, a nosso ver, fatos
do mundo clássico para referendar posições políticas no presente.
Nesse sentido, muitos historiadores ou biógrafos se apropriaram
dessa figura de estilo para burilar a eficácia da obra em relação ao
público-alvo no tocante à capacidade de persuasão.
Nas Vidas, particularmente, identificamos a
preocupação de Eunápio em fazer com que o discurso estivesse, pelo
menos, amparado em informações seguras que o permitisse estar a
dizer a verdade, conforme se averigua no trecho a seguir:
Em minhas pesquisas
(εμην íστορíαν συνéπεσεν) relacionadas a este homem (Eustátio),
eu tenho levantado evidências de seus seguidores, da mesma forma
que a Grécia inteira suplicou para vê-lo e implorou aos deuses
que ele poderia visitá-los. (EUNÁPIO, Vit. Soph., p. 399).
Essa passagem reforça a idéia de que, segundo Eunápio,
houve um trabalho investigativo que favoreceu a redação das
biografias. Com isso, o biógrafo quis mostrar a preocupação com a
veracidade das informações disponibilizadas em seu texto; tal
postura o aproxima à conduta de um historiador antigo na perspectiva
de Heródoto e Tucídides. Mesmo que esse comportamento tenha sido um
mero recurso retórico que ambiciona aproximar seu discurso da
verdade dos fatos, é inegável a propensão de Eunápio para a produção
de uma narrativa histórica, a qual, como vimos, é amparada pelo
mesmo objetivo (τελος ιστορíας).
Outro aspecto importante, indicado no primeiro
fragmento, está relacionado à natureza das testemunhas as quais não
serão “aleatórias“ (äκλητοι μáρκυρες), dado que, se assim
for, elas se tornarão irrelevantes ou incapazes de auxiliar em uma
narrativa histórica que, segundo Eunápio, deve se apartar da
“subjetividade” (δíχα τινòς πáφους) e, em decorrência disso,
primar pela construção da “verdade” (τò αλητèς). De fato, as
testemunhas que Eunápio manifesta nas Vidas estão
relacionadas à administração imperial, isto é, são governadores,
prefeitos, filósofos pertencentes à corte imperial, entre outros, o
que demonstra não só a aproximação de Eunápio com oficiais do
Império, mas também a tentativa de endossar suas considerações
políticas em testemunhas de peso, já que elas estavam ligadas
diretamente aos quadros administrativos. Com isso, sua estratégia
argumentativa ganha, aos poucos, conotações de verdade. Até aqui
fica claro que os elementos discursivos são cuidadosamente pensados
para que o leitor se certifique de que não houve distorções factuais
ou manipulação dos dados históricos. Assim, as “pesquisas“
realizadas e o uso de “testemunhas“ seguras ratificam o compromisso
de Eunápio com a verdade, mesmo que seja construída discursivamente.
Não podemos, por conseguinte, descartar a
possibilidade de as testemunhas apresentadas nas biografias terem
atuado de maneira fictícia, ou seja, mencionadas apenas para
reforçar a veracidade
das informações como recurso retórico. Na vida de Juliano de
Capadócia, por exemplo, Eunápio utiliza a figura de Tusciano o qual,
em nota, Wright (1921, p. 468-469) afirma ser um correspondente de
Libânio que manteve vários ofícios no Oriente, entre eles, descrever
o julgamento realizado pelo procônsul da Ásia Menor entre os alunos
de Juliano de Capadócia e Apsines, os quais, por serem rivais, se
envolveram em discursos ofensivos de tal forma que se fez necessária
a presença de um oficial do Império para solucionar a contenda, como
acompanharemos a seguir:
O procônsul aderiu ao pedido facilmente, conforme
Tusciano, que estava presente no julgamento, relatou ao autor
[...]. – ως δè ταûτα èπετρεψε καì μàλ’ εùκóλως (ταûτα δè πρòς
τòν συγγραφéα Τουσκιανóς èξηγγελλε παρων τη κρíσει).
(EUNÁPIO, Vit. Soph., p. 473).
Interessa-nos aqui observar que Eunápio tem a
preocupação em desvelar suas fontes ou manifestar a maneira como
adquiriu determinada informação para composição biográfica a fim de
que o leitor não desconfie da natureza dos fatos narrados. Quando o
autor não recorre a testemunhas seguras para reconstituição da cena,
ele mesmo atua como testemunha ocular:
Eu já tenho falado dele (Juliano de Capadócia) em
meu relato sobre o reinado de Juliano. O autor viu a casa de
Juliano em Atenas (Ιουλιανóν οìκíαν ó συγγραφεùς ‘ Αθηνησιν
εωρα); pequena (μικραν) e humilde (εùτελη) que
era [...]. (EUNÁPIO, Vit. Soph. p. 467).
Observemos que, para além de sua intervenção no
relato das Vidas, notamos que Eunápio se refere a ele mesmo
no corpo do texto na terceira pessoa e não na primeira pessoa.
Sugerimos, a partir dessa constatação, que seja uma forma eleita por
Eunápio para indicar a objetividade com que os fatos são narrados,
uma vez que vimos no fragmento anterior sua aversão à subjetividade
impressa às narrativas históricas. Além disso, ao utilizar a
terceira pessoa, o biógrafo segue uma tradição discursiva na escrita
de autores gregos e latinos.
Outro indício importante que aponta para o fato de
que as Vidas sejam, para o próprio biógrafo, um documento
histórico ou uma narrativa histórica é a disposição dos personagens
biografados. Eunápio os dispôs em ordem cronológica, isto é, há uma
organização interna das biografias que segue o modelo preconizado
pelas narrativas históricas antigas. Adicionado a isso, ele
manifesta, no corpo do texto, diversas passagens que apresentam
discursos diretos, ou seja, o biógrafo reproduz a fala literal dos
personagens através de testemunhas próximas do círculo de amizade
dele para assegurar um efeito maior de realidade por sobre a
narrativa.
Tendo em vista todas essas constatações, não nos
restam dúvidas de que Eunápio produziu um documento histórico em
formato biográfico. Essa consideração é importante, visto que, a
partir dela, é que nos conscientizamos de que o biógrafo não
produziu uma obra ficcional e que, para ele, a biografia era uma
forma de escrever História. Diante disso, na perspectiva de Eunápio,
não dissociaremos os dois tipos de texto. Não olharemos a biografia
como um texto diferente da História. Como sabemos que os recursos
retóricos estão presentes em todas as obras da Antiguidade, em
especial, da Antiguidade Tardia, haja vista o reflorescimento da
Segunda Sofística no Oriente, desenvolveremos uma leitura mais
ponderada das informações veiculadas por esses textos.
Em relação à finalidade da História notamos que, para
Eunápio, as experiências do passado levam consigo um material rico
para o processo de conscientização e amadurecimento das dificuldades
enfrentadas no presente e, caso não tenham os olhos voltados para o
passado, o imperador e sua corte, por exemplo, estarão sujeitos a
enfrentar, desarmados de conhecimento, dificuldades constantes.
Logo, a projeção do passado no presente se apresenta como recurso
útil de experiências e modelo de comportamentos. Dessa forma,
entende-se que, para Eunápio, a história é imbuída de uma finalidade
prática: legar lições políticas, morais e religiosas para a
posteridade a fim de que as utilizem como ponto de partida para
futuras ações. Com efeito, o registro do passado, cumpre, em Eunápio,
essa tarefa a qual será indicada pelo próprio autor no trecho a
seguir:
Então, isto
também parece que com o passar do tempo, sobre longos períodos
(εν ταíς μακραις περιóδοις), o mesmo fenômeno ocorre
periodicamente (sés πολλáκις èπì τα αùτà καταφερεσται
συμπτωματα). Com isso, aqueles que conspiraram com Dário
contra os magos (μáγους) contavam sete, e, depois de
muito tempo, aqueles que se rebelaram com Arsaces contra os
Macedônios foram os mesmos em número. (EUNÁPIO, Exc. De Sent. 14
apud BLOCKLEY, 1986: 33).
Verifica-se que a
periodicidade dos acontecimentos revela, para Eunápio, um caráter
dinâmico da história o qual deve ser constantemente revisitado; esse
é o motivo pelo qual não se deve desprezar o conjunto de
experiências vivenciadas pela sociedade, visto que ela comporta um
material rico de avaliação de posturas e erros cometidos pelos
antepassados. Com base nisso, inferimos que Eunápio sugere uma
reapropriação do passado para delinear decisões no presente, é
claro, a fim de sustentar suas próprias inclinações políticas e
interesses pessoais.
Dito de outro
modo, a influência do helenismo na Antiguidade Tardia, à luz de
Eunápio, tinha uma finalidade prática, porquanto atuava como reduto
de conhecimentos, habilidades sociais e políticas bem como perícia
na condução das negociações, além de apresentar erros que não
deveriam ser repetidos. Assim, o biógrafo sedimentava uma visão
particular sobre os diferentes aspectos da sociedade e respaldava-a
com a autoridade dos escritores antigos.
Se, com base no
exposto, aproximamos os registros biográficos de Eunápio ao campo do
discurso histórico, segundo os modelos discursivos disseminados por
Tucídides na Antiguidade, resta-nos discorrer acerca da concepção do
biográfico sobre os aspectos que tangenciavam, de maneira
particular, o gênero biográfico na Antiguidade Tardia. Assim sendo,
tendo em vista a correlação entre a composição das Vidas e
sua História Universal Eunápio diz que, em relação aos
acontecimentos:
Eu relatarei mais detalhadamente em minha
História Universal
(γραφησεται) já que, lá, eles (os acontecimentos) serão
mencionados com mais clareza, não com referência ao indivíduo,
mas como eles afetaram os interesses de todos. Para o presente,
todavia, sua relação (a relação dos acontecimentos) com os
indivíduos tem sido estabelecida publicamente tão distante
quanto é conveniente para minha narrativa. (EUNÁPIO, Vit. Soph.,
p. 467).
No fragmento em questão, o biógrafo se reporta à
destruição dos templos gregos e, principalmente, às invasões
bárbaras as quais redundaram em muitas mortes, acontecimentos que
pospuseram o reinado de Juliano (364 – 365 d.C.). Como se observa,
para o biógrafo, os tipos de texto se diferenciam apenas pelo
enfoque que lhes é oferecido. Sendo assim, caberia à narrativa
histórica registrar os acontecimentos que atendiam aos interesses de
toda a comunidade greco-romana e à narrativa biográfica investigar,
de forma singular, a atuação desses indivíduos no desenvolvimento
dos acontecimentos. Pelas diversas alusões dos registros biográficos
à História Universal, pensamos que ambos os tipos de texto
apresentam papéis complementares e não divergentes. A definição das
diferenças entre esses gêneros textuais é muito mais produto da
contemporaneidade que da Antiguidade Tardia.
Dessa forma, ratifica-se a proposição de que as
Vidas se configuram como um tipo de História e que ambos os
textos são produzidos para alcançar finalidades ou interesses
semelhantes ou diferentes. Isso dependerá do contexto histórico e
das funções específicas que ela incorpora.
Referências
EUNAPIUS, The Lives
of the Philosophers and Sophists. In: PHILOSTRATUS; EUNAPIUS.
English translation by Wilmer Cave Wright. London: William
Heinemann, 1922.
EUNAPIUS.
Fragments. In: BLOCKLEY,R.C. ( Trad.) The fragmentary
classicissing historians of the later Roman Empire.
Liverpool: Francis Cairns,
1983. p. 7-150.
SACKS, K.S. The
meaning of Eunapius`History. History and Theory, Wesleyan, v.
25, n. 1, p. 52-67, 1986.
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