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MARISTELA REMPEL
EBERT
Graduada em Filosofia pela Unijuí, Mestre em
Filosofia pela UFSM. Funcionária pública da Secretaria Estadual
de Saúde/RS e graduanda em Ciências Sociais pela UFSM.

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A sociedade e a democracia na pós-modernidade
Maristela Rempel Ebert
O presente artigo pretende fazer uma articulação das
principais características do mundo atual, retomar alguns teóricos
da pós-modernidade, em especial Zigmund Bauman e Boaventura Santos,
e refletir sobre as possibilidades de se aprofundar as experiências
democráticas para além do modelo hegemônico liberal que tem vigorado
ao longo do século XX. Trata-se de retomar algumas experiências de
participação e controle social exemplificadas por Boaventura Santos
como formas alternativas de construção de democracia que ultrapassam
a lógica formal, elitista e representativa da política, que reduz o
processo de cidadania ao direito de votar num governante,
característica esta fundamental da democracia ocidental capitalista.
A partir da década de 70 ocorre uma reestruturação
mundial do capitalismo, com uma intensificação do comércio global,
formação de blocos regionais, processo de flexibilização das
fronteiras nacionais, centralização do sistema financeiro, bem como
uma reorganização do mundo do trabalho e do processo produtivo
(substituição da era industrial das máquinas pesadas pelos sistemas
de informação e pela revolução tecnológica contínua). Na política,
surge uma reconfiguração do papel do Estado, qual seja, um abandono
do Estado do bem estar social, como fortemente interventor e
promotor da cidadania e dos direitos sociais, em favor de um Estado
mínimo centrado de forma predominante em garantir a ordem. Trata-se
da consolidação da visão do Estado liberal que vinha sendo defendido
por muitos teóricos desde o final do século XIX e que veio a se
consolidar no final do século XX. Após a 2ª guerra mundial, em lugar
dos Estados-Nacionais fortes, surgem órgãos internacionais (FMI, OMC,
Banco Mundial) como referência para resolver conflitos
internacionais, os quais entre outras funções estabelecem tratados e
possuem poder de realizar empréstimos e renegociar as dívidas
externas dos países.
Alguns chamam essa fase de pós-modernidade, outros de
capitalismo tardio (como Jameson e Mandel), e outros ainda de
pós-fordismo (como Harvey), era da informação, globalização, etc.,
sendo que essas várias expressões podem ser interpretadas como
sinônimas e, em geral são utilizadas simultaneamente. E também seu
uso depende da preferência (ideológica) do intelectual e do enfoque
dado, seja com viés mais social, econômico ou político. Apesar da
diversidade de leituras sobre a época atual, seja criticando ou
defendendo, a maioria concorda que se trata de uma reorganização do
sistema capitalista e não de um novo sistema produtivo. É inegável
que uma das principais características desta nova fase é o
enfraquecimento do Estado do bem estar social que caracterizou mais
da metade do século XX. Todavia, este novo papel atribuído ao Estado
não é homogêneo em todos os países, assim como o Estado do Bem estar
social não o era.
Bauman dentre várias definições para época atual,
utiliza o termo “modernidade líquida”
para caracterizar a fluidez da realidade em contraposição à solidez
do período anterior. Esta fluidez não é apenas econômica (que
transfere em questões de segundo grandes volumes de capital de um
canto do mundo a outro, ou de uma empresa que se instala em um país
e dele migra tão rápido quanto entrou), ou política (mudanças
contínuas de legislação, leis de patentes, fim dos direitos
adquiridos dos trabalhadores, crise dos partidos tradicionais de
esquerda e de direita, etc.), ela também se reproduz nas demais
áreas da vida humana, como as relações pessoais (amor e amizade cada
vez mais fluidos e passageiros, identidade pessoal fluida), o lazer
(intensificação do turismo, das migrações), a arte e o conhecimento
acadêmico, cada vez mais ávido por novidades, em especial nas áreas
tecnológicas. Aliás, a revolução tecnológica é o grande sustentáculo
do capitalismo atual, é ela que dinamiza a produção econômica e o
acúmulo de capital. O pensador utiliza a metáfora do ‘turista e
do vagabundo’ para ilustrar a mobilidade e a flexibilidade
atual, mostrando que esse desenraizamento contínuo é vivenciado de
forma diferenciada pelas pessoas: para quem tem dinheiro é uma opção
de viver aventuras permanentes; para os pobres, os excluídos, longe
de ser uma escolha é uma condição, pois eles se movem continuamente
porque lhes são negado a permanência num determinado lugar.
Bauman ao caracterizar a sociedade atual é bastante
pessimista. Pois, se de um lado o fim das grandes utopias e das
certezas poderiam tornar os indivíduos mais livres e autônomos para
decidirem seu destino, do outro, a radicalização do individualismo
tornou quase impossível a convivência coletiva. O que sobrou foi
apenas o indivíduo, e este enquanto consumidor. O símbolo da época
atual são os ‘shoppings’, que são os templos da era do
consumo, onde as pessoas estão juntas as outras num mesmo local
fechado (com a máxima segurança) mas não convivem nem partilham as
diferentes experiências. A liberdade acaba reduzida à escolha entre
um ou outro produto por parte do indivíduo. Se por séculos o
indivíduo foi sufocado pelo coletivo, agora se caiu no outro
extremo.
Também Jameson, Baudrillard, Lyotard e outros
compartilham muito do pessimismo de Bauman, salvo as especificidades
de cada um. Jameson afirma que a mídia passou a ocupar o espaço da
política, de modo que só existe o que é veiculado por ela e enquanto
é veiculada por ela. Ele também faz uma crítica aos micro-grupos que
se proliferaram com o fim (ou a crise) do modelo tradicional de
fazer política (partidos políticos), argumentando que o discurso em
defesa da diferença e da pluralidade tem por fundamento a
homogeneidade (modelo de democracia ocidental, capitalista e do
homem branco) que esconde as injustiças, as desigualdades sociais e
o racismo. Baudrillard, enfatizando mais a perspectiva da cultura,
diz que a pós-modernidade é sinônima da sociedade de consumo, onde a
própria crítica acaba por ser absorvida e transformada em um objeto
de consumo. É a sociedade da imagem e do espetáculo que tenta
esconder sua superficialidade e o fato de já não corresponder a uma
realidade nem distinguir o que é real do fictício. Tudo é simulacro;
a própria política não passa de cenas de simulacro no qual já não há
como distinguir o que é real. Certamente que Baudrillard é de longe
o mais pessimista, pois Jameson e Bauman, apesar das críticas, ainda
fazem indicação do papel da política como uma possível saída para a
fragmentação e a rearticulação da busca do bem público (papel social
do Estado). Para Jameson, caberia à política buscar superar a
fragmentação dos diferentes grupos, buscando articular o local
(particular) ao global. Bauman apesar de reconhecer os riscos do
individualismo e da apatia política, acredita que por meio da
política é possível construir uma sociedade autônoma, nem opressora
dos indivíduos e nem passiva a ponto dos indivíduos tornarem-se
indiferentes entre si.
Boaventura Santos (2005) concorda com a maioria das
críticas à sociedade atual realizada pelos autores anteriormente
citados. Ele afirma que o modelo da economia de mercado tem
aumentado as desigualdades sociais e isto é verificável tanto nos
países centrais como periféricos (claro que com mais intensidade e
gravidade nestes últimos). Diz ele, das 100 maiores economias do
mundo, 47 encontram-se nas mãos de grandes empresas multinacionais e
há várias empresas privadas hoje que possuem mais riquezas que
muitos países. Segundo dados da ONU, dos 84 países mais pobres, 54
diminuíram seu PIB, sendo que destes 14 reduziram em torno de 35%.
Atualmente, 1,5 milhões de pessoas vivem com menos de 1 dólar/dia; e
outras 2 milhões vivem com até 2 dólares/dia. Mesmo nos EUA as
desigualdades aumentaram onde 20% das famílias mais ricas detêm em
torno de 80% das riquezas, situação nunca vista antes. As 200
pessoas mais ricas do mundo entre 1994 a 1998 dobraram suas
riquezas. Portanto, após a crise da década de 70, com a consolidação
do capitalismo do mercado e o fim do Estado do bem estar social ou
da providência , há um crescimento considerável das desigualdades
sociais e enriquecimento das grandes corporações transnacionais.
Contudo, para Boaventura Santos, se por um lado
ocorreu um fortalecimento do modelo hegemônico do capitalismo de
mercado neoliberal, de outro se está muito longe de uma única
globalização. Primeiro, a democracia não é um fato natural, mas uma
construção histórica e social e, além disso, não existe nem nunca
existiu um único modelo nem mesmo na época do Estado do bem estar
social. Portanto, há um modelo hegemônico de economia, de
gerenciamento de Estado, de cultura, leia-se de economia de mercado,
de Estado cada vez menos engajado com a promoção das questões
sociais, de uma cultura ocidental americanizada, etc., apoiado por
órgãos internacionais que condicionam empréstimos e benefícios às
diferentes nações com o comprometimento destas com a implementação
das políticas neoliberais, mas dentro dessa mesma conjuntura mundial
há resistências e organizações locais autônomas. Dentre as várias
obras publicadas por Boaventura Santos (2003), uma delas trata em
especial das diferentes experiências de democracia, em especial nos
países do sul, e exemplos de participação social, tais como o
orçamento participativo no Brasil. Houve experiência semelhante, na
Índia, sob comando do partido comunista na cidade de Querela; em
Moçambique, com mulheres lutando por espaço de participação; na
Colômbia onde comunidades locais se organizaram e negociavam
diretamente com o governo; na África do Sul, com a luta contra a
apartheid, etc. São algumas alternativas contra-hegemônicas que se
contrapõem ao modelo dominante do capitalismo de mercado e ao
neoliberalismo e seu modelo de democracia representativa. Ele propõe
uma contra-hegemonia que se organiza no local, mas que se articula a
nível global. Boaventura Santos sugere pensar a globalização para
além do econômico; levar em conta fatores culturais, políticos e
sociais. Há uma variedade de experiências locais de organização
autônoma e auto-sustentável, que não podem e nem devem ser
ignoradas, embora também não se possa subestimar o peso do modelo
hegemônico. Trata-se do paradigma de localização mas que não pode
ser o modelo de auto-proteção isolada, é necessário buscar
articulação global. Trata-se de estimular o controle democrático, a
redistribuição de riquezas, o estímulo ao multiculturalismo
emancipatório. Enquanto o modelo hegemônico articula o local/global
buscando uma maior homogeneidade e coerência; o modelo
contra-hegemônico visa ser uma alternativa com diferentes respostas
locais, buscando articulação global naquilo que há de interesse
comum e lutando pela diversidade naquilo que constitui as
particularidades locais. Não há hegemonia plena da globalização
capitalista atual, há conflitos internos entre os próprios liberais,
é um processo de relação e inter-relação, mesmo havendo dominantes e
dominados, esses últimos não se reduzem a sujeitos passivos, há
resistências, reações e transformações de todos os agentes
envolvidos.
Boaventura Santos ao analisar as diferentes
experiências de democracia contra-hegemônicas pondera sobre as
dificuldades e as particularidades de cada processo local. Ele
menciona os riscos de cooptação dos movimentos sociais pela lógica
do modelo hegemônico, bem como reconhece que por serem vivências
incipientes, são frágeis e que não há garantias de sucesso a priori.
Ele apresenta alguns exemplos das dificuldades enfrentadas nestas
experiências de democracia contra-hegemônicas. Por exemplo, a luta
das mulheres por espaço na política em Moçambique, que uma vez
conquistado reproduziu o mesmo modelo dominante e machista. Outro
exemplo ilustrado é o modelo indiano de participação, o sistema
Panchayats (com mais de 2 milhões de participantes e mais de 300 mil
delegados), muito atrelado ao partido comunista e vítima freqüente
de denúncias de corrupção, uma vez que são os próprios comitês que
executam as decisões. O caso Brasileiro, diferente do indiano
(pioneiro em Porto Alegre), tem mais autonomia em relação ao partido
que está no poder, pois as decisões são realizadas pelas assembléias
cabendo ao governo local executá-las. No caso do Brasil, Boaventura
Santos diz que este processo nasceu com os movimentos sociais e o
partido dos trabalhadores apenas acolheu a demanda da comunidade, o
que possibilitou uma maior autonomia desta experiência de democracia
participativa direta. Este modelo apesar de local se expandiu para
mais de 140 municípios entre 1997 a 2000 e vários outros países
latino-americanos começam a se interessar por ele. Embora,
atualmente, após este estudo publicado já se percebe os limites e o
retrocesso desta experiência em várias cidades brasileiras, onde foi
reduzida a participação e autonomia do controle social em favor de
uma maior burocratização deste processo.
Para Boaventura Santos, estes exemplos não visam
construir um modelo universal de democracia (uma receita pronta),
pois é justamente contra esta lógica que se propõe uma globalização
contra-hegemônica. Com a valorização destas experiências locais
justamente está se incentivando a diversidade cultural das
diferentes comunidades ignoradas pela democracia liberal. Mas ao
mesmo tempo, o pensador alerta sobre os riscos dos fracassos de tais
organizações que permanecem isoladas. Como exemplo de tragédia ele
cita a comunidade de São José do Apartadó, na Colômbia, situada no
centro do conflito entre guerrilheiros e forças militares, onde eles
optaram pela bandeira da paz, mas entre 1999 a 2000
haviam morrido 83 pessoas da comunidade, demonstrando os limites de
experiências locais isoladas. Assim, é fundamental que se articule
redes ou elos globais entre as diferentes comunidades que buscam
resistir ao modelo de globalização hegemônica.
Portanto, a presente análise buscou apontar vários
aspectos que caracterizam a época atual, visando apontar
alternativas de práticas democráticas que vão além do modelo
hegemônico neoliberal de participação. Boaventura Santos (2006)
afirma que o capitalismo é criticável não por não ser democrático,
mas por não ser suficientemente democrático, pois se limita a
democratização do espaço político do Estado. É necessário ampliar
para as outras esferas da vida humana, desde as relações domésticas
(relações de gênero), o espaço de produção (mundo do trabalho,
distribuição de riquezas, etc.) como também a nível mundial
(relações entre países). Trata-se de tornar mais complexo e
democrático toda a estrutura social, o que poderá levar a sua
manutenção ou superação e, neste sentido, os diferentes movimentos
sociais da época atual como ambientalistas, feminismo e as várias
experiências de ampliação democrática dos países do sul (citados
anteriormente) se configuram como alternativas coletivas para a
construção de uma sociedade mais justa. Como diz Bauman(2003), o
critério de avaliação de uma sociedade justa não é pela média do
PIB, mas pelo grau de justiça social que os habitantes mais fracos
usufruem (como Marx postulou)
Certamente num contexto de turistas e vagabundos,
metáfora utilizada por Bauman(1998), onde impera o individualismo
extremo há dificuldades na construção de alternativas coletivas, mas
estas não se tornam impossíveis, vide os diferentes exemplos
encontrados, em especial nos países menos desenvolvidos apresentados
por Boaventura Santos. É inegável que estas novas formas de
participação social se chocam com modelos tradicionais de
participação política: seja numa perspectiva mais conservadora de
participação político-partidária; seja em relação à visão ideológica
tradicional da esquerda centrada na organização de partidos
políticos e sindicatos.
É neste contexto continuamente imprevisível que os seres humanos
agem, interpretam e transformam o mundo, não numa perspectiva
unilinear, mas com escolhas que tanto poderão manter o sistema
capitalista como transformá-lo. E a transformação já não será
possível identificar com uma única fórmula, e talvez seja esta
diversidade e falta de fundamento último que poderá construir um
mundo melhor, não livre de conflitos mas mais democrático e justo.
Referências
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade liquida.
Rio de Janeiro: Zahar, 2001
__________. O mal-estar da
pós-modernidade.Turistas e Vagabundos: os heróis e as vítimas da
pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998(106-120)
__________. Entrevista . Folha de S.
Paulo, São Paulo (19 de outubro de 2003)
BRAUDRILLARD, Jean. Simulacros e
Simulação. (7-40)
JAMESON, Frederic. Pós-modernismo- a
lógica cultural do capitalismo tardio.(13-90)
SANTOS, Boaventura de Souza. A
globalização e as ciências sociais. São Paulo: Cortez, 2005 (25-102)
__________. Democratizar a democracia:
os caminhos da democracia participativa. Rio de Janeiro: civilização
brasileira: 2003(39-82)
__________. Pela mão de Alice: o
social e o político na pós-modernidade. São Paulo: Cortez, 2006
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