CARLOS BAUER

Doutor em História Econômica pela FFLCH/USP, Pós-Doutor pela UNICAMP e Professor do Programa de Mestrado em Educação do Centro Universitário Nove de Julho.

 

 

 

Sobre o nosso papel na universidade

Carlos Bauer*

 

Com esse artigo nada acadêmico parto do pressuposto de que devemos fomentar questões polêmicas, que nos permitam indagar criticamente sobre o nosso próprio papel no processo de formação intelectual que se desenvolve no interior da universidade ao mesmo tempo em que questione e não aceite a sua transformação numa relação de subordinação ao regime da acumulação e da reprodução do capital.

Nos últimos anos uma questão polêmica que precisa ser colocada é que a universidade vem perdendo a possibilidade de produzir um pensamento próprio, principalmente quando falamos da produção do conhecimento. Há uma supremacia do desenvolvimento do chamado tecnicismo, mesmo no interior das chamadas ciências sociais (história, antropologia, sociologia, política, etc.) e da filosofia. É preciso elucidar essa situação: a técnica, com seu canto melodioso como o das sereias é mesmo capaz de todos seduzir?

Neste tempo histórico em que vivemos, que é o tempo da comunicação de massa, da reprodução mecânica e reificante da cultura e da própria existência, uma confusão comum e deliberada que vem se processando é aquela que transforma informação em conhecimento, não é mesmo?

Não precisamos consultar Karl Popper e os seus apontamentos sobre o que podemos chamar de produção de conhecimento, para nos certificarmos que não estamos formulando perguntas significativas e emblemáticas, mas sim aquelas que traduzem a busca de um espetáculo da técnica e da especialização, estritamente fragmentado e disciplinado aos ditames dos interesses especulativos comerciais, financeiros ou industriais e da mera reprodução do capital.

Não é mesmo?

Por outro lado, nem há garantias – políticas ou morais – nas quais possamos nos socorrer caso não estejamos dispostos a aceitar o servilismo e o pensamento como uma mera metáfora questionadora da realidade imperante. Não temos uma URSS ou mesmo uma Cuba insurgente na qual possamos nos mirar. Tudo é muito difícil! Mas é preciso buscar alternativas e um primeiro passo importante é reconhecer que no presente o pensamento crítico encontra-se aprisionado pelos códigos e padrões da boa conduta liberal e, assim, transforma-se não em cúmplice dos que tem a ambição de contribuir com profundas transformações sociais e sim se desenvolve de forma disciplinada e acomodada com os pressupostos da ideologia econômica, política ou financeira que sustentam o status quo no atual momento histórico.

Ressalvando-se as honrosas exceções, como é de praxe, nos campus universitários não temos a gestação de idéias novas e transformadoras da realidade existente, mas um processo de mumificação do pensamento crítico e independente dos modelos oficiais ou ditados pelas agências internacionais. Reconhecer isso não significa dizer que estamos, nós mesmos, produzindo uma reflexão teórica ou epistemológica de grande profundidade e envergadura, mas que estamos diante da responsabilidade de formular perguntas que nos possam fazer superar a mera reprodução do conhecimento técnico ou informacional que hoje prima em nosso meio. Não podemos perder a oportunidade e a possibilidade de produzir uma articulação com as necessidades mais imediatas de transformar profundamente as condições de vida, os problemas culturais e sociais de amplos setores da população e que sejam capazes de superar a dinâmica econômica liberal, com sua lógica financeira e de homogeneidade das relações políticas e culturais do mundo?

É penoso dizer, mas estamos revivendo como farsa uma cultura senhorial ditada por lógicas políticas que desconsideram a nossa própria realidade e a necessidade política de superação da pobreza social e cultural que estamos metidos. Claro que precisamos conhecer Bobbio, Habermas, Hannah Arendt e tantos outros autores, mas suas reflexões nos remetem a um conjunto de aspirações que traduzem ou buscam traduzir uma outra realidade, uma outra lógica e racionalidade que muitos de nós nos esforçamos para universalizar mecanicamente em nosso próprio país. Nós nos esforçamos para disseminar seus postulados críticos e democratizantes nos programas de pós-graduação, em cursos de graduação e os remetemos a escola básica e até mesmo a pré-escola.

Tudo isso é perfeitamente compreensível, afinal temos um sentimento universalista, queremos a cidadania, a participação democrática para todos e o mercado nos seduz. Não é isso mesmo?

Talvez isso explique porque somos tão funcionalistas e nos abstemos de questionar profundamente a perversa lógica que está em curso, uma lógica que decreta a morte do pensamento crítico, transformador e da própria universidade e sua substituição por um modelo unicamente preocupado em erigir a técnica, as competências e a neutral eficiência como dogma e paradigma inquestionáveis. E isso não é um problema de um governo qualquer, trata-se de um problema mais profundo e está em sintonia com as formas que o capitalismo assume em nossa própria época histórica.

Nas universidades brasileiras vivemos uma profunda crise e muitas vezes temos um processo de constituição de oligarquias que controlam o establishment acadêmico que nem sempre estão dispostas a assumir quaisquer comportamentos de ruptura com os patrocinadores dessa morte anunciada da universidade como produtora do conhecimento desinteressado e de permanente reflexão de como se envolver organicamente os interesses sociais e contribuir com o desenvolvimento das mais amplas potencialidades humanas.

Mas, uma grande questão que se coloca é que não estamos sabendo como superar essa crise? O que significa ficarmos presos aos códigos disciplinados e articulados nos currículos cada vez mais em sintonia com os ditames dos organismos financeiros, políticos e econômicos mundiais que estão presentes na formatação de nosso discurso e não com a perspectiva de rebelião e questionamento dos valores coisificantes e ações que buscam produzir uma visão naturalizada da vida social.

As universidades têm se transformado em conventos onde se cultiva o silêncio obsequioso. A lógica imperante é que no seu interior os especialistas possam trabalhar em paz e, talvez, isso possa explicar a atual fobia pela especialização de nossos alunos e de nós mesmos? 

Nesse quadro é possível formular um pensamento próprio, não subordinado, quando nossa trajetória mostra-se moribunda, indisposta com o diálogo com as forças sociais que apontam os caminhos efetivos das mudanças?

As transformações comunicacionais, tecnológicas, industriais, financeiras e econômicas ditadas pelos mercados mundiais não podem ser desconsideradas. Mas isso não é suficiente. Elas nos levam inexoravelmente a uma lógica de busca de eficiência e de supremacia das competências técnicas em detrimento de uma concepção humanista e problematizadora da história. Para se verificar isso basta dar uma olhada nos documentos e discursos produzidos pelos representantes de organismos como é caso do Banco Mundial, FMI, Unesco, Banco Interamericano, etc. verificando assim como muito do que pensamos, escrevemos e falamos não é outra coisa do que uma disciplinada reprodução dos ditames doutrinários produzidos por esses tecnocratas e gerentes financeiros do mundo.

Muitas vezes, com nosso trabalho, estamos colaborando com a naturalização desses valores. Porém, aqui temos uma implicação: eles não são naturais, são produções sociais, são obras dos homens e, portanto, também podem ser questionados. Mas para isso temos que superar o ceticismo, a angústia e o medo de ousar um pensamento e uma prática de ser sujeito e não passivo diante desse estado de coisas que nos desmoraliza, fragiliza, paralisa, conduz à morte da autonomia e do pensamento crítico e, o que é ainda mais terrível, nós impede de sonhar e projetar outro mundo.

Estamos assistindo a um processo de formação de uma sociedade cada vez mais estratificada. Temos escolas para todos ou estamos muito próximos de alcançar tamanho e auspicio objetivo. Mas como estamos formando nossas crianças, jovens e adultos?

Não estão nossas escolas e universidades transformadas em laboratórios formadores de passivos consumidores, não importando se as mesmas são freqüentadas pelos filhos dos que fazem parte das elites econômicas ou ainda por aqueles que almejam, mas que jamais poderão fazer parte desse mundo paradisíaco do mercado?

Como exigência dos modelos econômicos, políticos e culturais estamos chamados a colaborar com o desenvolvimento de uma subjetividade inerente à reprodução do capital, trata-se de um valor agregado que não pode ser desprezado e que gera lucro para os que controlam um mercado mundial cada vez mais gigantesco. É isso que explica que os currículos, as competências, a sedução pelas tecnológicas, a defesa muitas vezes cega das instituições políticas do Estado, a forma de pensar e produzir a cultura sejam as mesmas em toda parte.

É isso também que explica toda essa pressão sobre a formação de homens adequados aos ideais do sagrado mercado da sociedade capitalista.

Será que temos apenas problemas didáticos com as crianças nas escolas fundamentais? Não estamos formando pessoas dóceis e comprometidas ideologicamente com as regras de funcionamento desse modelo social? Cabe a pergunta, queremos mesmo formar pessoas críticas que possam articular a capacidade de produzir conhecimento, de colaborar com o desenvolvimento de uma nova e revolucionária subjetividade ou estamos determinados a entender a história como fatalidade, como uma lata do lixo ou um cemitério das possibilidades que um dia sonhamos para o porvir da humanidade?

Muitos de nós enfrentamos a repressão, fomos presos, lutamos pelas liberdades democráticas, colaboramos com a reorganização política e sindical, fundamos partidos, instituições científicas, culturais, acadêmicas, organizamos simpósios e congressos, pesquisamos, escrevemos e publicamos ensaios, artigos, livros, isso tudo é importante, precisa continuar sendo feito, mas não é suficiente!

Precisamos repensar nossa prática desde a relação com nossos alunos, colegas de trabalho até o papel que assumimos – ou não – com a formulação de um projeto alternativo de sociedade e buscarmos formas efetivas de valorizarmos suas possibilidades históricas.

Mas para isso temos que romper com a subordinação na qual estamos metidos. Nossa presença nos espaços cada vez mais institucionalizados não tem permitido o desenvolvimento de uma criatividade própria e capaz de questionar esse mundo – que está crise, mas que deverá continuar sendo o que é, caso não tenhamos disposição de fazer alguma coisa?

Nossa presença na formação dos homens tem se transformado numa metáfora do que é o homem e sua possibilidade de autodeterminação, mas de um personagem que faz ou almeja fazer parte da sociedade do consumo e que prega pela edificação dos direitos dos consumidores. Afinal de contas, é isso que nossos alunos precisam saber: como almejar o seu acesso ao mundo do mercado, é isso que está determinado pela lógica que impera do mercado e nada mais nos resta? Ou também ficamos angustiados porque nesse paraíso de coloridas e eletrônicas bugigangas, aliás, como no celestial, não há lugar para todos. Num país com quase 200 milhões de habitantes, quantos podem freqüentar e consumir todas as quinquilharias que são vendidas num shopping ou mesmo numa loja de R$ 1,99?

Assim como alguns templos religiosos esses templos do consumo permitem que quase todos possam freqüentá-los muito embora apenas alguns eleitos poderão se satisfazer com suas benesses.

Temos disseminado uma linguagem simbólica muitas vezes comprometida com o ideário desse modelo social: cidadania, sociedade civil, governança, esfera pública, comunicativa, alteridade, segurança democrática, etc. Pouco de nós se dão ao trabalho de projetar de qual lado da história pretendemos ficar, assumimos uma pretensa neutralidade, quando na verdade multiplicamos conceitos próprios da reprodução do capital como se fossem universais ou mesmo fizessem parte da formação de um sujeito crítico, pensante e com capacidade de questionar e apontar a superação do modelo que está em curso.

Precisamos superar o exílio intelectual no qual estamos metidos e em conjunto refletir como poderemos superar essa monumental adversidade que estamos vivendo nessa época que é a época histórica da supremacia dos valores do capital sobre todos nós.

Um bom segundo passo talvez seja a retomada de alguns ideais radicais e, com eles, propugnar novas linguagens e práticas socializantes no cotidiano de nosso trabalho de ensinar, pesquisar e aprender, apontando como uma necessidade à superação do que está estabelecido e, com isso, questionar o reprodutivismo e a apologia da técnica como um fim em si mesmo no cotidiano educacional no qual estamos metidos.

Precisamos nos identificar como intelectuais comprometidos com as transformações sociais capazes de desvelar as ideologias responsáveis pela perpetuação do status quo e que estão presentes em nosso próprio discurso e subjacentes em toda prática educacional. Precisamos interrogar a nós mesmo sobre o significado político de nossa práxis educacional.

Quando nos dispomos a analisar o nosso próprio trabalho e procuramos articulá-lo com os sujeitos das transformações socais, quando nos opomos a uma visão instrumentalista e tecnicista que busca nos aprisionar como se esse fosse o papel natural a que estão confinados os trabalhadores da educação universitária, estamos fundamentando ou buscando fundamentar um novo caminho de utopia e esperança numa humanidade que tenha como centro de sua existência uma experiência civilizatória em que o conhecimento não seja um instrumento de perpetuação do poder daqueles que desprezam tudo aquilo que não esteja a serviço da acumulação e reprodução do capital, mas um efetivo meio na busca da felicidade e emancipação humana.

Uma utopia que, para nós, nasce da negativa histórica e do inconformismo frente à destruição social e do uso predatório dos recursos ambientais provocados pelo capitalismo, que alcançou sua hegemonia planetária alicerçada materialmente no belicismo, nas tecnologias da informação e da comunicação e a subordinação do trabalho ao capital, não apenas no momento da produção e do rígido controle dos salários, mas também através do sistema financeiro, dos preços das matérias primas, dos produtos agrícolas, dos sistemas de ensino, das dívidas – internas e externas, dos sistemas jurídicos e normas organizacionais ditadas pelo FMI, Banco Mundial, OMC, etc.

Quando falamos da utopia não estamos nos referindo a um amontoado de idéias abstratas, mas que estamos comprometidos mesmo que modestamente, na cotidianidade do nosso trabalho educacional, política e historicamente com a construção de uma sociedade plenamente humanizada, de cooperação e paz entre os povos, que não suporte a competitividade e a agressividade inconseqüente que o mundo liberal produz.

Desta sorte, as brevíssimas análises que buscamos aqui apresentar guarda confessadamente o compromisso com a humanização do homem, a dimensão política e educacional de nossa atividade profissional e, principalmente, a abertura ao diálogo e a discussão permanente com outras formas de pensar o homem, como é o caso do humanismo marxista que reivindicamos como teoria da ação militante dos que estão em sintonia com a luta pela edificação de uma sociedade igualitária, sem explorados, nem exploradores: um mundo socialista!

 

* Doutor em História Econômica pela FFLCH/USP, Professor do Programa de Mestrado em Educação do Centro Universitário Nove de Julho.

 

 

 

 

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