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SHEILA RIGANTE ROMERO
Mestranda em História Comparada pela
UFRJ; orientanda da professora Drª. Marta Mega de Andrade

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O corpo e a renúncia aos prazeres da carne na
Idade Média Cristã presentes nos Concílios Ibéricos dos séculos V-VI
d.C. e do século XIII d.C.
Sheila
Rigante Romero
Introdução
O presente artigo objetiva mostrar como
a construção das relações e das práticas sociais institui normas de
condutas, estabelece espaços culturais por meio de interdições ou
ritos de passagem. Tais normas se aplicam ao corpo de cada
indivíduo, grupo, categoria ou classe social. Os estudos referentes
à sexualidade e ao corpo constituem-se em objetos essenciais para o
entendimento dos diversos significados das relações humanas,
compreendidas no seus mais variados e complexos sentidos.
Michel Foucault, precursor dos estudos
referentes à sexualidade, problematizou as questões da sexualidade
humana e sua relação com o corpo. A sexualidade, para ele, não é uma
qualidade herdada da carne que várias sociedades louvam ou reprimem
– não como pensava Freud, um impulso biológico que a civilização
canaliza em uma direção ou outra. Mas sim, uma forma de moldar o
self “na experiência da carne”, que por si só é constituída em
torno de certas formas de comportamento (LAQUEUR, 2001: 24). O sexo,
assim como o ser humano, é contextual. É impossível isolá-lo de seu
meio discursivo e de sua caracterização socialmente determinada, ao
tentar fazer isso incorre ao erro. O corpo privado, incluso,
estável, que parece existir na base das noções modernas de diferença
sexual, é também produto de momentos específicos, históricos e
culturais. Ele também, como os sexos opostos, entra e sai de foco (LAQUEUR,
2001: 27).
Para Foucault até o século XVII as
questões da sexualidade ainda não buscavam pelo segredo, vigorava-se
uma certa franqueza em relação ao “uso dos prazeres”, e as palavras
não eram tão disfarçadas a ponto de serem reduzidas a um vocabulário
do que era ou não permitido dizer. Todavia, no início do século
XVIII o pensamento burguês dá origem à Idade da Repressão, que
coincide com “o desenvolvimento do capitalismo essa repressão que se
pode ainda fazer coexistir, discretamente, em que o medo do ridículo
ou o amargor da história impedem a maioria dentre nós de vincular:
revolução e felicidade; ou então, revolução e um outro corpo, mais
novo, mais belo; ou, ainda, revolução e prazer” (FOUCAULT, 1989:
11-12). Como o próprio autor mostra, designar o sexo seria cada vez
mais difícil. Para domá-lo num plano real torna-se necessário
reduzi-lo ao plano da linguagem, ou melhor, controlá-lo na sua livre
circulação no discurso. Dessa forma, percebe-se que Foucault
considera o silêncio como um conjunto de estratégia empregada para a
montagem do discurso. O modo como uma sociedade lida com o saber e o
poder (termos sinônimos) se realiza através da montagem de
dispositivos discursivos (FOUCAULT, 1989: 181).
Os estudos produzidos sobre sexualidade,
observados no desenrolar do século XIX, incorporaram as perversões e
especificações do indivíduo, visto que nestes discursos há o
enraizamento da cultura cristã, cuja construção da família baseia-se
em casamentos monogâmicos entre casais heterossexuais, de forma que
dêem continuidade a espécie humana.O Ocidente definiu novas regras
no jogo dos poderes e prazeres, configurando a fisionomia rígida das
perversões. (FOUCAULT, 2001: 96). Esses discursos explicavam os
comportamentos e ações do homem por meio das Ciências Biológicas,
como forma de garantir a preservação da instituição familiar.
No decorrer do século XX, estudos
introduziram a problematização da questão de gênero, contestando a
tendência que se tem em considerar como natural apenas o que é
masculino e o que é feminino. Observou-se que a relação
“homem/mulher” e “macho/fêmea” excedem os limites dessa relação
binária. Por isso, escolheu-se criticar a definição do gênero pela
categoria de sexo (BUTLER, 2003: 26), com o intuito de identificar
os métodos que lhe são constitutivos. A noção de gênero expressaria,
assim, os valores culturais ostentados pelo corpo sexuado, não
podendo dizer que ela suceda de um sexo, desta ou daquela maneira. O
contraste entre sexo e gênero insinua uma interrupção entre corpos
sexuados e gêneros culturalmente construídos (BUTLER, 2003: 24). Com
isso, entende-se que a formulação do termo “homens” não seja
relativo necessariamente a corpos masculinos, assim como a expressão
“mulheres” não sirva apenas para designar corpos femininos.
Segundo Theml, “o corpo humano é
socialmente construído por meio da escolha social de um certo número
de valores que configuram o que o homem deve ser, tanto em relação
às virtudes morais e intelectuais quanto à representação, à
exposição e uso do seu corpo ‘físico’” (THEML, 1998: 309). Nota-se,
portanto, que o corpo não pode ser trabalhado pelo historiador
apenas como biológico, ao contrário, deve ser percebido como árbitro
de sinais culturais. Cada representação do corpo informa sua
história e reúne um sistema de valores. Os discursos sobre
sexualidade, por conseguinte, apresentam a construção de cada sexo
num dado contexto social e cultural. A cada contexto existe uma
mudança do discurso, e a sua demarcação é tanto mais difícil quanto
menos instituído for este contexto. Tal discussão é essencial para
compreender a percepção que o homem medieval tinha de sua
sexualidade e de seu corpo, em sua interação social, nas construções
ideológicas, num conjunto de predicados morais de comportamento,
socialmente ratificado e constantemente pensado, relembrados, ou
seja, em incessante processo de construção; e também para entender
como se deu a normatização da sexualidade e do corpo do homem e da
mulher medieval por parte dos clérigos, por meio dos Concílios
Ibéricos. Essa discussão referente à sexualidade e ao corpo é
relevante para entender que na Idade Média, como afirma Karras, as
identidades dos medievos eram fundamentalmente formadas (moldadas)
pelos seus status sexuais - não se eles eram “homossexuais”
ou “heterossexuais”, como hoje, mas se eles eram castos ou
sexualmente ativos (KARRAS, 2005: 09).
Os Concílios Ibéricos dos séculos
V–VI d.C. e a influência do pensamento de Santo Agostinho na
renúncia dos clérigos aos prazeres do corpo
Pode-se notar que, desde as formulações
dos Concílios Ibéricos que normatizavam a vida cotidiana dos
clérigos e leigos, a Igreja seria a primeira a incentivar o discurso
sobre o sexo, quando passou a estimular o aumento das confissões aos
padres. As insinuações da carne deveriam ser ditas em detalhes,
incluindo os pensamentos carnais. O bom cristão precisaria,
portanto, fazer de todo o seu desejo um discurso. Ainda que tivesse
ocorrido uma interdição de certas palavras, esta era apenas uma
maneira de tornar o discurso sobre a sexualidade e o corpo
moralmente aceito e tecnicamente útil. Na Idade Média Cristã ocorreu
uma derrocada das práticas corporais, assim como a “supressão ou
ainda o confinamento dos lugares do corpo da Antigüidade, o corpo se
torna paradoxalmente o coração da sociedade medieval” (LE GOFF,
2006: 31). Por meio das exigências canônicas se impôs o controle da
Igreja ao domínio até então regido pelas famílias, homens e mulheres
medievais, levando-os a manifestarem-se em relação ao seu corpo e a
sua sexualidade (ROSSIAUD, 2006: 477).
Nos Concílios Visigóticos – a partir dos
cânones que normatizavam juridicamente a vida cotidiana dos clérigos
e dos leigos – pode-se observar a necessidade da Igreja de
introduzir aos cristãos a noção de pecado e a importância da
renúncia ao prazeres sexuais, utilizando-se do pensamento de Santo
Agostinho sobre a questão da continência do corpo para manter a
pureza da alma. Para Agostinho a sexualidade tinha uma finalidade
estritamente delimitada: simbolizava um único e decisivo
acontecimento dentro da alma. Ecoava no corpo a conseqüência
inalterável do primeiro pecado da humanidade (Adão e Eva) (BROWN,
1990: 347). A tentação sexual era uma provação temível e
debilitadora, por isso, a prática da continência representava a
capacidade do homem de vencer as provações carnais e alcançar num
plano metafísico a pureza da alma. As paixões e ações incontroláveis
e descomedidas deveriam ser substituídas por ações comedidas. Tudo
sobre o sexo, após a perda da pureza, podia ser sentido como
lembranças contínuas na carne das tensões da condição humana
fundamentalmente imperfeita. Tudo isso teve início com o
aparecimento da cristandade (LAQUEUR, 2001: 73).
Para Laqueur, a nova interpretação de
Agostinho sobre a sexualidade como um “sinal interno e sempre
presente da alienação da vontade pela perda da pureza criou uma área
alternativa para o corpo gerador” (LAQUEUR, 2001: 74).De acordo com
o autor, as idéias pagãs e cristãs sobre o corpo coexistiram como
várias doutrinas incompatíveis sobre a semente, a procriação e as
homologias corpóreas, pois as diferentes comunidades pediam coisas
diferentes da carne. Os monges e os paladinos, os leigos e o clero,
(...) os confessores e os teólogos, em inúmeros contextos podiam
continuar a interpretar o corpo segundo suas necessidades para
compreendê-lo e manipulá-lo, à medida que os fatos do gênero mudavam
(LAQUEUR, 2001: 74).
Durante o século V e VI, o cristianismo
estava tornando-se religião do Estado e reprimia o corpo por meio da
renúncia aos prazeres da carne e o controle a estas a partir das
confissões. Por outro lado, com “a encarnação de Deus no corpo de
Cristo, faz do corpo do homem o tabernáculo do Espírito Santo” (LE
GOFF, 2006: 31). Ou seja, de um lado os clérigos reprimem as
práticas corporais, de outro, as glorifica. Depreende-se assim, que
o corpo e as práticas sexuais oscilam entre a repressão e a
exaltação, a humilhação e a veneração.
A influência agostiniana na renúncia dos
clérigos aos prazeres carnais para a purificação do corpo como forma
de aproximar a alma ao mundo de Deus pode ser notada no IV Concílio
de Toledo, cânone XXI, que explica a importância da castidade dos
bispos pois, estes deveriam ser o exemplo para a sociedade medieval
de um comportamento “correto” aos olhos de Deus (IV Concílio de
Toledo,Cânone XXI, p.200-201).
Os Concílios Ibéricos do século XIII
e o liame entre o corpo e a alma no pensamento de São Tomás de
Aquino
No século XIII, período em que foram
escritos os concílios de Calahorra e de Latrão, as questões do corpo
e do prazer sexual não estavam ligadas ao mal, e a preocupação
dominante passava a ser com a saúde. Entretanto, os diagnósticos
mais importantes reforçavam a moral e condicionavam as atitudes. No
IV Concílio de Latrão nos cânones 21 e 22 os padres, durante as
confissões precisavam ter discernimento e prudência como um médico
experiente ao aplicar as penitências aos fiéis; aos enfermos era
preciso zelar primeiro pela alma depois pelo corpo. Os diagnósticos
médicos recomendavam um controle no desejo sexual pois – ainda
baseados nos estudos de Galeno – o “abuso do coito é muito perigoso:
ele abrevia a vida (a destacada longevidade dos eunucos prova-o a
contrario), debilita o corpo, consumindo-o, diminui o cérebro,
destrói os olhos, conduz à estupidez” (ROSSIAUD, 2006: 478).
Tais diagnósticos, baseados no
pensamento de São Tomás de Aquino, entendiam que a alma não estava
dissociada do corpo, ao contrário, a alma era a forma do corpo
organizado, devendo nascer e morrer com ele sem ter nenhuma
destinação sobrenatural. Em oposição a Santo Agostinho, que pensava
que quanto mais se renunciasse à carne mais próximo de Deus se
chegava – por isso sua concepção da cidade dos homens e a cidade de
Deus – para São Tomás, a alma humana era o horizonte onde se tocavam
o mundo dos corpos e dos espíritos, ou seja, a alma e o corpo
estavam intrinsecamente ligados. Dessa maneira, de acordo Rossiaud,
para os médicos e filósofos medievais a saúde do espírito era
inversamente proporcional ao vigor genital, tendo em vista que as
agitações carnais, antes de representarem um pecado contra Deus,
eram faltas contra a razão. O gozo físico era distinto do prazer
racional; ele era uma força incontrolável, um tipo de loucura, de
furor. Como reafirmam os filósofos do século XIII, depois dos
latinos, dos gregos ou dos árabes, o desejo era subversão e
submersão do ser (ROSSIAUD, 2006: 479).
Os cânones, mesmo a partir do século
XIII, sempre colocaram a necessidade da renúncia dos desejos
sexuais, sugerindo que jamais fossem seduzidos pelos impulsos e
incontinências corporais. Para isso, a Igreja ainda precisava criar
no pensamento laico o significado de “pecado”. Por isso a
insistência nas confissões para a salvação da alma por meio das
penitências aplicadas aos fiéis pelos padres. Era necessário
transformar as questões do corpo e seus prazeres em um discurso ao
padre, como foi observado por Foucault, ao tratar as confissões
medievais cristãs como um dispositivo de poder utilizado pela
Igreja. Como também é possível observar no cânone 21 do IV Concílio
de Latrão, no qual enfatizava-se a necessidade de sempre tornar
público tal cânone nas igrejas (p.174). A aplicação da penitência
pelo padre – devido ao seu poder espiritual e da sua renúncia aos
prazeres do corpo – aos confessores e pecadores, permitia a salvação
do corpo pecador e impuro para salvar a alma da perdição.
O liame entre o corpo e a alma pode ser
visto no cânone 22, em que a alma doente, devido aos pecados da
carne, se reflete na enfermidade do corpo, portanto, a necessidade
de chamar os “médicos da alma” (os padres) antes do “médico do
corpo” aplicar os medicamentos (p.175). A preocupação com os
costumes e condutas dos clérigos e leigos em relação aos prazeres
carnais e a pureza da alma, também pode ser percebida no IV Concílio
de Latrão, cânone 14, que reforçava a importância da continência –
exigida desde o II Concílio de Braga – e da castidade dos clérigos,
além de castigos severos àqueles que não conseguissem renunciar aos
prazeres do corpo. Contudo, é importante destacar que nesta época
corpo e alma estavam unidos, por isso, para a pureza da alma era
necessária a pureza do corpo, e o corpo do padre deveria ser limpo
para celebrar a palavra de Deus (IV Concílio de Latrão, Cânone 14,
p.170-171). No século XIII o cuidado com o “uso prazeres” estava
ligado ao cuidado com a pureza da alma. Controlar seus desejos e
vontades significava manter uma alma limpa das luxurias da carne e
aproximá-la dos ensinamentos de Deus. Um homem continente
representava o princípio da razão que une o corpo e a alma, ou seja,
o Espírito Santo.
Conclusão
Em suma, é possível afirmar que a Idade
Média Cristã – dos séculos V, VI e XIII d.C. – produziu uma grande
quantidade de discursos referentes ao corpo e à sexualidade por meio
do incentivo a confissão como forma de manter, a partir da
autoridade espiritual dos clérigos, o controle sobre a vida
religiosa e cotidiana do homem e da mulher medieval. O discurso
sobre a renúncia dos prazeres carnais para a salvação da alma
produziu uma normatização do corpo e dos prazeres na Idade Média
Cristã, o que Foucault chamou de um “policiamento do sexo”.
O incentivo a confissão – que se
consolidou na vida do homem medievo no final do século XVI –
possibilitou a transformação das práticas sexuais em discursos o que
deu aos padres o direito de intervir, punir, julgar perdoar às
condutas e ás práticas sexuais do medievo cristão e, também, deu o
direito ao padre a inocentá-lo, a purificá-lo, a dar-lhe a salvação
divina após a confissão de todos seus pecados da alma e do corpo, e
após o cumprimento da penitência, esta regulada e sacramentada no IV
Concílio de Latrão em 1215. Observa-se, assim, que a Instituição
clerical foi a primeira a incentivar o discurso sobre o sexo, quando
passou a estimular, como visto anteriormente, o aumento das
confissões ao padre. As insinuações da carne deveriam ser ditas em
detalhes, incluindo os pensamentos sobre o sexo.
Referências
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