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MOISÉS VIANA
Professor Substituto de Antropologia,
Ciências Políticas e Introdução à Sociologia da Universidade
Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB/Itapetinga-Ba
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Vinícius
Vieira.
Democracia
Racial: do discurso à realidade.
São Paulo: Paulus, 2008, 261p.
Um olhar sobre o
Outro: discurso sobre relações raciais
Moisés Viana
A discussão sobre a
pobreza e inclusão social desemboca na questão cultural
historicamente construída a partir da questão racial. Assim, o
jornalista Vinícius Vieira escreve na sua obra [Democracia
Racial, do Discurso à Realidade: São Paulo: Paulus, 2008. 261
p.] reflexões interessantes sobre a questão racial no Brasil e suas
relações. Desse modo, o debate atual e necessário é feito analisando
o conceito de raça, sua trajetória histórica e como a teoria nasce
sob o ponto de vista biológico e positivista (que alimentou a
alimenta o racismo), para depois, então, alcançar sofisticadas
elaborações socioculturais. Aqui, aponta-se a contribuição da
antropologia e outras ciências para formar e abrilhantar o atual
debate. Destaca-se além de tudo a definição de Pierre van den Berghe
sobre o conceito de raça, que parece responder ao anseio intelectual
por uma definição, mas que não fecha questão levantada: “'Raça pode
significar um grupo de pessoas que socialmente definido, numa
determinada sociedade com raízes comuns devido a características
físicas como cor da pele, tipo de cabelo, traços faciais, estatura e
gostos'” (Apud VIEIRA, 2008: 18). A definição de raça se amplifica e
alcança o cerne do problema, o racismo, o preconceito, interpelando
os estudos socioculturais e ingressando no cotidiano como algo ser
analisado, na atual conjuntura.
Octávio Ianni numa
outra reflexão corrobora conosco e apresenta um interessante parecer
sobre o assunto: “A 'raça' não é uma condição biológica como a
etnia, mas uma condição social, psicossocial e cultural, criada,
reiterada e desenvolvida na trama das relações sociais, envolvendo
jogos de forças sociais e progressos de dominação e apropriação”
(2004: 23). Essa construção social desenvolve-se, estigmatiza e
torna-se signo de domínio, racionalizando os sistemas que mantém o
status quo. Daí a raça ignorada passa a ser racismo velado na
sociedade.
Tal como as diversas
relações humanas, o racismo surge na sociedade e toma um caráter de
práxis, sustentando as relações, e deliberando ações de poder,
atribuindo caracteres físicos, genéticos e culturais de
inferioridade. O outro, diferente de mim, é ignorado, combatido e
explorado. Como aponta Vieira (2008), o Brasil herda de Portugal a
disparidade racista de apontar uma suposta diferenciação
inter-racial entre brancos e não-brancos. Atribui-se inferioridade
aos não-brancos, constrói-se nessas terras um território do ódio
racial, simbolicamente perpetuado pelos meios de comunicação,
indústria cultural e instituições. O racismo que se autocamufla em
nome da sobrevivência de si e morte do outro, do poder do lucro e da
detenção das forças de produção.
Simultaneamente a
isso, percebe-se que o Brasil socioculturalmente é construído
injustamente e sua origem é patrocinada pelo racismo e escravidão.
Ele se desenvolveu a partir de estruturas que cristalizaram relações
de poder que se derivaram sob preconceituosas relações subjetivas
entre os indivíduos. “Conscritos nos guetos de escravidão é que os
negros brasileiros participam e fazem o Brasil participar da
civilização de seu tempo. Seu ser normal era aquela anomalia de uma
comunidade cativa, que nem existia para si nem se regia por uma lei
interna de desenvolvimento de suas potencialidades, uma vez que só
vivia para outros e era dirigida por vontades e motivações externas,
que queriam degradar moralmente e desgastar fisicamente para usar
seus membros homens como bestas de carga e as mulheres como fêmeas
animais” (RIBEIRO, 2006: 105). A nação que nasceu fruto do Estado
português movimentou e alimentou o desenvolvimento da tragédia
histórica que não é contada nos livros ou nas narrativas
branco-católica-portuguesa: “A mais terrível de nossa herança é esta
de levar conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta
a explodir na brutalidade racista e classista”, aponta Darcy Ribeiro
(2006: 108). Mais tarde, com advento das mudanças políticas, a
legitimidade do racismo foi travestido em fortes discursos de
igualdade, fraternidade e liberdade, base do domínio do Estado de
Direito brasileiro.
No entanto, ele foi
subversivamente burlado no dia-a-dia pela práxis do preconceito, do
racismo e da intolerância. O tácito desrespeito ao não-branco, e a
qualquer outra manifestação além do estereótipo europeu, começa na
prática de conceber o outro como inferior. Desenvolve-se daí uma
ideologia que se mantém para o domínio, a exploração e o discurso
que alimenta e é alimentado pela farsa da igualdade. Esconde-se um
racismo sem raças, individualizados em ações isoladas de indivíduos
atípicos.
Nesse contexto de
análise do racismo, surgem questões como miscigenação, branqueamento
e políticas na história brasileira que alimentaram os processos
sociais e determinaram o surgimento da identidade brasileira. Esta é
marcada por uma ligação das elites à Europa. Isso faz com que a
mentalidade branca tenha traços negros e índios, mas que
paradoxalmente renega e suprime seus aspectos de identidade não
europeus. Isso alcança dimensões como educação e economia, por
exemplo, solidificando a base da desigualdade. As estruturas
injustas que prendem e alienam o ser humano, tornam-se maior ainda
quando o preconceito e a questão da raça tornam-se evidentes nas
relações sociais.
O desafio social do Brasil perpassa
características plurais que se apresentam cruelmente: “Vale lembrar
que a pobreza não tem um caráter apenas econômico, e que os
problemas de ocupação e renda normalmente são acompanhados por
dificuldades de acesso a bens e serviços básicos, como educação,
saúde, saneamento, cultura e lazer” (CARVALHO, 2005: 103). Medidas
de curto, médio e longo prazo para minimização dessa característica
compreende a busca de justiça social que é construída a partir da
complexa relação que envolve âmbitos políticos, econômicos,
culturais e religiosos.
Ideologicamente o discurso do
desenvolvimento alcança uma perspectiva de ignorar a questão racial
na análise da Justiça Social. O conceito de democracia, então ignora
essa demanda e angústia do Brasil e torna-se uma metáfora de algo
que não corresponde à realidade desse país. A construção
multicultural dessa nação e sua diversidade de referência na
construção da democracia e da unidade nacional. Por exemplo, a
Constituição Federal de 1988 exige
e o Estado é incapaz de cumprir.
Os pobres são os que mais sofrem por
causa dos baixos salários, dos impedimentos e descasos que marcam os
não-brancos de acesso aos seus direitos. Todavia, onde se ressalta o
branqueamento paulatino das gerações, alcança uma ascensão de classe
social. Mas quando isso é rompido, surge o preconceito para aqueles
que não passaram pelo branqueamento. A economia, seus setores de
produção, a escola, a universidade a indústria cultural
apresentam-se tal como a sociedade e mantém a questão, repetindo o
mérito da desigualdade por trás de um discurso de igualdade.
Vieira discute em sua obra a questão do
Estatuto da Igualdade Racial das ações afirmativas, a importância
destas na construção de uma nova realidade: “Desigualdades
estruturais precisam ser combatidas com medidas do mesmo nível e com
algumas emergências que dêem iguais condições de competição, como
programas de formação complementar, ainda que sob a pena de se
tornarem perpétuas, uma vez que passam a ser moeda de troca com fins
eleitorais” (2008: 243). A crítica ultrapassa a indignação
intelectual e o jornalista aponta caminhos possíveis que superem as
desigualdades transformadas em letras mortas do Estado de Direito.
“Caminhos para Igualdade” é o ultimo
capítulo do livro. Para desenvolvimento de uma postura relacionada a
liberdade e contradições típicas da democracia o autor destaca a “Universalização
dos direitos sociais, de modo a completar a redemocratização, a
fase da socialização, ou seja, ampliação das garantias e redução das
desigualdades” (VIEIRA, 2008: 242). Mas além dessas medidas
estruturais do processo e garantia dos diretos pelo Estado, há ainda
tomada de iniciativa de “Combate ao preconceito, a discriminação
e ao racismo: a questão reside no entendimento, por parte da
sociedade, de que: 1) indivíduos não-brancos não são inferiores
biologicamente e podem, culturalmente, compartilhar valores
predominantemente ocidentais; 2) e, ainda que não podem ser
considerados inferiores, pois a todas as culturas é devido o mesmo
respeito, desde que respaldem os valores do Ocidente, esses mesmos
indivíduos não podem ser considerados inferiores, pois a todos as
culturas é devido o mesmo respeito, desde que respaldem os valores
democráticos de coexistência numa sociedade complexa” (VIEIRA, 2008:
244).
Nos finalmente, aponta-se o desejo de
construir uma nova matriz democrática, não grega, sustentada por
escravos, nem burguesa, sustentada pela detenção dos meios de
produção por uma minoria. Quer-se uma democracia sob bases
brasileira com fundamentos sociais justos, respeitando as
circunstâncias de justiça social e resgate das raças. Construir daí
a esperança de um novo país, democrático nos deveres e direitos,
possibilitado a partir de um novo olhar sobre o outro.
Referências
CARVALHO, Inaiá.
Inclusão Social. RUBIM, Antônio (Org.). Cultura e Atualidade.
Salvador: Edufba, 2005.
IANNI, Octávio.
Dialética das relações raciais. Estudos Avançados, São Paulo, nº
50, p.21-30, 2004.
RIBEIRO, Darcy.
O Povo Brasileiro. São Paulo: Cia. das Letras, 2006.
VIEIRA, Vinícius. Democracia
Racial, do Discurso à Realidade. São Paulo: Paulus, 2008.
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