|
IURI ANDRÉAS REBLIN
Teólogo
brasileiro, mestre e doutorando em teologia pela Faculdades EST
(Escola Superior de Teologia) de São Leopoldo (RS) com o apoio
do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq – Brasil)
|
|
KNOWLES,
Christopher. Our gods wear spandex: the secret history of
comic book heroes. San Francisco: Red Wheel
Weiser, 2007, 233p.
Sobre Deuses e colantes
por Iuri Andréas Reblin
Com um título bastante provocativo,
“Nossos deuses vestem colantes: a história secreta dos heróis dos
quadrinhos”, Christopher Knowles se propõe uma tarefa bastante
ousada: mergulhar no universo dos super-heróis e realizar nele uma
análise acerca dos elementos religiosos que o constitui. A leitura é
leve, nostálgica e significativamente recheada de aportes
históricos, os quais são sustentados por uma linha tênue indutora da
compreensão de que há um cruzamento entre ficção científica,
fantasia e ocultismo – religião – nas histórias dos super-heróis.
Esse cruzamento é argumentado por meio de uma análise, diluída nas
cinco partes constituintes da obra, que considera o contexto de
criação dos super-heróis, a história e a biografia dos criadores,
informações acerca das religiões antigas e dos cultos secretos,
observações da literatura de ficção e dos principais nomes
responsáveis por ela, a influência da religião na cultura, as
narrativas das sagas dos super-heróis e o impacto social sobre os
fãs. Tudo aparece não necessariamente na mesma ordem e nem com o
mesmo grau enfático, mas apenas para mostrar que “os super-heróis
desempenham agora para nós o papel uma vez desempenhado pelos deuses
nas sociedades antigas” (p. 16). Se essa empreitada alcança seus
objetivos e toca em pontos chave do universo dos quadrinhos é algo
sujeito à discussão. Em todo o caso, trata-se de uma abordagem
atípica, interessantíssima e merecedora de seu crédito.
Chris inicia a discussão acerca da
influência religiosa na saga dos super-heróis a partir de três
considerações particulares. A primeira delas sugere que a origem dos
super-heróis e a oscilação de seu sucesso estão associadas a grandes
transformações sociais. A Grande Depressão estadunidense e o
desencadeamento da Segunda Guerra Mundial potencializaram o anseio
religioso por salvadores. Passado o furor desses eventos, o consumo
de produtos relacionados aos super-heróis declinou-se até a queda do
World Trade Center no dia 11 de setembro de 2001, quando o
medo do terrorismo re-convocou os super-heróis de seu limbo. Para
Chris, isso já é um indício de que “nós apenas chamamos nossos
deuses quando precisamos deles” (p. 4).
A segunda consideração se trata, na
verdade, de um comentário sobre a mini-série Kingdom Come (O
Reino do Amanhã, em português) de Alex Ross e Mark Waid. A
história faz uma alusão direta à literatura apocalíptica bíblica e
apresenta o Capitão Marvel como o messias restaurador e
idealizador do espírito do verdadeiro heroísmo. Por fim, Chris
destaca ainda o culto aos super-heróis por toda uma legião de fãs
mundo a fora, os quais organizam eventos sobre os super-heróis,
vestem os trajes de seus super-heróis favoritos e adquirem os mais
variados souvenires de seus ídolos: passando de camisetas,
bonés, bonecos de ação, a quadrinhos e filmes. Para o autor,
[...] quando você vê fãs vestidos
como seus heróis favoritos em convenções de quadrinhos, você
está vendo o mesmo tipo de culto que foi desempenhado uma vez no
antigo mundo pagão, onde celebrantes se trajavam como seus
objetos de culto e ordenavam seus dramas em festivais e
cerimônias. (p. 16)
Na segunda parte, Chris retoma
narrativas e referências atinentes a religiões antigas dos povos
mesopotâmicos, egípcios, romanos, gregos, veterotestamentários e
nórdicos. Debruça-se sobre movimentos religiosos que recuperaram
elementos mágicos, tais como as seitas secretas e os movimentos
religiosos alternativos: o espiritualismo, o rosacrucianismo, a
maçonaria, a ciência cristã, o mormonismo, o transcendentalismo.
Esses diversos movimentos religiosos difundidos nos séculos XVIII e
XIX “prepararam o caminho para uma explosão de um novo pensamento
religioso por volta do século XX” (p. 45) que foi, aos poucos, se
infiltrando na cultura popular. Chris destaca o novelista Edward
Bulwer-Lytton e a sua obra de ficção Vril (pioneira no
conceito de uma super-raça e de grande repercussão no ocultismo) a
sociedade teosófica da Madame Blavatsky (que pode ser considerada a
alternativa religiosa mais importante do norte-atlântico no século
XIX) e personalidades que desempenharam um papel importante no
desenvolvimento do ocultismo ocidental, tais como Friedrich
Nietzsche, Aleister Crowley, Harry Houdini e Edgar Cayce.
Se, por um lado, um novo pensamento
religioso adquiria espaço na sociedade e na cultura ocidental
norte-atlântica, foi, por outro lado, por meio de novas tecnologias
e novas formas de entretenimento de massa que esse pensamento se
consolidou na cultura popular, cuja apoteose aconteceu com o
surgimento dos quadrinhos. Nesse sentido, expoentes na literatura de
ficção, responsáveis pela redefinição do gênero (sendo muitos deles
fascinados pelo oculto) foram imprescindíveis para que esse processo
seguisse o rumo que tomou: Edgar Allan Poe, Arthur Conan Doyle,
Júlio Verne, H.G. Wells e Bram Stoker. Com a chegada das pulps
(revistas baratas de ficção) ao mercado estadunidense, não demorou
para que o conceito, agora redefinido, fosse incorporado nas
histórias e desse origem a personagens como Tarzan, o Sombra, os
Gladiadores, Doc Savage. A narrativa, ora futurista, ora
sobrenatural, influenciou diretamente os artistas dos quadrinhos.
Nomes inesquecíveis das pulps são Edgar
Rice Burroughs, Sax Rohmer, H.P. Lovercraft, Robert E. Howard, Dion
Fortune e Jack Parsons.
Na quarta parte, Chris se preocupa em
reunir os elementos apresentados nos capítulos anteriores e em
retomar a figura do super-herói como salvador dentro da trajetória
evolutiva dos quadrinhos. Ele apresenta quatro possíveis arquétipos
constituintes para as personagens salvadoras: o mago, o messias, o
golem (geralmente, representado por um anti-herói) a amazona
(a versão feminina do messias) e as irmandades. Tudo isso não seria
possível imaginar sem a existência de certos visionários nos
bastidores dos quadrinhos, abordados na última parte, como Jack
Kirby, Steve Englehart, Alan Moore, Neil Gaiman, Grant Morrison,
Mike Mignola, Alex Ross.
Toda essa exposição construída
basicamente sobre as personalidades envolvidas no processo criativo
das histórias e das personagens conduz o autor a concluir que os
super-heróis fornecem uma fuga da mediocridade da vida moderna a um
lugar onde existem grandes potencialidades e possibilidades. Toda a
popularidade dos super-heróis e o impulso implícito nas convenções
fazem o autor asseverar que “as pessoas querem mergulhar no reino
mítico e se tornar outras pessoas na tentativa de se desprenderem de
seus problemas mundanos” (p. 218). E as perguntas que ele coloca
são:
Uma sociedade tão imersa em
Heroes, Harry Potter, e nos X-Men se
conformará com as limitações do corpo humano? Ou a fascinação
por essas histórias elevará novas expectativas que nós
tentaremos encontrar por meio da clonagem e da engenharia
genética? Shows como Heroes e 4400 caracterizam a
manifestação de superpoderes no mundo real, não no mundo do
colante, e o ambiente virtual de alguns videogames sugere a
possibilidade de entrar em outras realidades. Essas tendências
estão moldando nosso futuro? Nós estamos começando a nos
maravilhar como manifestar essas novas possibilidades? (p. 218).
Lamentavelmente, a obra de Christopher
Knowles se encerra por aqui e não atinge a potencialidade que
poderia. O principal problema do texto de Chris não é a discussão
acerca dos aspectos religiosos em si, mas a insistência em equiparar
os super-heróis aos Deuses do mundo antigo, o que gera uma série de
dificuldades. A primeira dificuldade decorrente dessa associação
gira em torno do conceito de religião. Toda religião possui um
aspecto transcendente que é extra nos (OTTO, 2007). Em
hipótese alguma, os super-heróis podem ser comparados aos
Deuses – e isso inclui os do mundo antigo – pois os super-heróis são
projeções da imaginação humana. Causa um certo desconforto ver a
religião reduzida a termos feuerbachianos na leitura do
texto. A impressão que se tem é que a religião torna-se algo
pitoresco, longe de seu contexto original, enfim, uma fuga da
realidade. A idéia de fuga da realidade e o tema da clonagem e da
engenharia genética que os super-heróis podem motivar apenas
tangenciam um problema bem mais fundamental: a pergunta pela
esperança.
Super-heróis contam histórias de
esperança e a principal diferença entre a narrativa da superaventura
e a narrativa religiosa é que, num sentido amplo, a primeira não
muda (ou não visa mudar) o mundo (o sistema) tal como ele está
constituído. É uma salvação paliativa, ao passo que, na
perspectiva religiosa, outro mundo é possível (REBLIN, 2008). A
religião nasce como recusa e protesto do mundo – de significado,
mediado pela linguagem – tal como este está constituído (ALVES,
2005). Nesse sentido, torna-se significativo, na experiência
religiosa, o potencial emancipador (e não alienador) da imaginação e
do mito. Ambas as faculdades (a primeira como força criadora e a
segunda como local de ação dessa força criadora, não exclusivamente,
entretanto) carregam um caráter utópico fundamental para a
transformação social.
Em Nossos deuses vestem colantes,
Chris faz alusão ao potencial do caráter mítico, mas deixa de
explorá-lo, o que é uma pena. A impressão que fica é que Chris
confunde mito com alegoria e a religião, que seria o
peso de sua análise, fica restrita a uma leitura enciclopédica
superficial de expressões religiosas e a uma observação dos autores
de ficção que, ora consciente, ora inconscientemente, traduziram
essas expressões em histórias. Chris não escapa de uma abordagem
histórica já realizada por tantos outros pesquisadores das histórias
em quadrinhos como Les Daniels, Mike Benton e entre brasileiros como
Moacyr Cirne, Álvaro de Moya, Roberto Guedes, etc. Tentativas
analíticas da mitologia dos super-heróis, entretanto, podem (e valem
a pena) ser conferidas em VIANA, 2005 e REBLIN, 2008.
Em todo o caso, a busca por referenciais
e a idéia de imaginar os quadrinhos através de personalidades que
influenciaram profundamente a literatura de ficção é singular e
extremamente curiosa. Embora haja uma linha tênue que separa o
anseio “por um salvador” e o anseio “em ser um salvador de si mesmo”
que perpassa a análise de Chris (e que parece se confundir às
vezes), o texto carrega em suas entrelinhas a paixão por um universo
de impossibilidades almejadas, e essa motivação religiosa, que, no
fundo, justifica o próprio texto, me faz lembrar de uma fala do
Superman para Lois Lane no filme Superman – O Retorno: “Você
escreveu que o mundo não precisa de um salvador, mas todo dia ouço
pessoas chorando por um”. Um dos aspectos religiosos mais evidentes
nas narrativas dos super-heróis é a busca pela esperança: esperança
por uma vida melhor; esperança por justiça; esperança por uma nova
ordem das coisas; esperança.
Referências complementares:
ALVES, Rubem. O que é religião?
6. ed. São Paulo: Loyola, 2005.
OTTO, Rudolf. O Sagrado: os
aspectos irracionais na noção do divino e sua relação com o
racional. São Leopoldo: Sinodal/EST; Petrópolis: Vozes, 2007.
REBLIN, Iuri Andréas. Para o alto e
avante: uma análise do universo criativo dos super-heróis. Porto
Alegre: Asterisco, 2008.
VIANA, Nildo. Heróis e Super-heróis
no mundo dos quadrinhos. Rio de Janeiro: Achiamé, 2005.
|
|
versão para imprimir (arquivo em pdf)
leia +
Entre o possível e o impossível: a ciência dos Super-heróis
|