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DUARTE PEREIRA
Jornalista e autor, entre outros
trabalhos, do livro Perfil da classe operária (São
Paulo, Hucitec, 1981)
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Friedrich
Engels. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra;
tradução de B. A. Schumann; supervisão, apresentação e notas de José
Paulo Netto. São Paulo, Boitempo Editorial, 2008, 383 p.
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Uma nova classe trabalhadora
Duarte Pereira
Há alguns motivos para ler, ou reler,
com interesse e proveito, a obra de Engels, A situação da classe
trabalhadora na Inglaterra, embora ela tenha sido publicada em
1845 e escrita por um jovem de apenas 24 anos.
O primeiro motivo é que Engels demonstra
que é possível escrever com simplicidade e paixão sem perder o rigor
científico. A fluência quase jornalística e a qualidade literária de
seu texto são preservadas na edição da Boitempo pela competente
tradução de Bernhard A. Schumann, feita diretamente do alemão.
O segundo motivo é que Engels antecipa,
em sua investigação, a ciência social unitária e dialética que ele e
Marx iriam desenvolver nas décadas seguintes. Preocupado em iluminar
as diferentes faces de seu objeto de estudo, Engels derruba as
fronteiras artificiais das disciplinas acadêmicas, incursionando nos
territórios atuais da economia e da sociologia, da ciência política
e da antropologia cultural, da psicologia coletiva e da medicina
social. Atento, além disso, à realidade contraditória e em movimento
da sociedade inglesa, exercita aquela “ciência dialético-histórica
da tendência”, como a chamaria o filósofo alemão Ernst Bloch, típica
do marxismo, ou seja, “a ciência da realidade mais a possibilidade
nela contida, visando à ação”.
Descrevendo minuciosamente as condições
de trabalho e de vida do proletariado inglês, relacionando sua
emergência e expansão com as do capitalismo e da primeira revolução
industrial, captando não apenas o lado sofredor da nova classe
social, mas também seu potencial revolucionário, Engels realizou um
trabalho pioneiro, que, apesar de pouco conhecido, foi crucial para
sua transformação e de Marx em marxistas. A esclarecedora
apresentação de José Paulo Netto, que abre a edição da Boitempo,
fornece elementos históricos e biográficos para a compreensão desse
significado da obra, o qual representa o terceiro motivo pelo qual
ela merece ser estudada.
É verdade que Marx já havia inscrito o
proletariado em seu horizonte teórico desde a Introdução à
crítica da filosofia do direito de Hegel, de 1843, mas seu
entendimento do proletariado era ainda genérico demais e inserido
num esquema filosófico-especulativo, em que a nova classe era
chamada a realizar o legado emancipador da filosofia clássica alemã.
Engels trilha outro caminho. Empenhando-se numa investigação
científica do proletariado mais desenvolvido, o inglês, dá
concretude à nova classe e fundamenta seu potencial transformador
nas lutas econômicas e políticas que ela já travava.
As condições atuais do proletariado nos
países capitalistas mais desenvolvidos são distintas das retratadas
na obra de Engels, como ele próprio reconheceu em prefácio a uma
reedição alemã de 1892, reproduzido na edição da Boitempo. E sua
expectativa de uma revolução proletária iminente na Inglaterra não
se efetivou, erro de prognóstico que não pode ser atribuído somente
a um entusiasmo juvenil.
A maleabilidade do capitalismo e a
capacidade de concessão da burguesia, por um lado, e as dificuldades
para a ruptura com o Estado burguês e para a construção da nova
sociedade socialista, por outro, se revelaram muito maiores do que
imaginaram Engels e Marx na juventude e na maturidade. Uma
investigação das mudanças tecnológicas e organizativas do
capitalismo e das novas configurações da burguesia e do
proletariado, assim como um exame mais acurado dos pressupostos
requeridos para a formação da consciência crítica e para o
desenvolvimento da organização democrática dos trabalhadores
constituem, portanto, desafios para os socialistas e marxistas
contemporâneos. Esse é mais um motivo pelo qual a obra de Engels –
um exemplo de compromisso, método e rigor – precisa ser relida, sem
negligenciar, no entanto, suas limitações históricas e teóricas.
Duarte
Pereira é jornalista e autor, entre outros trabalhos, do
livro Perfil da classe operária (São Paulo,
Hucitec, 1981). A resenha foi publicada com cortes em Le
Monde Diplomatique Brasil, São Paulo, ano 1, número 11,
junho 2008, pág. 39.
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