A Crise de Petróleo
Henrique Rattner
Nas últimas
semanas, o mercado de petróleo e das “commodities” tem
sofrido sérios abalos com o aumento do preço do barril para
US$ 140.00, seguido por ondas de elevação de preços de
alimentos e de inúmeros subprodutos, tais como plásticos,
petroquímicos e fertilizantes pelo mundo afora.
Lembrando os
choques de petróleo na década dos setenta e seus impactos
nos custos de energia e na inflação generalizada, uma onda
de pessimismo e até pânico atravessa o mundo, causando
manifestações de protestos das populações contra a alta dos
combustíveis e de alimentos, na Espanha e na França, no
Haiti e em vários países africanos, até as Filipinas.
Soou patético o
comunicado dos ministros de Energia do G-8, reunidos na
semana passada no Japão, exigindo dos países exportadores de
petróleo (OPEP), para que invistam mais na produção e na
ampliação da oferta do combustível e reclamando também da
falta de transparência sobre os níveis atuais de produção e
de suas reservas.
A nossa
civilização depende do petróleo, combustível e matéria-prima
para inúmeros subprodutos. Iniciada a produção no fim do
século XIX pela Standard Oil of New Jersey (da família
Rockefeller), a expansão da produção seguiu aceleradamente
nas primeiras décadas do século XX, após a descoberta de
enormes campos nos países do Oriente Médio, particularmente
na Arábia Saudita.
Na segunda
metade do século XX, os dois choques de petróleo nos anos
setenta causaram uma elevação radical dos preços, sobretudo
nos países europeus e nos Estados Unidos, grandes
consumidores e dependentes da importação do combustível para
gerar energia e mover a rede de transportes, hoje composta
por centenas de milhões de veículos alimentados por gasolina
e/ou diesel. Nas duas décadas seguintes, houve um recuo e
relativa estabilização dos preços nos mercados, para retomar
o ritmo de alta com uma intensidade inédita, nesses
primeiros anos do século XXI.
Como explicar
esse comportamento errático do mercado de petróleo?
Dois fatores
parecem fundamentais para explicar a alta dos preços e seus
impactos na economia mundial. Primeiro, a entrada no mercado
da China e da Índia, grandes consumidores e importadores,
devido às altas taxas de crescimento de suas economias. A
pouca elasticidade da oferta – a perfuração de novos poços e
as descobertas de novos campos de exploração não conseguem
acompanhar o ritmo de expansão da demanda global – explica
em parte o salto do preço do barril até US$ 140.00 (um
barril equivale a 160 litros).
O outro fator,
não menos importante, é o aumento da especulação no mercado
de futuros, impactando no cenário internacional. Os atores
nesses mercados de futuros são os grandes grupos financeiros
que movimentam livremente, sem fiscalização ou controle das
autoridades fazendárias e fiscais dos respectivos estados
nacionais, imensos volumes de recursos via a rede virtual. O
volume de recursos financeiros que circula nessa ciranda é
maior que o valor gerado pela economia real (mais de 40
trilhões de dólares) e está concentrado nas mãos de uma
parcela ínfima da população mundial. Vivemos no mundo de
financeirização da economia e da autonomia dos mercados
financeiros que transforma o capitalismo industrial em um
capitalismo de renteiros, tudo controlado pelas redes de
informação e comunicação, frente aos quais a capacidade de
gestão e regulamentação do poder público – o Estado – se
revela impotente.
Acrescenta-se a
presença do cartel da OPEP (Organização dos Países
Exportadores de Petróleo) que controla 78% das reservas
mundiais e responde por 40% da produção e 60% das
exportações, fica patente a cilada em que se encontra a
imensa maioria dos países e da população mundial. Criado em
1960, para conseguir melhores preços para seu produto, a
associação dos membros do cartel conta com 14 países
membros. Na África são Argélia, Nigéria, Angola e Líbia; na
América Latina, Venezuela e Equador; no sudeste asiático, a
Indonésia e no Oriente Médio, a Arábia Saudita, os Emirados
do golfo pérsico, o Irã, Iraque, Kuwait e Quatar.
Entre os grandes
produtores que ficaram fora do cartel encontram-se os
Estados Unidos, México, Grã-Bretanha, Noruega e Rússia. Os
países da OPEP mantêm as maiores reservas do mundo em
petróleo e conseguem controlar seus preços, por exercer uma
administração centralizada dos volumes de produção e
exportação. Criada em 1960 com o objetivo de se opor às
pressões das grandes empresas compradoras - Exxon, Aramco,
Shell, British Petroleum, ENI (italiana), Total (francesa) e
Repsol (espanhola), a associação cindiu-se após a guerra de
1967 entre Israel e os países árabes que formaram uma
organização própria para controlar as exportações, sem
deixar de aderir à OPEP, com sede em Viena.
Estima-se que o
total da produção mundial, neste começo de século XXI, se
eleva a 24 bilhões de barris por ano, dos quais 23 bilhões
são consumidos e um bilhão é retido para formar estoques. As
reservas globais de petróleo são estimadas em um trilhão de
barris, sendo que 67% encontram-se no Oriente Médio. Em
várias partes do mundo, as reservas de gás e de petróleo
estariam diminuindo (México, Mar do Norte), o que tem
intensificado a pesquisa e o desenvolvimento de fontes
energéticas alternativas. As respostas a esse dilema que
afetará a todas as sociedades, mais cedo ou mais tarde, são
complexas e intrincadas.
Mesmo com a
descoberta de novos campos como o é o caso da bacia de
Santos no Brasil, a instalação de torres de perfuração e de
plataformas de exploração é de alto custo e exige, além de
grandes investimentos, anos de trabalho para começar a
produção e comercialização. A construção de plataformas leva
anos e os resultados das perfurações, sobretudo nas áreas
marítimas de grande profundidade, são incertas.
Outro fato
relevante neste contexto, é o aumento contínuo da frota de
veículos movidos à gasolina e/ou óleo diesel, subprodutos de
refino de petróleo cru. As refinarias existentes trabalham a
plena capacidade e a construção de novas unidades exige
tempo, investimentos e, sobretudo, precauções quanto aos
possíveis impactos negativos no meio ambiente.
Como equacionar
este problema da demanda por combustível de quase um bilhão
de veículos em uso no mundo, aos quais são acrescentados
anualmente quase 100 milhões de novos, incluindo carros,
caminhões, ônibus, motocicletas que devoram quantidades
enormes de combustível líquido e impactam negativamente no
meio ambiente, pelas emissões de gases causadores do “efeito
estufa” e do aquecimento global terrestre?
O dilema
vislumbrado por governos e empresas tem inspirado o renovado
interesse pela energia nuclear e outras fontes de energia.
Quanto à energia nuclear, alega-se que, além de ser mais
“limpa” e de custo competitivo (?), sua fonte de
matéria–prima, o urânio, está localizada em países
politicamente estáveis e aliados (Austrália e Canadá), ao
contrário de petróleo controlado por governos hostis ou
autoritários, como o Irã, a Venezuela e todo o Oriente
Médio.
Não é por acaso
que as encomendas por novos projetos de reatores têm
aumentado significativamente nos países ricos – EUA, França,
Grã Bretanha, Finlândia, sem falar dos países “emergentes”
como a China, Índia, Rússia e Brasil. Mas, se o tempo
necessário para a construção de plataformas em águas
profundas e de novas refinarias é demorado, sempre
dependendo de um longo e controvertido processo de
licenciamento ambiental, o prazo para a construção de
reatores nucleares é ainda maior e a resistência das
populações à sua instalação é dificilmente superada.
Por outro lado,
as pressões sobre os países produtores de petróleo, para
aumentarem sua produção, não têm surtido efeito. A oferta de
petróleo ficou praticamente estagnada e não foi capaz de
atender a demanda crescente, sobretudo dos países
“emergentes”. Estima-se que somente a Arábia Saudita e os
Emirados do Golfo estariam em condições de elevar sua
produção, situação que pressiona os preços, dado o
desequilíbrio entre demanda e oferta. Também, pequenos
acidentes como a sabotagem por guerrilheiros dos oleodutos
na Nigéria, tempestades no Golfo do México ou a ameaça
constante de eclosão de novos conflitos nos Oriente Médio,
pressionam os preços para alta.
Outro fator de
instabilidade do mercado é representado pelos diferentes
tipos de petróleo e sua viscosidade que deve ser processado
pelas refinarias. O petróleo “leve”, de menor viscosidade,
produz a gasolina e o óleo diesel enquanto o “pesado” serve
para combustível de calefação. Na crise atual, ocorre um
excesso de óleo combustível “pesado” e a falta de gasolina,
o que reduz a rentabilidade das operações das refinarias.
Estas, para poderem processar diesel com o óleo de variedade
“pesada” necessitam de investimentos adicionais para
transformar suas instalações, um processo lento e caro.
Empresas de consultoria calculam que os custos para a
construção de refinarias e da instalação de plantas
petroquímicas têm aumentado em mais de 70% desde o ano 2000.
O mesmo raciocínio vale para o desenvolvimento de novas
jazidas de petróleo cujo custo tem subido em mais de 100% no
mesmo período.
A postura
nacionalista de certos governos – Rússia e Oriente Médio –
tem desencorajado novos investimentos privados. As novas
áreas de exploração no Brasil e na região ártica apresentam
dificuldades técnicas além de políticas, o que tende a
aumentar os preços finais do produto. Face à esta situação,
os países ricos da OCDE – Organização para a Cooperação e o
Desenvolvimento Econômico – avaliam seriamente a redução do
consumo de petróleo e sua substituição por fontes
energéticas alternativas, tais como o etanol, veículos
elétricos, plantas eólicas e usinas nucleares.
A curto prazo,
nem a oferta nem a demanda de petróleo são “elásticas” (na
linguagem dos economistas) ou seja, reagem a alterações de
preços no mercado. O desenvolvimento de um novo campo após
sua descoberta pode levar até 10 anos, posto que as empresas
consigam captar os capitais no mercado financeiro, hoje
extremamente volátil e sujeito a especulação desenfreada.
Em resumo,
parece que nossa civilização encontra-se em um beco sem
saída: por um lado, as pressões representadas por um bilhão
de veículos a motor que não param de expandir, sobretudo com
a construção de novas fábricas para veículos populares na
China e na Índia.
Os impactos
dessa corrida irracional atrás do “desenvolvimento” estão
sendo sentidos em todos os setores da economia,
impulsionando a demanda por mais aço, alumínio, plásticos,
vidros e os materiais para a construção de novas plantas.
Acrescenta-se a demanda por materiais para expandir a
infra-estrutura – rodovias, pontes, túneis e espaços para o
estacionamento – fica patente que o planeta não é capaz de
sustentar essas sociedades baseadas no consumo de
desperdício, na opção individualista por um sistema de
transporte e no estilo de morar em grandes aglomerações
metropolitanas, devoradoras de enormes quantidades de
energia no verão (ar condicionado) e no inverno (calefação).
A crise de
petróleo tem o mérito de alertar os governos e as populações
para o perigo de um colapso e a necessidade de se investir
seriamente em pesquisa e desenvolvimento de soluções
alternativas e sistêmicas, que abranjam o conjunto das
atividades humanas, enfim, um novo paradigma civilizatório.