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CARLOS BATISTA PRADO
Mestrando em Filosofia Política pela
UNIOESTE de Toledo - PR

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O capítulo XXV de O Capital:
a teoria moderna
da colonização como analogia à possibilidade de libertação da classe
trabalhadora
Carlos Batista Prado*
O
capítulo XXIV de O Capital,
que investiga o processo de
acumulação primitiva é o capitulo mais famoso e mais estudado da
obra magna de Marx. Ao investigar a gênese histórica da sociedade
produtora de mercadorias, se revelou que o seu fundamento é a
separação dos homens aos meios de produção. É nesse capítulo que a
negação do modo de produção capitalista é realizada com o anúncio da
negação da negação – expropriação dos expropriadores. A revolução
proletária aparece como devir da história.
Aparentemente o trabalho ao qual Marx se
havia proposto a realizar no primeiro livro de O Capital, já
estaria concluído a final do capítulo XXIV. No entanto, ele não
poderia encerrar sua obra com a explosão da luta de classes,
anunciando uma revolução. Se o fizesse dessa maneira se tornaria uma
presa fácil para os seus críticos que por meio de uma leitura
oportunista o acusariam de determinista ou evolucionista e o
denominariam de ‘profeta da revolução’.
Ora, isso quer dizer que o capítulo XXV,
que encerra o livro primeiro de O Capital apenas cumpre a
função de salvaguardar Marx da acusação de determinista? Seria o
capítulo XXV desprovido de qualquer importância para a crítica ao
modo de produção capitalista? Não acreditamos que o capítulo sobre a
colonização cumpra apenas essa função, mas pelo contrário, ele trata
de uma importante problemática para a crítica a Economia Política e
para a própria negação da sociedade burguesa. Qual a contribuição da
teoria moderna da colonização no interior de O Capital? Está
é a pergunta que o presente artigo buscará responder.
Marx inicia o capítulo sobre “A teoria
moderna da colonização” afirmando que se na Europa o desenvolvimento
da sociedade produtora de mercadorias já estava tão desenvolvido que
os economistas já o consideravam como parte de uma ordem natural,
nas colônias a situação era outra. “As coisas são bem diferentes nas
colônias. O regime capitalista choca-se lá por toda parte contra a
barreira do produtor, que como possuidor de suas condições de
trabalho enriquece a si mesmo por seu trabalho, em vez de enriquecer
ao capitalista.” (OC Ib, p. 295; MEW 23, p. 792). O objetivo ao
investigar a colonização é desenvolver uma derradeira crítica a
Economia Política acerca das formas de propriedades:
A Economia Política confunde por
princípio duas espécies muito diferentes de propriedade privada,
das quais uma se baseia o próprio trabalho do produtor e a outra
sobre a exploração do trabalho alheio. Ela esquece que a última
não apenas forma a antítese [Gegensatz] da
primeira, mas também cresce somente sobre seu túmulo. (OC Ib, p.
295; MEW 23, p. 792)
Para demonstrar que a sociedade do
Capital só pode se edificar sobre a forma da propriedade baseada na
exploração do trabalho alheio, Marx revela como o capital atuou
durante o processo de colonização, ou seja, durante o processo de
expansão do capital para além da Europa. Mas, para o Capital se
desenvolver nas terras para além dos mares que cercam o velho
continente, também foi necessário um processo de “acumulação
primitiva”.
Marx se refere ao livro do empresário
Edward Gibbon Wakefield que relatando a sociedade colonial critica o
que denomina de colonização espontânea e desordenada e defende uma
colonização sistemática. O livro de Wakefield conta a história do
Sr. Peel, que perpassa pela tragédia e pela comédia.
Sr. Peel deixou a Inglaterra e partiu
para a colônia na Nova Holanda, no distrito de Swan River. Mas, ele
não foi sozinho, levou consigo 30 mil libras estelinas em espécies e
três mil trabalhadores, famílias inteiras, entre homens, mulheres e
crianças. No entanto, depois de alcançado o local de destino, a
história revelou sua face trágica e cômica, pois “o Sr. Peel ficou
sem nenhum criado para fazer sua cama ou para buscar-lhe água no
rio.”
Os trabalhadores que foram levados para
a colônia e que seriam mão-de-obra assalariada, uma vez tendo a
oportunidade abandonaram o trabalho assalariado e se tornaram
produtores autônomos, independentes, donos dos meios de produção,
proprietários de suas terras. Ora, quando os trabalhadores
perceberam que poderiam trabalhar para si próprios e não para o
enriquecimento alheio. Não houve dúvidas sobre qual destino seguir.
A vida nas colônias revela duas faces
contraditórias. Dê um lado a colonização capitalista almeja a
exploração dos trabalhadores assalariados, de outro, os
trabalhadores buscam sua independência frente à exploração
capitalista. A partir do momento que os trabalhadores abandonaram o
Sr. Peel eles também estabeleceram um rompimento com a produção
capitalista. Se os trabalhadores assalariados se tornam
independentes, a lógica do capital se interrompe decisivamente.
A transformação de trabalhadores
assalariados em proprietários direto dos meios de produção implica o
rompimento do ciclo de acumulação do capital, pois o dinheiro não
pode transformar-se em mais-valia e a mais-valia não pode
transformar-se em capital. “Sabe-se: meios de produção e de
subsistência, como propriedades do produtor direto, não são capital.
Eles tornam-se [Werden] capital apenas sob condições em que
servem ao mesmo tempo como meios de produção e de dominação [Beherrschungsmittel]
do trabalhador.” (OC Ib, p. 296; MEW 23, p. 794).
A propriedade direta dos meios de
produção choca-se diretamente com a lógica do trabalho assalariado e
da extração de mais-valia do trabalhador, choca-se com a exploração
do trabalho alheio e, portanto, surge uma contradição que é
incompatível com o modo de produção capitalista. Segundo Marx:
“Enquanto o trabalhador, portanto, pode acumular a sim mesmo – e
isso ele pode enquanto permanecer proprietário de seus meios de
produção – a acumulação capitalista e o modo capitalista de produção
são impossíveis [unmöglich].” (OC Ib, p. 296; MEW 23, p.
794). A sociedade burguesa só pode forjar-se sob o túmulo da
independência dos trabalhadores. Pelo antagonismo dos dois sistemas
de produção compreende-se que um está em função direta da morte do
outro.
É justamente sob esse ponto que
Wakefield dispara sua crítica ao processo de colonização. Essa
“libertação da classe trabalhadora” ele denomina de colonização
desordenada. Ora, para o capital esse processo provoca o caos. O
capítulo XXIV revelou como na Europa o processo de acumulação
primitiva separou o homem de suas condições de trabalho e criou a
mão-de-obra assalariada suficiente para abastecer todas as fábricas.
Mas foi além disso, pois criou um exército reserva para regular o
preço da força de trabalho a índices muito baixos, para por outro
lado, promover ao capital índices muito altos de mais-valia.
Para Wakefield, essa separação do
trabalhador autônomo de sua base fundiária foi dada por um processo
natural. Segundo ele, foi “resultado de um entendimento e combinação
voluntária.” Eis o que as mistificações, formas ilusórias e
aparentes fazem com o cérebro do capitalista. Marx sintetiza o senso
comum burguês: “Numa palavra: a massa de humanidade expropriou a si
mesma em honra da “acumulação do capital” [die Masse der
Menscheit exproprierte sich selbst zu Ehren der "Akkumulation des
Kapitals"].” (OC Ib, p. 297; MEW 23, p. 795).
Ao contrário da Europa, onde o
capitalismo florescia sem impedimentos alcançando todo o seu
esplender, nas colônias a formação de produtores autônomos e
independentes apareceu como uma grande contradição que
necessariamente deveria ser superada para o livre desenvolvimento do
capital.
Visto que nas colônias a separação [Scheidung]
do trabalhador das condições de trabalho e de sua raiz, a base
fundiária, não existe ainda, ou apenas esporadicamente ou em
escala limitada demais, não existe também a separação [Losscheidung]
entre agricultura e a indústria, nem a destruição da indústria
doméstica rural, de onde deve então provir [herkommen] o
mercado interno para o capital? (OC Ib, p. 298; MEW 23, p. 796)
Wakefield destaca que na América apenas
os escravos e os empregados são exclusivamente agrícolas. Revela que
agricultores também podem ser ferreiros, marceneiros, alfaiates,
etc. Isso demonstra que a divisão social do trabalho não está
determinada como na Europa. O processo de cooperação, manufatura e
maquinaria, por meio da intensificação da divisão do trabalho
transformou os homens em meros apêndices das máquinas, em homens
parciais.
Nas colônias, com o crescimento de
trabalhadores proprietários das condições de trabalho, os
capitalistas se depararam com uma triste realidade para o acumulo de
capital. Marx destaca que:
Essa constante transformação dos
trabalhadores assalariados em produtores independentes, que em
vez de trabalhar para o capital, trabalham para si mesmo, e em
vez de enriquecer o senhor capitalista, enriquecem a si mesmos,
repercute de forma completamente prejudicial sobre as condições
do mercado de trabalho. Não é apenas o grau de exploração do
trabalhador assalariado que fica indecentemente baixo. Este
último perde também junto com a relação de dependência, o
sentimento de dependência em relação ao capitalista abstinente.
(OC Ib, p. 298; MEW 23, p. 797).
Wakefield se queixa da dificuldade em
encontrar trabalhadores assalariados baratos, mas pelo contrário, a
força de trabalho era rara e, portanto, seu custo era muito elevado
e prejudicavam os lucros dos capitalistas. Essa situação era
insuportável para o burguês. Trabalhadores independentes e
autônomos, eis o maldito resultado da colonização desordenada,
esbravejavam os capitalistas.
Nas colônias, onde os trabalhadores têm
a propriedade dos meios de produção, o capital não encontra terreno
fértil para se desenvolver. Marx argumenta que “A fragmentação [Zersplitterung]
dos meios de produção entre inumeráveis proprietários economicamente
autônomos elimina, com a centralização do capital, toda a base de
trabalho combinado.” (OC Ib, p. 299; MEW 23, p. 798 – 799).
Mas, toda essa ‘desorganização’ contra o
capital deverá ser superada pela colonização sistemática que
eliminará a raiz do problema. Ora, o grande câncer das colônias
reside na grande quantidade de terras que, portanto, podem ser
adquiridas por um baixo preço pelos trabalhadores. É dessa maneira
que os trabalhadores assalariados se libertam dos grilhões do
capital, tornando-se proprietários dos meios de produção.
A solução para o livre desenvolvimento
da produção capitalista nas colônias é dada por Wakefield. Ora, o
que o capital necessita para sua valorização é um elevado número de
trabalhadores livres, livres dos meios de produção, quer dizer,
desprovidos da base fundiária. O programa de Wakefield consiste em
elevar o preço da terra a um nível que o trabalhador assalariado não
possa mais ser capaz de adquiri-la.
A proeza consiste em matar dois
coelhos com uma só cajadada. Faça-se o governo fixar para a
terra virgem um preço artificial, independente da lei da oferta
e procura, que fosse o imigrante a trabalhar por tempo mais
longo como assalariado, até poder ganhar dinheiro suficiente
para adquirir sua base fundiária e transformar-se num camponês
independente. (OC Ib, p. 300; MEW 23, p. 800).
Esse valor deve ser determinado pelo
Estado, que pelo bem do capital intervém claramente contra a lei da
oferta e da procura. Como se vê, o determinado “preço suficiente da
terra” é o preço que o trabalhador não pode pagar. Este tipo de
“acumulação primitiva” proposto por Wakefield foi posto em prática
pelo governo inglês. Todavia, Marx afirma que “O fiasco foi
naturalmente tão vergonhoso como o da lei bancária de Peel.” (OC Ib,
p. 301; MEW 23, p. 801). A “acumulação primitiva” nas colônias não
se concretizou segundo a proposta de Wakefield, mas a separação do
trabalhador a base fundiária foi realizada por outros meios.
Por um lado, o imenso e contínuo
afluxo de gente, impelido ano a ano para a América, deixa
sedimentos estagnados no leste dos Estados Unidos, pelo fato de
a onda de emigração da Europa lançar aí no mercado de trabalho
mais pessoas do que a onda de emigração para o oeste pode
absorver. Por outro lado, a guerra civil americana teve por
conseqüência uma imensa dívida nacional, e com ela, pressão
tributária, criação da mais ordinária aristocracia financeira,
entrega de presente de imensa parte das terras públicas a
sociedades de especulação para a exploração de estradas de
ferro, minas etc. – em suma, a mais rápida centralização do
capital. (OC Ib, p. 301; MEW 23, p. 801).
O imenso contingente de emigrantes para
a América de trabalhadores em busca da independência e a guerra
civil entre as colônias do norte e do sul foram responsáveis para o
avanço da produção capitalista na colônia Americana. A centralização
do capital descrita por Marx provocou a ruína dos pequenos
proprietários autônomos e independentes. “A grande República deixou,
pois de ser a terra prometida [gelobt Land] para
trabalhadores emigrantes. A produção capitalista avança lá a passos
de gigante, embora o rebaixamento dos salários e a independência do
trabalhador assalariado ainda não tenham caído, nem de longe, ao
nível normal europeu.” (OC Ib, p. 301; MEW 23, p. 801).
Marx encerrou o capítulo sobre a
acumulação primitiva apontando para a revolução da classe
trabalhadora, como solução da imensa coleção de contradições do
capital. O que viria após essa revolução? Após anunciar a
expropriação dos expropriadores está pressuposta a revolução
socialista. A exposição da obra caminharia então para o momento
posterior, ou seja, para o socialismo? Deveria, então, apontar os
caminhos para a construção da nova sociedade?
Em O Capital não existe uma
teoria sobre o colapso capitalista, ele simplesmente expõe as
contradições da sociedade burguesa e revela que a cada crise, a cada
abalo econômico as contradições se tornam mais insustentáveis. Marx
não é determinista ou evolucionista, mas pelo contrário, para ele a
história está em aberto. Nas palavras de Rosa Luxemburgo:
“socialismo ou barbárie?” Sem determinismos. A história não está
predeterminada, pois ela é em última instância movimento da luta de
classes e, portanto, não existe espaço para determinações. Marx não
determina a revolução proletária, mas na verdade o que ele faz é
apostar em sua realização.
Em O Capital não aparecem
referências ao socialismo em nenhum momento, pois qualquer palavra
sobre essa problemática não passaria de “receitas para o futuro”.
Todavia, Marx encontrou nas colônias um cenário histórico real, não
idealizado ou fruto de previsões, para esboçar o que ocorreria
quando os trabalhadores se libertassem das contradições do capital.
Ao analisar as colônias, onde o capital começava a se desenvolver,
esse capítulo abriu caminho para a possibilidade do trabalhador
ficar livre da opressão capitalista, mediante sua reconciliação com
os meios de produção. Estes se tornariam proprietários autônomos e
independentes da submissão capitalista, seriam, portanto,
“instrumentos autoconscientes de produção”.
Mas, como a obra de Marx está mergulhada
na história ele também não poderia terminá-la com essas colocações.
Pois, o destino das colônias também foi traçado a ferro e fogo pelas
tendências da sociedade capitalista, pela centralização do capital,
assim, os produtores autônomos foram separados das condições de
trabalho. O capital se encerra reafirmando tudo aquilo que
foi posto pela exposição dialética, ou seja, que a sociedade
burguesa é fundada na exploração do trabalhador. Eis o último
parágrafo da obra:
Entretanto, não nos ocupa aqui a
situação das colônias. O que nos interessa é o segredo
descoberto no Novo Mundo pela Economia Política do Velho Mundo e
proclamado bem alto: o modo capitalista de produção e acumulação
e, portanto, a propriedade privada capitalista exige o
aniquilamento [Vernichtung] da propriedade privada
baseada no trabalho próprio, isto é, a expropriação do
trabalhador. (OC Ib, p. 302, MEW 23, p. 802).
Marx comprova e reafirma o que o
capítulo sobre a acumulação primitiva revelou, ou seja, que o
capital para a sua valorização exige como condição determinante a
divisão da sociedade em classes antagônicas. O capital só pode se
desenvolver sobre uma sociedade na qual os homens estejam divididos
entre possuidores e não-possuidores dos meios de produção. Ao
investigar as colônias, revela-se que em terras onde os
trabalhadores são livres, o capital não pode se reproduzir e se
valorizar, pois sua base reside na propriedade privada dos meios de
produção e na exploração do trabalhador.
Portanto, respondo a pergunta inicial
afirmando que o capítulo XXV, cumpre uma dupla função. Em primeiro
lugar, ele revela que os trabalhadores podem trabalhar e enriquecer
a si próprios e não ao capitalista burguês. Isso ocorre quando os
meios de produção não estão separados dos trabalhadores. Trata-se da
propriedade privada baseada no próprio trabalho, ou seja, trata-se,
de uma analogia ao socialismo. O capítulo XXV tentar demonstrar para
a classe trabalhadora a possibilidade de sua libertação das
correntes da produção capitalista. Em segundo lugar, reafirma que o
modo de produção capitalista onde quer que ele seja edificado, ele
necessita que os trabalhadores estejam alienados aos meios de
produção, ou seja, a propriedade capitalista dos meios de produção,
baseada na extração de mais-valia e a exploração da classe
trabalhadora é condição determinante para que a produção capitalista
se desenvolva.
Referências
BENOIT, Hector. O conceito de
transição ou receitas do futuro. In: Anais do 4º Colóquio
Marx e Engels. Campinas: UNICAMP, 2005.
MARX, Karl. O Capital: Crítica
da economia política. Vol. I, Tomo I. São Paulo: Abril Cultural,
1983.
__________. O Capital: Crítica
da economia política. Vol. I, Tomo II. São, Paulo: Abril
Cultural, 1984.
PAULA, João Antonio de.
Determinismo e indeterminismo em Marx.
In: Revista Brasileira de Economia, nº 02. Rio de
Janeiro, 1994, p. 189 – 202.
WHEEN, Francis. O Capital de Marx:
uma biografia. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
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