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PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil



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Miséria da academia
(uma crítica à academia da miséria)
Paulo Roberto de Almeida
1. Uma descoberta científica
Vamos começar por generalidades
“sociológicas”. O capitalismo é um sistema histórico complexo –
sujeito, portanto, a distintas trajetórias evolutivas – de produção
e de distribuição de mercadorias, guiado, sobretudo, pela força dos
mercados – com alguma ajuda estatal, aqui e ali –, cujos agentes são
dominados pela idéia obsessiva do lucro. Trata-se de um sistema
impessoal – ou seja, não controlado centralmente, pelo menos não no
âmbito de suas manifestações “típico-ideais” – e que adquire
peculiaridades nacionais próprias às manifestações concretas em
diferentes formações sociais. Como sistema impessoal, ele não tem
nenhuma força moral ou ética, a não ser seus próprios valores
materiais, que são os da acumulação de capital, da concentração de
recursos e da acumulação de patrimônio, da multiplicação
praticamente indefinida de oportunidades de ganhos (alguns deles
ilícitos), bastando que os retornos esperados sejam maximizados para
os detentores de sua personificação essencial: o capital.
Nesse processo, ele produz
desigualdades, injustiças, má distribuição de renda, desgaste do
meio ambiente e outros efeitos negativos no plano do bem-estar, uma
vez que sua força motora é a exploração do trabalho humano e dos
recursos naturais. Em sua ascensão material e cultural, ao longo do
processo histórico – que levou, a partir do século XV, à dominação
mundial de nações e territórios em vários continentes pelas
sociedades emergentes da Europa ocidental (e alguns de seus
derivativos na América do Norte e em outras regiões) –, o sistema
capitalista atravessou várias fases, desde o mercantilismo míope que
sucedeu às grandes descobertas, até o imperialismo triunfante dos
séculos XIX e XX, passando por diversos colonialismos escravocratas
no intervalo. Em suas manifestações mais exacerbadas, ele produziu
hecatombes em quantidade “industrial”, devastação de sociedades
inteiras, guerras de conquista e de superposição hegemônica e, até,
algumas catástrofes mundiais. Sua “religião” sempre foi a do
dinheiro e a sua filosofia é a do egoísmo individual.
Voilà! Pronto: acho que está
adequado para começar. Os parágrafos acima correspondem efetivamente
ao que penso a respeito do capitalismo, embora isso não seja tudo o
que eu tenha a dizer sobre ele, obviamente. Mas eles podem, talvez,
servir como uma espécie de introdução ao que tenho a dizer, no
seguimento deste ensaio, sobre o que eu considero ser a atual
“miséria da academia”, para que ninguém depois me venha acusar,
equivocadamente ou de má fé, de fazer a apologia do capitalismo, de
ser um defensor do império ou um promotor do neoliberalismo.
Ideólogos de plantão até tentam: me
acusam de estar a serviço de não se sabe quais forças capitalistas,
de trabalhar em favor do imperialismo, de manter uma inaceitável
inclinação anti-socialista, enfim, de atacar algumas das
fantasmagorias que ainda mobilizam certas mentes emboloradas, numa
exasperação típica dos que não possuem argumentos racionais a
oferecer, apenas teorias conspiratórias, de modo tão risível quanto
patético. Quando impropérios focados em pessoas substituem análises
objetivas de problemas reais é porque faltam evidências e sobram
apenas exasperação e desespero. O mecanicismo capcioso daqueles que,
de forma intolerante, pensam unicamente em termos de classe, revela
posições políticas que só conseguem "explicar" posições adversas
como o resultado exclusivo da condição profissional ou da origem
social, não de uma legítima produção de idéias. Idéias que não
precisam pertencer a algum grupo político particular ou movimento
ideológico específico. Esse tipo de atitude remete diretamente aos
tempos do stalinismo, ou da revolução cultural maoísta, quando a
origem de classe do “acusado” determinava seu destino na máquina de
moer carne do totalitarismo (aliás, se isso fosse verdade, minhas
“origens populares” me colocariam em posição privilegiada em face de
supostos contendores).
Não pertenço a igrejas, clãs, seitas ou
grupos de qualquer espécie, sobretudo de cunho político-sectário,
por vezes encontráveis entre ideólogos da academia. Não possuo
subordinação mental ou material a qualquer ideologia ou grupo de
interesse, a não ser uma adesão voluntária à racionalidade do
pensamento, pura e simples, ao livre-arbítrio, à força do argumento
– e não ao argumento da força –, assim como não me submeto a
qualquer força social ou estatal que signifique coerção indevida de
minha independência de julgamento. Creio que agora deveria ficar
claro; ponto.
2. Metafísica da academia
Dito isto, vamos ao que interessa: à
academia, ou melhor, à sua miséria atual. Caberia registrar, antes
de começar, que a academia brasileira, aos olhos dos cidadãos
brasileiros, passa por ser um centro de saber e de reflexão,
dedicada integralmente à elevação espiritual do conhecimento e ao
progresso material da sociedade brasileira. Aos olhos dos
acadêmicos, a sociedade brasileira deveria aceitar essas profissões
de fé como postulados – ou como axiomas, poderia dizer um acadêmico
– e financiar a academia a fundo perdido, sem outros questionamentos
do que o bom uso do dinheiro público e um ou outro resultado
ocasionalmente. Na qualidade de, em primeiro lugar, cidadão
brasileiro – contribuinte ao fisco, cumpridor de meus deveres
políticos – e de, em segundo lugar, acadêmico, em tempo parcial,
permito-me discordar do argumento, no entendimento de que nem a
academia cumpre com sua suposta função social, nem o comum dos
cidadãos tem idéia, realmente, do que se passa ali dentro.
Ela deveria ser, idealmente, um centro
formador de recursos humanos, fazer pesquisas para levar adiante o
estado da arte nas suas áreas de concentração e praticar extensão,
isto é, cumprir outras funções de consultoria especializada e de
realização de projetos que possam ser úteis a todos aqueles que a
financiam nessas atividades, ou seja, a coletividade, que nada mais
é do que o conjunto dos cidadãos. Digamos que ela cumpre, pelo menos
parcialmente, essas funções e que, de fato, a maioria dos acadêmicos
se devota, com dedicação variada, a essas nobres atividades. Toda
academia faz isto, ou deveria fazer, e a brasileira não deveria ser
exceção.
Existem, contudo, algumas
particularidades, ou peculiaridades, da formação social brasileira
que justificam o texto que estou agora compondo, uma crítica a
certas manifestações da academia, ou melhor, a alguns tipos de
comportamento de certos acadêmicos. Freqüentador que sou de
academias há muito tempo, no Brasil e no exterior, sei do que estou
falando e me sinto inteiramente à vontade para adentrar nesse
terreno pantanoso, quanto dotado de independência de espírito
suficiente para colocar o dedo na ferida de certas mazelas que ali
ocorrem de maneira regular e recorrente. Alerto, desde o início, que
não pretendo referir-me à academia, como um todo, ou ao “acadêmico”
genérico, pesquisador, professor ou simples “dispensador” de
conhecimentos especializados; mas a um tipo particular de acadêmico,
envolvido, como eu, em certas “polêmicas” de natureza política ou
social.
Quero referir-me, em especial, a certos
acadêmicos de ciências humanas, que pretendem deter a “chave do
progresso”, a alavanca do conhecimento histórico, que permitiria a
seus supostos detentores falar em nome da “verdade”, pelo menos das
verdades que eles reputam inquestionáveis. Pessoas, por exemplo, que
são capazes de afirmar que o seu trabalho acadêmico está dirigido à
formulação de um “conteúdo marcadamente político para questionar as
idéias hegemônicas, ou seja, contra os grupos e classes dominantes
locais ou internacionais que se locupletam com todas as formas de
hierarquia social, cultural, política e econômica”. São estas as
pessoas que pretendem deter a posse exclusiva de um espaço
acadêmico, que para elas está definido “como um espaço acadêmico
alternativo de política cultural e debate em favor da resistência
contra-hegemônica e de proposição de uma nova hegemonia que
represente e agregue politicamente as concepções anticapitalistas e
democrático-populares”. Acho que já está bastante claro de que tipo
de pessoa estou falando.
Por isso mesmo, não preciso me estender
em demasia na descrição do tipo particular de acadêmico que tenho em
mente, pois todos aqueles que freqüentam certo espaço acadêmico
– stricto et lato sensi – sabem bem a quem me refiro.
Trata-se do especialista em (ou supostamente devotado às)
humanidades, passavelmente comprometido com valores e princípios
iluministas e que moureja, nas difíceis condições que são as de
quase todos os acadêmicos brasileiros, nas tarefas de docência e
pesquisa com salários irrisórios e baixo reconhecimento público
(como, aliás, todos os professores, de todos os níveis, do setor
público ou privado). Dentro dessa vasta categoria, existe, porém,
uma subespécie específica, que é constituída por aqueles
“trabalhadores do ensino” que se crêem a própria encarnação do
sentido da história (com “h” minúsculo). São os auto-proclamados
“intelectuais orgânicos” (não, não tem nada a ver com os alimentos
da mesma classificação; esta aqui remete a Gramsci, mas isto eu não
preciso explicar, não é mesmo?).
Pois bem, acadêmicos em geral, vocês vão
me dar licença, mas eu não desejo e não pretendo tratar da espécie
como um todo, mas apenas desta categoria específica, cujos
representantes sabem exatamente de quem estou falando. Então, sem
maiores delongas: arregaçar as mangas e aqui vamos nós.
3. Desconhecimento da história?
Todos já ouviram falar, pelo menos
espero, dos Holocaust deniers, isto é, dos militantes
políticos de orientação declaradamente fascista (ou diretamente
nazista), por vezes pessoas de formação “superior” – entre eles
alguns historiadores de sinistra reputação – que recusam não apenas
as evidências documentais e materiais sobre o extermínio dos judeus
(e de ciganos e outras categorias “desprezíveis”), antes e durante a
Segunda Guerra Mundial. Sabe-se, igualmente, que alguns deles
continuam praticando, até hoje, a deformação da história, ou seja, a
negação sistemática de que tais fatos tenham ocorrido. Alguns países
(talvez como forma de preservar a honra daqueles que assim sofreram)
possuem inclusive leis contra os “negacionistas”, o que me parece
uma contradição nos termos, ou seja, manifestamente anti-histórica,
uma vez que argumentos contrários ao fato real do Holocausto
deveriam ser respondidos com a simples exposição dos fatos, não com
julgamentos em justiça. Negacionistas devem ser expostos ao ridículo
de ter suas afirmações negadas pela verdade histórica, não dispor de
um tribunal para convencer os já convencidos (eventualmente, alguns
outros pobres de espírito, também).
Algo semelhante pode estar ocorrendo em
relação à descrição e interpretação da história contemporânea,
segundo o que se pode ler em artigos e ensaios publicados no Brasil
dessa corrente filosófica que pretende revolucionar o mundo. A
interpretação canônica dessa corrente a propósito da emergência e
desenvolvimento da sociedade contemporânea é a de que o século XX
começa com a revolução russa. Aliás, a seqüência completa começa com
a Comuna de Paris, ainda no século XIX, e passa por todas as crises
revolucionárias do século XX, nas quais os trabalhadores e seus
aliados foram derrotados: Alemanha em 1918 e 1923, Espanha em 1937,
França em 1945, Brasil em 1964, Chile em 1973, Portugal em 1975.
Supõe-se, e esta parece ser a intenção e o desejo muito pouco
secreto dos produtores desse cânone, que, em algum momento, os
trabalhadores e seus aliados serão, finalmente, vitoriosos, armados
daquelas mesmas idéias que justificam o cânone ideológico em
questão.
A distorção dos processos históricos
ocorridos no século XX é surpreendente. O século XX – quer tenha
começado, ou não, em 1914, como pretenderia Hobsbawm – conheceu, ao
lado de enormes progressos da tecnologia, de avanços inegáveis nos
processos produtivos – o que fez a produção bruta total ultrapassar
vinte vezes o crescimento da população, superando assim o “fantasma
malthusiano”, que “só” cresceu seis vezes – e de aperfeiçoamento de
processos de democratização social e política, que se disseminaram e
se aprofundaram no seu último terço, terríveis catástrofes e
mortandades; desastres humanos amplos e inimagináveis (pelos padrões
das guerras anteriores); morticínios inexplicáveis no quadro dos
avanços culturais ou “civilizatórios” que tinham transformado certos
países (a Alemanha, por exemplo). A maior parte desses processos
pouco tem a ver com a “freqüência das revoluções populares” como
pretende a historiografia canônica de certos ideólogos. Em suma, o
século XX, que o historiador alemão Karl Dietrich Bracher identifica
como Zeit der Ideologien, justifica inteiramente o seu
enquadramento no rótulo geral de “guerra do mundo”, que o
historiador britânico Niall Ferguson utiliza em uma de suas obras
mais recentes (The War of the World).
Uma recapitulação dos desastres
políticos, fracassos econômicos, terremotos sociais e sofrimentos de
grupos humanos inteiros deveria, necessariamente, incluir os
seguintes episódios: a violação e o esquartejamento da China pelas
potências ocidentais e pelo Japão (aliás desde meados do século XIX,
mas intensificados brutalmente desde a guerra dos Boxers); a
Primeira Guerra Mundial; a revolução bolchevique e a ascensão dos
fascismos; a quebra de 1929, as crises financeiras e bancárias dos
anos 1930, com a depressão generalizada, as reações protecionistas e
dirigistas que se seguiram; as experiências concentracionárias do
totalitarismo soviético e, depois das hecatombes humanas da Segunda
Guerra Mundial, os surtos de fome epidêmica de massa produzidos
pelas loucuras maoístas; os surtos inflacionários no imediato
seguimento desses desastres econômicos; aumentos nos preços do
petróleo, com a elevação das taxas de juros e do desemprego nas
economias avançadas; a crise final e a implosão dos regimes de
planejamento centralizado – com poucas exceções ainda “socialistas”
– e todo o cortejo de redução dos padrões de vida nos países que
fracassaram na transição ao capitalismo; a nova “peste negra” da
Aids na África e em alguns outros continentes; finalmente, os
excessos de endividamento e de irresponsabilidade fiscal em vários
países em desenvolvimento, com as crises econômicas por vezes
devastadoras por eles provocados.
Uma interpretação simplista, ou
“determinista”, da história, como pretende o cânone ideológico,
colocaria todos os desastres enunciados na conta do capitalismo, do
colonialismo, do imperialismo e do fascismo. Mais, o cânone
insistiria em que, atualmente, “o capitalismo assume uma feição
ainda mais sinistra do que no passado”, como leio, também, no mesmo
livro no qual busquei o trecho acima transcrito. Não há sequer a
tentativa de operar uma contabilidade comparativa com os dados
efetivos que resultam dos desastres acumulados ao longo do século –
humanos e materiais – pelos regimes que pertenceram e pertencem ao
próprio cânone, que respondem, aliás, pelo próprio conceito assumido
de forma irrestrita.
Como é possível operar tal manipulação
histórica levando-se em conta todas as evidências já acumuladas
pelos pesquisadores ao longo dos anos? Em termos de perdas humanas,
a soma total das catástrofes é incalculável, ainda que ela se cifre
em dezenas de milhões de mortos. Não é preciso recorrer ao Livro
Negro do Comunismo (dirigido por Stéphane Courtois) ou a várias
contabilidades nacionais conduzidas em pesquisas sérias (de
historiadores como Robert Conquest) para atualizar a conta, pois ela
será sempre parcial e incompleta. Existe a tendência, em certos
círculos, a simplesmente recusar a contabilidade macabra dessa obra,
por certo politicamente motivada (o que não impede que seus autores
tenham trabalhado com base em estatísticas aferíveis por meio de
arquivos e de censos demográficos oficiais). O imperialismo e o
colonialismo dos países do Ocidente (e do Japão) provocaram, sim,
milhões de mortos nos países tocados pelos fenômenos, assim como
fomes epidêmicas, moléstias endêmicas, surtos virulentos – como a
gripe espanhola – se encarregaram de completar esse quadro macabro
de mortandades em volumes amazônicos.
A maior parte dos mortos, porém, pereceu
em cataclismos auto-produzidos, e eles foram basicamente o
resultados dos dois sistemas totalitários do século XX: os fascismos
(em suas diversas modalidades) e o comunismo de tipo leninista,
fabricado originalmente na Rússia bolchevique, depois exportado para
outros países. O balanço das perdas humanas é provavelmente
estarrecedor, com base numa vasta gama de trabalhos acumulados e que
me dispenso de citar pelo volume da literatura produzida a esse
respeito. Mortes provocadas por enfrentamentos bélicos, bombardeios
aéreos e toda a gama de side-effects de operações militares
são plenamente compreensíveis na lógica das guerras totais que
devastaram toda a Europa e grande parte da Ásia na “segunda guerra
de Trinta Anos” a que o mundo assistiu entre 1914 e 1945. Menos
compreensíveis são as mortes provocadas pela repressão direta de “kulaks”,
“inimigos do povo”, “raças inferiores” e toda sorte de elementos
indesejáveis do ponto de vista da lógica totalitária. Mais ainda
estarrecedor é o imenso “gap” demográfico produzido pelo “grande
salto para trás” no sucessor do antigo Império do Meio, para nada
dizer dos retrocessos econômicos registrados numa pequena ilha do
Caribe e num canto isolado da Ásia oriental.
Os poucos casos remanescentes
(felizmente) de totalitarismos desse tipo – ainda existente em
cantos recuados do planeta, tanto na sua forma leninista como em
suas versões fascistas, às quais se agregou agora o terrorismo
fundamentalista de extração islâmica radical – continuam
(infelizmente) a provocar mortes “inúteis”, quase que por inércia,
diríamos. O fato é que, a despeito de surtos ocasionais em teatros
localizados (Balcãs, Oriente Médio), o mundo parece estar prestes a
superar o seu século de horrores. Certamente, isto não se deve a que
ele está próximo de superar a “barbárie capitalista”, como
pretenderiam os autores selecionados para transcrição. Como eles
próprios reconhecem, o “neoliberalismo” avançou de modo “triunfal” e
só um espírito malévolo conseguiria debitar os mortos da Aids e das
guerras civis na África, do terrorismo islâmico no Oriente Médio (e
alhures) e os mortos de fome na Coréia do Norte na conta do
“capitalismo conquistador”.
Em face dessas evidências, fica difícil
concordar com esses autores em que a burguesia e o capitalismo
tenham sido responsáveis por todos os desastres conhecidos num
século XX muito longo em termos de matanças politicamente
administradas, de gulags e campos de “reeducação”. Gostaria de
atribuir esse tipo de interpretação a um simples desconhecimento da
história, pois do contrário serei obrigado a acusar esses autores de
desonestidade intelectual deliberada.
Será que é o caso? Mesmo na academia,
que deveria se pautar pelo rigor da pesquisa? Não gostaria de
concluir esta seção dizendo que os atuais militantes da causa
verdadeira, os últimos crentes de uma missão “redentora” que tem
cada vez menos adeptos ao redor do mundo, constituem uma espécie de
“negacionistas” do totalitarismo, Gulag deniers de um novo
tipo, cegos voluntários que se comprazem na escuridão do
desconhecimento da história.
Quero crer que o cânone ideológico
embotou de tal forma o “cérebro” desses representantes do novo
denial que eles sequer percebem que já eram anacrônicos há
várias décadas (mesmo sabendo que no Brasil as modas políticas são
relativamente tardias em se implantarem, e mais tardias ainda a se
desfazerem). A negação também se processa de maneira disfarçada,
como tentativa de não atribuir muita importância a “desvios” de
personalidades “equivocadas”: ou se silencia ou se minimizam os
fatos.
Uma conclusão deste tipo me levaria a
constatar que acadêmicos que deveriam ser responsáveis, certamente
não estão honrando as tradições de pesquisa honesta e de busca
responsável pelos fatos históricos que devem, supostamente, pautar
os ásperos caminhos da ciência em direção de seus cimos luminosos,
como diria alguém da tribo.
4. Ignorância econômica?
Independentemente, porém, de todo o
cortejo de cadáveres e dos sofrimentos imensos acarretados por
idéias liberticidas, desastres ainda mais incomensuráveis se
escondem no terreno econômico, onde o produto mais típico das idéias
equivocadas se situa, simplesmente, numa grande perda de
oportunidades de se lograr crescimento econômico, de se obter bem
estar e riqueza para largas massas de deserdados da sorte nos mais
diversos cantos do globo. Nesse capítulo, o século XX não perdeu
nenhuma oportunidade de perder oportunidades. O debate é conhecido e
ele pode ser resumido na clássica dicotomia: planejamento
centralizado ou liberdade de mercados.
Obviamente que esse grau de oposição
econômica entre uma administração absolutamente centralizada e a
total liberdade de mercados não se realizou, ou pelo menos não se
encontra mais, em nenhuma sociedade observável, ainda que alguns
insistam na perpetuação dos equívocos. A Coréia do Norte, por
exemplo, é um museu vivo de todos os experimentos fracassados do
planejamento centralizado no seu mais alto grau, um retrato perfeito
do como poderia trabalhar o Gosplan na época áurea do stalinismo.
Ninguém poderá dizer, nem mesmo o PCdoB, que a Coréia do Norte é um
modelo aceitável de sociedade de consumo, assim como não parece ser
o caso (mais conhecido, certamente, dos camaradas) da Cuba de Fidel.
Tanto não é assim que essa ilha é o penúltimo exemplo conhecido de
transição do socialismo ao capitalismo que se pode observar na
economia contemporânea. Parodiando o clássico tango, se pode dizer a
respeito do socialismo cubano: “Una sombra pronto serás...”
A trajetória individual dos países
integrando a economia mundial é, por certo, muito diversa, segundo
as modalidades de sistemas produtivos por eles “escolhidos”. Parece
claro que nenhum povo “escolhe” o capitalismo, por vontade própria
ou por indução de algum propagandista genial, numa assembléia de
cidadãos. A verdade, para ser mais concreto, é a seguinte: o
capitalismo não foi “inventado”, nem nunca foi sistematizado por
nenhum cérebro humano, por mais genial que este fosse. Ele é o
resultado de um processo impessoal, secular, quase que natural, de
articulação das relações humanas e sociais, de formalização gradual
das interações materiais (e até imateriais) entre pessoas e grupos,
ou seja, das forças produtivas e das relações de produção, como
diriam alguns aprendizes atentos.
O fato é que o sistema de mercado
conhecido como capitalismo – na verdade, esse substantivo é um
superlativo conceitual que possui uma enorme capacidade de
aprisionar o debate em virtude da força literária de seu crítico
mais genial – surge sem nenhum comando, sem direção e sem qualquer
centro, ao longo de um lento processo de construção de instituições
sociais que tomam forma a partir de elementos os mais diversos,
entre os quais poderíamos incluir: as idéias de liberdade dos
gregos, as noções de propriedade individual e de respeito aos
contratos, como formalizadas no direito romano, o próprio conceito
de cidadão (essencialmente romano, também), enfim, um conjunto de
constructos sociais que foram tomando forma, pela primeira vez,
na Europa ocidental em plena Idade Média (creio que posso dispensar,
aqui, a necessidade de citar as obras mais conhecidas do sociólogo
alemão Max Weber, aliás um grande leitor de Marx).
Nesse sentido, o “velho” capitalismo é
diferente de qualquer outro sistema ou regime inventado pela mão ou
cérebro humano. Aliás, falar em “capitalismo” é quase tão errado
quanto falar de um único socialismo, com o que concordariam os
detratores mais ferozes do primeiro sistema e os defensores mais
entusiasmados do segundo. Na verdade, existem tantos capitalismos
quanto são diversas as modalidades de interação social; a maior
parte delas mediadas pelo Estado, que em alguns casos age de forma
condizente com princípios de liberdade dos mercados (como na
Inglaterra, digamos), enquanto em outros casos ele atua de maneira
mais limitativa a essa liberdade (como na França, talvez, ou, por
exemplo, no Brasil).
Os outros sistemas sociais (e eles
merecem, mais ainda que o capitalismo, esse conceito de sistema) é
que foram criados, inventados, desenhados pelos homens, alguns
espíritos geniais e generosos, talvez, em todo caso, candidatos a
engenheiros sociais que pretendiam consertar, melhorar, tornar mais
“justa” a sociedade. São esses sistemas, todos mais ou menos
limitativos da liberdade de empreender, todos eles procurando
canalizar o mercado e as “paixões” dos homens, que são, na verdade,
anti-mercado, antes até de serem anti-capitalistas. Já tratei
suficientemente bem, em outros escritos, desses equívocos de
percepção entre capitalismo e mercado para aprofundar neste momento
a análise neste particular (ver meu artigo
“A cultura da esquerda – Sete pecados dialéticos que atrapalham seu
desenvolvimento”, Espaço Acadêmico, n. 47, abril de 2005).
Pois bem, a despeito do grau de
simplificação envolvido nesse tipo de análise superficial, a
distinção básica que existe, tanto na teoria, quanto na economia
prática, remete, obviamente, à dicotomia básica entre os sistemas
predominantemente guiados pelas forças do mercado e as economias
dotadas de algum tipo de gestão estatal. Estas podem significar
níveis variáveis de estatização (ou de “coletivização”) e, até
mesmo, o planejamento centralizado ao estilo soviético (que já não
existe em lugar nenhum, a não ser na cabeça de alguns acadêmicos
embalsamados).
Qualquer acadêmico honesto, que
contemple o mundo realmente existente, poderá constatar o desempenho
relativo – traduzido em renda, bem estar, esperança de vida,
disponibilidade de bens materiais e intangíveis – dos sistemas
funcionando nesse mesmo mundo e que produziram os resultados
visíveis em termos de bens, serviços, realizações espirituais e
ofertas materiais. Não é preciso ser economista para constatar como
funcionam, ou não, os diversos modos de se organizar socialmente a
produção e a distribuição de bens. Seria ocioso citar aqui alguns
números.
Tampouco seria preciso esperar muito
tempo (digamos, oitenta anos) para constatar como não funcionou o
regime produtivo que prometia libertar a humanidade da “anarquia” da
produção capitalista, da exploração do homem pelo homem, enfim, das
crises recorrentes de superprodução – aliás, mais interessantes do
que a situação constante de penúria visivelmente criada pelos
planejadores do Gosplan – e da destruição dos laços sociais pela
constante acumulação de riqueza, de um lado, e pelo crescimento da
miséria, de outro. Teria sido possível poupar perdas econômicas e
muita penúria se os engenheiros sociais tivessem lido, desde 1920,
um pequeno panfleto que demonstrava, cabalmente, que o sistema
soviético não poderia funcionar.
Pois foi em 1920 que Ludwig Von Mises,
um jovem economista da Áustria, publicou um pequeno trabalho cujo
título já era uma contradição nos termos:
O cálculo econômico na comunidade socialista. Na verdade, a
obra deixa totalmente claro que esse cálculo era impossível, pela
simples razão que a ausência de um sistema de preços, atribuindo
valores diferenciados a bens segundo a sua escassez relativa,
tornava impossível uma organização racional (para não dizer
eficiente) da produção e da distribuição. Não creio que seja preciso
ir mais adiante em matéria de doutrina e de prática econômica do que
esse simples panfleto que passou quase que inteiramente despercebido
de tantas vocações generosas, ocupadas em “melhor” organizar
sistemas “perfeitos” de produção e distribuição.
Fazendo agora um grande salto, de 1920
aos nossos tempos de globalização, não parecem existir organizações
ou idéias tão generosamente equivocadas quanto as que se abrigam no
chamado movimento dito “altermundialista”, mais vulgarmente
conhecido como antiglobalizador. Todas, literalmente todas, as
propostas avançadas pelos promotores desse movimento para combater a
globalização capitalista e propor um mundo mais solidário, mais
humano e mais justo, são rigorosamente irracionais e suscetíveis de
criar mais miséria, mais pobreza, mais injustiça no mundo do que os
problemas atualmente existentes no regime de “capitalismo
assimétrico”. Tampouco pretendo voltar a demonstrar todos os
equívocos e inconsistências do movimento antiglobalizador, já
amplamente discutidos em textos anteriores (ver, entre outros:
“A globalização e seus descontentes: um roteiro sintético dos
equívocos”, Espaço Acadêmico, n. 61, junho de 2006;
“Ocaso de uma utopia?: objetivos nobres e vacuidade de idéias no
Fórum Social Mundial”, Espaço Acadêmico, n. 69, fevereiro de
2007).
Em conclusão, a única constatação
possível de ser feita quando se está em face de uma repetição de
tantas propostas fracassadas no terreno econômico, já testadas nos
laboratórios da história e reconhecidamente incapazes de criar
empregos, renda e bem estar, mas que insistem em ocupar espaço nas
agendas de “reforma social”, é que seus propositores são tão
ignorantes em matéria econômica quanto são inocentes ou ingênuos na
leitura de lições história. Aliás, já tínhamos visto que o
conhecimento da história não é exatamente uma virtude cultivada em
certos meios acadêmicos.
5. Auto-engano deliberado
Acadêmicos do tipo que venho aqui
analisando aqui se consideram uma espécie de resistentes ao que eles
chamam de “pensamento único”, militantes de uma causa que pretende
questionar as idéias hegemônicas, ou seja, os grupos e classes
dominantes, locais ou internacionais, que se locupletam com todas as
formas de hierarquia social, cultural, política e econômica. Eles
até acreditam que vêm lutando por um espaço acadêmico alternativo de
política cultural e de debate em favor da resistência
contra-hegemônica e de proposta de uma nova hegemonia que representa
politicamente as concepções anticapitalistas e
democrático-populares.
Dito assim, parece que eles vivem
acuados em redutos acadêmicos, cercados por uma horda de bárbaros
capitalistas que procuram esterilizá-los em sua vocação de
propagandistas de um novo evangelho da libertação social. Creio que
essa imagem é profundamente falsa, pelas mesmas razões que já
serviram de argumentos ao autor da Ideologia Alemã. Esses
argumentos se referem ao poder das idéias.
Não pretendo parafrasear ninguém, mas
lembro-me de ter lido em algum lugar, cuja referência exata não
preciso citar para acadêmicos tão versados na palavra sagrada, que
as idéias da classe dominante são as idéias dominantes. Ou seja, as
idéias de uma determinada elite, em certas instituições específicas,
determinam, quase que mecanicamente segundo alguns, como irão pensar
ou se comportar tais instituições. Não creio estar errado ao
interpretar assim as idéias de um profeta apreciado.
Se bem me lembro, o autor da frase em
questão imaginava que, pouco a pouco, as idéias não dominantes iriam
ganhar espaço no seu próprio meio, no resto da sociedade, no
conjunto das instituições sociais, pela própria forca do seu número,
do valor das suas idéias, da verdade de suas propostas e da justeza
de sua emergência enquanto classe social. Isto também se ajusta ao
que disse, anos mais tarde, um conhecido seguidor italiano, que se
referia a idéias contra-hegemônicas, que pouco a pouco ganham força
na sociedade (ou talvez na academia) e acabam deslocando velhas
idéias que já não mais se ajustam aos requerimentos da sociedade.
Pois bem: isto vem totalmente a calhar
no que se refere às idéias dominantes das “elites” da academia.
Todos sabem quais são essas idéias e sabem que elas são
absolutamente dominantes em certos departamentos e institutos de
“pesquisa”. Como determinados grupos, e determinadas elites,
conformam o que se poderia chamar de grupo dominante, é notório que
os acadêmicos aos quais me estou referindo tendem a moldar o
pensamento nessas instâncias, a ponto de constituir uma verdadeira
ditadura ideológica. Acredito que este seja exatamente o caso de
algumas igrejas, ou seitas, em situação de poder em certas
academias, atualmente.
Trata-se, portanto, de um grande
equívoco imaginar que os acadêmicos aqui referidos estejam
conduzindo um combate de resistência contra um inimigo poderoso –
que seria o capitalismo globalizado e suas forças nacionais – e que
o seu trabalho didático se dá em condições de desigualdade material
e ideológica. Creio que se trata exatamente do contrário: eles já
estão no poder, pelo menos em seus pequenos grupos, e podem
continuar a disseminar tranquilamente suas idéias emboloradas,
inclusive porque a platéia é passiva e complacente com mestres tão
devotados às suas causas.
Se os próprios acadêmicos acreditam no
conto da carochinha de que estão combatendo “idéias hegemônicas”,
trata-se de um auto-engano deliberado: as idéias hegemônicas já são
as deles, pelo menos nas academias de que estou tratando. É um fato
notório (aliás, é um argumento usado por muitos acadêmicos), que o
Brasil é um país de desenvolvimento tardio igualmente no terreno das
idéias, que aparentemente estariam aqui “fora do lugar”. Eu também
acho, e creio que isso se aplica mais do tudo ao próprio campo das
idéias defendidas por certos acadêmicos, quaisquer que sejam elas.
Como tudo aqui é tardio, demorará um pouco mais para que esses
acadêmicos atrasados se coloquem no compasso do mundo, antes de tudo
se abrir às realidades que nos vêem com a globalização, às obras de
pesquisa histórica não determinista, às doutrinas econômicas um
pouco menos canhestras que a teoria da mais-valia, enfim, a tudo
aquilo que representa progresso mental e abertura de pensamento.
A miséria atual da academia não é uma
fatalidade que vai corroer eternamente nossas universidades públicas
(e privadas, também). Pouco a pouco, alunos espertos e mentes
inteligentes, que conhecem pela internet o que vai pelo mundo, vão
começar a achar estranhos esses mestres que falam de um mundo que
não existe, de teorias que não encontram aplicação no mundo real, de
misérias que só existem na cabeça de uns poucos espíritos deslocados
por leituras equivocadas e doutrinas ultrapassadas. Talvez demore um
pouco mais, já que o Brasil é um “capitalismo tardio”, cheio de
problemas e contradições de classe, que se bate ainda contra o
imperialismo opressor e os velhos inimigos do povo, que são os
latifundiários – hoje reciclados no agronegócio – e seus aliados da
burguesia industrial. Esses acadêmicos de mente estreita acreditam
que voltamos aos canaviais do século XVI, apenas que ligados agora à
bolsa de Chicago: seríamos modernos, mas “periféricos”.
Eles não conseguem pensar fora dos
quadros mentais nos quais se formaram, nos mesmos textos acadêmicos
que lêem incansavelmente há décadas e que se movem no mesmo espaço
circular de suas verdades reveladas. Eles são acadêmicos alienados
(como diríamos nos anos 1960): eles não conseguem explicar o mundo,
ou sequer entendê-lo; possuem uma ignorância abismal em matéria
econômica e um enorme preconceito contra os mercados; buscam refúgio
em teorias ultrapassadas; aderem ao escapismo da realidade; possuem
forte autismo político, alimentam uma esquizofrenia geopolítica
típica dos tempos da Guerra Fria e praticam o tribalismo ideológico,
ou seja, só convivem com quem ostenta as mesmas idéias que eles;
praticam uma leitura equivocada dos dados da realidade econômica e
se comprazem no auto-engano quanto às forças sociais relevantes que
irão “libertar” o Brasil de séculos de atraso.
Talvez demore um pouco, de fato, mas a
miséria acadêmica um dia vem abaixo, e com ela o castelo de cartas
que acadêmicos alienados insistem em construir nos seus redutos
exclusivos e excludentes. Parafraseando Mário de Andrade: a gente
acaba progredindo, que o progresso também é uma fatalidade...
Nota final: Este ensaio não
deveria existir; aliás, eu não tinha sequer a intenção de
escrevê-lo, assim como o artigo imediatamente anterior,
“Manifesto Comunista, ou quase...” (Espaço Acadêmico, n.
85, junho de 2008), que por sua vez comentava, sem menções pessoais,
ataques surpreendentemente raivosos após a publicação de uma resenha
minha:
“Marxistas totalmente contornáveis” (Espaço Acadêmico, n.
84, maio de 2008). Descarto querelas pessoais; sequer pretendo
responder aos que me têm atacado de maneira tão vulgar quanto
risível: aqueles que assim procedem, provavelmente não conseguem
discutir sequer o mérito de meus argumentos; apenas chamam à
censura, à lapidação pública, à exclusão deste veículo que, por
princípio, está totalmente aberto à liberdade de opinião. O que
posso fazer é persistir na mesma postura aqui seguida desde 2001:
conduzir um debate de idéias. Adoto este procedimento igualmente
neste momento, através de uma digressão que tem a ver apenas com
questões de princípios. |
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