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PAULO MEKSENAS
Sociólogo e Doutor em
Educação. Pesquisa as temáticas que envolvem a Cidadania de
Classe Social; a Relação Estado e Sociedade Civil e temas
correlatos à Modernidade no Brasil. Atualmente é professor
adjunto IV do Centro de Educação da Universidade Federal de
Santa Catarina, lecionando na Graduação em Pedagogia

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Introdução ao
conceito de propriedade nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos
de Marx
Paulo Meksenas
Este
artigo procura refletir brevemente sobre dois temas, buscando
estabelecer uma correlação entre eles. Em primeiro lugar trata-se de
perceber o marxismo como uma tradição
integrante das mais diversas experiências históricas, vividas no
cenário mundial do século XX e deste que se inicia. A seguir, a
intenção é buscar o significado do conceito de propriedade no
Terceiro Manuscritos Econômicos e Filosóficos de Karl Marx, escrito
em 1844. Abordar estes dois temas permitirá defender uma questão: a
necessidade de debater o significado do conceito de propriedade
privada em confronto com o seu correlato, o de propriedade coletiva.
A discussão proposta é importante na
medida em que vivemos um momento em que se destaca a ideologia que
prega o triunfo das relações mercado (triunfante entre proprietários
reais ou a eles afiliado, portanto) em detrimento das relações
sociais. O que se revela com essa ideologia ufanista das relações de
mercado é o esforço do pensamento conservador em apagar da memória
social e histórica as experiências que se fizeram no questionamento
das interações mediadas pela propriedade.
Segundo Eric Hobsbawm, “o marxismo teve
grande influência política desde as margens do Oceano Ártico até a
Patagônia, e desde a China – passando pelo Ocidente – até o Peru. Os
pensadores marxistas emitiram opiniões sobre a matemática, a pintura
ou as relações sexuais, para não falar nas intervenções do poder
administrativo e estatal em tais campos” (1979:12). Basta lembrarmos
da Guernica na Guerra Civil Espanhola e lembrarmos também da
Guernica de Picasso. Para além dos marxistas, temos Jean Piaget a
reconhecer que, “a concepção essencialmente concreta que Karl Marx
fornece do problema das ideologias e da lógica enquadra
singularmente melhor com os dados atuais da psicologia” (1973: 87).
Ainda, Paulo Freire já advertia na Tanzânia em 1971 que: “(...) se o
objetivo é a criação de uma sociedade socialista, a pesquisa aqui
requer métodos participantes” (1983:37). Um notório intelectual
conservador, Raymond Aron disse na sua obra “A Luta
de Classes”, de 1964, que “o marxismo é por essência uma
dialéctica segundo a qual milagrosamente, necessidade e valor,
ciência e acção, estão de acordo” (1964: 189). E o filósofo
cristão Roger Garaudy escreveu sobre a possivel e polêmica relação
entre Cristianismo e Marxismo; assim como o sacerdote Camilo Torres
escreveu sobre Cristianismo e Revolução. Ainda, deve-se lembrar de
Albert Eistein e o artigo “Por que o socialismo?” e publicado em
1949, hoje acessado em
http://www.monthlyreview.org/598einst.htm
E Sartre? Além de militar na Resistência Francesa contra
o Nazismo, publicou em 1960, uma importante Crítica da Razão
Dialética em que dialoga com o marxismo. Vemos nesses poucos
exemplos como o marxismo influenciou os mais diversificados círculos
acadêmicos e sociais.
Repetindo,
essas poucas citações estão além das fronteiras do marxismo,
afirmadas por cientistas e humanistas reconhecidos mundialmente.
Todas as citações do parágrafo anterior atestam para a existência do
marxismo como tradição. Assim como a filosofia grega nos remete a
idéia de tradição ocidental,
podemos dizer que o marxismo nos remete a idéia de tradição de
classe que se faz presente nas Insurreições Populares; nos
Movimentos Sociais; nas Universidades; Centros de Pesquisa, Centros
de Cultura e Informação; Práticas de Vida; Política e Cultura.
Ignorar o marxismo hoje soa tão ridículo como ignorar a filosofia
renascentista. Há produções sociais que não podem ser negadas, que
atravessam o tempo e nos fazem humanos, com seus limites e suas
possibilidades; a tradição de classe do marxismo é uma delas.
Feitas essas
colocações iniciais e que buscam delinear o cenário da existência da
tradição (e tradição também de classe) do marxismo, há que discutir
um tópico importante que essa tradição deixa evidenciado, e que no
campo acadêmico está em aberto, que diz respeito às relações de
proximidade que se estabelecem entre os conceitos de propriedade
privada e de propriedade coletiva.
O conceito de propriedade privada é entendido por
Marx dentro de dupla determinação:
1)
a essência
subjetiva e 2)
a essência objetiva. Quando admitimos uma essência subjetiva
percebemos que a propriedade privada tem um início, uma força
criadora e que se manifesta no sujeito-em-atividade produzindo-a, o
trabalho. O autor em questão afirma:
A essência subjetiva da propriedade privada, a
propriedade privada como atividade para si, como sujeito, como
pessoa, é o trabalho. Compreende-se, pois, que somente a
economia política que reconheceu o trabalho como seu princípio –
Adam Smith – e, portanto não mais reconhece a propriedade
privada como um estado exterior ao homem (1991: 163).
O reconhecimento do estado exterior da propriedade
privada é a sua objetividade como propriedade ou como produto de
posse; o objeto possuído. Daí que, o trabalho é o em si da
propriedade privada e esta, o por si. Marx admitiu, ainda,
que a descoberta da essência subjetiva da propriedade privada [o
trabalho], em época que se reconhecia apenas a sua existência
objetiva [o produto], coube a Adam Smith. Por isso ao criticar a
economia política clássica, reconhece a superioridade desta sobre a
fisiocracia, sobretudo, a de Quesnay. Os fisiocratas atinham-se
apenas à dimensão objetiva da propriedade privada, reconhecendo o
produto e não a atividade que gera o produto. Para Quesnay, só há
progresso quando há excedente econômico, que possibilita a troca;
que funda o comércio; a indústria, e torna a sociedade complexa
possível. A atividade que, por excelência, produz excedente é a
agrícola e sob a forma da renda da terra. A tal perspectiva,
Marx, diz:
A doutrina fisiocrata do Dr. Quesnay representa a
passagem do mercantilismo a Adam Smith. A fisiocracia é,
diretamente, a dissolução econômico-política da propriedade
feudal, mas por isso, de maneira igualmente direta, a
transformação econômico-política, a reposição mesma, com a
ressalva de que sua linguagem já não é feudal, mas econômica
(1991: 164).
Assim, a teoria econômica burguesa é um avanço frente
às posições dos fisiocratas. Por outro lado, em que ponto Marx
percebeu os limites da primeira? No fato de não questionar o
significado histórico que o trabalho assume sob a produção do
capital. O autor destacado o indica:
Mas o trabalho, a essência subjetiva da
propriedade privada como exclusão da propriedade, e o capital,
trabalho objetivo como exclusão do trabalho, é a propriedade
privada como relação desenvolvida da contradição e por isso uma
relação enérgica que tende para a sua resolução (Marx 1991:
166).
Em outras palavras, a sociedade burguesa instituiu
historicamente a separação entre quem realiza o trabalho e quem
domina a produção deste trabalho; cindiu a essência subjetiva da
propriedade privada [o trabalhador] da sua essência objetiva [o
produto, que pertence ao burguês]. Por isso, Marx conclui, “a
essência subjetiva da propriedade privada [o trabalhador] aparece
como exclusão da propriedade [o produto que pertence ao burguês]. E,
o capital, como trabalho objetivo [o produto que pertence ao
burguês] como exclusão do trabalho [o trabalhador sem propriedade]”
(Marx 1991: 166).
A seguir, encontramos no
Terceiro Manuscrito Econômico-filosófico
a crítica aos comunistas porque não superarem a noção de propriedade
burguesa. Para designar esses adversários teóricos e políticos, Marx
cunhou a expressão ‘comunistas grosseiros’. O comunismo grosseiro
não supõe a superação positiva da propriedade privada. Na verdade
ele mantém a proposição positiva da propriedade privada, pois ao
defender a generalização da propriedade privada na forma de
propriedade coletiva, nada mais supôs que a continuidade da posse
sob outra roupagem.
A posse física imediata vale para ele [o
comunista grosseiro] como finalidade única da vida e do modo de
existência: a determinação do trabalhador não é superada, mas
estendida a todos os homens; a relação da propriedade privada
continua ainda a relação da coletividade com o mundo das coisas;
finalmente, pronuncia-se este movimento por uma oposição da
propriedade privada à propriedade geral, e de uma forma animal,
opondo o matrimônio (que ademais é uma forma da propriedade
privada exclusiva) à comunidade das mulheres, em que a mulher [a
propriedade] se converte em propriedade coletiva e comum (Marx,
1991: 166 e 167).
Em outros termos, a crítica ao comunismo grosseiro é
fundamentada por Marx pela noção da qual o indivíduo/a pessoa não se
realiza no momento em que toma posse da propriedade privada tornada
coletiva. Não basta isso para atingir a sociedade comunista, pois,
nesse caso, o indivíduo continua a expressar-se determinado pela
propriedade – e aqui entra a imagem/metáfora do matrimônio burguês e
a comunidade de mulheres, em que esta última não difere da primeira
ou, é até mais primitiva
O indivíduo supera a propriedade privada quando o que está em jogo
não é mais a propriedade, mas o seu EU que para tornar-se um EU
precisa do OUTRO e para tal a noção de propriedade desaparece porque
perde o seu sentido histórico de existência. Dai defender a abolição
da propriedade como meio de ascensão ao comunismo.
Com o fim da propriedade, seja ela privada ou
coletiva, pode nascer o homem social. Uma pessoa não é social apenas
no coletivo, é social quando é individual e, além disso, se
reconhece na existência do outro. Encontra, agora, no coletivo a
sua referência. Social é, assim e a um só tempo, o individual e o
coletivo. Os liberais ficaram presos no primeiro pólo desses termos
definidos apenas como opostos; os comunistas grosseiros ficaram com
o segundo e somente Marx concebeu a contradição presente em ambos. É
o que Marx quer dizer quando afirma: “assim como é a própria
sociedade que produz o homem enquanto homem, assim também ela é
produzida por ele” (1991:169).
Nesse contexto é que vai a sua crítica não só ao
liberalismo como também ao comunismo grosseiro, porque o comunismo
proposto por Marx não anula a individualidade e acusa “(...) Este
comunismo, ao negar por completo a personalidade do homem, é
justamente a expressão conseqüente da propriedade privada, que é
esta negação (...) [O comunismo grosseiro cria o] homem pobre, bruto
e sem necessidades, que não só não superou a propriedade privada,
como também nem sequer chegou a ela” (1991:167).
N’ O Capital, Marx aprofunda essa definição na
critica que faz ao conceito de mercadoria e que, sob a realização do
capital, reduz as relações humanas a meras relações entre
propriedades, ou melhor, entre coisas. Diz,
(...) como os produtores somente entram em
contato social mediante a troca de seus produtos de trabalho [a
propriedade], as características especificamente sociais de seus
trabalhos privados só aparecem dentro desta troca. Em outras
palavras, os trabalhos privados só atuam, de fato, como membros
do trabalho social total por meio das relações que a troca
estabelece entre os produtos do trabalho e, por meio dos mesmos,
entre produtores. Por isso, aos últimos aparecem as relações
sociais entre seus trabalhos privados como o que são, isto é,
não como as relações diretamente sociais entre pessoas em seus
próprios trabalhos, senão como relações reificadas entre as
pessoas e relações sociais entre as coisas (1983:71).
Essa citação nos faz concluir que a propriedade
privada nos torna tão limitados ao ponto de nos relacionarmos uns
com os outros como estivéssemos nos relacionando com meros
objetos/coisas/propriedades. A mulher, enquanto uma pessoa na sua
totalidade, no auge do processo reificador, se reduz a apenas uma
parte do seu corpo; uma filha, por sua vez, torna-se uma coisa que
pode ser arremessada pela janela; uma esposa é vista como algo em
posse do seu marido e assim por diante. É isso o que a propriedade
instaura, seja ela privada ou coletiva. Marx já o denunciava em 1844
e em 1867. Comunismo significa então, abolição de toda e qualquer
forma de propriedade como o passo histórico para resgatar a
humanidade do ser humano.
Textos citados
ARON,
Raymond. Novos temas de sociologia contemporânea: a luta de
classes. Lisboa: Editorial Presença, 1964.
BONNARD, André - Civilização
Grega. Vol I, "Da Ilíada ao Partenon. Lisboa: Estúdios Cor,
1972.
FREIRE, Paulo. Criando métodos de
pesquisa alternativa. In: In: BRADÃO, C. R. (org.) Pesquisa
Participante, 3ª edição. São Paulo: Brasiliense, 1983.
Gramsci, Antonio. Escritos
Políticos. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira,
2004.
HOBSBAWM,
Eric. Prefácio. In: HOBSBAWM, Eric (org).
História do Marxismo.
Volume 1: O Marxismo no tempo de Marx. São Paulo: Paz e Terra, 1979.
MARX, Karl. Manuscritos
econômico-filosóficos. In: MARX, K. Manuscritos
econômico-filosóficos e outros textos escolhidos. 5ª Edição. São
Paulo: Nova Cultural, coleção Os Pensadores, 1991.
MARX, Karl. O Capital. Livro I, vol.
01. São Paulo: Abril Cultural, Série Os Economistas, 1983.
PIAGET, Jean. Estudos Sociológicos.
Rio de Janeiro: Companhia Editora Forense, 1973.
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