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ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente
na Universidade Estadual de Maringá (UEM), Doutor
em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)
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Marxismo(s) no plural
Antonio Ozaí da Silva
Não
é de hoje que a esquerda se divide em várias facções, tendências,
ideologias, estratégias e táticas políticas. A rigor é um equívoco
referir-se a “a esquerda” no singular, pois não existe uma única
esquerda, mas várias, no plural. Por outro lado, o conceito também
não pode ser tomado de uma maneira estática e permanente. As forças
políticas não existem em abstrato, enquanto ideologias suspensas no
ar, mas interagem com os contextos históricos, sociais, políticos,
econômicos e culturais de cada época. As palavras, enquanto
conceitos que identificam ideologias e práticas políticas, também
possuem conteúdo histórico e expressam significados diferentes com a
evolução do tempo.
Assim, o termo “social-democrata”, até
inícios do século XX, era sinônimo de revolucionário, isto é, dos
que, pelo menos na retórica, tinham por objetivo fazer a revolução,
extinguir a propriedade privada dos meios de produção e instaurar o
socialismo. Não por acaso, os partidos operários da época, como o
alemão e o russo, se denominavam social-democratas. Quando o Partido
Operário Social-Democrata Russo, em seu segundo congresso, realizado
em 1903, dividiu-se entre o grupo majoritário (bolchevique) e o
minoritário (menchevique), ambos se consideravam social-democratas.
Porém, na medida em que as divergências no interior da
social-democracia se aprofundaram e formaram-se grupos internos
irreconciliáveis, o termo social-democrata passou a ser questionado.
Dessa forma, especialmente a partir da Revolução Russa de 1917, os
revolucionários fizerem questão de se distinguir da
social-democracia, agora identificada com o reformismo, e passaram a
se autodenominar comunistas. Os partidos e organizações políticas
que se constituíram em ruptura com a II Internacional seguiram o
exemplo dos bolcheviques e adotaram o nome de Partido Comunista.
Assim, também procuravam se distinguir dos partidos socialistas, os
quais eram identificados com a social-democracia. Não foi
coincidência, portanto, que uma das 21 exigências para o ingresso na
III Internacional, a Internacional Comunista fundada em 1919, era
que os partidos membros adotassem o termo “comunista”.
Desde então, como escreveu Arnaldo Spindel (1982, p.121),
“socialismo e comunismo passam a significar, na prática, coisas
bastante diferentes. Ainda que possuindo as mesmas bases teóricas,
os movimentos socialista e comunista possuem visões de mundo
divergentes e propostas de solução para os problemas da sociedade
com poucos pontos em comum”.
Se a esquerda é plural considerada em
sua integralidade, também o é em campos ideológicos específicos como
o marxismo. A obra original de Marx e Engels, assumida por seus
seguidores, sofre as conseqüências inerentes à luta política, às
diferentes interpretações, determinadas por conjunturas e atores
diferenciados. A obra transforma-se no dogma assumido, defendido,
interpretado e reinterpretado, conforme as exigências históricas e
as contendas entre os marxistas. Como há várias interpretações, isto
é, uma multiplicidade de leituras do texto “sagrado”, a legitimidade
do comentador e do comentado está sob disputa. O monopólio do
comentário legítimo depende da derrota dos concorrentes. Aos de fora
a “guerra de palavras” pode parecer insano, bizantino e risível, mas
não são apenas “batalhas” pelo discurso legítimo: é o
capital simbólico que se encontra sob fogo cerrado de todos os
que almejam a legitimidade (autoridade) e o seu monopólio (BOURDIEU,
1996).
Isto é potencializado pelo fato da
teoria fundir-se à prática. Portanto, para compreender conceitos
como comunismo e socialismo, é preciso ir além da história das
idéias e verificar como estas foram incorporadas e reincorporadas
pelo movimento real. É necessário, assim, estudar o movimento
operário e as revoluções inspiradas no marxismo. Como afirma
Hobsbawm,
O pensamento e a prática de Marx e
dos marxistas posteriores são um produto do seu tempo, por mais
que possam ser permanentes seu valor intelectual ou suas
conquistas práticas. Portanto, devem ser analisados inserindo-os
nas condições históricas em que foram formulados, ou seja,
levando-se em conta tanto a situação na qual os marxistas tinham
de agir e os problemas que dela derivavam.... (HOBSBAWM, 1980,
p.17).
Embora única, a obra de Marx e Engels
inspirou diversas interpretações e se desdobrou em múltiplas
correntes políticas e teóricas, além de se constituir em referência
para práticas profundamente contraditórias. Devemos considerar
fatores como: a) a obra contém impasses e limitações determinadas
pelo contexto histórico – o que favorece ainda mais a diferenciação;
b) seus sucessores mais ilustres acrescentaram novos elementos
teóricos que enriqueceram as análises originais, mas também, em
alguns casos, representam questionamentos e graus variados de
ruptura; c) a evolução do marxismo foi efetivada a partir de
continuidades-descontinuidades; d) seu desenvolvimento também foi
influenciado pelas particularidades nacionais; e) seu crescimento e
a necessidade de responder aos dilemas colocados por conjunturas
históricas diferentes – no tempo e no espaço – geraram inúmeras
polêmicas que aprofundaram as leituras seletivas e, no extremo,
levaram ao abandono de princípios anteriormente reverenciados (Id.,
p.13-66).
No transcorrer da sua trajetória o
marxismo se dividiu em diversos matizes, até mesmo hostis. O próprio
termo original sofreu modificações passando a ser acompanhado de
qualificativos, os quais dependem da ótica de quem os utilizam e a
quem se refere. No embate político-teórico se tornou comum o uso de
denominações como o “verdadeiro marxismo”, o “falso”, o “estrito” e
“amplo”, o “ortodoxo” e “revolucionário”, o “dogmático” ou
“criador”. Como escreveu Haupt, há muito que o “marxismo” no
singular foi substituído pelo plural: “marxismos” (HAUPT, 1980,
p.347-375).
Se na linguagem comum utilizamos as
palavras “esquerda”, “marxismo” e “marxista” no singular, e ainda
que o emissor do discurso não tenha consciência da complexidade
ideológica e política sintetizadas em pronunciamentos como estes, a
realidade social e política comprova o equívoco. Se é compreensivo
tal referência, enquanto expressão da fala comum, o pesquisador não
deve ater-se a ela. A rigor, é preciso apreender até mesmo a
história da origem das palavras e analisar seu desenvolvimento
posterior, isto é, a mutação e pluralidade dos seus significados,
sendo que estes sempre encontram-se vinculados à práxis histórica.
A palavra “marxismo” não foi criada por
Karl Marx. Ele recusou-se a classificar sua obra num rótulo e,
categoricamente, afirmou: “Tudo que sei é que não sou marxista”.
Georges Haupt (1980), em “Marx e o marxismo”, analisa as
origens dos termos marxismo e marxista e mostra sua evolução, da
singularidade à pluralidade. Maurício Tragtenberg, em estudo sobre
Marx e Bakunin, ressalta:
A origem do conceito “marxismo” pode
ser encontrada nos calorosos debates entre os adeptos de Bakunin
e Marx, onde os discípulos daquele que não se cansavam no ardor
da polêmica em alcunharem seus opositores como “marxistas” ou
adeptos do “marxismo”. Engels vislumbrava que ta denominação –
“marxismo” – poderia descaracterizar a obra de Marx, cuja
preocupação fundante é a compreensão do movimento real,
reafirmada por Marx em carta a Hyndman de 2 de julho de 1881.
“No programa do partido é necessário evitar que ele surja como
dependendo diretamente em relação a tal ou qual autor, tal ou
qual livro” (TRAGTENBERG, 1988, p.195).
A esquerda marxista deve ser analisada
em sua historicidade. Nessa perspectiva, “esquerda” e “marxismo” se
referem a significados plurais que expressam diversidades inerentes
à práxis política humana em diferentes. É possível, portanto,
identificar uma esquerda autoritária, liberal, democrática,
anarquista, marxista, etc. As ideologias que se assumem “de
esquerda” não são homogêneas: não há “o marxismo”, mas “os
marxismos”; como também é incorreto se referir ao anarquismo no
singular, pois há vários anarquismos.
Constatada a pluralidade, pode-se
perguntar: por que a esquerda, desde as origens, sempre se apresenta
dividida? Tomemos como referência a trajetória da esquerda no
Brasil, tendo claro que esta também é influenciada por fatores
exógenos pertinentes ao movimento comunista mundial. Enfocaremos as
organizações e partidos políticos vinculados à tradição marxista.
Concluindo?!
O reconhecimento da diversidade da
esquerda, contudo, parece-me um bom ponto de partida. É preocupante
que a cultura autoritária, sectária e intolerante ainda persista no
campo da esquerda, apesar da sua visível pluralidade desde as
origens e de toda a experiência acumulada. Também é intrigante a
persistência do maniqueísmo típico da guerra fria, o qual divide o
mundo entre “nós” e “eles”, o bem e o mal. Depois de tudo o que foi
feito em nome da utopia redentora da humanidade por homens e
mulheres de boa vontade, e que produziram regimes políticos como o
stalinismo, parece-me que devemos reconhecer a complexidade da ação
política humana e a necessidade de rediscutir os meios e os fins.
Será possível atingir bons fins com meios que os negam? A reflexão
sobre os dilemas e desafios contemporâneos da esquerda brasileira e
mundial pressupõe um olhar crítico sobre a práxis política, derrotas
e realizações, necessário para pensarmos os rumos a serem trilhados
por aqueles que, apesar de tudo, ainda acreditam que um outro mundo
é possível.
Referências
BOURDIEU, P. O discurso da
importância – algumas reflexões sociológicas sobre o texto “Algumas
observações de ‘Ler o Capital’”, in idem, A economia das
trocas lingüísticas: O que fazer quer dizer. São Paulo: EDUSP,
1996, p. 159-176.
CARONE, Edgar, “A Internacional
Comunista e as 21 condições”, in Gramsci e o Brasil,
disponível em
http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=109, acesso em
09 de junho de 2008.
HAUPT, Georges. Marx e o
marxismo. In: HOBSBAWM,
Eric J. (Org.) História do Marxismo
I: o marxismo no tempo de Marx. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1980.
HOBSBAWM, Eric. J. (Org.) História
do Marxismo I: o marxismo no tempo de Marx. Rio de Janeiro: Paz
e Terra, 1980.
SPINDEL, Arnaldo. O que é Comunismo.
São Paulo: Brasiliense, 1982.
TRAGTENBERG, Maurício, “Marx/Bakunin”,
in CHASIN, j. (Org.), Marx Hoje, São Paulo: Ensaio, 1988, p.
195.
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