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LUCIANA HOLANDA
NEPOMUCENO
Docente do
Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará e da
Faculdade de Tecnologia do Nordeste (FATENE)

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Uma reflexão sobre a centralidade do
conhecimento na Teoria Organizacional e Administrativa
Luciana Holanda Nepomuceno
O mundo contemporâneo passa por um
momento de transição radical (SROUR, 1998; DRUCKER, 1993; TOFFLER,
1987) tão relevante para a sociedade e sua organização quanto a
Revolução Industrial. Esse momento é chamado ora de revolução da
informação (DRUCKER, 1993), revolução digital (SROUR, 1998) ou
terceira onda (TOFFLER, 1987). O que permanece, dentre as diversas
denominações e considerações decorrentes, é a aparente centralidade
do conhecimento nestas revoluções e na conseqüente configuração da
sociedade contemporânea. Este texto centra seu debate nas questões
relativas à reestruturação do mundo do trabalho frente às demandas
capitalistas e suas implicações no discurso da teoria organizacional
sobre conhecimento e aprendizagem.
As primeiras análises sobre o papel
nuclear e preponderante do conhecimento e da informação na
conformação de uma sociedade do conhecimento foram
significativamente otimistas sobre suas potencialidades
democratizadoras (TEDESCO, 2004). Como representante modelar desta
tendência, destaca-se Toffler (1987) que baseava suas análises no
caráter essencialmente democrático que teriam tanto a produção como
a distribuição dos conhecimentos. Deste ponto de vista, a utilização
intensiva de conhecimentos produziria a dissolução das formas
burocráticas de gestão, porque obrigaria a renovar permanentemente
as linhas de decisão em função da acumulação e do intercâmbio de
conhecimentos.
Para Tedesco (2004), contudo, uma
sociedade baseada no uso intensivo de conhecimentos produz
simultaneamente fenômenos de mais igualdade e de mais desigualdade,
de maior homogeneidade e de maior diferenciação; desta forma, a
sociedade do conhecimento, enquanto transformadora da organização do
trabalho, não só aumenta significativamente a desigualdade social
como também provoca acentuadamente o fenômeno social da exclusão da
participação no ciclo produtivo (TEDESCO, 2004). Tal argumentação
confirma a percepção de que, embora o ponto de partida do discurso
sobre a sociedade do conhecimento pareça ser o próprio conhecimento
e quem o produz e socializa, as características desta sociedade são
dadas, na maior parte das vezes, em termos de mercado, empresas,
relações de produção e comercialização (THUROW, 1997; DRUCKER,
1993). Percebe-se, assim, que o deslocamento discursivo, retirando a
ênfase do trabalho e projetando na aparente centralidade do
conhecimento, apresenta uma versão mistificada sobre o potencial
democratizador do conhecimento e encobre a progressiva situação de
desigualdade social.
Borges (1995) afirma que as principais
tendências que definem a emergência da sociedade do conhecimento são
o deslocamento do paradigma de sociedade industrial para sociedade
da informação, de economia nacional para economia mundial, de
centralização para descentralização. Thurow (1997) afirma que uma
característica da sociedade do conhecimento é que, como os produtos
do futuro incluirão cada vez menos materiais e cada vez mais
conhecimento, as indústrias de base científica e tecnológica terão
significativas vantagens comparativas desvinculadas dos recursos
naturais e de vantagens relacionadas ao lugar, tornando-as
dependentes do potencial do seu trabalhador, no que ele possui de
conhecimento que pode ser direcionado para a inovação e
produtividade. Em raciocínio semelhante, Drucker (1993) afirma que
na sociedade do conhecimento, as atividades centrais das
organizações são as que produzem e distribuem informação e
conhecimento e não mais aquelas que visam produzir ou distribuir
objetos.
Entretanto, a base técnica de produção,
através das novas tecnologias físicas de base microeletrônica e das
novas formas de organização do trabalho, possibilita a
intensificação do trabalho, via redução dos ciclos de operação,
redução dos tempos mortos, operação simultânea de mais de uma
máquina, entre outros (FARIA, 2004). Assim, o foco nas organizações
permanece tanto na maior exploração quanto no maior controle sobre a
força de trabalho.
O desenvolvimento da ciência e da
tecnologia vem realizando significativas mudanças no cotidiano das
pessoas, especialmente no que tange ao mundo do trabalho. As
mudanças no mundo das organizações e da gestão indicam o surgimento
de novas formas de organização (CLEGG e HARDY, 1998; LAS CASAS,
1999; SENNETT, 2002). Os autores prevalentes em estudos
organizacionais sugerem que as organizações devem acompanhar a
dinâmica do mercado, onde, argumenta-se, as transformações acontecem
de forma cada vez mais intensa e acelerada, influenciando
diretamente as relações entre países, organizações e pessoas. A
busca crescente por competitividade leva a uma configuração
diferenciada das organizações que passam a se caracterizar por uma
maior fluidez em contraposição à rigidez característica da
burocracia weberiana (SENNETT, 2002, FARIA, 2004). São as
organizações flexíveis posicionadas frente às pressões competitivas
de modo que “dentro dos níveis hierárquicos, as pressões levam ao
aumento do trabalho em equipe, à redução de tarefas e de exigências
de trabalho e a maior exigência de competências” (CLEGG e HARDY,
1998: 42). Delineiam-se organizações onde prevalecem as a)
estruturas enxutas e flexíveis; b) uma visão centrada no cliente; c)
a dominância da reengenharia dos processos de trabalho; d) a
existência de parcerias, fusões e redes de empresas; e e) a
administração estratégica (LAS CASAS, 1999).
Tedesco (2004) aponta que a
transformação das pirâmides hierárquicas tradicionais em
organizações flexíveis não implica no desaparecimento da
desigualdade nem das relações de poder no interior das organizações.
A maior flexibilidade está provocando a aparição de novas e mais
complexas formas de relações de trabalho, que mantém a tensão
capital-trabalho velada pela ideologia. Esta idéia coaduna com as
proposições de Sennet (2002) sobre o poder nos atuais processos de
descentralização das unidades produtivas. Para Sennet (2002), nos
processos de descentralização, o poder central age através de outros
mecanismos igualmente poderosos, porém fluidos, como, por exemplo, a
fixação de metas e resultados que, geralmente, são superiores às
capacidades reais e obrigam a produzir muito mais do que o habitual.
De maneira convergente, Melo (2004) afirma que a sobrecarga dos
pequenos grupos de trabalho é freqüentemente uma característica da
reorganização das empresas rumo a um formato mais flexível. Desta
forma esta nova ordem acrescenta novas formas de poder desigual e
arbitrário nas organizações.
Este cenário, onde se apresentam novas
tipologias de organização, mais fluidas, ágeis e com menos níveis
hierárquicos; mas com relações de poder tão estáveis como antes, é
denominado por Sennet (2002) de capitalismo flexível. O capitalismo
em sua fase flexível se desenvolve a partir de três suportes, quais
sejam: 1. reinvenção descontínua de instituições; 2. especialização
flexível da produção; 3. concentração de poder sem centralização (SENNET,
2002).
O capitalismo flexível resulta da crise
atravessada pelo regime de acumulação fordista. Esta crise faz
emergir um processo de reestruturação que se sustenta em duas bases:
por um lado, a reestruturação oferece aos espaços fabris novas
tecnologias físicas de base microeletrônica e implementação de novas
formas de organização e gestão do trabalho, com especial ênfase no
modelo toyotista, dotando os espaços referidos de características
mais flexíveis na produção de mercadorias. Por outro lado, o estado
passa a ser gradativamente desarticulado e o poder dos sindicatos
passa a ser progressivamente enfraquecido, diminuindo sua capacidade
de mobilização e, assim, enfraquecendo o poder de resistência dos
trabalhadores (FARIA, 2004).
No âmbito intra-organizacional, o
capitalismo flexível avaliza a mudança de crenças: das teorias
tradicionais de gestão, representadas especialmente pelo taylorismo,
fordismo e fayolismo, doutrinas de gestão privilegiadas no período
do capitalismo moderno (GURGEL, 2003) ao novo discurso da gestão
intitulado de administração flexível. Para Frigotto (2003), este
ideário do capitalismo flexível nomeado administração flexível
representa um novo arsenal ideológico que afirma um pensamento
único, uma solução única para a crise e, assim, solução que é
irreversível. Ora, segundo Frigotto (2003), esse arsenal ideológico
cumpre tanto a função de iludir sobre a natureza e a materialidade
da crise do capital como a de justificar a necessidade de reformas
no aparelho do Estado e nas relações capital/trabalho de forma que
se ampliem as garantias do capital e se esvaneçam os direitos da
classe trabalhadora.
Para Abramides e Cabral (2003), o regime
de acumulação flexível torna-se para o capital não só uma forma de
maior exploração quanto de maior controle sobre a força de trabalho.
A reestruturação produtiva; baseada em aumento de produtividade,
eficiência, qualidade, novas formas de tecnologia e de gestão e
efetivada via inovações tecnológicas; promove a precarização e a
desestruturação das relações clássicas de produção, de gerenciamento
e de envolvimento da força de trabalho, a desregulamentação de
direitos sociais e trabalhistas, reduz o quantitativo do operariado
fabril, incrementa a terceirização e a subproletarização, estimula o
trabalho precário e parcial e amplia o desemprego estrutural.
Segundo Abramides e Cabral (2003:03), a sustentação ideológica do
processo de trabalho atual atinge não apenas a objetividade (base
material da classe operária) como também a sua subjetividade
(consciência de classe, organização e valores).
Assim, termos e práticas vinculadas em
torno de globalização, mudança, competitividade, inovação,
downsizing, terceirização, empreendorismo, intrapreneuring,
empowerment – que, para Gurgel (2003), impõem novas formas de
sociabilidade capitalista ao mesmo tempo em que significam
relevantes economias de custo no plano do controle do trabalho e dos
incentivos de produção - surgem como panacéia nas diversas produções
relacionadas à gestão contemporânea, tanto as de natureza acadêmica,
avalizadas pela aura de cientificidade, quer as propagadas na
literatura do tipo pop-management (WOOD Jr.e PAULA, 2002). Em muitas
destas produções, conforme Steil (2002), o conhecimento tem sido
compreendido como o princípio mais importante para organizações, o
quarto fator de produção, com pertinência superior aos tradicionais:
terra, trabalho e capital.
É a lógica de acumulação e
superacumulação do capital, em sua versão neoliberal, que suporta as
mudanças que têm acontecido no âmbito das modernas tecnologias de
gestão. A superacumulação e concentração do capital geram problemas
de caráter econômico e político para o capitalismo, que responde ou
reage com novas tecnologias de gestão agrupadas sob a égide da
administração flexível (GURGEL, 2003).
A administração flexível como
tecnologia, segundo Gurgel (2003:137), apresenta-se de forma
fragmentada como técnicas isoladas, mas está articulada com
coerência em torno da lógica da acumulação sobre a superacumulação.
Desta forma, a produção da teoria organizacional não é um corpo
teórico datado e fechado, mas uma produção intermitente e
aparentemente inesgotável, cuja sintonia se faz de modo difuso,
porém objetivo, em torno da adaptação às condições de
superacumulação e intensa competição, sob o primado do capital
privado e o discurso técnico neoliberal.
Assim, o capitalismo realiza sua
autogênese, em um esforço de adaptação ou ainda de sobrevivência,
reinventando-se e reconfigurando justamente o que lhe serve de
propulsão. Para Gurgel (2003: 132) a administração flexível, como
tecnologia, cumpre um papel indispensável ao novo processo de
acumulação do capital já que ampliou o exército de reserva ao
desempregar em massa, pressionou os salários para baixo e integrou
os trabalhadores à empresa em aparente servidão voluntária. Desta
forma, tal tecnologia propiciou o aumento intensivo da extração da
mais-valia recompondo as taxas de lucro das empresas.
Segundo Aktouf (2001: 16) “a era da
qualidade e da criatividade estende suas exigências e mostra que
todos os empregados devem ser protagonistas, ativos e pensantes”.
Todavia, a administração tradicional não dispõe, em termos
conceituais e teóricos, de elementos para compreender adequadamente
a mudança que se desencadeia. Nesta perspectiva, a Teoria
Organizacional e Administrativa, (TO&A), busca novos argumentos que
viabilizem a integração do trabalhador aos interesses dos donos do
capital, velando a tensão intrínseca à relação entre capital e
trabalho e favorecendo a continuidade do sistema.
A administração flexível e suas
tecnologias de gestão exigem, do trabalhador, uma
multifuncionalidade que não é recompensada, assim como ele não é
recompensado pelas funções acumuladas devido a supressão de postos
de trabalho ocasionada pela racionalização multifuncional (GURGEL,
2003: 136). Trata-se, assim, de uma forma de elevar a produtividade
do trabalho, sem sua correspondente remuneração.
É neste movimento do sistema capitalista
de produção que se destacam os conteúdos referentes às pessoas nas
organizações, tornadas agora capital humano (DAVENPORT, 2001).
Davenport (2001:21) afirma que “as pessoas possuem habilidades,
comportamentos, energia pessoal e tempo que lhe são próprios. Esses
elementos criam o capital humano – a moeda que as pessoas trazem
para investir em sua atividade”. A este respeito, argumenta Frigotto
(1995), a repentina redescoberta e valorização da dimensão humana do
trabalhador relacionam-se bem mais com os sinais de limites,
problemas e contradições do capital procurando redefinir um novo
padrão de acumulação do que se aproxima da autonegação da forma
capitalista de relação humana.
São essas mudanças, implicadas na
introdução de novas tecnologias e métodos de gerenciamento, que
permitem que o aporte de conhecimento dos trabalhadores seja
apresentado como um dos principais ativos da empresa pela literatura
prevalente. Passa a ser requerido do trabalhador: polivalência,
escolaridade, capacidade de trabalho em grupo, rapidez na tomada de
decisão, habilidade de comunicação, autonomia por determinação do
mercado e, às organizações, credita-se a tarefa de aproximar cada
vez mais os trabalhadores deste perfil.
Entre as tentativas de prever,
prescrever e normatizar estas mudanças na práxis dos trabalhadores e
garantir a competitividade, a acumulação de capital e a continuidade
do sistema capitalista de organização do trabalho, destacam-se, na
TO&A, os discursos vinculados à Aprendizagem Organizacional e à
Gestão do Conhecimento. Tais discursos pregam o investimento das
organizações nas competências dos trabalhadores, agora capital
humano, e o conhecimento passa a estruturar-se nas organizações sob
a ótica da aprendizagem enquanto alteração de comportamento,
garantindo o retorno via desempenho dos trabalhadores. A
aprendizagem aparenta ser a grande propulsora da produtividade e,
enquanto mudança comportamental, suporta a adaptação ao ambiente e
provê um repertório de respostas a problemas favorecendo a redução
de custos e aumentando a margem de lucro (RODRIGUES et all, 2002)
O recente discurso sobre aprendizagem
organizacional, com suas variantes organizações que aprendem e
gestão do conhecimento, tem sido estudado sob o signo do novo e
revolucionário. Contudo, o processo ensino-aprendizagem, enquanto
produção, reprodução e socialização de conhecimento, é recorrente na
história das organizações do trabalho na sociedade capitalista que
têm se constituído como lócus de aprendizagem, não sendo, portanto,
a aprendizagem no trabalho um fenômeno recente.
Calam-se, também, estas produções, sobre
o que se ensina e se aprende nas organizações capitalistas
encobrindo que a aprendizagem transcende a aprendizagem de um fazer,
caracterizando-se predominantemente como um processo de socialização
de crenças, valores e comportamentos que possibilitam a expropriação
do saber do trabalhador e a integração das dimensões humanas à
racionalidade da organização (WOLFF, 2000). Cotidianamente um
projeto pedagógico despercebido é forjado, de forma silenciosa e
pouco explícita, em cada unidade produtiva e em suas relações de
produção. É no trabalho e para o trabalho que é educado o
trabalhador.
Ao convergir com a idéia de que o homem
se educa, humaniza-se, na produção e nas relações de produção, via
um processo de contradições entre educação e deseducação,
qualificação e desqualificação, humanização e desumanização (MARX,
1980) se colocam algumas reflexões que pretendem não encerrar o
assunto, mas mobilizar reflexões: como se produz, reproduz e se
socializa conhecimento em uma empresa? Como uma empresa capitalista
educa o trabalhador? Quais os conceitos, políticas e práticas
envolvidos na aprendizagem do trabalhador de uma empresa? Como a
literatura organizacional opera na manutenção das relações de
produção e poder nas empresas? A quem serve o discurso
organizacional sobre aprendizagem organizacional? Ou, tais perguntas
poderiam ser substituídas pelas palavras de Pablo Neruda: “Parece
que de repente/ sabes que te falta uma mão / os dois olhos / a
língua/ ou a esperança. É possível, Pedro / João ou Tiago/ Que
perdesses algo / tão necessário/ Sem que percebesses?”
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