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MÁRIO
MAESTRI
Historiador e professor do Curso de
História e do Programa de Pós-Graduação em História da UPF, RS

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Luz & Sombras
Razão e irracionalismo na
historiografia contemporânea
Mário Maestri
Baseado nos fundamentos
da doutrina cristã, Santo Agostinho [354-430], bispo de Hipona,
criou uma monumental interpretação do mundo que pretendia abraçar e
compreender "os princípios, o método e os resultados da ciência e da
filosofia da época".
Sua interpretação do mundo explicava, sem hesitações, o devir
histórico como decorrência direta da vontade divina, em reflexo, no
plano das representações, da autoridade plena e absoluta do
soberano e do senhor, sobre seus súditos,
servos e escravos, vigentes no contexto das relações
feudais de dominação e de produção.
No fim da Idade
Média, a batalha vitoriosa dos pensadores iluministas contra as
concepções místico-irracionalistas dominantes refletia os avanços da
burguesia como classe revolucionária e o ocaso crescente das classes
e da organização social feudais. Em meados do século 17,
Jacques-Bénigne Bossuet
[1627-1704], bispo de Condon,
era obrigado a conceder, em seu Discurso sobre a história
universal, que, após forjar o "encadeamento do universo", deus
deixava que a história do homem e das coisas decorressem segundo
"suas causas" naturais.
Nos séculos 16 e 17, as
primeiras vitórias do capitalismo e o desenvolvimento das ciências
ensejaram acelerado processo de corrosão das bases das concepções
providencialistas da História que dominaram absolutas os tempos
medievais. A confiança na interpretação racional do mundo nascia e
apoiava-se na crescente capacidade humana de descrever teoricamente
os nexos causais objetivos próprios ao mundo material e social e na
sempre maior capacidade da burguesia de organizar a sociedade em um
sentido social e hitoricamente progressista.
Há mais de 350 anos,
René Descartes [1596-1650] construía sua filosofia sobre uma
explosiva exaltação do homem e da razão. No Discurso sobre o
método, escrevia: "[...] todas as coisas que podem cair sob a
consciência dos homens sucedem‑se da mesma maneira e que, desde que
se evite tomar como verdadeira alguma [coisa] que não o seja e se
conserve sempre a ordem necessária para deduzir umas das outras, não
podem existir tão longínquas [coisas] que não se alcancem, nem tão
ocultas que não se descubram."
René Descartes dizia, confiante no seu tempo: "O nosso século
afigurava‑me tão florescente e tão fértil em boas mentalidades como
nenhum dos precedentes."
Em 1756, no
Ensaio sobre os costumes e
o espírito das nações,
Voltaire [1694-1778] propunha ironicamente que o homem das Luzes
deixasse "respeitosamente o que é divino àqueles que são seus
depositários" e se ocupasse das coisas terrenas.
Com a Ilustração, a História dava um passo gigantesco. De
acontecimento ininteligível e explicável apenas segundo os
insondáveis desígnios divinos, evoluía à fenômeno humano capaz de
ser compreendido e explicado pela razão. Porém, para os mais
avançados pensadores do Setecentos, a evolução da história
explicava-se pelo avanço da opinião dos povos.
Reformar o errado
Para o homem das Luzes,
a opinião era o conjunto das verdades e enganos próprio a uma
nação. Por natureza, o homem era bom e propendia à razão que,
lembrava Voltaire, “terminava sempre por ter razão”. Portanto,
através da reforma racional das instituições e dos costumes,
chegaria-se à felicidade individual e social geral. Da concepção
iluminista da História decorria proposição revolucionária. As
instituições não se justificavam mais pelo direito divino ou pelo
costume. Eram questionáveis e reformáveis através da aplicação da
razão. Era possível e, mais ainda, necessário, que elas se
adaptassem às necessidades do bem comum.
Do pessimismo
e do quietismo próprios ao cristianismo medieval, expressão
do imobilismo de uma ordem feudal apoiada sobretudo na exploração do
trabalhador agrícola servil e em economia tendencialmente natural,
que propunha ser o mundo um “vale de lágrimas” e que a felicidade se
alcançava apenas após a morte, na vida eterna, evoluía-se para
otimismo e ativismo filosóficos e sociais, próprios à
burguesia ascendente, voltado para o mundo objetivo, que alcançaram
verdadeiro ápice na França, quando dos sucessos de 1789. Tudo podia
e tudo devia ser submetido ao crivo implacável da razão. Como
resultado desse processo, como lembra Frederico Engels [1820-1892]
em Do socialismo utópico ao socialismo científico, "a
superstição, a injustiça, o privilégio e a opressão seriam
substituídos pela verdade eterna, pela eterna justiça, pela
igualdade baseada na natureza e pelos direitos inalienáveis do
homem".
Finalmente, a paz poderia reinar entre os povos e os homens.
Em forma bastante
confusa e contraditória, a "Conspiração dos Iguais", de 1796,
assinalou o ingresso político independente e consciente das classes
trabalhadoras na arena histórica, contra a ordem e a razão burguesas
recém‑vitoriosas. No número 35 do Tribuno do Povo, o
principal líder daquele movimento, Gracchus Babeuf [1760-1797]
declarava que o povo necessitava "mais de instituições do que de
constituições" e definia a Revolução Francesa como uma "guerra
declarada entre patrícios e plebeus, entre ricos e pobres". Ou seja,
como uma guerra social.
Os avanços propiciados
pela Revolução Francesa, no mundo dos fenômenos sociais,
consubstanciaram-se, na esfera das representações da realidade, no
sistema filosófico hegeliano que descreveu, por primeira vez na
história, sob forma categorial‑sistemática, a essência dialética do
processo histórico e o caráter historicamente necessário da
revolução. Porém, para Hegel [1770-1831], como para os filósofos da
Ilustração, a razão governava a História, ainda que, a razão, no seu
caso, fosse compreendida como as leis gerais e imanentes à história
(Espírito Universal).
Com Hegel, estendia-se o
grau de cognoscibilidade da história, ainda que o caráter idealista
da filosofia hegeliana, que acabou ensejando a dissolução da
mesma, constituísse a sua grande contradição. A vitória do Termidor
[1794-1799] e o caráter nacional-imperialista da ditadura
napoleônica, a partir de 1799, correspondiam, no mundo social
objetivo, às conclusões conservadoras e apologéticas chegada, a
seguir, pelo sistema hegeliano. Hegel viria na Monarquia
constitucional e no Estado prussiano verdadeiras conclusões da
evolução do Espírito na história. Ou seja, por razões sociais,
ideológicas e políticas, propunha verdadeiro fim no processo
dialético que apontara como próprio da história.
A confiança do Século
das Luzes na razão advinha do crescente domínio do homem sobre a
natureza; da segurança da burguesia na sua capacidade de superar a
crise histórica que o mundo europeu vivia; da aliança estabelecida
pelo futuro, representado pelos burgueses e trabalhadores, contra o
passado, ou seja, as classes dominantes feudais. O otimismo social
revolucionário refletia os avanços humanos na compreensão e no
domínio do mundo material. Porém, o ingresso da classe trabalhadora
na arena política e social, devido às novas contradições ensejadas
pelo desenvolvimento da nova realidade social e econômica, punha fim
à aliança implícita que destruíra a ordem feudal. Desnudava-se em
forma incipiente a moderna oposição entre o capital e o trabalho,
entre proletários e burgueses, denunciada por Karl Marx [1818-1883]
e Frederico Engels, em O manifesto comunista, em 1848, que
permanece até hoje não superada.
De revolucionários a
conservadores
As tensões provocadas
pelas revoluções francesa e industrial ensejaram um enorme salto no
nível de conhecimento humano sobre a realidade social e material.
Porém, com o Termidor, o Diretório e o Império, o reino ideal da
razão foi reduzido ao reino real da ordem e da propriedade
burguesas. Os novos senhores romperam a aliança com as classes
subalternizadas estabelecidas na luta contra o mundo feudal e
impuseram sua ditadura, democrática ou não democrática. As antigas
promessas foram esquecidas e traídas. As misérias populares do
passado foram substituídas pelas novas e, em alguns casos, ainda
mais terríveis mazelas da modernidade.
Apenas três anos após o
18 Brumário de Napoleão Bonaparte, em 1799, Saint-Simon [1760-1825]
publicava sua Carta de um habitante de Genebra a seus
contemporâneos. Nas pegadas do revolucionário francês Gracchus
Babeuf, o ex‑aristocrata analisava a Revolução Francesa como uma
luta entre nobres, burgueses e plebeus. Nos anos seguintes, outros
historiadores, como Augustin Thierry [1795-1856], Auguste Mignet
[1796-1884], Jules Michelet [1798-1874], apresentaram a Revolução
Francesa, em especial, e a história, em geral, como o resultado do
choque de classes antagônicas.
O Império [1804-1814] e a Restauração [1814-1830] prenderam, baniram
e executaram os ativistas e pensadores populares. Não conseguiram
impedir que, sob a forma de historiografia, a Revolução Francesa
revelasse a sua verdadeira essência. A moderna historiografia é uma
espécie de filha tardia de 1789.
Como corrente
filosófica, o moderno irracionalismo foi parido pela própria
Revolução Francesa. Ao apoderar-se do poder, a grande burguesia
transitava de classe revolucionária a classe contra-revolucionária.
O caráter inteligível da história, a crítica racional e radical das
instituições e dos costumes, a confiança no futuro, o caráter
reformável das instituições, a felicidade geral como objetivo da
sociedade passavam, de armas que haviam servido na destruição do
Ancien Régime, a arsenais que ameaçavam a nova ordem
capitalista, pois retomados pelas novas classes proletárias
emergentes.
A burguesia sentia-se
igualmente questionada pela crítica e superação
materialista-dialética do sistema hegeliano que determinara, como
novo objetivo da filosofia, a interpretação do devir histórico na
perspectiva da superação das contradições classistas, em direção a
uma sociedade sem classes – filosofia da práxis. Com a instauração
da nova ordem burguesa, a defesa da racionalidade social passou a
ser, crescentemente, obra dos oprimidos. Para a burguesia, a
sociedade e a ordem capitalistas naturalizavam-se e o mundo e a
história passavam a ser apresentados como crescentemente
ininteligíveis e paradoxais. No novo contexto, que instituía o fim
da história, no sentido da interrupção das transformações de
qualidade da sociedade, a reforma das instituições transformou-se em
heresia social crescentemente execrada e reprimida.
Os grandes paradoxos
históricos e sociais são reflexos, no mundo das idéias, da
incapacidade ou da resistência humana de compreender as razões do
devir social. Em A destruição da razão, de 1953, livro que se
sobrepôs a não poucas concessões ao reducionismo stalinista do
marxismo, o George Lukács [1885-1971] traçou uma magnífica crítica
da gênese e do desenvolvimento do pensamento irracionalista moderno,
com destaque para a Alemanha.
As reflexões e interpretações gerais do filósofo húngaro, escrito
ainda sob o impacto da irrupção da barbárie nazi-fascista na Europa
e da II Guerra Mundial [1939-1945], com talvez sessenta milhões de
mortos, mantém-se vigentes e revelam novos conteúdos, mais de meio
século após sua publicação.
Como lembra George
Lukács, nesse brilhante livro, lamentavelmente ainda não traduzido
ao português e publicado no Brasil, o irracionalismo moderno, que
não tem uma história linear, assumiu faces diversas, nos dois
últimos séculos. O nexo fundamental dessa vertente filosófica
encontra-se sobretudo na sua incessante luta pela desvalorização do
intelecto e da razão em prol da intuição, na permanente tentativa de
refutar a objetividade das leis históricas ou a possibilidade de
conhecê‑las. São também traços fundamentais do pensamento
irracionalista moderno a subjetivação da história e a negação da
idéia de progresso social.
Em A destruição da
razão, George Lukács assinala que a defesa da ordem capitalista
dá-se sobretudo através da apologia direta e indireta. A primeira
louva aquela sociedade e nega, dissimula e minimiza seus aspectos
mais negativos. A segunda, quando o mundo real sob a ordem
capitalista começa a horrorizar os mais insensíveis, defende o
caráter incompreensível da história; a desigualdade, a
agressividade, o egoísmo, etc. como atributos da natureza humana e
próprios a todas as ordens sociais. A passividade e o imobilismo
como comportamento político; o cinismo e o pessimismo como estados
psicológicos são as conseqüências sociais da destruição da confiança
na práxis como fator de progresso.
Vestindo de novo o
velho
As interpretações
irracionalistas do mundo assumem singular importância quando de
graves crises sociais e em épocas de transição histórica. Diante
das novas demandas postas pela história aos homens, a razão
irracional transforma os problemas em respostas, nega ao pensamento
dialético a capacidade de desvelar os nexos fundamentais do mundo
social, transforma a maior riqueza do fenômeno em relação à sua
representação teórica em uma verdadeira desvalorização da capacidade
da capacidade da teoria de compreender a realidade objetiva. O
caráter da transição histórica e do conforto social determinam essas
características essenciais do pensamento irracionalista.
As novas tendências
neoirracionalistas apresentam‑se sob aparências diversas. Pensadores
partidários das concepções do ingresso da Humanidade em uma idade
pós-industrial e pós-moderna defendem o fim da credibilidade nos
"grandes relatos" sobre a necessidade/possibilidade da superação das
contradições sociais; sugerem a definitiva subjunção do homem aos
processos tecnológicos; proclamam o fim da objetividade e da unidade
da vida social que explodiriam em uma pluralidade de "redes de
relações", que se desenvolveriam e se bastariam nos seus próprios
limites a partir do critério de "maximização dos performances".
Na aparente contramão,
defensores de um retorno aos valores, superiores, intemporais e
ideais, do Século das Luzes, criticam a atual barbarização da
cultura impulsionada pelos arautos da pós‑modernidade. Uns e outros
convergem quando das conclusões essenciais de suas interpretações. O
pós-modernista Jean‑François Lyotard proclama o fim da
"radicalidade" de toda e qualquer interpretação social a partir das
oposições interclassistas. O neoiluminista Alain Finkielkraut,
felicita-se pela morte, no Velho Continente, do terceiro-mundismo.
Sobre o desnível abismal
e crescente entre países ricos e pobres, Lyotard pontifica
indiferente que, nos próximos anos, ele "não cessará de alargar‑se".
Finkielkraut vai mais longe. Culpa os miseráveis das ex-colônias
européias por suas próprias misérias. Segundo ele, os países do
Terceiro Mundo optaram livremente pela Filosofia da Libertação e
abandonaram os valores transcendentais do Ocidente. Neoiluministas e
pósmodernistas convergem em uma apreciação filosófica da história e
da sociedade atual que incentiva e justifica o cinismo e o elitismo
dos privilegiados, o pessimismo e a inatividade dos explorados.
Como resultado do
crescente prestígio intelectual do irracionalismo no Velho e no Novo
Mundo, cresce freneticamente o interesse pelos pais do moderno
irracionalismo. As obras de Schopenhauer, Kierkegaard, Nietzsche,
Spengler, Heidegger etc. conquistam a atenção de multidões de
pensadores até há alguns anos seduzidos, em maior ou menor grau,
pelo velho ideal iluminista de interpretar o mundo a partir do
próprio mundo. Essa literatura ultrapassa os muros das universidades
e é avidamente consumida pelo público culto ocidental. Para um
número cada vez maior de pensadores, desde o fim do século passado,
a história apresentaria-se finalmente em sua verdadeira natureza: um
processo eminentemente ininteligível e filho do absoluto caos.
Para essas visões de
mundo, a necessária consciência da agonia final das ilusões utópicas
de redenção social aconselharia, como um último e derradeiro
refúgio, diante de uma existência indiscutivelmente cruel que escapa
à compreensão humana, o imóvel, contemplativo e desesperado eticismo
kierkegaardiano ou, talvez, o imperativo nietzschiano de ficar de
olhos secos diante dos miseráveis.
Historiografia e Luta
de Classes
A partir da Revolução
Francesa, a historiografia transformou-se, em forma direta ou
indireta, explícita ou implícita, consciente ou inconsciente, em um
privilegiado campo ideológico da luta de classes. Foi em torno da
análise da Grande Revolução que se travaram os primeiros e mais
violentos combates historiográficos. Toda uma primeira geração de
historiadores definiu-se política e ideologicamente defendendo ou
combatendo a Revolução. Quando ela demonstrou sua irreversibilidade
e passou a identificar-se com a gênese do moderno Estado francês, o
debate transferiu-se para a interpretação da essência e das lições
de 1789.
A moderna historiografia
construíu-se como ciência, em boa parte, a partir de uma polêmica
teórica que desvelava facilmente seus objetivos partisans e
até mesmo partidários. Por mais que esse fato perturbe os defensores
da neutralidade axiológica das ciências sociais, a historiografia
moderna seria um arremedo do que é sem a contribuição de pensadores
como Mignet, Thiers, Carlyle, Lamartine, Michelet, Louis Blanc,
Tocqueville, Edgar Quinet, Heinrich von Sybel, Taine, A. Aulard,
Jean Jaurès, Mathiez, Georges Lefebvre, Daniel Guerin, para lembrar
os mais conhecidos.
Esses e outros grandes
historiadores jamais se negaram a definir-se pour ou
contre a Revolução, seus homens e seus atos, a partir sobretudo
de seus vínculos diretos e indiretos com a vida política e social.
Em alguns desses homens, o pragmatismo historiográfico chegava a tal
ponto que J.C. Dumont, em seu prefácio à História da escravidão
na Antiguidade, de H. Wallon, pergunta-se se, para pensadores
como Guizot e Thiers, "a história representou [...] algo mais do que
a justificação de suas ambições pessoais ou do que uma cortina de
fumaça para escondê‑las".
Aleitura do passado era compreendida indiscutivelmente como um
desvelamento do presente.
As fortes tendências
irracionalistas expressam-se diretamente na moderna historiografia.
As comemorações do bicentenário da Revolução Francesa, em 1989,
ensejaram uma vasta, bem articulada e ricamente financiada operação
ideológica historiográfica. Uma importante elite de
historiadores conjugou seus esforços em verdadeira campanha geral
contra a Revolução Francesa, em especial, e contra o conceito de
revolução, em geral. Naquele então, vivíamos a ofensiva geral
contra-revolucionária neoliberal que levaria, nos anos seguintes, à
crise e à destruição dos Estados de economia planificada e ao recuo
substancial de direitos e conquistas do mundo do trabalho através de
todo o mundo.
Acabar com a
Revolução
Um dos objetivos
centrais da campanha historiográfica realizada em torno da
historiografia da Revolução Francesa foi contribuir ao fim, na
França, de toda uma 'cultura de esquerda' que, em relação a outros
países europeus, nega-se obstinadamente a desaparecer. Nos anos
anteriores, durante e após as comemorações do bicentenário, em
livros, ensaios, artigos e entrevistas, uma plêiade de
historiadores demonstrou que nenhuma sandice historiográfica
enrubece ou compromete profissionalmente, desde que seja
conservadora e dita em tom grave e sisudo.
Para François Furet
[1927-97], personagem de destaque da Escola dos Annales na
sua fase regressiva, o Terror constituiu um "primeiro passo
em direção ao Gulag" soviético. Para Pierre Chaunu, um outro
auto-proclamado epígono de Marc Bloch [1886-1844], 1789-99 seria "o
decênio mais negro" da história francesa. Esses e outros pensadores
não pouparam argumentos contra a Revolução Francesa: Robespierre
teria sido uma espécie de Hitler; 1789, o "primeiro genocídio
ideológico" da Europa; existiriam "germes de stalinismo nos
jacobinos". Nessa espiral de incongruências historiográficas
anacrônicas, terminou-se afirmando que o "terror nuclear" seria "a
conseqüência de uma nova linguagem retórica inventada por homens de
letras frustrados como Robespierre e Saint‑Just" e que a luta contra
a reação na Vendéia teria constituído um verdadeiro "genocídio
franco‑francs".
Tamanho foram os
disparates ditos que o despretensioso ensaio de Max Gallo, Carta
aberta a Maximilien Robespierre sobre os novos muscadins,
lançado em 1986, tornou-se na França, mesmo contra a força dos
modismos, um verdadeiro best-seller. Como assinala o autor,
muscadin foi o nome dado, "durante a Revolução, aos realistas
que se distinguiam pela elegância afetada. Eles perfumavam-se com o
musc (almiscar). Esta juventude dourada, após a queda de
Robespierre, deu caça aos jacobinos". No ensaio, Max Gallo, criticou
essa exótica historiografia sobre a Revolução e recordou que a
análise histórica se faz a partir de uma rigorosa organização
cronológica e crítica das fontes e dos dados.
Um dos mais exacerbados
revisionistas, anotou Max Gallo, assentou parte de seu trabalho
sobre a Vendéia nos relatos que teria escutado de sua ... avó! Gallo
lembra que só se pode compreender a fúria popular no contexto de uma
época onde, por ordem real, os criminosos eram queimados vivos,
publicamente. Max Gallo exige a volta à compreensão de 1789 como
sucesso histórico contraditório onde fenômenos complexos como a
escassez e o alto custo dos alimentos, os privilégios fiscais e
judiciários, as expectativas sociais, etc. desempenharam papel
determinante.
Max Gallo lembra
no seu livro que os muscadins da historiografia moderna
incensam a obra de Auguste Cochin [1876-1916],
historiador católico conservador do início do século.
Dele, retomam a tese de que a vitória jacobina deveu‑se à ação de
uma minoria decidida diante de uma maioria desorganizada. Max Gallo,
igualmente autor de um trabalho erudito sobre os jornais realistas
de 1792, demonstra que pensadores como Furet, Chaunu e outros tendem
simplesmente a retomar e adaptar as teses dos monarquistas sobre
1789. Assinala que a primeira exposição da Revolução Francesa como
obra de conspiradores fanáticos nasceu da pena do abade monarquista
Burrel, em 1797. Para o clérigo, tudo seria o fruto dos planos de
três raivosos anticristos: Voltaire, Alembert e Frederico II.
Teses monarquistas
Max Gallo lembra que a
rejeição realista, em bloco, da Revolução foi retomada pelos
colaboracionistas franceses de extrema‑direita, nos anos da
ocupação. No governo colaboracionista do marechal Pétain [1940-44],
tentou‑se extirpar 1789 da memória substituindo-se o conceito de
República Francesa pelo de Estado Francês e a divisa ‘Liberdade,
Igualdade e Fraternidade’, por 'Trabalho, Família e Pátria'.
A leitura
conservadora e obscurantista da Revolução Francesa fazia parte do
revisionismo historiográfico mais amplo da chamada 'Nova História'.
Essa corrente de pensamento
constitui a melhor expressão do moderno irracionalismo filosófico na
historiografia. Em poderosa associação com os grandes grupos
europeus de comunicação social (jornais, rádios, editoras, etc.), a
'Nova História' vem produzindo uma literatura direcionada a um
público bem mais amplo do que o tradicionalmente interessado na
historiografia especializada ou na vulgarização historiográfica de
qualidade.
Coleções como a
História da vida privada ou um simples livro como O Homem
medieval
são encarados como mercadorias onde a magnitude dos investimentos em
publicidade e distribuição garantem, com pouco risco, a remuneração
dos investimentos. A seriedade e a qualidade passam a constituir
fatores marginais no relativo ao sucesso de uma obra
historiográfica. Que ela seja comprada, e não que seja lida,
constitui o objetivo principal da operação. A preocupação com o
sucesso de público e de vendas de um livro e a despreocupação com
sua perenidade é um elemento assinalado e saudado por Gilles
Lipovetsky, em O império do efêmero: a moda e seu destino nas
sociedades modernas. Nesse livro, o autor lembra que acabou a época
em que "escritores e autores" visavam a "glória não-efêmera" e que
se preocupavam em "elaborar obras duráveis para além da aprovação
instável dos contemporâneos". O atual objetivo seria essencialmente
a saudável "busca obstinada do sucesso imediato". O "critério
último" é "a curva das vendas [...]".
Nesse novo mundo, o
sucesso de uma 'escola de pensamento' autonomiza‑se do debate que se
trava nas fronteiras de sua disciplina, pois sua transformação em
mercadoria de grande uso é decisão estranha a essa esfera.
Entretanto, a nova especificidade da obra historiográfica como
produto mercadológico não a reduz à situação de uma mercadoria como
qualquer outra. Não é apenas a vendabilidade do objeto
historiográfico que determina sua seleção, transformação e
realização como mercadoria. A vendabilidade de uma obra é
pré-condição na decisão de edição condicionada ao seu caráter
apologético.
Miséria Metodológica
A 'Nova História'
transformou-se em literatura de massa porque veiculava conteúdos
próprios às necessidades ideológicas do capitalismo em sua fase
senil. Em relação a outras correntes historiográficas conservadoras,
a 'Nova História' destaca‑se por suas preocupações metodológicas.
Sobretudo se considerarmos que uma de suas principais
características é precisamente a proposta da inexistência de
métodos historiográficos. A miséria metodológica e o recurso aos
grandes temas do irracionalismo moderno são algumas de suas
características marcantes. Pobreza que ilustra uma essencial faceta
da vida cultural dos nossos dias.
A obra de Paul Vayne,
Como se escreve a história constitui ótimo exemplo da miséria
metodológica e do uso sistemático das grandes propostas
irracionalistas. Para o autor, a história não é uma ciência mas uma
espécie de gênero literário que se distingue da ficção por ser
escrita a partir de uma documentação histórica. Sua reflexão sobre o
devir histórico assenta-se sobre o tradicional recurso
irracionalista-burguês de dividir a natureza em fenômenos materiais,
que desvelam suas leis e podem ser conhecidos, e fenômenos sociais
'singulares', estranhos a qualquer 'regularidade'.
O velho e
carcomido subjetivismo é atualmente requentado por
interpretações pretensamente apoiadas nos avanços da ciência. Em
¿Qué sabes de tu
cerebro? 60
respuestas a 60 preguntas, o neurocientista Francisco J.
Rubia aceita que exista "uma realidade exterior” mas propõe que
“tudo o que vemos, ouvimos, cheiramos, sentimos está dentro de nós
mesmos”. Portanto, não é a realidade, mas “o próprio cérebro que
está sempre falando com a gente". Para ele, "graças às
transformações que os receptores dos estímulos externos realizam,
graças à tradução dos estímulos físicos para a linguagem cerebral
dos impulsos nervosos, fazemos com que surja essa realidade, esse
mundo que não está fora, mas dentro do cérebro".
Como lembrava V. Lenin em Materialismo e empiro-criticismo,
por mais solipsistas que sejam no mundo das idéias, os ideólogos da
não correspondência entre representação e objeto representado não
arriscam minimamente suas vidas na comprovação de suas propostas.
Afastam-se apressados do meio da rua quando a representação de um
caminhão dirige-se aceleradamente em direção ao seu eu absoluto!
Dessa singularização
absoluta do fato histórico, Paul Vayne deduz o caráter subjetivo da
análise histórica. Trabalhando com fenômenos singulares desprovidos
de qualquer determinação essencial ou dominante, o historiador
debruça-se sobre o passado e o reconstitui determinado por seus
interesses e curiosidades pessoais. Como os 'cortes' na
história tendem ao infinito, infinitas e aleatórias são as
abordagens e sínteses históricas, sempre válidas no seu relativismo
absoluto. A única objetividade da historiografia é que, após
realizar a escolha de um tema, "no interior do assunto escolhido, os
fatos e suas ligações são o que são [...]." Uma concessão ao
cientificismo da História que se dilui totalmente quando o autor
afirma que "a 'síntese' dos acontecimentos" faz-se rapidamente e sem
maiores problemas no espírito do historiador mais ou menos do mesmo
modo como quando se lê um jornal matinal! Portanto, um processo
analítico-sintético que se realizaria apoiado nos prejuízos e
conceitos semiconscientes e inconscientes do autor. Ou seja,
através do tratamento dos dados historiográficos apoiados no “senso
comum” do autor e de sua época. Essa visão reduz simplesmente o
método histórico às técnicas historiográficas – seleção,
crítica, organização, etc. da documentação.
Desqualificação da razão
como instrumento de conhecimento social; subjetivação da história;
eliminação das leis históricas tendenciais; redução da possibilidade
do conhecimento humano ao mundo das ciências econômicas e da
natureza são os axiomas irracionalistas sobre os quais desenvolve-se
a proposta historiográfica de Paul Veyne. São óbvias as
decorrências de tal filosofia da história: a história não é uma
ciência e portanto nada ensina e nada ilumina.
Sobretudo, tentar prever as orientações tendências do seu devir é
uma quimera. Em verdade, para esse autor, a literatura
historiográfica tem como única função satisfazer a curiosidade do
homem pelo específico. Tanto vale uma história das lutas sociais na
França contemporânea como outra sobre os jogos de salão no século
17. Compreende-se o por que da proliferação de histórias dos
perfumes, da moda, do beijo, do modo de caminhar, do tropeço, do ato
se coçar ...
Capitalismo Senil
O quietismo como estado
de espírito social constitui o grande denominador comum das
correntes irracionalistas que se expressam hoje nas ciências
sociais. As conseqüências gerais da crescente subjunção ao capital
das mais diversas esferas da vida social são apresentadas como
naturais e inelutáveis. O mundo perde sua historicidade e, como
lembra Lukács, em História e consciência de classe, a
sociedade capitalista torna-se "a única sociedade possível conforme
a 'natureza' do homem e a razão".
No relativo ao Primeiro Mundo e aos setores sociais
privilegiados, o corolário desse inativismo social é o mais
desenfreado cinismo individualista; no relativo ao Terceiro Mundo
e aos segmentos populacionais subalternizados, o pessimismo e o
individualismo autofágico.
Apenas o caráter
apologético das ciências sociais e o apoio institucional que recebem
das classes exploradoras não explicam a atual crise da razão e o
dinamismo das tendências irracionalistas. Causa fundamental desse
fenômeno tem sido a erroneamente chamada "crise do marxismo". Nas
últimas três décadas, a luta internacional entre o capital e o
trabalho desequilibrou-se nitidamente em favor da produção e da
ordem capitalista. A destruição dos países de economia planificada e
os graves retrocessos vividos mundialmente pelo campo do trabalho
determinam sérias decorrências políticas, ideológicas e sociais,
ainda não suficientemente analisadas.
A debilidade objetiva do
campo do trabalho reflete-se fortemente no campo ideológico. O
sintoma mais visível desse fenômeno e o neofisiologismo pró-liberal
de multidões de intelectuais e cientistas sociais antes
influenciados pelos setores subalternizados. Entretanto, tudo isso
em nada questiona a objetividade dos processos sociais e a
capacidade da razão materialista de compreendê-los e de prever suas
grandes tendências. Não devemos esquecer que "o ponto de partida
metodológico de toda tomada de posição crítica consiste justamente
na separação do método e da realidade, do pensamento e do ser".
São inquestionáveis e
dramáticas as atuais dificuldades da Humanidade em vencer suas
contradições essenciais, ou seja, a ordem capitalista que já
ingressou, definitivamente, em fase senil.
Entretanto, não podemos responsabilizar ou desqualificar a razão
humana e sua capacidade de interpretação da realidade objetivo
devido ao fortalecimento das tendências declinantes da Humanidade.
Fazê-lo seria confundir o devir histórico objetivo com a capacidade
humana de apreendê-lo teoricamente. E, mais grave ainda, comprometer
um fundamental instrumento de ação na possível e necessária
superação dessas contradições.
Mário Maestri, 60, é doutor pela Université Catholique de
Louvain, Bélgica, e professor do Curso de História e do
Programa de Pós-Graduação em História da UPF, Rio Grande do
Sul. E-mail:
maestri@via-rs.net
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