RAYMUNDO DE LIMA

Formado em Psicologia, Mestre em Psicologia Escolar (UGF) e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é professor do Depto. Fundamentos da Educação, na área de Metodologia da Pesquisa, da Universidade Estadual de Maringá (UEM)

 

 

 

Revolução ou revolta? - I -

(Um retorno a Albert Camus em seis pontos)

Raymundo de Lima

 

“...foi que admiti para mim mesmo que aquele era um movimento revolucionário de esquerda cuja vitória eu simplesmente não desejava...O que realmente transformou o mundo foi a revolução cultural da década de 1960” Eric HOBSBAWM[1]

"Assim que você pensar que sabe como são realmente as coisas, descubra outra maneira de olhar para elas" (Do filme: Sociedade dos Poetas Mortos)

 

Albert Camus, photograph by Henri Cartier-Bresson. (fonte: http://www.britannica.com/EBchecked/topic-art/91464/9167/Albert-Camus-photograph-by-Henri-Cartier-Bresson#tab=active~checked%2Citems~checked )1. Do ponto de vista histórico e existencial, diante das injustiças dos homens e das tragédias do mundo, os movimentos político-sociais se dividem entre duas atitudes de lutas: a revolta e a revolução. Por definição, a revolta se constitui um estado de espírito que é mais individual e subjetivo do que coletivo. “Ela é um conjunto perpétuo do homem e da sua própria obscuridade” (CAMUS, s.d., p. 69) [2]. A revolta é uma filosofia de vida e uma exigência estética, que toma consciência do absurdo e diz “não”. Já a revolução[3] - que chegou a formar uma “cultura revolucionária”, especialmente a marxista-leninista-guevarista -, se constitui numa ruptura necessariamente “explosiva”[4] com vistas ao projeto de transformação radical da organização da sociedade.

Para o revolucionário de esquerda[5] todas as injustiças e desigualdades têm como causa única as contradições concretas da sociedade capitalista, que precisam sofrer uma ruptura pela ação dos homens, dentro do processo histórico. O existencialismo de Albert Camus concebe um tipo de revoltado que entende a própria realidade como absurda. A sua linha de pensamento primeiramente toma como fonte inspiradora Prometeu e Sísifo, porque são exemplos clássicos de estilos arquetípicos de revolta do homem contra as imposições de uma realidade vivida existencialmente como injusta e absurda. Enquanto que Prometeu, pela sua ousadia sofre o castigo dos deuses, e não vê esperança de mudança na sua condição de dor e sofrimento, em Sísifo a esperança aparece no momento em que “ele toma consciência de sua tragédia e se revolta”, analisa Camus.

Assim, no pensamento existencialista de Camus a revolta tem dois significados: o primeiro encara tal atitude como reação natural diante da experiência do absurdo da vida. Trata-se de uma revolta metafísica do homem contra a sua condição e toda a criação. Esta revolta implica tanto num gesto de repulsa contra o criador quanto num ceticismo diante das soluções demasiadamente humanas. O segundo sentido é a revolta política ou histórica, por exemplo, do escravo que aspira sair da sua condição precária e submetida de mera sobrevivência. A revolta política implica numa atitude de suspeita permanente e rejeição para com as soluções simplistas de salvação da humanidade presentes nos discursos políticos e ideológicos de inspiração revolucionária.

A revolta camusiana nasce não apenas do oprimido, enquanto indivíduo ou classe social, mas de qualquer ser humano que vive uma condição de humilhação e de sofrimento imposto por outrem. Enquanto que o revolucionário apenas reconhece a revolta de uma classe – proletária – o revoltado camusiano reconhece a revolta do sujeito consciente visto como impedido de viver uma vida digna e feliz.  

Portanto, a atitude permanente de revolta proposta por Camus é a alternativa para o simplismo e mesmo o fanatismo[6] de algumas tendências pró revolução política-ideológica, porque “a revolta é em última análise o protesto contra a injustiça e incompreensível condição humana” (BARRETO, 1970, p.70), que continuará se reproduzindo depois de uma eventual revolução redentora, que uma vez no poder jamais se propões fazer uma nova revolução sobre si própria. A história tem comprovado que, os revolucionários – de esquerda ou de direita –, uma vez no governo, suspendem seu compromisso e coragem de fazer autocrítica e sufocam todos aqueles que ousam criticar o novo sistema.

2. Assim como toda revolução tende a ser um acontecimento trágico onde a própria revolução devora os próprios revolucionários, também a revolta pode ser tomada pela loucura e fanatismo. Os atos terroristas, por exemplo, são movidos por espíritos revoltados insanos, que negam o valor da vida, lembrando o sentido filosófico dionisíaco proposto por Nietzsche. Como não há projeto de governo no terrorismo – ao contrário da organização ideológica revolucionária que se sustenta na “guerrilha” – ou do que é atualmente chamado de “insurgência” como resistência a ocupação norte-americana e inglesa no Iraque -; a verdade é que o terrorismo se constitui mais como “passagem ao ato” do que como acting out[7]. Ou seja, o terrorismo no mundo contemporâneo não deve ser visto como portador de um projeto revolucionário, primeiro porque ele é movido por grupos não representativos do coletivo, segundo, porque a ausência de um discurso teórico que argumente seus atos criminosos revela sintoma de irracionalismo.

“O terrorista não é irracional. Sua mente exerce uma racionalidade tão absoluta que ignora a piedade, o respeito, a confiança dos seres humanos ‘comuns’. Ele só enxerga alvos e faz tabula rasa dos obstáculos (...). Ele é a sua própria lei sem desejo[8]“ (ROMANO, 2006p. 39),

Portanto, não há como excluir a interpretação psicológica ou psicanalítica da análise da revolta insana do terrorismo (ENZENSBERGER, 2008). 

Porém, a revolta como concebe Camus, “ela se torna positiva quando o revoltado toma consciência da profundidade da sua afirmação ao dizer ‘não’” (BARRETO, ibid, p.71). A revolta camusiana é positiva porque não nega a vida, mas sim, clama por uma existência plena, digna e feliz.

Enquanto que o revolucionário projeta sua causa num movimento social, calculando “uma ruptura drástica e explosiva” (KONDER, 2005), e projetando um tempo futuro de transformação radical da sociedade onde todas as questões políticas e sociais seriam totalmente resolvidas; já o sujeito revoltado, no seu ceticismo, entende que as pessoas não melhoram sua subjetividade e nem se tornam virtuosas depois de uma revolução, ainda que esta consiga efetivar uma transformação radical na sociedade. Portanto, a tragédia das revoluções, por um lado, consiste na incapacidade de dar sentido a existência humana e de manter vivo o espírito revoltado; também elas não conseguem de evitar que os próprios revolucionários sejam devorados pela marcha ensandecida da pós revolução.

A história ensina que todas as revoluções “traíram fundamentalmente o sentido da re-volta...” (KRISTEVA, 1999, p.102), sobretudo, da revolta expressa em forma de crítica na literatura, na filosofia, e nas artes em geral. Ainda que o espírito de revolta não venha necessariamente se organizar em um movimento revolucionário, se o faz, corre sempre o risco que perder o sentido original da re-volta, isto é, “como retorno-virada-deslocamento-mudança...[isto é] a possibilidade de questionar seu próprio ser, de buscar-se a si mesmo (se quaerere; quaestio mihi factus sum) é dada por esta atitude ao ‘retorno’, que é simultaneamente rememoração, interrogação e pensamento” (KRISTEVA, op.cit., p.101).

3. O sentido da revolução está associado ao messianismo religioso (estabelecer o Reino de Deus sobre a terra). Para alguns autores (LOWITH, apud LÖWY, p.395), o messianismo revolucionário, sobretudo o messianismo marxista, tem origem no “profetismo judaico” (sic). Não somente porque K. Marx, W. Benjamin, e tantos outros eram judeus; e não importa se eles diziam ser agnósticos ou ateus, mas sim, é fato que suas idéias foram influenciadas pelo profetismo judaico de um povo escolhido teria a missão histórica que salvar a humanidade[9]. O desejo revolucionário de realizar o Reino de Deus na terra extrapola a suposta concepção científica do sistema teórico que pretende orientar sua práxis e ser o início da história moderna. É curioso reconhecer que nesses escritos “teóricos” tudo aponta para que, após acontecer a revolução, cujo protagonista deve ser o povo escolhido pela história[10] – o “proletariado”, a classe oprimida – será restaurada a harmonia originária do paraíso perdido. Assim, para além de ser uma utopia, o comunismo se faz uma teologia, porque vislumbra a restauração de um paraíso na terra, da crença do progresso permanente, do domínio da classe proletária ficcionada como unitária e genuinamente democrática tanto no pensamento como na ação de fornecer a felicidade para todos.

Desaparecerá o Estado na fase comunista, vaticina Althusser. Aqui se estabelece um contra-senso: com o comunismo extingue-se a política. Extinta a política, suprime o pluralismo das idéias, o diálogo livre, o debate sem medo, e o direito de revolta dos descontentes (ou será que o novo sistema será pródigo em atender a necessidade e o desejo de todos?). Continuará em movimento dialético uma sociedade que vive numa Sangri-lá, onde todos têm acesso ao pão e vinho, em que há unidade na totalidade, e a felicidade é de mão única? Deixariam de existir as contradições históricas? Seria o fim da dialética e da história?

No mínimo, parece ingenuidade imaginar que com o comunismo extingue-se a revolta. A revolta seria substituída pelo imperativo ético de “amor-ao-próximo”, como parte significativa do “sentimento oceânico” [11]de viver plenamente o desejo coletivo. Nessa etapa, não haveria forças pulsionais dos sujeitos e dos pequenos grupos cada qual com sua parcela de revolta (dionisíaca) contra um sistema totalitário (apolíneo)? Que lugar teria nesse sistema os sujeitos inquietos, impulsionados pelo hedonismo, libertarismo, anarquismo, consumismo, sindicalismo, entre outros ismos; que fazer com os inconseqüentes, perversos, fundamentalistas, gays e simpatizantes, etc? Quem ousaria se levantar contra a traição da dialética, contra a passividade, contra a resignação e os privilegiados do poder escudados por discursos carregados de slogans triunfalistas e palavras de ordens que obrigam todos a pensar de acordo com a linha oficial do pensamento único, sem classes?

A propósito, Löwy (1996) comenta o que Gershom Sholem escreve: “É preciso devolver o conceito de sociedade sem classes seu verdadeiro rosto messiânico, e isso no próprio interesse da política revolucionária do proletariado. É somente ao se dar conta dessa significação messiânica que este pode evitar as armadilhas da ideologia ‘progressista’ e entender que a sociedade sem classes não é o objetivo final do progresso, mas a realização – tantas vezes tentada em vão – de sua interrupção definitiva (LOWY, 1996, p.402 – grifo meu). (CONTINUA NO PRÓXIMO NÚMERO).

 


[1] HOBSBAWM, E. Tempos interessantes: uma vida no século XX. São Paulo: C. Letras, 2002, p. 288 e 290.

[2] Escreve Camus: “Tiro assim três conseqüências [da consciência angustiada sobre o absurdo] de são a minha revolta, a minha liberdade e a minha paixão. Pelo jogo da consciência, transformo em regra de vida o que era convite à morte – e recuso o suicídio” (CAMUS, s.d., 80). Vale aqui citar um pedaço da obra para melhor exemplificar: "Ao protestar contra a condição naquilo que tem de inacabado, pela morte, e de disperso, pelo mal, a revolta metafísica é a reivindicação motivada de uma unidade feliz contra o sofrimento de viver e morrer. (...) Ao mesmo tempo em que recusa sua condição mortal, o revoltado recusa-se a reconhecer o poder que o faria viver nesta condição. O revoltado metafísico, portanto, certamente não é ateu, como se poderia pensar, e sim obrigatoriamente blasfemo. Ele blasfema, simplesmente em nome da ordem, denunciando Deus como o pai da morte e o supremo escândalo" CAMUS, L'homme révolté – apud  http://pt.wikipedia.org/wiki/L%27homme_r%C3%A9volt%C3%A9 [negrito meu].

[3] O termo “revolução” é empregado inicialmente na astronomia, indicando o movimento circular dos corpos celestes que voltam assim a seu ponto de partida, p. ex., a revolução dos planetas em torno do Sol. Copérnico intitula sua obra mais importante de “Sobre a revolução das órbitas celestes”. Posteriormente a palavra “revolução” é aplicada no contexto político significando reviravolta, uma alteração radical e profunda de uma sociedade em sua estrutura política, econômica, social, etc., geralmente por meios violentos e de forma súbita, representando um confronto entre uma ordem anterior e um novo projeto político-social. Ex.: a Revolução Francesa de 1789, a Revolução Russa de 1917. a Revolução Cultural de Mao Tse Tung. O termo é empregado também para designar uma ruptura de algum processo existente, uma mudança radical, ou o surgimento de um fato novo, ou uma nova forma de agir que altera a situação anterior. Ex.: a revolução industrial nos séculos 18 e 19, a revolução nos costumes, a revolução na pintura, a revolução na música, etc. (Cf.: JAPIASSU & MARCONDES, 1991, p. 214).  

[4] Segundo Konder (2005), haveria duas concepções de esquerda revolucionária: aquela de linha marxista-leninista, onde a revolução necessariamente é uma ruptura drástica e explosiva, marcada por derramamento de sangue, e a linha gramsciana que via o revolucionamento da sociedade capitalista como um processo histórico. Tomamos a primeira concepção como a mais “radical” e aquela que se efetivou, começando pela revolução francesa e terminando com a revolução bolchevique, de 1917. A visão deixada pelas revoluções pró marxistas ou socialistas, ocorridas no séc. 20, estão marcadas pela truculência de lideres “revolucionários” conduzindo uma massa talvez mais apaixonada pela idéia de revolução, da revolução concebida como um teatro proporcionador de catarse de uma massa revoltada com as injustiças históricas. Ainda que essa massa estivesse bem organizada para o ato de ruptura explosiva, raras vezes provou que estava verdadeiramente preparada para enfrentar os desafios da pós-revolução.

[5] Para Bernard Henry-Levy (entrevista ao Milênio/ Globo News-2007), é preciso reconhecer que a idéia de revolução não é privilégio da esquerda, especialmente da esquerda marxista, que entendemos ser fundadora de uma cultura revolucionária.  Observa esse autor que na Europa sempre houve duas direitas: a direita conservadora e direita revolucionária. O fascismo também prega a ruptura ou a revolução. Ou seja, a ruptura (revolução) nunca foi o diferencial entre direita e esquerda. A idéia de mudança para o futuro a partir da revolução redentora também fez parte da pregação da direita fascista italiana, por exemplo, com Marinetti, entre outros. Nesse artigo, privilegiamos a idéia de revolução como bandeira da esquerda auto denominada “revolucionária”, ou seja, anti “reformista”.  

[6] Hosbawm (2002) faz um breve levantamento dos movimentos revolucionários ocorridos no século 20. A maioria poderia ser tipificada de: “romantismo revolucionário” (Che Guevara/ Angola e Bolívia), “lunáticos extremistas do marxismo-leninismo” (“Sendero Luminoso/ Peru), “porralouquismo comunista” (Brigadas Vermelhas/ Itália), “Gangue de Baader-Meinhof” tipificação dada pelo historiador inglês a facção do Exército Vermelho (Alemanha), o “delírio comunista genocida” do Kmer Vermelho (de Pol Pot/ Camboja) e o “fanatismo de massa da Revolução Cultural de Mao”.

A Revolução Cultural Proletária empreendida na China entre 1966 e 1968, talvez seja o mais emblemático caso de fanatismo de massa do século 20. O Livrinho Vermelho era empunhado por multidões, em todos os cantos da China, pregando a palavra de Mao, com sua foto em todos os lugares, e os Guardas Vermelhos se encarregavam de publicamente estigmatizar, humilhar, e condenar à morte, promover os famosos expurgos dos chamados “inimigos do povo”. Numa passagem, o Livrinho Vermelho do Presidente Mao, afirmava: “A revolução não é o convite para um jantar, a composição duma obra literária, a pintura dum quadro ou a confecção de um bordado; ela não pode ser assim tão refinada, tão branda, tão afável e cortês, comedida e generosa. A revolução, é uma insurreição, é um ato de violência pelo qual uma classe derruba a outra” (apud MONDAINI, 2004, p.212.; Tb: O LIVRO VERMELHO, São Paulo: Global, s.d., p. 12-3).

Fernando Gabeira comenta: “Talvez a repercussão mais profunda da Revolução Cultural no Ocidente foi a guinada de muitos intelectuais que resolveram reeducar-se pelo trabalho manual, abandonando suas tarefas e empregando-se em fábricas. Alguns relatos desse período sobreviveram. A idéia de mergulhar no trabalho manual e compartilhar o destino das massas exerceu um grande fascínio e representava, na verdade, uma opção que conferia status entre a esquerda (...) O sonho de purificar ideologicamente a China foi para o espaço. Sobrou para a extrema esquerda que pagou alto pela aventura e mais tarde foi estigmatizada como a Camarilha dos Quatro. De novo um número, mostrando que a Revolução Chinesa ainda espera um intérprete versado em numerologia. (GABEIRA, 1999).

[7] A psicanálise conceitua o acting out  [ato] como "um comportamento impulsivo [inconsciente] que se exprime sob a forma de uma ação" (Cf.: CHEMAMA, p. 8). Para Lacan, "um ato é sempre significante(...), permite ao sujeito se encontrar, no a posteriori, radicalmente transformado, diferente do que tinha sido antes desse ato"(Ibid., p. 8). Segundo Lacan, haveria uma diferente entre o acting out e a passagem ao ato. Enquanto que o acting out é uma conduta assumida por um sujeito, se dirige para alguém, querendo dizer algo em ato, logo, sendo passível de interpretação;  a  passagem ao ato “é um agir impulsivo inconsciente, e não um ato (...) e está situada do lado do irrecuperável, do irreversível, sobre o fundo de desespero, demanda feita por um sujeito que só consegue se vivenciar como um dejeto a evacuar ” (CHEMAMA, p. 09); ela é sempre a ultrapassagem da cena, para além do real; é onde  o sujeito se exclui e recusa uma elaboração. A passagem ao ato “é a revolta apaixonada contra a incontornável divisão do sujeito. É a vitória da pulsão de morte, o triunfo do ódio e do sadismo. Também é um preço muito caro, sempre pago para sustentar o inconscientemente uma posição de domínio, na alienação mais radical, pois o sujeito está mesmo prestes a pagá-la com sua vida” (CHEMAMA, ibid., p. 9-10). Desse modo, o fanatismo decorrente de uma crença fundamentalista se recusa fazer contextualização com a realidade, também é uma recusa ao diálogo; nesse sentido, este poderia ser considerado um acting out, mas se for levado ao extremo de um ato terrorista, que como tal elege qualquer ser humano (crianças, mulheres, velhos) como culpados e vítimas, fazendo “a vitória da pulsão de morte, o triunfo do ódio e do sadismo”, cairia [o fanatismo e o terrorismo] pelo lado da passagem ao ato.

[8] Lembrando o magistrado Daniel Schreber (1842-1911), caso que desafiou a psicanálise de Freud, Romano (ibid) considera-o “grande símile dos terroristas”, porque “só ele, e só ele, [acha que] possui a chave da justiça e do ‘justiçamento’”. Na verdade, “seu” justiçamento condena à morte todos indistintamente: militares e civis, crianças e velhos, mulheres e homens, bichos, a natureza. Schreber escreve: “Tudo o que ocorre refere-se a mim. Eu me converti para Deus no homem absoluto ou no único homem, em torno do qual tudo gira”.

[9] Nietzsche, em A genealogia da Moral, escreve: “A impotência faz crescer neles [judeus] um ódio monstruoso, sinistro, intelectual e venenoso. Os grandes vingativos, na história foram sempre sacerdotes (...). Os judeus, com uma lógica formidável, atiraram por terra a aristocrática equação dos valores “bom”, “nobre”, “poderoso”, “formoso”, “feliz”, “amado de Deus”. E, com o encarniçamento do ódio afirmaram: “Só os desgraçados são bons; os que sofrem, os necessitados, os enfermos, são piedosos, são os benditos de Deus; só a eles pertencerá a bem-aventurança; pelo contrário, vós, que sois nobres e poderosos, sereis por toda a eternidade os maus, os cruéis, os cobiçosos, os insaciáveis, os ímpios, os réprobos, os malditos, os condenados...” (GM, cap. VII).  

[10] Ao substituir “Deus” e “judeus” pela “História” e “proletariado”, as teorias revolucionárias representam um grande avanço epistemológico. Contudo, no fundo, a “fantasia da eleição divina” (sic) é formada pela crença na revelação divina e incorporada ao imaginário dos povos. Suas conseqüências atualizam-se na contemporaneidade das religiões e das concepções teóricas mais ideológicas do que verdadeiramente científicas. Cf.: BECKER, S. A fantasia da eleição divina. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1999.

[11] “Sentimento oceânico” é um termo usado por Freud em “O futuro de uma ilusão”(1927). Sobre o paradoxo do deve ‘amar o próximo’ ver em “O mal-estar na civilização” (1929), cap. 5.

   

 

 

 

 

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