Revolução ou revolta? - I -
(Um retorno a Albert Camus em seis pontos)
Raymundo de Lima
“...foi que admiti para
mim mesmo que aquele era um movimento revolucionário de
esquerda cuja vitória eu simplesmente não desejava...O que
realmente transformou o mundo foi a revolução cultural da
década de 1960” Eric HOBSBAWM
"Assim que
você pensar que sabe como são realmente as coisas, descubra
outra maneira de olhar para elas"
(Do filme:
Sociedade dos Poetas Mortos)
1.
Do ponto de vista histórico e existencial, diante das injustiças
dos homens e das tragédias do mundo, os movimentos
político-sociais se dividem entre duas atitudes de lutas: a
revolta e a revolução. Por definição, a revolta
se constitui um estado de espírito que é mais individual e
subjetivo do que coletivo. “Ela é um conjunto perpétuo do homem
e da sua própria obscuridade” (CAMUS, s.d., p. 69)
.
A revolta é uma filosofia de vida e uma exigência estética, que
toma consciência do absurdo e diz “não”. Já a revolução
- que chegou a formar uma “cultura revolucionária”,
especialmente a marxista-leninista-guevarista -, se constitui
numa ruptura necessariamente “explosiva”
com vistas ao projeto de transformação radical da organização da
sociedade.
Para o revolucionário de esquerda
todas as injustiças e desigualdades têm como causa única as
contradições concretas da sociedade capitalista, que precisam
sofrer uma ruptura pela ação dos homens, dentro do processo
histórico. O existencialismo de Albert Camus concebe um tipo de
revoltado que entende a própria realidade como absurda.
A sua linha de pensamento
primeiramente toma como fonte inspiradora Prometeu e
Sísifo, porque são exemplos clássicos de estilos arquetípicos de
revolta do homem contra as imposições de uma realidade vivida
existencialmente como injusta e absurda. Enquanto que Prometeu,
pela sua ousadia sofre o castigo dos deuses, e não vê esperança
de mudança na sua condição de dor e sofrimento, em Sísifo a
esperança aparece no momento em que “ele toma consciência
de sua tragédia e se revolta”, analisa Camus.
Assim, no pensamento existencialista
de Camus a revolta tem dois significados: o primeiro encara tal
atitude como reação natural diante da experiência do absurdo da
vida. Trata-se de uma revolta metafísica do homem
contra a sua condição e toda a criação. Esta revolta implica
tanto num gesto de repulsa contra o criador quanto num ceticismo
diante das soluções demasiadamente humanas. O segundo sentido é
a revolta política ou histórica, por
exemplo, do escravo que aspira sair da sua condição precária e
submetida de mera sobrevivência. A revolta política implica numa
atitude de suspeita permanente e rejeição para com as soluções
simplistas de salvação da humanidade presentes nos discursos
políticos e ideológicos de inspiração revolucionária.
A revolta camusiana nasce não apenas
do oprimido, enquanto indivíduo ou classe social, mas de
qualquer ser humano que vive uma condição de humilhação e de
sofrimento imposto por outrem. Enquanto que o revolucionário
apenas reconhece a revolta de uma classe – proletária – o
revoltado camusiano reconhece a revolta do sujeito consciente
visto como impedido de viver uma vida digna e feliz.
Portanto, a atitude permanente
de revolta proposta por Camus é a alternativa para o simplismo e
mesmo o fanatismo
de algumas tendências pró revolução política-ideológica, porque
“a revolta é em última análise o protesto contra a injustiça e
incompreensível condição humana” (BARRETO, 1970, p.70), que
continuará se reproduzindo depois de uma eventual revolução
redentora, que uma vez no poder jamais se propões fazer uma nova
revolução sobre si própria. A história tem comprovado que, os
revolucionários – de esquerda ou de direita –, uma vez no
governo, suspendem seu compromisso e coragem de fazer
autocrítica e sufocam todos aqueles que ousam criticar o novo
sistema.
2. Assim como toda revolução
tende a ser um acontecimento trágico onde a própria revolução
devora os próprios revolucionários, também a revolta pode ser
tomada pela loucura e fanatismo. Os atos terroristas, por
exemplo, são movidos por espíritos revoltados insanos, que negam
o valor da vida, lembrando o sentido filosófico dionisíaco
proposto por Nietzsche. Como não há projeto de governo no
terrorismo – ao contrário da organização ideológica
revolucionária que se sustenta na “guerrilha” – ou do que é
atualmente chamado de “insurgência” como resistência a ocupação
norte-americana e inglesa no Iraque -; a verdade é que o
terrorismo se constitui mais como “passagem ao ato” do que como
acting out.
Ou seja, o terrorismo no mundo contemporâneo não deve ser visto
como portador de um projeto revolucionário, primeiro porque ele
é movido por grupos não representativos do coletivo, segundo,
porque a ausência de um discurso teórico que argumente seus atos
criminosos revela sintoma de irracionalismo.
“O terrorista não é irracional.
Sua mente exerce uma racionalidade tão absoluta que ignora a
piedade, o respeito, a confiança dos seres humanos ‘comuns’.
Ele só enxerga alvos e faz tabula rasa dos obstáculos (...).
Ele é a sua própria lei sem desejo“
(ROMANO, 2006p. 39),
Portanto, não há como excluir a
interpretação psicológica ou psicanalítica da análise da
revolta insana do terrorismo (ENZENSBERGER,
2008).
Porém, a revolta como concebe Camus,
“ela se torna positiva quando o revoltado toma
consciência da profundidade da sua afirmação ao dizer ‘não’”
(BARRETO, ibid, p.71). A revolta camusiana é positiva porque não
nega a vida, mas sim, clama por uma existência plena, digna e
feliz.
Enquanto que o revolucionário
projeta sua causa num movimento social, calculando “uma ruptura
drástica e explosiva” (KONDER, 2005), e projetando um tempo
futuro de transformação radical da sociedade onde todas as
questões políticas e sociais seriam totalmente resolvidas; já o
sujeito revoltado, no seu ceticismo, entende que as pessoas não
melhoram sua subjetividade e nem se tornam virtuosas depois de
uma revolução, ainda que esta consiga efetivar uma transformação
radical na sociedade. Portanto, a tragédia das revoluções, por
um lado, consiste na incapacidade de dar sentido a existência
humana e de manter vivo o espírito revoltado; também elas não
conseguem de evitar que os próprios revolucionários sejam
devorados pela marcha ensandecida da pós revolução.
A história ensina que todas as
revoluções “traíram fundamentalmente o sentido da re-volta...”
(KRISTEVA, 1999, p.102), sobretudo, da revolta expressa em forma
de crítica na literatura, na filosofia, e nas artes em geral.
Ainda que o espírito de revolta não venha necessariamente se
organizar em um movimento revolucionário, se o faz, corre sempre
o risco que perder o sentido original da re-volta,
isto é, “como retorno-virada-deslocamento-mudança...[isto é] a
possibilidade de questionar seu próprio ser, de buscar-se a si
mesmo (se quaerere; quaestio mihi factus sum) é dada por
esta atitude ao ‘retorno’, que é simultaneamente rememoração,
interrogação e pensamento” (KRISTEVA, op.cit., p.101).
3. O sentido da revolução
está associado ao messianismo religioso (estabelecer o Reino
de Deus sobre a terra). Para alguns autores (LOWITH, apud
LÖWY, p.395), o messianismo revolucionário, sobretudo o
messianismo marxista, tem origem no “profetismo judaico” (sic).
Não somente porque K. Marx, W. Benjamin, e tantos outros eram
judeus; e não importa se eles diziam ser agnósticos ou ateus,
mas sim, é fato que suas idéias foram influenciadas pelo
profetismo judaico de um povo escolhido teria a missão histórica
que salvar a humanidade.
O desejo revolucionário de realizar o Reino de Deus na terra
extrapola a suposta concepção científica do sistema teórico que
pretende orientar sua práxis e ser o início da história moderna.
É curioso reconhecer que nesses escritos “teóricos” tudo aponta
para que, após acontecer a revolução, cujo protagonista deve ser
o povo escolhido pela história
– o “proletariado”, a classe oprimida – será restaurada a
harmonia originária do paraíso perdido. Assim, para além de
ser uma utopia, o comunismo se faz uma teologia, porque
vislumbra a restauração de um paraíso na terra, da crença do
progresso permanente, do domínio da classe proletária ficcionada
como unitária e genuinamente democrática tanto no
pensamento como na ação de fornecer a felicidade para todos.
Desaparecerá o Estado na fase
comunista, vaticina Althusser. Aqui se estabelece um
contra-senso: com o comunismo extingue-se a política. Extinta a
política, suprime o pluralismo das idéias, o diálogo livre, o
debate sem medo, e o direito de revolta dos descontentes (ou
será que o novo sistema será pródigo em atender a necessidade e
o desejo de todos?). Continuará em movimento dialético uma
sociedade que vive numa Sangri-lá, onde todos têm acesso ao pão
e vinho, em que há unidade na totalidade, e a felicidade é de
mão única? Deixariam de existir as contradições históricas?
Seria o fim da dialética e da história?
No mínimo, parece ingenuidade
imaginar que com o comunismo extingue-se a revolta. A
revolta seria substituída pelo imperativo ético de “amor-ao-próximo”,
como parte significativa do “sentimento oceânico”
de
viver plenamente o desejo coletivo. Nessa etapa, não
haveria forças pulsionais dos sujeitos e dos pequenos grupos
cada qual com sua parcela de revolta (dionisíaca) contra um
sistema totalitário (apolíneo)? Que lugar teria nesse sistema os
sujeitos inquietos, impulsionados pelo hedonismo, libertarismo,
anarquismo, consumismo, sindicalismo, entre outros ismos; que
fazer com os inconseqüentes, perversos, fundamentalistas, gays e
simpatizantes, etc? Quem ousaria se levantar contra a traição da
dialética, contra a passividade, contra a resignação e os
privilegiados do poder escudados por discursos carregados de
slogans triunfalistas e palavras de ordens que obrigam todos
a pensar de acordo com a linha oficial do pensamento único, sem
classes?
A propósito, Löwy (1996) comenta o
que Gershom Sholem escreve: “É preciso devolver o conceito
de sociedade sem classes seu verdadeiro rosto messiânico, e isso
no próprio interesse da política revolucionária do proletariado.
É somente ao se dar conta dessa significação messiânica que este
pode evitar as armadilhas da ideologia ‘progressista’ e entender
que a sociedade sem classes não é o objetivo final do
progresso, mas a realização – tantas vezes tentada em vão – de
sua interrupção definitiva” (LOWY, 1996, p.402 – grifo
meu). (CONTINUA NO PRÓXIMO NÚMERO).
A Revolução Cultural
Proletária empreendida na China entre 1966 e 1968,
talvez seja o mais emblemático caso de fanatismo de
massa do século 20. O Livrinho Vermelho era empunhado
por multidões, em todos os cantos da China, pregando a
palavra de Mao, com sua foto em todos os lugares, e os
Guardas Vermelhos se encarregavam de publicamente
estigmatizar, humilhar, e condenar à morte, promover os
famosos expurgos dos chamados “inimigos do povo”. Numa
passagem, o Livrinho Vermelho do Presidente Mao,
afirmava: “A revolução não é o convite para um
jantar, a composição duma obra literária, a pintura dum
quadro ou a confecção de um bordado; ela não pode ser
assim tão refinada, tão branda, tão afável e cortês,
comedida e generosa. A revolução, é uma insurreição, é
um ato de violência pelo qual uma classe derruba a
outra” (apud MONDAINI, 2004, p.212.; Tb: O LIVRO
VERMELHO, São Paulo: Global, s.d., p. 12-3).
Fernando Gabeira comenta:
“Talvez a repercussão mais profunda da Revolução
Cultural no Ocidente foi a guinada de muitos
intelectuais que resolveram reeducar-se pelo trabalho
manual, abandonando suas tarefas e empregando-se em
fábricas. Alguns relatos desse período sobreviveram. A
idéia de mergulhar no trabalho manual e compartilhar o
destino das massas exerceu um grande fascínio e
representava, na verdade, uma opção que conferia
status entre a esquerda (...) O sonho de purificar
ideologicamente a China foi para o espaço. Sobrou para a
extrema esquerda que pagou alto pela aventura e mais
tarde foi estigmatizada como a Camarilha dos Quatro. De
novo um número, mostrando que a Revolução Chinesa ainda
espera um intérprete versado em numerologia. (GABEIRA,
1999).