
LEANDRO
KONDER
Filósofo
marxista brasileiro. Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor da
Universidade Federal Fluminense e da Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro

Nota do editor:
Os
textos desta série foram publicados pelo autor no jornal carioca Tribuna
da Imprensa, ao longo do ano de 1990. No final de cada artigo
é indicada a data de publicação. Os artigos foram reunidos e
publicados em "Intelectuais brasileiros &
marxismo" (Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1991).
O autor, a quem agradecemos, autorizou a publicação na REA.
Também registramos o agradecimento ao Prof. Paulo Cunha.
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Intelectuais
Brasileiros & Marxismo
Roberto Schwarz (N. em 1938)
por Leandro Konder
Desde
muito cedo, Roberto Schwarz, filho de judeus austríacos, nascido na
Áustria em 1938, sentiu na pele a força dos preconceitos que a
sociedade brasileira cultiva teimosamente e disfarça com habilidade:
trazido muito cedo para o Brasil, ele ouvia piadinhas do tipo
“alemão batata / come queijo com barata”. Essa experiência
desagradável não chegou a ser traumática, não deixou ressentimentos,
mas deu ensejo a que se desenvolvesse nele a disposição de
compreender a nossa sociedade, a vontade de enxergar a fonte das
distorções, a causa dos preconceitos e das discriminações.
O campo que Roberto Schwarz escolheu
para suas incansáveis investigações foi o da produção cultural. E
nele o nosso crítico se concentrou na literatura: há mais de trinta
anos, ele vem estudando autores nacionais e estrangeiros.
Em 1965 – há um quarto de século! –
publicou seu primeiro livro de ensaios: A sereia e o desconfiado
(editora Civilização Brasileira). Abarcava uma gama vastíssima de
obras e temas, à luz de um quadro de referências teóricas
extremamente rico: discutia os limites do psicologismo na poética de
Mário de Andrade, comparava o Grande sertão de Guimarães Rosa
e o Doutor Faustus de Thomas Mann, analisava A metamorfose
de Kafka, Os demônios e O sósia de Dostoiévski, a
Emília Galotti de Lessing, O retrato de uma senhora de
Henry James e O pai Goriot de Balzac. O aparecimento do livro
causou certa perplexidade em alguns setores: como era possível que
um crítico jovem discorresse com tanta desenvoltura a respeito de
expoentes das literaturas alemã russa, francesa e norte-americana?
O itinerário de Roberto Schwarz revela
marcas de diversas proveniências: uma inspiração inequivocamente
marxista, que passa pela leitura de obras de Lukács, de Adorno, de
Brecht e de Walter Benjamin; e também o estímulo proveniente do
diálogo com Antonio Candido e com Anatol Rosenfeld. De Antonio
Candido lhe vieram indicações essenciais para um aproveitamento
criativo da teoria literária ao contexto nacional. E em Anatol
Rosenfeld ele encontrou a imagem de um precursor, de um intelectual
austríaco, judeu, que se interessava por filosofia e literatura, e
que – tal como ele – tinha sido posto pela vida neste Brasil tão
fascinante e tão perturbador, que o acolhera com simpatia e ao mesmo
tempo o discriminara, levando-o a sentir a melancólica sensação da
“miséria do intelectual diante da boçalidade do mito”.
Mas a história política do nosso país
acabou por lhe impor uma experiência análoga àquela que a invasão da
Áustria impusera a seus pais e a Anatol Rosenfeld: a ditadura
militar obrigou-o a se exilar na França. E Roberto interrompeu sua
participação in loco nos debates da vida político-cultural
brasileira.
As desgraças do exílio causaram, como
sabemos, verdadeira devastação nos corações e nas almas de muitos
brasileiros, democratas e socialistas de diversos matizes, que foram
forçados a interromper o que faziam aqui para passar vários anos no
exterior. Roberto, contudo, não se deixou abater: aproveitou a
permanência compulsória em Paris para fazer um doutorado, para
estudar, aprofundar suas reflexões e rever seus pontos de vista, no
esforço dialético de verificar quais as idéias que se renovavam e
quais as que precisavam ser arquivadas.
Em Paris, ele redigiu um artigo polêmico
sobre as vicissitudes da cultura e da política no Brasil dos anos
1964 a 1969, que veio a ser publicado (com grande repercussão) na
revista Temps Modernes, dirigida por Jean-Paul Sartre. O
artigo chamava a atenção para o fato de que a esquerda, derrotada em
1964, conseguira preservar certos espaços na sociedade brasileira
até o final de 1968 (ocasião em que foi decretado o Ato
Institucional nº 5), retardando, com isso, o aprofundamento de uma
autocrítica imprescindível à sua renovação (e ao seu ajuste de
contas com as ilusões “populistas”).
Somente no final dos anos setenta, com a
atenuação da repressão, Roberto Schwarz pôde voltar a marcar uma
presença mais efetiva nas discussões que se tratavam no nosso país.
em 1977, a editora Duas Cidades lançou o texto da sua tese sobre
Machado de Assis: Ao vencedor as batatas. E logo o trabalho
se tornou um clássico não só da crítica machadiana como da
literatura dedicada ao nosso século dezenove, em geral.
Em 1976 apareceu nova coletânea de
escritos do nosso autor, intitulada O pai de família e outros
estudos (ed. Paz e Terra), que reunia uma antiga (e divertida)
polêmica com o editoralista do jornal O Estado de S. Paulo
(Oliveiros S. Ferreira), o trabalho originalmente publicado em
Temps Modernes e artigos sobre temas tão variados como o romance
O amanuense Belmiro, o filme Os fuzis (de Rui Guerra)
e a verve de três novelas de Paulo Emílio Salles Gomes. Em 1983,
Roberto organizou um volume que continha trabalhos de diversos
críticos a respeito de alguns dos escritores que, entre nós, falaram
da população dita “de baixa renda” (Os pobres na literatura
brasileira, editora Brasiliense). Comentando os resultados
obtidos pelos diferentes estudos, Roberto observou que os escritores
costumam deixar transparecer claros sintomas de “paternalismo” na
representação da pobreza e – com isso – “refletem” a “realidade” da
nossa sociedade, já que é ela, a sociedade brasileira, que é
induzida pela ideologia dominante a assumir uma postura
“paternalista” em relação aos seus “pobres”.
Essa tem sido uma preocupação constante
na crítica literária de Roberto Schwarz: ele não nega que a
literatura tenha sempre algo de “reflexo” da realidade social, mas
está sempre atento para as “fintas” desse “reflexo” (que às vezes só
é significativo quando passa pelo avesso da arte).
A desconfiança permanente que se
manifesta no trabalho do nosso crítico leva-o a ser muito cuidadoso
no que escreve e muito parcimonioso no que publica. Já houve quem
reclamasse do excesso de comedimento e o acusasse de ser pouco
produtivo. A acusação, no entanto, ficou esvaziada pela publicação
em 1987 de uma nova série de ensaios intitulada Que horas são?
(editora Companhia das Letras). O livro acolhia escritos dedicados,
entre outras coisas, à peça Santa Joana dos matadouros (de
Brecht), à poética de Oswald de Andrade, ao romance O nome do
bispo (de Zulmira Ribeiro Tavares), ao filme Cabra marcado
para morrer (de Eduardo Coutinho) e às limitações do
“nacionalismo” cultural. O texto que produziu maior impacto imediato
foi, provavelmente, a análise irônica do poema “Póstudo” de Augusto
de Campos. Acho provável, porém, que o ensaio mais notável seja
“Pressupostos, salvo engano, de Dialética da malandragem”,
pequena obra-prima de dialética, na qual Roberto mostra as
implicações da abordagem das Memórias de um sargento de milícias
por Antonio Candido: Roberto sublinha a importância do fato de
Antonio Candido ter demonstrado que, no romance de Manuel Antonio de
Almeida, a forma resultava da apreensão do próprio movimento
da sociedade brasileira.
Trata-se de um filão que o próprio
Roberto vem explorando com admirável persistência em sua obra: “a
junção de romance e sociedade se faz através da forma”.
E é esse princípio metodológico que está
no centro do novo livro do nosso ensaísta, que está sendo lançado
pela editora Duas Cidades: Um mestre na periferia do capitalismo
– Machado de Assis.
* * *
Já em Ao vencedor as batatas
(1977), Roberto Schwarz tinha começado a desenvolver sua
interpretação – altamente original – do que representava para nós a
obra de Machado de Assis. De certo modo, ele pressupunha toda uma
preparação histórica, que tornara possível o aparecimento do nosso
maior escritor. A preparação tinha sido estudada por Antonio
Candido, em Formação da literatura brasileira: a nossa
literatura, antes de constituir um “sistema”, tinha passado por um
momento “universalizante” e por um momento marcado pela preocupação
acentuada com “a cor local”. E Machado era a síntese dos dois
momentos anteriores.
Machado era homem do seu tempo e do seu
país; e se sentia desafiado a enxergar a época do ângulo do Brasil
(tanto quanto o Brasil do ângulo da época). Os intelectuais
brasileiros daquele período, postos a par do que acontecia na
Europa, eram liberais; no entanto, integrados na nossa sociedade
escravista, se acostumavam a conviver com os ritmos e as aberrações
do atraso. De um lado, eles adotavam o raciocínio econômico burguês,
comprometido com a busca eficiente do lucro; do outro, porém, eram
atraídos pelo “afrouxamento” proveniente da escravidão (o trabalho,
na sociedade escravista, não deve ser feito num mínimo de tempo; ao
contrário, o tempo precisa ser espichado, para encher e disciplinar
o dia do escravo). Machado via essas coisas e se dava conta de que
algo estava profundamente errado.
O desajuste a que o Brasil estava
condenado pela máquina do colonialismo só podia ser pensado através
do instrumental ideológico elaborado nos próprios centros da ação
colonizadora. As idéias, aqui, estavam “fora do lugar”. E Machado,
com seu ceticismo, procurou, em certo sentido, escapar à teia
mistificadora com que elas o envolviam. A ficção literária o ajudou.
Porque – como escreveu Roberto – “literatura não é juízo, é
figuração”.
Machado não se iludia com os mitos
anêmicos que bastavam para embriagar seus contemporâneos. Num
primeiro movimento, ele recua diante dos entusiasmos liberais e sua
perspectiva assume características de certo “paternalismo”
conservador mais tarde, num segundo movimento, que atravessa a sua
obra da maturidade, ele depura a sua lucidez e alcança, nas palavras
de Roberto, “a desilusão da desilusão”.
O autor de Um mestre na periferia do
capitalismo chama a atenção de seus leitores para a gritante
superioridade do nível estético das Memórias Póstumas de Brás
Cubas em comparação com toda a nossa literatura de ficção
anterior (inclusive com os romances iniciais do mesmo Machado). O
que foi que permitiu a Machado tornar-se um “mestre”, elevando a
matéria de um universo cultural provinciano a objeto de uma
literatura posta no mesmo plano que a dos melhores escritores do
mundo, naquele tempo?
Roberto analisa o começo do Brás
Cubas para apontar o alcance das impertinências, das
irreverências e dos espevitamentos machadianos. “O tom é de abuso
deliberado, a começar pelo contra-senso do título, já que os mortos
não escrevem. A dedicatória saudosa ‘ao verme que primeiro roeu as
frias carnes do meu cadáver’, arranjada em forma de epitáfio, é
outro desrespeito. Mesma coisa para a intimidade com que de entrada
é provocado o leitor, caso não goste do livro: ‘pago-te com um
piparote, e adeus’. E que dizer da comparação entre as Memórias
e o Pentateuco, sutilmente vantajosa para as primeiras,
gabadas pela originalidade? Trata-se, em suma, de um show de
imprudência, em que as provocações se sucedem, numa gama que vai da
gracinha à profanação.”
Para Roberto, se trata de uma regra de
composição da narrativa, na qual o narrador (Brás Cubas) demonstra
que não leva nada a sério e está disposto a não se deter diante de
coisa alguma. A volubilidade que lhe permite passar com desenvoltura
de uma atitude a outra, desmoralizando todas as regras, fazendo
pouco de todos os conteúdos e de todas as formas, é – na verdade – o
próprio princípio formal do livro. O narrador muda de opinião a cada
passo, troca de estilo conforme lhe dê na veneta. Com uma
versatilidade e uma autocomplacência insuperáveis, numa
“desidentificação sistemática de si mesmo”. E o nosso crítico
sublinha: “Não se trata de uma disposição passageira, psicológica ou
estilística, mas de um princípio rigoroso, sobreposto a tudo”.
O que a análise desenvolvida em Um
mestre na periferia do capitalismo demonstra é que exatamente
esse princípio formal reproduz (recria, na ficção literária) o
movimento assumido na história pela classe dominante na sociedade
brasileira. O ritmo acelerado da assimilação e da superação das
posturas e das idéias, a alternância entre o entusiasmo pelas
“novidades” e o tédio logo sentido em relação ao que foi adquirido
com facilidade e sumariamente descartado, o reconhecimento e a
banalização dos antagonismos e a volubilidade desrespeitosa
constituíam, por assim dizer, a conduta habitual das elites do nosso
país. “A vida brasileira impunha à consciência burguesa uma série de
acrobacias que escandalizam e irritam o senso crítico.” Machado,
impotente para se insurgir contra o que via, teve a genialidade de
assimilar o movimento sinuoso e explicitá-lo em sua literatura,
abrindo espaço para a “expansão do capricho” no romance e, com isso,
levando-o a aparecer com nitidez, em todas as suas características
essenciais (inclusive naquelas que costumam ser camufladas, tidas
como inconfessáveis).
Pegando carona no princípio estilizador
da volubilidade, Roberto caracteriza o admirável senso crítico, o
discernimento histórico e social do romancista, que o leva a
cultivar, em alguns momentos, a arte de trair sua própria classe (a
burguesia). Machado, segundo o crítico brasileiro, teria algo em
comum com Baudelaire, que, na avaliação feita por Walter Benjamin,
teria às vezes agido como “um agente secreto: um agente da
insatisfação secreta da sua classe em relação à própria dominação
dela”.
Machado não pode empunhar armas para
combater a prepotência, o autoritarismo, a irresponsabilidade e a
insensibilidade dos ricos e dos poderoso; mas soube, melhor do que
qualquer outro escritor do seu tempo, desvelar essas peculiaridades,
fazê-las sair de seus esconderijos ideológicos. Nas Memórias
póstumas de Brás Cubas, “a volubilidade narrativa torna
rotineira a ambigüidade ideológico-moral dos proprietários,
diferentemente dos romances iniciais, onde esta tivera estatuto de
momento excepcional e revelação, com lugar crucial na progressão
dramática”.
Machado não enxergava alternativa para a
“escola da baixeza”; nem por isso, entretanto, se dispôs a cursá-la.
A desfaçatez estava na sociedade; ele apenas (e nesse “apenas” está
o enigma do poder da arte) re-criava, mimeticamente, a essência da
realidade social. E, por meio dessa re-criação, realizava ao mesmo
tempo uma façanha estética e uma vitória ética: nos proporcionava
uma visão mais verdadeira de nós mesmos e a possibilidade de, com
isso, assumirmos um compromisso mais crítico com a efetiva
preservação da dignidade humana na nossa sociedade.
3-7-1990
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