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GABRIELA DE SOUZA
HONORATO
Mestre e Doutoranda em Sociologia pela
UFRJ e Pesquisadora em Sócio-Economia da Engevix Engenharia S/A.

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Gerenciando
impactos sócio-econômicos:
o papel da Sociologia na implementação de usinas
hidrelétricas no Brasil
Gabriela de Souza Honorato
Partindo da hipótese
de que os Grandes Projetos de Investimento (GPI) consolidaram-se no
Brasil, a partir da década de 60, como uma política nacional para a
industrialização, e, com efeito, de modernização da sociedade
brasileira, é premissa fundamental admitir que os processos de
desenvolvimento das economias nacionais do mundo ocidental são
contraditórios, gerando, quase sempre, desequilíbrios sociais e
desigualdades. Assim, se a construção de usinas hidrelétricas,
historicamente foi pensada como plano de apoio a esse processo de
modernização, “estudos de impactos sociais e econômicos” que
quantifiquem e qualifiquem seus efeitos em uma dada localidade ou
contexto regional devem ser conduzidos. Este artigo tem por
objetivo, portanto, reforçar o papel da Sociologia nestes estudos,
oferecendo uma perspectiva teórica-metodológica de análise.
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No período do Estado
Novo emergiu um grande “surto” de incentivos fiscais governamentais
e investimentos para o processo de industrialização no Brasil. Mas
foi na década de 50, no segundo governo Vargas, que as ações
governamentais intensificaram-se, “desbancando” a economia agrícola
do café. Neste momento o Estado acelerou o ritmo das políticas de
infra-estrutura, transportes e energia. As Centrais Elétricas
Brasileiras (Eletrobrás) foram criadas em 1962, propiciando a
instalação de um grande número de hidrelétricas, mas sem que se
pensasse na amplitude de seus impactos para populações locais e
regionais em curto, médio e longo prazo. Pelo contrário,
acreditava-se que os benefícios se sobrepunham às conseqüências
negativas ao longo do tempo (SOUZA, 2005). Além disso, neste
período, jamais se tinha cogitado a possibilidade de pensar a
instalação de uma usina hidrelétrica como um campo de conflito e de
forças em disputa. Este campo envolve, pelo menos, três atores
principais: o Estado, visando garantir as condições fundamentais
para a viabilização de projetos em virtude da necessidade do aumento
da produtividade e crescimento econômico; empresas que buscam inovar
as tecnologias de produção; e as populações da região de instalação
que são impactadas de forma positiva e negativamente pelo
empreendimento.
Na década de 80,
entretanto, com a descompressão política e mobilização da sociedade
civil, houve uma mudança profunda no tocante à compreensão dos
impactos causados pela instalação de usinas hidrelétricas.
Populações atingidas, por exemplo, organizaram-se no Movimento
Nacional dos Atingidos por Barragens (MAB), questionando as ações
praticadas pelos empreendedores. Comunidades acadêmicas, através de
projetos de pesquisa passaram a apresentar dados que os
responsabilizavam quanto ao impacto ambiental e social em uma série
de regiões. Também instituições políticas e econômicas como o Banco
Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento passaram a
sugerir que se tornasse uma exigência os estudos de impactos
ambientais, incluindo os efeitos sócio-econômicos da implantação de
GPI. Assim, implementou-se a Política Nacional do Meio Ambiente (Lei
No. 6.938/81), com sucessivas regulamentações e complementações até
1988, quando da promulgação da nova Constituição Federal, que em seu
inciso quarto do artigo 225 exige, na forma de lei, que, para a
instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de
significativa degradação do meio-ambiente, a AIA – Avaliação de
Impacto Ambiental.
As primeiras
diretrizes para a AIA, no entanto, já haviam sido dadas em 1986, com
a criação do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), e também
com a publicação pela Eletrobrás do Manual de Estudos Ambientais dos
Sistemas Elétricos, adotando a metodologia proposta pela Companhia
Energética de São Paulo (CESP). Esta estruturava as ações ambientais
em quatro planos: levantamentos, desapropriações, enchimento e
utilização do reservatório. Adicionalmente, um trabalho de pesquisa
de campo deveria dar-se através de audiências com a população
atingida para levantamentos, prospecções e estudos destinados à
identificação, interpretação e previsão dos efeitos que cada ação do
empreender pode causar ao meio ambiente, incluindo aí, as condições
de vida de milhares de pessoas (SOUZA, 2005). É indispensável,
portanto, o caráter multidisciplinar da AIA, do EIA (Estudo de
Impacto Ambiental) e/ou do RIMA (Relatório de Impacto do Meio
Ambiente), com o intuito de corrigir, disciplinar e amenizar os
impactos ambientais e sociais advindos desses empreendimentos. A
soma de análises de especialistas de diferentes áreas do
conhecimento pode chegar a um excelente resultado.
A contribuição da
Sociologia numa análise multidisciplinar
Deve-se admitir que
a implantação de GPI em geral, e de usinas hidrelétricas, em
particular, é sempre um processo social, com efeitos complexos e
multidimensionais, compreendendo aspectos econômicos, políticos,
sociais, culturais e ecológicos relacionados em um campo de forças
de mútuas interações e condicionamentos. Cabe observar que em termos
sócio-econômicos, monitorar e gerenciar seus efeitos não se reduz a
providenciar a indenização e o deslocamento das populações das áreas
requeridas pela obra. Há necessidade de analisar não apenas os
efeitos imediatos, mas também, antever implicações e desdobramentos
laterais (SOUZA, 2005). SOUZA (2005) e SOUSA (2000) apresentam
esquemas interessantes que tratam do impacto ou desestruturação
sócio-econômica sofrida pelas populações locais. Apresento aqui, no
entanto, apoiado nestes autores, um quadro mais elaborado:
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Desestruturação
Social e Cultural (transtornos à administração pública):
Aumento de tensões e
conflitos; propagação de boatos; organização da
população local em movimentos; perda de identidade
social; perda de sentimento comunitário; mudanças nas
interações sociais cotidianas; transformações no estilo
de vida; perda de técnicas e matéria-prima da economia
artesanal; perda de marcos históricos; perda de valores
e sentimentos referidos a lugares; esvaziamento da
população da área inundada; alteração do padrão da
população urbana e rural; movimentos migratórios;
pressão sobre a infra-estrutura de educação,
preservação, lazer, saúde, saneamento e segurança
pública; problemas sociais: prostituição, gravidez
precoce, alcoolismo, etc. |
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Desestruturação Econômica:
Pressão
sobre os recursos naturais; especulação imobiliária;
elevação do custo de vida; perda de bens; transformações
no mercado de trabalho, provocando desemprego,
marginalização social, e/ou abertura de novos mercados;
falência de empresas; empobrecimento regional; perda de
recursos turísticos atuais e potenciais e/ou criação de
novas oportunidades; desequilíbrio entre oferta e
procura de bens e serviços no comércio; transformações
no comportamento do consumidor; abertura de novos
mercados; transformações na economia pesqueira; perda de
sistemas agropecuários; pressões sobre o uso do solo;
aumento de pequenos produtores; surgimento de economia
marginal/informal; endividamento; pauperização, etc. |
Se os estudos de
impactos sócio-econômicos têm por objetivo pensar de que forma um
GPI impacta e no que impacta as dinâmicas sócio-econômicas de
populações, deve-se não apenas atentar para minorias, como é o caso
de inúmeros trabalhos que apontam os efeitos sofridos por sociedades
indígenas diante da implementação de um empreendimento de grande
porte, como é o caso das usinas hidrelétricas, mas também, para
fenômenos sociais e econômicos mais amplos. De vinte trabalhos
consultados, constando na última seção deste artigo (Bibliografia),
nenhum deles se preocupou em avaliar qualquer um dos itens
enquadrados acima, por exemplo: aumento de gastos públicos e
privados, perda de atividades, aumento da incidência de doenças,
geração de empregos, aumento da violência, prostituição, migração,
entre outras questões, como também, benefícios sociais.
Técnicas de
levantamento de dados qualitativos tal como entrevistas
semi-estruturadas e em profundidade, registro de depoimentos
oficiais e não-oficiais, e reconstrução da memória, são essenciais
para traçar a “arquitetura” deste campo de forças, identificando,
assim, demandas, reivindicações, necessidades reais e “não-reais”,
etc., de forma a promover apoio e cooperação (voluntária ou não) do
empreendedor e das localidades, induzindo o comprometimento de
recursos e estratégias variadas a partir de decisões coletivas. A
delimitação qualitativa, sem que haja perda do rigor científico, de
visões do espaço social e de estratégias de imposição desta visão,
permitiria compreender o princípio e a eficácia destas mesmas
estratégias pelos quais os agentes têm em vista conservar ou
modificar o espaço.
A análise
sociológica, desta forma, pode contribuir positiva, sistemática,
objetiva e cientificamente no desenho das forças em jogo. Pode
contribuir também para identificar as ideologias que orientam a ação
dos agentes, ajustando-as, no caso, para uma cooperação ou
assimilação ao empreendimento que está em andamento. Este
ajustamento, entretanto, como observa Colito (2000) não deve ser
feito por contatos superficiais, reuniões ligeiras, convocadas em
cima da hora, sob a coordenação de representantes com linguagem
técnica de difícil compreensão. A autora mostra que estas não são as
formas mais adequadas de deixar a população bem informada,
esclarecer dúvidas e mostrar benefícios que a construção da usina
hidrelétrica trará.
Haveria pelo menos
três grandes perspectivas de gestão do meio ambiente, segundo
QUINTAS (2006): uma ecocêntrica, uma antropocêntrica e a da
sociedade sustentável. Esta última, o grande paradigma corrente,
aponta a necessidade de conservação dos recursos naturais, de seu
uso mais racional e criterioso, melhorando, do mesmo modo, a
qualidade de vida de uma população, o que implica numa redefinição
das relações “homem-natureza”. Hoje, a energia elétrica é um dos
sistemas que se enquadram nos conceitos de desenvolvimento
sustentável. Desta forma, os impactos ou conseqüências de
empreendimentos hidrelétricos também devem ser sustentáveis; devem
apoiar-se em indicadores objetivos e evidências qualitativas (ou
seja, variáveis intangíveis matematicamente), a re/constituição das
condições de vida dos atingidos pelo empreendimento (incluindo
aqueles que se encontram empregados no empreendimento), apontando
efeitos positivos e negativos. Deve analisar-se, sobretudo, o custo
e o benefício social de forma objetiva (SOUSA JUNIOR; REID & LEITÃO,
2005) e a percepção da dinâmica sócio-econômica da vida dos
envolvidos.
A identificação e o
tratamento da “negociação”, isto é, das interações entre os atores
envolvidos - o empreendedor, trabalhadores de distintos níveis de
escolaridade direta e indiretamente empregados na execução do
empreendimento, grupos locais, tais como famílias em reassentamento,
lideranças comunitárias e religiosas, associações de moradores,
grupos e agentes políticos (prefeitos, secretários, diretores de
hospitais e escolas, etc.), grupos empresariais (de diferentes
ramos, indo do mercado imobiliário ao do lazer e entretenimento),
entre outros, são de fundamental importância para que um conjunto de
ações gere reciprocidade e confiança, potencializando os resultados
esperados das partes envolvidas. Respostas exigem planejamento e
análise.
Segundo BARBOSA,
BUSTILHOS & SOEIRO (1998), do Departamento de Operações Sociais do
BNDES, uma visão multifocal e uma abordagem integrada são mais
eficazes para solucionar desafios apresentados por intervenções que
exijam gerenciamento sócio-ambiental. Mas, o levantamento de dados
estatísticos ou quantitativos não alcança a configuração de
concepções e estratégias que tendem ou não a convergir aos objetivos
do empreendedor e às ações que lhe cabem na gestão dos impactos
sócio-econômicos. Igualmente, intervenções feitas sem um diagnóstico
local preciso da área em foco e sem que os atingidos dêem sentido às
suas próprias ações, e manifestem suas necessidades e expectativas,
concretiza-se, por vezes, em parcialidade de soluções, além do
efeito “sub-cidadania”.
Desta forma, não se
deve ignorar a compreensão das particularidades cabíveis à região,
atribuindo necessária relevância às relações sociais histórica e
estruturalmente construídas e enraizadas no espaço social em
questão, como também a identidade regional nos âmbitos econômico,
político e cultural. Além disso, a identificação das representações,
e, com efeito, das ações dos atores envolvidos que passam a ser
impactados pelo empreendimento será de extrema importância para a
proposição de diretrizes passíveis e possíveis de serem adotadas
pelo empreendedor. Administrações municipais, por exemplo,
demandarão apoio e financiamento para fazer frente às transformações
espaciais, ambientais, demográficas, econômicas, culturais e sociais
causadas. No entanto, deve pretender-se encontrar soluções
coordenadas, levando planejamento estratégico ao plano social,
desenhando mecanismos apropriados e articulados para a solução dos
problemas detectados, com a interlocução entre diversas
especialistas e ações coordenadas.
Enfim, neste pequeno
artigo procurei reforçar o papel da Sociologia na análise e
gerenciamento de impactos sócio-econômicos gerados pela implantação
de usinas hidrelétricas – um Grande Projeto de Investimento
brasileiro. Esta atividade, embora tenha ao longo do tempo, sido
realizada por profissionais de distintas áreas do conhecimento,
cabe, de forma mais apropriada, a um trabalho conjunto de sociólogos
e economistas, que amparados por arcabouço teórico e técnicas de
levantamento de dados cientificamente válidos, colaboram, de forma
mais precisa para a implementação de grandes projetos de engenharia
com um mínimo de custo para populações locais, e um máximo de
aproveitamento do investimento para a economia e a sociedade
brasileira.
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