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MARELI ELIANE GRAUPE
Doutoranda em Educação na Universidade
de Osnabrueck – Alemanha

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Meninos são uma catástrofe na escola: quota de
professores homens no magistério alemão pode ser uma solução?
Mareli Eliane Graupe
Na Alemanha há uma discussão para
aumentar o número de professores no magistério, que atualmente é
predominado pelo público feminino. O Ministro da Educação afirmou:
“nós temos que aumentar o número de professores homens no campo da
docência e seria ótimo se tivéssemos uma quota de homens”.
Mas, é importante ressaltar que ainda há muita polêmica referente
esse tema, porque alguns especialistas na área da educação
questionam qual importância assumiria o critério de qualidade da
profissionalização e do ensino, se for exigido uma quota de 50% de
homens e de mulheres no magistério.
A Alemanha planejou em 1996, juntamente
com a União Européia, que até 2006, aumentaria no mínimo 20% o
número de professores homens trabalhando no magistério alemão. Mas,
atualmente, constata-se que esse país ainda está distante de atingir
o seu objetivo e, que também não aumentou efetivamente o número de
homens nos cursos de profissionalização na área da educação.
Essa temática já está sendo discutida
internacionalmente, desde a década de 1990, como por exemplo, nos
Estados Unidos, na Grã-Bretanha e na Austrália. Dentre esses debates está a importância
da figura
masculina
na vida
escolar
da criança,
como
os homens se sentem
trabalhando no contexto educacional
e, também,
por
quê poucos
possuem interesse
em
atuarem no campo do
magistério.
Alguns autores como Diefenbach & Klein
(2002, p. 950) argumentam que a redução do número de professores no
magistério, principalmente nos anos iniciais do Ensino Fundamental,
possivelmente influenciou no desempenho escolar dos meninos e
cogitam a hipótese de que “o baixo índice do desempenho escolar
apresentado pelos guris durante a última década e a redução do
número de rapazes na taxa de conclusão do Ensino Médio, podem estar
relacionadas com a baixa quota de professores homens na docência”.
(Como podemos observar os dados do Gráfico: há um aumento do número
de professoras no magistério a partir da década de 60)

Abbildung SEQ Abbildung \ ARABIC 1: Gráfico com
número de Professoras/es no magistério alemão.
Por que é importante a imagem masculina
na educação de alunas/os? Sanem Kleff
defende dois possíveis argumentos para responder essa questão:
primeiro, a Alemanha necessita de professores homens para educar
meninos e meninas na escola, pois muitas crianças durante o
importante período da fase de desenvolvimento (cinco até a
puberdade) praticamente não possuem exemplos e, muito menos,
convivência com o sexo masculino em casa. A partir dos dados
publicados no site ‘getrennt, geschieden’, “80% das crianças
de pais separados vivem com a mãe”.
O segundo aspecto relevante, “é que a profissão docente é
constituída por aproximadamente 70% de mulheres, e nos anos iniciais
do Ensino Fundamental (Grundschule) este número ainda é maior” (BEUSTER,
2006, p. 11). Enfim, os garotos possuem poucas chances de se
espelharem numa figura masculina tanto em casa como na escola.
O autor alemão Frank Beuster, que
escreveu o polêmico livro “Os meninos são uma catástrofe na
escola”, afirma que “os guris apresentam maiores dificuldades do
que as gurias na escola e as professoras, na Alemanha,
não
estão preparadas para trabalharem com a co-educação” (BEUSTER,
op.cit., p. 20), isto é, educar em uma mesma sala meninos e meninas,
valorizando e provendo o desenvolvimento integral de cada sujeito.
Os meninos representam 60% da “Quota de
Evasão”
nas escolas. Eles são minoria no Ginásio, mas são maioria na Escola
Real e na Escola Principal. (Ginásio é um curso que prepara as/os
alunas/os para a Universidade, Escola Real oferece cursos
profissionalizantes e a Escola Principal é freqüentada por alunas/os
que possuem baixas capacidades de aprendizagem – essa escolha sobre
qual escola cada criança deve freqüentar é feita no quinto ano,
baseada no critério da nota). Esse é um sistema excludente que
separa os ótimos, bons e maus alunas/os em 3 diferentes tipos de
escola.
Conforme os resultados do PISA-Student,
os meninos apresentam dificuldades escolares, problemas de
comportamento social e, muitas vezes, os professores, principalmente
as professoras, não contribuem para amenizar essas questões. Por
isso, entre outros motivos, começou-se a discutir a temática
“Relações de Gênero” com mais freqüência nas políticas públicas de
educação na Alemanha. Mas, o que significa gênero neste contexto?
Gênero é um conjunto de expressões sobre aquilo que se pensa do
masculino e do feminino. Em outras palavras, a sociedade constrói
significados, símbolos, características para definir cada um dos
sexos. A essa construção social dá-se o nome de relações de gênero.
Resultante da forma de percepção de gênero masculino e feminino pela
sociedade, criam-se perspectivas específicas para homens e para
mulheres. A autora americana Joan Scott explica que gênero se refere
ao discurso da diferença dos sexos, isto é, “ele não se relaciona
simplesmente às idéias, mas também às instituições, às estruturas,
às práticas cotidianas como os rituais, e tudo o que constitui as
relações sociais” (SCOTT, 1998, p. 15).
É importante também ressaltar que os
garotos não devem ser considerados como perdedores ou vítimas do
feminismo. Mas, que a perspectiva de gênero dever ser trabalhada na
escola para incentivar os direitos iguais de desenvolvimento e
sucesso escolar de ambos os sexos. Para que isso aconteça, é
necessário que toda a comunidade, os pais, os professores e os/as
alunos/as participem efetivamente dessa proposta – “Educação de
qualidade para sexos diferentes”.
Possivelmente, muitos/as professores/as
ainda trabalham as questões de gênero, isto é, a construção social
sobre as diferenças existentes entre alunos/as, segundo os velhos
estereótipos (guris são agressivos, inquietos, bons alunos em
matemática, as garotas são meigas, etc.) ou ainda trabalham com os
meninos e as meninas como se elas/eles fossem iguais (perspectiva
neutra).
Nos últimos dois anos há uma intensa
discussão sobre
“geschlechtergerechte Schule”,
principalmente, depois que PISA-Student constatou que as escolas
alemãs não oferecem boas oportunidades para guris e gurias. Uma
escola co-educativa precisa oferecer diferentes atividades,
diferentes motivações para ambos os sexos, como por exemplo, as
meninas devem ser estimuladas para as áreas técnicas e os meninos
para as áreas sociais. Também, deve questionar como os papéis
femininos e masculinos são representados nos livros didáticos, nas
histórias infantis. Se a escola não considerar e questionar esses
aspectos ela não pode ser chamada de escola co-educativa, mas
somente de escola mista.
Na Alemanha, vários professores estão
abrindo as portas das suas salas de aula para especialistas
educacionais investigarem “qual é a melhor forma de educar
meninos e meninas promovendo o desenvolvimento pleno de ambos os
sexos”. Isso está acontecendo devido o intenso questionamento de
intelectuais e a importância que esse tema sobre “gesclechtergerechte
Schule” adquiriu na sociedade alemã.
A relevância da discussão sobre o pleno
desenvolvimento das/os alunas/os na escola é mais importante do que
aparenta ser, pois se não tivermos professoras/es capacitadas/os
para trabalharem com a educação de meninos e meninas, provavelmente
voltaremos a ter a monoeducação. Sem esquecer que na Alemanha, ainda
existe monoeducação, isto é, escolas separadas para garotos e para
garotas. Outros países, como por exemplo, os Estados Unidos estão
aumentando o número de escolas monoeducativas: em 1995 havia apenas
três escolas, mas, a partir de novembro de 2006, há 241 instituições
públicas.
Na Alemanha há um grupo de especialistas
que defendem a monoeducação e, argumentam através de pesquisas de
campo que, “as meninas possuem mais interesse e melhores notas nas
áreas técnicas, quando elas estão em grupos homogêneos. Os guris
possuem melhores capacidades de concentração e de aprendizagem nas
escolas monoeducativas” (KESSEL, 2002, p. 113-150). Algumas revistas
femininas, como por exemplo, a “Ema” já questionava em 1981 se a
co-educação produz o sucesso ou o fracasso das/os alunas/os (Macht
koedukation dunn?).
A co-educação (ou melhor, escola mista)
apresenta vários problemas. Mas, por outro lado, a monoeducação não
é uma solução para os problemas do fracasso dos guris na escola,
pois, homens e mulheres não vivem em sociedades separadas. Por que
teremos que educar meninos e meninas em escolas monoeducativas?
Algumas escolas co-educativas alemãs já oferecem algumas
disciplinas, como as técnicas, para grupos separados segundo o sexo.
Como por exemplo, as meninas terão aula de matemática, sem a
presença de meninos na sala e, vice-versa.
A autora Hannelore Faulstich-Wieland
alerta para a importância e a necessidade de estudos e discussões
sobre “geschlechtergerechte Schule”, isto é, uma escola com
direitos iguais de promoção para alunas/os. Segundo a autora,
“uma ‘geschlechtergerechte Schule’ deve reconhecer e promover o
sucesso integral de cada criança, questionando os estereótipos que
são considerados como típicos e normais para cada sexo”. Mas,
será que os profissionais da educação estão preparados para educar e
promover, ao mesmo tempo, o sucesso de meninas e meninos? Não estão,
mas a sociedade alemã já está integrando com muita ênfase a temática
de gênero nos cursos superiores e investindo em pesquisas de campo
nas escolas. Algumas entidades estaduais estão realizando projetos
educacionais que abordam essa problemática.
Também é importante questionar se o
sistema de quotas será uma solução para o aumento do número de
professores no magistério. Será que os homens possuem interesse em
atuar nesta área? A área educacional enfrenta ultimamente um certo
desprestígio social e desvalorização salarial. Esse processo não é
tão efetivo na Alemanha como no Brasil, pois um professor, que
trabalha nos anos inicias do Ensino Fundamental nas escolas alemãs,
recebe em torno de € 2.800,00 (= 6.999,00 reais) podendo chegar até
€ 5.000,00, dependendo do nível de qualificação, tempo de serviço e
função que atua na escola. Com este salário uma família consegue
viver bem na Alemanha e, segundo a pesquisa feita pela
OECD,
os professores alemães recebem um bom salário em relação aos
engenheiros, aos bancários e os médicos, que não ganham muito mais
que um professor.
As escolas não podem esperar até que 50%
das vagas sejam compostas por professores homens. Elas precisam
pensar numa estratégia para promover o sucesso não somente das
meninas, mas também dos meninos no processo escolar. Pois, se
atualmente as moças representam a maior quota de sucesso no ensino,
isso ainda não significa que elas alcançaram os altos cargos nas
empresas, nas áreas técnicas, na política. Não se pode esquecer que
ainda há muitas profissões predominadas pelos homens.
Referências
KLEFF, Sanem. Von der Gewerkschaft
Erziehung und Wissenschaft: Quotenmänner für die Erziehung. In:
Http://gruene-berlin.de/positionen/stach_arg/135/135-gespraech.htm,
19.05.08.
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Mulheres: tempos diferentes, discursos iguais – A luta continua por
uma vida mais justa e digna para todas/todos
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