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RODOLFO FIORUCCI
Mestrando em História pela
Universidade Estadual Paulista – UNESP/Assis

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A questão da memória na esfera pública global
Rodolfo Fiorucci*
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Resumo
Este trabalho propõe
discutir a questão da memória na sociedade global.
Coloca em pauta a desestruturação das formas
tradicionais de conservação e de transmissão da memória
intragrupos, causada em grande parte pelas novas mídias
e pela verticalização do território em escala mundial.
Para tanto, aborda a problemática da esfera pública que,
ao longo dos anos, sofreu mudanças importantes que
contribuíram para a formação do atual cenário
globalizado.
Palavras-chave:
Globalização, Esfera Pública, Memória.
Abstract
This
paper purpose to discuss the memory question in the
global society. It places in the guideline the changes
in the traditional forms of conservation e tramsmission
of memory, also caused for the new medias e for changes
in the territory. Also disccus the one problematic of
the public sphere that, during the years, was changedded
and contributed to the formation of the current scene.
Key-words: Globalization, Public Sphere, Memory. |
Umas das problemáticas mais espinhosas
discutidas nas Ciências Humanas já há algum tempo é a da memória.
Tema que contém grande parcela de subjetividade, sendo ligado à
Psicologia, mostra-se como uma questão árdua e que requer cuidado no
trato com seus desdobramentos. O autor que deu maior destaque a essa
temática e lançou-a como objeto de análise nas Ciências Sociais foi
M. Halbwachs, em 1925, quando elaborou uma espécie de sociologia da
memória e ratificou a proposta com sua obra póstuma, A memória
coletiva. (HALBWACHS, 1990) A partir daí, vários trabalhos
abordaram o assunto, alguns estabelecendo novas visões e até mesmo
discordando de Halbwachs, contudo, sempre bebendo na fonte do
precursor.
O ponto a destacar é que o estudo acerca
da memória ampliou-se, o que deu vazão a várias obras que trataram
do tema.
Aqui, a preocupação se atém à crise da memória na sociedade
globalizada, que perdeu seus vínculos tradicionais, suas bases
padronizadas de transmissão e reprodução de memória. O presente
estudo se justifica devido à importância da memória na construção da
identidade dos grupos, seja no âmbito nacional ou regional, seja no
social, econômico ou cultural. Trata-se portanto, de entender os
mecanismos que trouxeram a sociedade atual à essa crise, cuja força
abala as identidades e dilui as culturas num meio pretensamente
homogêneo.
O atual processo de globalização
deve-se, em grande medida, à mudança estrutural da esfera pública
que, a partir de certo momento, principalmente com a formação dos
Estados Nacionais, tornou-se progressivamente burguesa. Em sua tese
de livre-docência, J. Habermas anotou que no século XVIII, com o
desenvolvimento econômico e comercial, principalmente na Europa
Ocidental, o estatuto de público se modificou, o que separou a
sociedade do Estado e fez com que surgisse, separadamente, a esfera
pública e a esfera privada. (HABERMAS, 1984, p. 24) Houve, assim,
uma necessidade crescente de dinheiro, o que revolucionou a
estrutura de produção. As relações de dependência, que antes estavam
confinadas no âmbito da economia doméstica, passaram para a esfera
pública, o que estimulou a esfera privada (a privatização do
processo de produção e sua respectiva expansão). (idem, p. 31-33)
Nesse sentido, a globalização começou a
se impor de forma cada vez mais consistente, ainda mais com a
supracitada centralização econômica e produtiva que atingiu as
empresas midiáticas. Os meios de divulgação de informações e de
cultura confinaram-se em monopólios gigantescos, que se traduzem,
nos dias hodiernos, em empresas multimídias como AOL, Warner,
Disney, Globo etc. No caso da última, como advertiu E. Hamburger, “a
Rede Globo é apontada como um dos poucos conglomerados de
comunicação que estariam a ameaçar a heterogeneidade cultural e a
autodeterminação dos povos”. (HAMBURGER, 1998, p. 445)
A atual cultura do dinheiro que envolve
praticamente todas as sociedades do globo, fortaleceu-se no pós-2ª
Guerra Mundial, quando os EUA, por meio do Plano Marshall, impuseram
condições aos países beneficiários para que liberassem a ajuda
financeira que contribuiria na reconstrução dos territórios
atingidos pelo conflito. Uma das condições era a abertura do mercado
cinematográfico à indústria norte-americana, o que barrou por muito
tempo o desenvolvimento da sétima arte nos países dependentes do
empréstimo. Essa hegemonia no cinema e TV, não foi apenas um triunfo
econômico, mas social, político e cultural, o que cerceou novas
formas de relações sociais e expansão de idéias, pois a transmissão
cultural estava bastante influenciada pelos EUA. (JAMESON, 2001, p.
52-55)
Antes, porém, essa invasão cultural
norte-americana já atingira a América Latina, no período abarcado
pela Segunda Guerra (1939-1945). Baseados nas políticas da boa
vizinhança e do pan-americanismo, os EUA investiram em
táticas de ideologização e aculturação das sociedades
latino-americanas, para evitar qualquer influência dos regimes
autoritários de direita da Europa (nazismo e fascismo) ou de
esquerda da URSS (socialismo).
No Brasil, foram lançadas revistas que procuravam divulgar os
valores da sociedade democrática caracterizada pelos EUA. Como
exemplo apareceram, entre outras, as revistas Em Guarda,
publicada entre 1941 e 1946 nos EUA e enviada para o Brasil, e a
revista Seleções que, inicialmente, entrava como produto
importado (1942-1950), mas a partir de 1950 passou a ser impressa em
São Paulo.
Toda essa interferência dos
norte-americanos na América Latina teve como grande incentivador
empresas privadas, como a Pennsylvania Rail Road e as de Rockfeller,
que passaram a financiar os meios de comunicação e programas, como o
Repórter Esso, além de outras empresas que chegavam e faziam
com que os jornais e revistas ficassem cada vez mais dependentes da
publicidade e propaganda que mantinham nos periódicos. Note-se
também a influência de Hollywood e de gigantes da radiodifusão que
espalhavam suas ondas por todos os países latino-americanos.
Deste processo de contínuo
bombardeamento ideológico, reforçado durante a Guerra Fria, e
contando com as nações européias que se fortaleciam e cresciam
economicamente, surgiu a atual globalização financeira, movida por
palavras de ordem como “progresso”, “modernização” e “liberalização
econômica”. O declínio acentuado do socialismo a partir dos anos
1980 também contribuiu para a expansão do ideal neoliberal e para a
massificação da sociedade do consumo.
A crise da memória tradicional
A dominação cultural que fincou as
raízes na sociedade globalizada alterou os quadros que davam
sustentação aos referenciais de memória estabelecidos por Halbwachs.
O grupo organizado que formava sua memória coletiva dentro dos
limites impostos pelo espaço e pelo tempo, perdeu seu ponto de
equilíbrio, já que as fronteiras físicas que delimitavam o espaço de
movimentação das coletividades e dos indivíduos, dissolveram-se
frente aos novos meios de comunicação. Vive-se num presente
hesitante, conturbado pelos media, que estimulou a
degenerescência e o esquecimento da memória local e dos grupos
desfeitos. Tal fato se deve ao tempo descontínuo e disperso do
consumo, no qual encontra-se a individualização das mentalidades,
resultando na desarticulação da memória tradicional. (RIOUX, p.
315-316 e 326)
As identidades e as memórias coletivas,
que antes se firmavam por valores simbólicos impregnados em
discursos, monumentos, símbolos ou insígnias, agora se vêem à
deriva, flutuando em imagens de produtos espalhadas aos borbotões
por todos os rincões do planeta. Trata-se de notar que a idéia de
identidade, aqui, não se liga às proposições de Aristóteles –
unidade da substância e/ou formas idênticas -, nem à noção de
igualdade ou proximidade a isso. Admite-se
que a própria identidade pode ser estabelecida ou reconhecida com
base em qualquer critério convencional, que precisam, contudo, ser
"estabelecidos" e "reconhecidos” mutuamente. Por se tratar de
construção simbólica, ligada visceralmente a interpretações dadas à
realidade, o que configura a visão de qual sua posição no mundo, é
um meio de se diferenciar e diferenciar os outros a partir de
critérios particulares. E não se pode falar em identidade,
mas sim em identidades, já que existem vários níveis de
construção desta. Pode-se falar em “identidade nacional”, ligada ao
patriotismo e à nação, em “identidade regional”, como por exemplo as
idéias formadas de mineiro, nordestino, gaúcho
no Brasil, ou mesmo em “identidade social”, o que difere as
diferentes posições que cada indivíduo ocupa dentro da sociedade.
Neste sentido, o que se liga à discussão aqui proposta é que, apesar
de não desaparecer essa identidade tradicional completamente, ela
sofre visível transformação. A memória compartilhada por um
determinado grupo não se conserva pura, sofrendo influências
externas e imposições culturais que não se consegue barrar. As
histórias e mitos de uma sociedade ou grupo, se perdem em meio à
cultura acelerada e à massificação cultural, e os meios tradicionais
de transmissão dos costumes dos grupos é alterado mediante a
uniformização dos comportamentos de maneira mundial. O ator de
cinema ou novela, o esportista famoso e o cantor se tornam ícones da
sociedade e baluartes da modernidade; suas roupas, sapatos, frases,
comportamento e consumo tendem a ser perseguidos pelas gerações mais
jovens, o que a médio e longo prazo ocasionará profundas mudanças
nas memórias tradicionais.
Sendo assim, progressivamente as
tradições regionais ou locais que davam liga a uma cultura
compartilhada por um determinado grupo e, conseqüentemente,
estruturavam sua memória em torno de referências permanentes,
desaparecem devido à massificação imposta à sociedade como um todo.
Jameson destaca como essa diluição das culturas na cultura do
consumo atual se impõe ancorando-se na sedução dos produtos
determinada pelas práticas de propaganda. Tais produtos
homogeneízam-se mundialmente, carregando uma marca que lhes imputa
valor simbólico, ou seja, são fatores de diferenciação social para
quem os adquirem.
É na substituição da literatura
nacional pelos best sellers internacionais ou americanos,
no colapso da indústria cinematográfica nacional, sob o peso de
Hollywood, ou da televisão nacional invadida por importações
americanas, no fechamento de restaurantes e bares locais com a
chegada das grandes redes de fast-food que os efeitos
mais intangíveis da globalização podem começar a ser
reconhecidos em sua forma mais dramática. (JAMESON, Op. cit.,
p. 39)
Trata-se, pois, de notar que a
centralização dos meios de divulgação de informação e cultura por
parte de grandes conglomerados adquiriu uma dimensão tamanha que
ameaça já há algum tempo a diversidade cultural e as identidades e
costumes tradicionais de certas regiões, o que altera também o
sistema de conservação e transmissão da memória. Na cultura global,
cuja tecnologia assume papel manifesto, os meios de comunicação e o
culto à modernidade constroem novos paradigmas a serem seguidos.
Tanto objetos simbólicos como materiais são apagados ou destruídos
em função de novos que surgem. Essa noção comunga com a de Milton
Santos, quando diz que o território está verticalizado, que sofreu
uma transnacionalização. Ou seja, não está mais inscrito na idéia de
território horizontal, palpável, já que a sociedade da informação o
deformou. Cabe lembrar, contudo, que o autor apesar de confirmar
essa nova concepção de espaço, matiza-a e propugna que o território
tradicional não desapareceu por completo e que encontra novas formas
de se manter, como as uniões de comunidades rurais em defesa de seus
interesses.
Não obstante raras manifestações como a
apontada por Santos, parece que a tendência é a fragmentação
contínua do espaço e do tempo, nos quais os indivíduos antes seguros
de suas condições, culturas e locais determinados, encontram-se num
labirinto com milhares de caminhos, mas que levam todos a um mesmo
destino: a massificação e homogeneização culturais. Os objetos ou
bens materiais, degustativos e de entretenimento, antes bem
compartimentados por regiões ou grupos, agora abrem espaço para a
padronização dos gostos culinários, do entretenimento e de novas
tecnologias. O interessante é que apesar da acelerada renovação
tecnológica, de bens e produtos da sociedade contemporânea, o que se
encontra é sempre o mais do mesmo: mudam-se os objetos, mas os fins
para os quais são criados se mantêm.
As bases desse capitalismo
pós-industrial, já foram discutidas por T. Adorno no livro A
indústria cultural. Ao estudar a cultura norte-americana, Adorno
aponta que a imprensa e o lazer não eram mais apenas informação e
diversão, mas um maquinismo denominado “indústria cultural” que
visava obter um comportamento dócil e uma multidão domesticada.
(ADORNO, 2002) A configuração encontrada após décadas de atuação
dessa indústria é uma sociedade determinada culturalmente, na qual
as vontades, as práticas e as opiniões dos indivíduos caminham para
uma eventual padronização.
É nesse sentido que a memória coletiva,
tal qual a reconheceu Halbwachs, perde sustentação, pois este autor
vê a memória como um fator de coesão social pela adesão afetiva ao
grupo. Tal união se dissolve a medida em que se perdem os pontos de
ligação dos indivíduos, da forma até agora exposta. Assim, no que
tange à memória, o que prevalece parece ser a individual, já que diz
respeito aos acontecimentos vividos pela pessoa. Ou, no limite, uma
memória grupal, mas bastante reduzida, que se constrói na
interdependência de um número limitado de indivíduos
particularmente. Dessa forma, o que se procura esclarecer é que a
memória coletiva, como formadora de uma identidade mais ampla,
ligada a aspectos mais gerais, tende a desaparecer, principalmente
nas gerações mais jovens, nascidas e criadas na aceleração do mundo
atual.
De acordo com Pollak, a memória coletiva
ainda resiste, embasada tanto em memórias produzidas pelos
historiadores que ele chamou de “orgânicos”, quanto por instituições
como os sindicatos, a igreja, as organizações políticas etc., e que
depois de constituídas encontram formas de manutenção. (POLLAK,
1992) Entretanto, destaca-se que os apontamentos do autor remetem a
gerações passadas, que viveram, por exemplo, a Segunda Guerra
Mundial, o que não configura o público alvo em questão que, como
mencionado, é composto pelas novas gerações da contemporaneidade.
Nas palavras de Nora, a memória tradicional já não existe mais. Tudo
o que é chamado hoje de memória, já não é memória, mas história. E
aquela se prende aos arquivos, é uma memória registradora, que
relega ao arquivo o trabalho de se lembrar por ela. Diante da
individualização contemporânea no espaço vertical, o autor afirma:
Quando a memória não está mais em
todo lugar, ela não está em lugar nenhum se uma consciência
individual, numa decisão solitária, não decidisse dela se
encarregar. Menos a memória é vivida coletivamente, mais ela tem
necessidade de homens particulares que fazem de si mesmos
homens-memória. (NORA, 1993, p. 12-18)
Dentro desta perspectiva, tem-se o
processo de desmoronamento da memória coletiva, o que coloca o
historiador como figura central na sociedade atual. (Idem, p. 21)
Tal sociedade, arrancada de suas lembranças pela amplitude de suas
mudanças, está obcecada por se compreender historicamente, à medida
que perde seus referenciais de memória e de pertencimento.
No mundo globalizado, portanto,
observa-se a perda crescente das memórias coletivas, que se
dissolvem na cultura de massa e não encontram pontos de apoio para
se firmarem, senão na cultura global que incute uma generalização
forçada num meio heterogêneo. Não é o fim da memória coletiva, mas o
seu enfraquecimento, a sua transformação, o que se deve às mudanças
que os dias atuais estabelecem no que tange à movimentação contínua
de informações, produtos, cultura, lazer, moda etc. Vale lembrar,
ainda, que a imprensa tem papel de destaque nesse momento, aliada ao
que Habermas chamou de mudança estrutural da esfera pública.
O papel da imprensa na esfera pública
A imprensa, na verdade, acompanhou todo
o processo de desenvolvimento da globalização, como também da
mudança da esfera pública que, ao se tornar burguesa, deu vazão a
duas esferas: a pública e a privada. Isto se deve, em grande medida,
à necessidade crescente de capital que o setor privado requeria,
isto é, na disputa por mercado com outras empresas, tornava-se
mister a propaganda e a publicidade dos produtos. Para esta função,
a imprensa encaixou-se perfeitamente, ainda mais quando o número de
leitores crescia juntamente à urbanização.
Sendo oriunda do sistema de
correspondências privadas, a imprensa organizou-se, inicialmente, em
forma de pequenas empresas artesanais, onde o editor realizava todas
as tarefas isoladamente, tendo como objetivo maximizar em curto
prazo os lucros. Na Europa, esse plano durou até o século XIX,
quando deu lugar a uma imprensa mais politizada, com artigos de
fundo e voltada para a opinião pública. De imprensa de informação
passou para a de opinião. Neste ponto, já que o número de leitores
evoluía e as pessoas impunham-se como público portador de opinião, a
imprensa resguardou para si aquela liberdade que era característica
na comunicação das pessoas privadas enquanto público. (HABERMAS,
Op. cit., p. 213-215) Na América Latina, essa imprensa de
opinião, política, também se desenvolveu no XIX chegando até as
primeiras décadas do século XX, fato que se deveu aos movimentos de
independência e de disputas de políticas de governabilidade.
Tanto na Europa quanto na América, com o
estabelecimento do Estado de Direito burguês e com a legalização de
uma esfera pública politicamente ativa é que a imprensa crítica se
aliviou das pressões sobre a liberdade de opinião e pôde abandonar
sua posição polêmica e reassumir as chances de obter lucro tal como
uma empresa comercial. O número razoável de leitores, somado ao
interesse de se publicizar nos periódicos produtos fabricados no
setor privado, configurou a subordinação da política a pontos de
vista da economia de mercado. Habermas infere que a imprensa
tornou-se manipulável à medida que se comercializou, pois a venda da
parte redacional estava em relação com a venda da parte de anúncios.
“De pessoas privadas enquanto público, torna-se instituição de
determinados membros do público enquanto pessoas privadas – ou seja,
pórtico de entrada de privilegiados interesses privados na esfera
pública”. (Idem, 216-218)
A tendência à centralização abarcou a
imprensa e chegou ao seu máximo nos dias atuais com as novas mídias
(TV, rádio, cinema, Internet, etc.). A relação público/privado
concretiza-se ao mesmo tempo em que o espaço público é tomado pela
publicidade comercial. No século XX, esse tipo de publicidade
especializa-se recorrendo à Sociologia e à Psicologia para obter
sucesso na cooptação dos corações e mentes dos consumidores.
Destaca-se o fato de a estrutura de consumo ter mudado com o passar
do tempo. Se antes determinados produtos eram privilégios de pouco,
agora o objetivo é o estimulo do consumo em massa. “A socialização
de bens que antes era exclusividade das camadas superiores desperta
a maior atenção naquelas camadas que procuram ao menos
simbolicamente adequar o seu estilo de consumo para o alto”. (Idem,
p. 224)
É nessa massificação dos gostos e dos
pensamentos que a imprensa interferiu na sobrevivência da memória
tradicional. A relação da esfera pública com a privada barrou a
representatividade coletiva dos grupos particularmente,
orientando-os todos numa mesma direção. Essa orientação
comportamental que a imprensa impõe, a aproxima, mesmo que por
outras vias, daquela imprensa politizada do século XIX. Além de
estimular o consumo padronizado, a imprensa também passou a
trabalhar a opinião pública de acordo com interesses econômicos e
políticos privados. Ou melhor, na promiscuidade relacional entre o
publico e o privado, entre economia e política, que os meios de
comunicação passaram a agir, assumindo a esfera pública como
política. (Idem, p. 226) O setor privado tendeu a organizar-se
politicamente, o que fez com que as discussões políticas sofressem a
interferência de interesses privados. Revolucionou-se a antiga forma
parlamentar e as decisões tomadas foram atingidas por novas formas
de barganha.
Na espetacularização de tudo quanto
possível por parte da mídia, observou-se, há pouco, que até as
decisões, votações e debates parlamentares passaram a ser veiculados
pelos meios de comunicação, o que não obteve o efeito que se desejou
para tal empreitada. Pretendia-se tornar público todas as discussões
que ocorriam no parlamento ou câmara, para que os eleitores tivessem
acesso à movimentação política dos seus representantes diretos até
então restrita aos bastidores, mas a midiatização do Congresso fez
com que os parlamentares agissem teatralmente, representando um
papel frente às câmeras. Sua função crítica transformou-se em
demonstrativa e fez com que tudo fosse tomado, representado e
apreciado como simbólico. (Idem, p. 241)
Trata-se, pois, da homogeneização
forçada de tudo o que pode ser imaginado. A moda, o consumo, o lazer
e até mesmo a política. Tornou-se uma promiscuidade essa intervenção
da publicidade em todos os setores da sociedade, o que arrebanhou o
Estado para esse tipo de prática. Vendo que as empresas privadas
sugerem, nas decisões de consumo, a consciência do cidadão, o Estado
valeu-se dos mesmos estratagemas e passou a encarar o eleitor como
um consumidor, o que se traduziu no uso dos mesmos princípios de
publicidade na política. Não é à toa que, hoje, tem-se o trabalho
político de pessoas apolíticas, os publicitários, que têm o encargo
de produzirem propagandas que convençam o cidadão, para que este
“compre” a idéia do candidato ou do partido.
O quadro que se configurou remete a um
sistema no qual as coletividades perdem suas particularidades e
entram num jogo de correspondências simultâneas e padronizadas. No
uso político da imprensa e da esfera pública, via setor privado,
forma-se o que Habermas chamou de consenso fabricado, do qual
as pessoas dificilmente conseguem escapar. Esse consenso não é a
opinião pública, já que não é uma coerência racional formulada num
meio de concorrência aberta, mas age como se a fosse. Neste jogo,
onde as vias de participação estão feudalizadas por grandes
corporações, o fito é manter a aparência de que todos têm o direito
de livre opinião num público de pessoas privadas, mas na verdade o
que ocorre é a formação de um consenso. É a falsa consciência de que
os indivíduos privados que pensam, ajudam de modo responsável e
efetivo na formação da opinião pública.
Na contemporaneidade, com a confusão
entre público e privado, o domínio de uma elite se “justifica”.
Controlando as mídias, a elite constrói a opinião pública pela
centralização do discurso político. (DUPAS, 2005, p. 154) A memória
que antes se construía por autonomias regionais e culturas
heterogêneas, perde sua base de sustentação ao ser bombardeada por
esse discurso de legitimação de uma situação e da cultura de
integração atual, que estimula todos a consumirem os mesmos produtos
tanto quanto for possível. O quadro que se desenha na sociedade
global mostra tanto a esfera pública quanto a privada valendo-se das
mesmas práticas para se imporem frente aos eleitores-consumidores,
com a publicidade assumindo papel de destaque. As possibilidades de
as culturas se manterem intactas são mínimas, o que leva a crer que
as memórias coletivas, tantas quantas forem, não se formam nem são
transmitidas por gerações da maneira tradicional.
Diante deste quadro e a título de
conclusão, vale recordar as afirmações de Nora, as quais defende que
a memória ao estilo antigo já não existe na sua forma natural, o que
configura a crise da memória antiga na sociedade homogeneizada à
força, que tende a massificar a cultura por meio da atuação
constante da imprensa, das indústrias e do Estado. Enfim, no público
de indivíduos, até mesmo a memória tornou-se privada.
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