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JOSÉ ANTONIO DA COSTA
FERNANDES
Professor universitário (UNIFAI-SP).
Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e Universidade de Coimbra
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Uma leitura da concepção de
filosofia política em Karl Marx
José Antonio da Costa Fernandes
“Nós abríamos Marx volume após volume”
Analisar
o pensamento de Marx não é tarefa fácil, sua concepção de filosofia
política muito menos, no entanto a argumentação marxiana se envolve
pela compreensão da história e de suas interligações com a atividade
humana vislumbrada na busca da liberdade. Esta perspectiva
possibilitaria realizar um apanhado geral sobre sua obra e seu
pensamento acerca da compreensão da política e de estado, mas não
foi esta a intenção. Até porque ele não escreveu um tratado
sistemático em que apresentasse sua visão de forma linear e
inequívoca, sobre estes conceitos. Entretanto, algumas obras
sinalizam idéias, apontamentos e reflexões que nos permitem
identificar sua concepção.
A reflexão desenvolvida
recuperou certas obras definidas por marxistas como a fase do “jovem
Marx”: “A questão Judaica”, “Ideologia Alemã” e o “Manifesto do
Partido Comunista”, mas também obras que analisavam as contradições
históricas da luta pelo poder na França.
A consideração acerca da
concepção de política em Marx baseou-se fundamentalmente nas
análises desenvolvidas sobre um momento privilegiado na França, um
período longo e com intensas lutas sociais, que estão retratadas na
“trilogia francesa”: “As lutas de classe em França (1848-1850)”, “O
dezoito brumário de Luís Bonaparte” e “Guerra civil em França”. A
compreensão da política em Marx, desvenda o caráter classista, mas
ao mesmo tempo de frações de classe ou grupos presentes na
interpretação marxiana da “verdadeira” atribuição do estado francês,
desnudando a burguesia não mais como a classe revolucionária de
1.789, mas contra-revolucionária, que procura manter de qualquer
forma a sua dominação.
Nesta perspectiva,
ressalvadas limitações, recupero o pensamento marxiano acerca da
política e compreendo que suas formulações sugerem a existência de
um estado de classe funcionando como aparelho de sustentação e
reprodução da dominação. Porém, podemos constatar que ele ressalta a
importância do estado para as sociedades nacionais ao resgatar o
significado da liberdade de que ele seja leigo em contraposição a um
religioso. Esta perspectiva apresentada na obra “A questão judaica”
(estado laico e estado religioso) terá sua argumentação estendida
até a compreensão deste como ditadura do proletariado, presente no
“Manifesto do Partido comunista”.
Nota-se, portanto que a
perspectiva de texto traçado, recupera períodos diversos do
pensamento do nosso autor e estabelece análises comparativas sobre a
“trilogia francesa”. Tenho como objetivo esclarecer sua noção de
estado, desde o “jovem Marx”, até suas análises como “observador
participante” dos acontecimentos na França priorizando uma
sistematização do pensamento marxiano. Pensamento que teve intensa
colaboração de F. Engels, principalmente através das obras: “Origem
da família, da propriedade privada e do estado” e “Antidühring”.
É importante ressaltar
que a construção do seu pensamento tem como fundamento a idéia de
superação das correntes de pensamento da sua época: o idealismo
hegeliano; a filosofia materialista-vulgar de Feuerbach e outros
socialistas utópicos e a economia liberal clássica de Adam Smith e
David Ricardo.
O pensamento marxiano
atrela-se a uma continuidade de formulações anteriores, com rupturas
de conteúdo e método através da crítica sistemática da teoria e da
realidade. Assim, a teoria marxiana se apresenta como superação, a
partir da proposição de uma nova filosofia política baseada na
combinação entre teoria e prática: a “filosofia da práxis”:
Uma crítica,
portanto que deixaria de mover-se exclusivamente ao nível do
discurso, para visar ao concreto, transformando-se numa
política, procurando penetrar nas massas e converter-se na força
social capaz de mudar a sociedade (Giannotti, 1999, p. 10).
Em uma das suas
primeiras formulações acerca do estado baseia suas análises e
críticas as formulações político-filosóficas desenvolvidas na época.
A partir da obra, “A questão judaica”, Karl Marx tem como objetivo
avaliar o papel deste na dinâmica real da sociedade, anotando suas
diferenças através da religião e identificando as diferenciações
entre emancipação política e emancipação humana, discutindo também a
noção de propriedade privada, fundamentada no direito e no estado.
Desde o início das suas
proposições filosóficas, o “jovem Marx”, aponta que o caminho para a
liberdade, não se apresentava em um estado livre de religião
oficial, mesmo não negando o aspecto progressista de um deste
estatuto político não religioso. O pensamento dele não compreende a
liberdade do ser humano no estado laico, ou seja, mesmo que seja um
avanço, ele considera que a humanidade deve buscar a emancipação
total. Poderíamos resumir da seguinte forma, o homem religioso pode
tornar-se cidadão em um estado não religioso, porém é uma “meia
solução”, até “... porque a emancipação política não implica em
emancipação humana” (Marx, 1991, p. 27).
Ele resgata, quer na
Revolução Francesa ou na Independência dos EUA o momento de ascensão
da noção de direitos humanos que garante o exercício da cidadania,
portanto da religiosidade livre. Nosso autor esclarece ser uma
liberdade burguesa, que privilegia a possibilidade de deter uma
religião, de apropriar-se de uma determinada religião, no entanto
está não garante a plenitude das liberdades políticas:
Por conseguinte, o
homem não se libertou da religião; obteve, isto sim, liberdade
religiosa. Não se libertou da propriedade, obteve liberdade de
propriedade. Não se libertou do egoísmo da Indústria, obteve a
liberdade industrial (Marx, 1991, p. 50).
Identificamos, portanto
uma diferenciação de conceitos ao avaliar a liberdade
respectivamente: “emancipação política” e “emancipação humana”. No
transcorrer da obra, “A questão Judaica”, nosso autor vai
constantemente diferenciando, o homem livre deste pretenso “estado
livre” e estabelecendo a idéia da emancipação humana enquanto uma
gênese da liberdade de forma plena configurado na ampliação e na
ausência deste.
A emancipação humana,
para nosso autor, não é particularizada no estado, pois ela deve ser
total. A liberdade plena dos homens sua emancipação é a emancipação
da religião e da propriedade privada. O estado apresentado como
livre, nada mais é do que a representação do mundo real, da
burguesia e da propriedade.
Neste período seu
pensamento encontra-se em uma constante crítica ao pensamento
hegeliano, considerando o fosso existente entre o indivíduo, como
pessoa privada e o cidadão. Nesta perspectiva, ele rejeita a tese do
estado como formulador e patrocinador das liberdades, e, compreende
que a vocação deste é para uma forma burguesa de política, ou seja,
ser defensor dos interesses da burguesia e não dos interesses
gerais. A libertação do homem, portanto deve combinar a apropriação
da “filosofia da práxis”, pelos trabalhadores e o consequente
desmantelamento da propriedade privada e da dominação de classe, ou
seja, significa garantir a posse do poder político.
Poder político que
compreende avaliar suas diversas categorias e precisamente sua força
repressiva, pois é a garantia da utilização da força repressiva de
um grupo sobre o outro que mantém o estado enquanto mecanismo de
dominação de classe.
A partir da obra a
“Ideologia Alemã”, o idealismo de Hegel já havia sofrido intensa
crítica e o pensamento marxiano trilhava um novo caminho, no qual o
materialismo de Feuerbach seria dissecado, e, uma nova proposição,
com relação ao materialismo fincava-se: o materialismo histórico e
dialético. Os autores da “Ideologia alemã” vão compreender este
homem, não em sua essência genérica e sem relações sociais, mas
parte de um todo social e histórico. Já para Feuerbach ele
desconhecia a possibilidade de interação ativa com o mundo exterior
e desta forma ele apresentava-se como um desconhecido no mundo
físico que o rodeava. No entanto Marx e Engels propõem uma análise
que compreenda o sujeito como ser ativo e central na mediação entre
o mundo físico e a humanidade.
Um todo que envolve
o sujeito social enquanto produtor e produto deste mundo.
Diferenciado-se de Feuerbach, que o avaliava em dimensão
especulativa e naturalista, assim, os autores propõem a análise
deste à partir da sua existência.
O Estado de
Classe
Com o advento do
“Manifesto do Partido Comunista”, Karl Marx e Friedrich Engels
inauguram uma nova fase no pensamento marxista e socialista da
época. No manifesto, eles apresentam efetivamente a substituição do
poder político burguês pelo por um dos trabalhadores guiados pela
revolução.
O “Manifesto”
apresenta-se na perspectiva de avaliar que é o estado, instrumento
de dominação de uma classe sobre outra: “O poder político é a
expressão oficial dos antagonismos das classes na sociedade
burguesa”(Marx, 1988, p. 12). Inaugura, portanto uma nova fase
nas avaliações do movimento socialista e no pensamento marxiano: a
necessidade de superação da velha sociedade por uma nova. Os
trabalhadores precisam assumir o poder político, arrancando
progressivamente da burguesia o capital, centralizando em suas mãos
este poder, ou seja, o estado do proletariado reunindo todas as
forças de produção e aniquilando os resquícios do modo de produção
anterior.
Na “trilogia francesa”:
“Lutas de classe em França (1848-1850)”, “O dezoito brumário de Luís
Bonaparte” e “Guerra civil em França”, ele busca compreender de
maneira concreta, quais eram as tarefas dos trabalhadores em virtude
da disputa que se travava com a burguesia. O autor da trilogia
realiza um diagnóstico avaliando quais eram as conformações deste
poder político francês e dos embates entre as frações dominantes que
ele serve. Esclarece ainda, que todo o aparelho burocrático do
estado está a serviço da contra revolução, ou seja, contrários aos
interesses dos trabalhadores, com o argumento de manter a “ordem
estabelecida.”
Nosso autor demonstra as
diversas alterações que ocorrem nas formas de poder na França do
século XIX, Monarquia Constitucional, República Parlamentar e
Bonapartismo, formas que combinam, o avanço econômico da sociedade
francesa e a manutenção da supremacia política sobre o proletariado.
Nas palavras do próprio,
quando este escrevia sobre os acontecimentos políticos e de disputa
de poder na França e presencia a queda da coroa francesa, ou seja, a
derrubada de Luís Felipe da Monarquia, representante da fração
financeira no poder político, são esclarecedoras: “Enfim, a
República de fevereiro ao derrubar a coroa, atrás da qual se
escondia o capital, fez com que se manifestasse nitidamente a
dominação da burguesia” (Marx, 1977, p. 58).
Esta forma explicitava
que a emancipação do proletariado não se baseava mais em alianças,
como a de 1789 que levou a burguesia ao poder, e, nem tampouco
realizar uma revolução apenas nas fronteiras francesas. A
emancipação do proletariado era mundial, não se definia em
fronteiras, mas em todo o mundo, como ele já havia descrito no
Manifesto: “Proletários de todo o mundo: uni-vos.”
A República implantada
em 1848, através da revolução de fevereiro, foi aceita por que
significava a participação política de todas as esferas da classe
proprietária e ampliava a participação burguesa no poder de estado.
Assim, a implantação da República significava a divisão do poder,
não mais em uma única fração das classes possuidoras, mas de toda
ela. Portanto, não havia espaço para o proletariado, que ao ameaçar
a ordem implantada seria reprimido de forma exemplar:
A revolução de
fevereiro foi à bela revolução, a revolução das simpatias
gerais, porque os antagonismos que nela rebentaram contra a
monarquia ainda dormiam incipientes, em boa paz uns com os
outros, porque a luta social que era o seu fundo só havia tido
existência vaporosa, a existência da frase, da palavra. A
revolução de junho é a revolução horrenda, a revolução
repelente, porque o fato substitui a frase, porque a república
pôs a nu a cabeça do monstro, ao lançar por terra a coroa que a
cobria e lhe servia de espantalho: Ordem! Era o grito de guerra
de Guizot. (Marx, 1977, p. 73-74).
Ordem que se impunha
sobre o proletariado e sua revolução de Junho, pois ameaçavam o
republicano burguês. Ao induzir os trabalhadores a realizar a
Revolução de Junho e no processo para esmagá-lo, a burguesia
forneceu conhecimentos básicos para a luta revolucionária dos
trabalhadores pela causa socialista. Inicialmente ele demonstra que
as alianças nem sempre significam melhorias para os trabalhadores
como foi o caso deste processo revolucionário. Até porque:
.... a menor
melhoria da sua situação é, dentro da república burguesa, uma
utopia: e uma utopia que se transforma em crime logo que se
queira transformá-la em realidade. E a suas reivindicações, que
eles queiram arrancar a Republica de fevereiro, desmesurada
quanto à forma, pueris quanto ao conteúdo, e, por isso ainda
burguesa, cederam lugar à palavra de ordem audaz e
revolucionária: Derrubada da Burguesia! Ditadura da classe
operária! (Marx, 1977, p. 74).
Desta forma, apresentei
como a partir de meados do século passado a burguesia, abandonando
suas “ilusões heróicas”, promove o poder monopolista e por meio do
estado mantém sua eternização e conseqüentemente a hegemonia do
capital na esfera do estado, da sociedade e da cultura.
O Estado
transitório
A análise anterior
demonstra que parte das obras do autor, estão baseadas na
necessidade de supressão do estado. A burguesia, classe dominante do
processo atual, deste modo de produção, foi produto forjado num
longo período de construção e de uma série de revoluções nos modos
de produção. Os momentos diferenciados verificados no seio deste
encontram seu correspondente na forma de dominação política. Esta
mutação, onde a terra dá lugar a troca, e, este último ao capital,
encontrou no estado os elementos de manutenção política e de
dominação de classe.
Marx em suas
análises superou as idéias de emancipação política de Bauer, e, do
estado como vontade geral, a partir da apreensão de um materialismo
histórico e não mais hegeliano. Ele formula a necessidade da
conquista deste, entretanto tem como objetivo a supressão do mesmo.
Nesta perspectiva desenvolve a concepção do estado dos trabalhadores
enquanto mecanismo de transição para a nova sociedade
verdadeiramente livre. Ele assume um novo papel, transitório, mesmo
que mantenha seu conteúdo de dominação ele agora se encontra nas
mãos dos trabalhadores e neste momento apresenta-se na perspectiva
de se diluir, de se autodestruir (Marx, 1977b, p. 35).
A tarefa, portanto dos
trabalhadores não é lutar pela ilusão deste poder político que
apresenta-se como livre, mas efetivar a conquista deste, com o
objetivo de realizar o processo de transição do capitalismo para o
comunismo. Nesta perspectiva a ditadura do proletariado se apresenta
não como o estado de terror, dos países do “socialismo real”, mas um
organismo de poder político transitório que iria operar os
mecanismos necessários para a superação das classes sociais e do
próprio inaugurando um novo modo de produção: o modo de produção
comunista.
Ontologia do sujeito
social
A necessidade de pensar o ser humano,
enquanto membro de um corpo mais amplo, significa refletir sobre o
papel do estado na política. Esta preocupação, o estudo da política
e do estado, envolve avaliar sua natureza histórico-social,
explicitando uma constelação de categorias que possam avaliar este
processo social. Entretanto, como a possibilidade deste texto é
parcial e é um recorte das obras de Karl Marx, priorizamos pensar a
política no interior da práxis objetivamente do ser social.
Nesta perspectiva, a
compreensão deste homem, deste sujeito social é recuperá-lo em sua
unidade e diversidade, avaliando que o “... concreto é concreto
porque é, síntese de muitas determinações, isto é, unidade no
diverso...”(Marx, 1980, p. 28). Desta forma, sabemos que o
social tem na práxis seu meio estruturante.
Na primeira tese sobre
Feurbach, ele afirmava, a “... carência capital de todo o
materialismo até aqui (incluído o de Feuerbach) consiste em que o
concreto, a realidade, a efetividade, só é captado sob a forma de
objeto ou de intuição, mas não como atividade prática humana, como
práxis, não subjetivamente” (Marx, 1980, p 12).
A práxis cria uma nova
realidade, pois ela fundamenta-se como um produto que mescla a
subjetividade e a objetividade num processo de objetivação. Neste
sentido, a transformação deste real é parte de um processo em que a
subjetividade humana é exteriorização das capacidades genéricas do
homem, e recria uma outra forma objetiva, que é a explanação da
humanidade na própria realidade concreta.
Como pensar a política
no interior da práxis objetivamente do ser social? A política
enquanto esfera específica do ser social não é uma determinação
natural do homem, tampouco é puramente social, ao contrário, ela é
produto histórico, ou seja, o homem é parte e todo do processo de
modificação dos modos de produção, intrínsecos à história.
A política é portanto
parte da esfera das relações sociais e da história e desta forma,
pensar em política é pensar no estado. As transformações que
ocorrem, principalmente no século XVIII, na Europa, marcam a
passagem do poder político exercido por uma nobreza débil (na sua
organização) e que foram superadas pelas modificações ocorridas nas
esferas: econômica, social e política, implantada pela burguesia no
processo de conquista deste poder. Ela, que já detinha o poder
econômico, passa agora a utilizar-se deste poder, garantindo desta
forma a acumulação de capital, que será importante para a Revolução
Industrial na Inglaterra e também para a Revolução Francesa; mesmo
que de forma diversa, até porque o caráter da Revolução na França é
muito mais social e político. Neste momento a burguesia altera as
estruturas da sociedade européia: “tudo que é sólido se desmancha
no ar”, um novo paradigma se apresenta para a história da
humanidade:
A reformulação do estado
pela burguesia criou as condições para garantir o domínio da
sociedade, através da centralização e da dinâmica da representação
política.
A análise desenvolvida
por Marx permitiu conferir uma análise classista e de frações de
classe, principalmente na hegemonia proporcionada pela fração
financeira. Circunstância histórica que permite aproximar,
considerando o longo tempo histórico, e afirmar a manutenção do
fenômeno classista da dominação por meio da hegemonia
político-financeira das transnacionais, principalmente em tempos de
globalização neoliberal.
Gramsci, Antonio.
Cadernos do Cárcere. Ed. Civilização Brasileira. 1999.
______________.“Nosso Marx”,(Il Grido Del
Popolo, 4 de maio de 1918. Tradução de Carlos Eduardo Berriel, op in
cit: Marx hoje, J. Chasin organizador. – 2. Edição. São
Paulo, Ensaio, 1998.
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