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ALEXANDER MARTINS VIANNA
Mestre em História Social e Doutor pelo PPGHIS-UFRJ
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Sobre a Socialidade dos Tabus:
a
análise social para além de clichês
por Alexander Martins Vianna
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A partir do último terço do século XVIII, o modelo de
humano do liberalismo – centrado no meritocrático “homem que se faz”
(self-made man), o homem das iniciativas e sucessos
individuais, o mônada livre da modernidade – alimentou várias
tendências de pensamento sobre a “condição humana” que pretenderam
encontrar caracteres inatos aos agrupamentos humanos que pudessem
explicar o seu comportamento, o sucesso, o insucesso, a perversão e,
no limite, justificar a sua discriminação ou o seu puro e simples
extermínio físico e/ou cultural.
No entanto, o ser humano vive uma impossibilidade
sobre si mesmo quando pretende identificar condicionantes
fundamentais e irrefutáveis de explicação para a sua vida social.
Especificamente no universo de debates letrados que anteciparam o
liberalismo na Europa, às vezes com que se tentou fazer isso foram
marcadas por uma estratégia analítica em que o homem era
ficticiamente transportado para algum tipo de “não-lugar social”
(“ilhas utópicas”, “planetas utópicos”, “estado de natureza”,
“estado natural” etc) para que, deste ponto arquimediano, pudesse
observar com distanciamento os caracteres constituintes de si mesmo
e do mundo em que habitava.
Todas essas tentativas de busca de um fundamento
explicativo definitivo para a vida social se esvaem frente a uma
constatação muito simples: não há homem fora da sociedade, não há
“natureza humana” que não seja social (i.e., construída
coletivamente), pois, caso contrário, o homem não seria mais do
que um bicho – o mito de Tarzan é, como diz o termo, um mito (e,
lembremos, do liberalismo!). No entanto, para quem pretende
encontrar uma “base orgânica” para a cultura, encontrá-la-á
nos seguintes termos, paradoxalmente, não-fundamentais:
quando nasce, o ser humano é o único dos mamíferos superiores a ter
uma margem maior para a desprogramação e simbolização de seus
instintos, ou seja, nasce com um potencial biológico para a cultura
simbólica.
Como o homem nasce num meio social de signos e
significados, ao por os olhos no mundo, já estará sendo enquadrado
pelos valores deste mundo, reconfigurando os seus instintos
primordiais na forma de funções sociais significativas. Nesse
sentido, tudo que diz respeito ao seu comportamento tem muito a ser
entendido a partir das filigranas de seu processo de socialização.
Ora, mas isso não é algo que seja simples, imediato ou óbvio de ser
observado, já que cada ator social é um mistério para si mesmo.
Portanto, do colo da mãe ao colo da terra – de acordo com a
complexidade da vida social, com as variações dos papéis sociais e
com o grau de trânsito por diferentes espaços funcionais de
sociabilidade –, a vida de cada pessoa vai ser marcada por escolhas
que mais ou menos expandem ou reduzem incidentalmente o seu
senso de individualidade.
Desde a década de 1990, quando observo as referências
a “ódio”, “ciúme”, “amor” ou “vingança” nos documentários sobre vida
selvagem nas séries televisivas da Discovery Channel ou da
National Geographic Society, parece-me clara a presença de uma
vulgata sociobiológica, que tanto tende a fazer uma leitura
biologizante da vida humana quanto, no sentido inverso, uma leitura
culturalizante da vida selvagem. Assim, as ações de homens e animais
são por vezes tratadas a partir de paralelos analógicos equivocados
e, imperceptivelmente, isso serve para justificar a individualização
e a biologização (ou algum outro modo de essencialização) dos
comportamentos considerados “desviantes”. No limite, isso também
serviria para isentar a sociedade de qualquer responsabilidade
coletiva sobre as potenciais falhas ou inconsistências de seus
próprios sistemas de regras, significados, valores e tabus
discriminatórios.
No âmbito da teoria social, a essencialização das
categorias analíticas também ocorre quando pensamos, por exemplo, em
“comportamento individual” e “comportamento social” como duas coisas
distintas, construindo-se idéias analíticas abstratas a respeito de
“entes coletivos” (ex., “classe social”, “estamento”, “grupos
profissionais”, “comunidade” etc) que concentrariam em si todas as
possibilidades de entendimento do comportamento dos atores sociais.
Deste modo, tudo aquilo que fugisse à “regra” ou às “expectativas de
prática social” encarnadas por tais “entes” seria encarado, no
âmbito da análise social, como “desvio” ou “exceção à regra” – e,
implicitamente, menos relevante para ser estudado. Na
verdade, seguindo tal perspectiva, é “desvio” tudo aquilo que não se
“enquadra numa média comportamental”, matematicamente construída
pelos métodos quantitativos de análise social. É justamente esse
tipo de procedimento, trazido para o âmbito da História Social
durante as décadas de 1940-1950, que foi posto em dúvida durante as
décadas de 1980 e 1990.
Antes de os debates antropológicos de Frederik Barth
(via micro-historiadores italianos a partir de finais da década de
1970) e de os debates sociológicos de Norbert Elias (via
historiadores franceses a partir de finais da década de 1960)
tornarem-se referências comuns para o fazer do historiador,
muitas pesquisas sociais pareciam tensionadas num fóssil
epistemológico, cujos extremos se alternavam entre um modelo
individualizante de análise social do comportamento e uma “sociologização
reificante” do comportamento. Ambos os extremos,
encaminhando-se em sentidos opostos, formavam um mesmo ciclo ao se
tocarem num ponto: a questão do “desvio”. Na prática, por reificar
as suas categorias de análises em torno de “entes coletivos”
externos e sobredeterminantes do comportamento individual – e, nesse
sentido, simplificando o campo dos possíveis e dos imprevistos na
experiência social –, a “sociologização reificante”
não respondia a uma série de questões ligadas à pragmática social.
Isso fazia com que uma solução analítica
individualizante parecesse ser a mais apta para dar
respostas sobre os problemas sociais. Assim, os dois extremos
analíticos se tocavam na busca de um fundamento último e
útil para as questões sociais e comportamentais.
Para dar um exemplo bem contundente de vulgarização
desta tensão de paradigmas de análise social, gosto de pensar no
caso do filme “O Silêncio dos Inocentes”(1991) para os
EUA: o país que institucionalizou a pena de morte em alguns estados
confederados é o mesmo que lança um filme em que o próprio
“médico-monstro” encarcerado é quem lembra à estagiária do FBI que o
serial killer que ela tanto procurava não “nascera
assassino”. Por isso, ela (que possuía formação em psicologia) só
consegue encontrá-lo quando tenta restaurar a cadeia social de sua
existência. No entanto, isso é feito a partir de inferência
psicológicas e sociológicas que pressupunham uma média previsível
comportamental. Assim, para que o ciclo dramático se concluísse, o
comportamento do assassino deveria ser deduzido (e, portanto,
previsível) à luz dos referenciais analíticos acionados pela
policial. Tais referenciais analíticos não são postos à prova em
nenhum momento durante o movimento dramático do filme, pois o que
está sendo efetivamente medido é a competência ou não de a agente
operá-los a partir dos indícios fornecidos pelo Dr. Hannibal.
Ora, quando falamos de comportamento humano, um ponto
que mexe particularmente com a filosofia da existência é o tema das
escolhas; mas se o homem se faz através de suas escolhas, estas não
se dão num vazio de determinações sociais. No entanto, o que
tensiona diferentes abordagens no âmbito da “velha” e da “nova”
história social é o modo de definir ou tentar explicar tais
determinações sem cair em “fórmulas-clichê” de sociologização,
que não dão conta da pragmática social, pois tão somente pretendem
confirmar a si mesmas como fórmulas institucionalmente autorizadas
de explicação da vida social.
Obviamente, não se trata, aqui, de abrir mão
indiscriminadamente de muitas categorias analíticas da história
social, mas sim lidar com elas de uma outra forma. Nesse sentido, em
vez de simplesmente deduzir de tais categorias quais deveriam
ser os comportamentos dos atores sociais, melhor seria
pensar a ação social como algo que testa o tempo todo
a sua validade explicativa. Portanto, o ator social e
as práticas sociais não devem ser pensados como meras
funções de nossas categorias analíticas, pois a experiência social é
necessariamente maior do que nossas capacidades
conceituais de interpretá-la e, portanto, devemos ter o cuidado de
não reificá-las. Tal perspectiva evitaria justamente que caíssemos
numa visão pouco dinâmica – e por demais funcionalista – das
práticas sociais e, assim, poder-se-ia dar conta de uma pragmática
social que envolve, na verdade, escolhas estratégicas
(individualmente imprevistas em suas implicações coletivas) a serem
pensadas e inscritas, analiticamente, numa cadeia
hierárquica de interdependência social, na qual se tensionam
necessidades de preservação material, simbólica, estatutária e
funcional de cada ator social.
Ora, se abríssemos mão de uma perspectiva
funcionalista-estruturalista de análise social, deixaria de ter
sentido falar em “desvios” de comportamento, pois o que se observa
na vida social são “variantes” comportamentais que se completam
ou se tensionam dinamicamente. Deste modo, o ator social seria
interpretado de maneira não-unidimensional e, assim,
poder-se-ia organizar um bom estofo prático e conceptual contra as
fórmulas analíticas – bastante vulgarizadas nos meios de comunicação
de massa – que pretendam individualizar os problemas sociais, ou que
proponham soluções institucionais criminalizadoras da pobreza. Neste
último caso, o seu efeito prático mais imperceptível são as
tentativas de discriminar espaços de lazer para a população de baixa
renda em nome da “diversidade cultural”. Na verdade, trata-se de uma
forma de apropriação institucional do relativismo antropológico que
pretende controlar a mobilidade espacial da população de baixa renda
e, com isso, evitar que a sua circulação e fixação na malha urbana
possa representar desvalorizações no mercado imobiliário.
Observemos, agora, algumas formas de enunciação que
geralmente demonstram o limite explicativo de “fórmulas-clichê”
de sociologização:
“Fulano teve boas condições de vida, isto explica o
seu bom caráter”
“Fulano vivia em condições sociais muito precárias, o
que explica o fato de ser criminoso”
“Fulano era pobre e, mesmo assim, nunca roubou...”
“Como pode que fulano seja ladrão, se não passava por
nenhuma privação?”
Quando há uma “quebra de expectativa” em relação
àquilo que seria, de forma simplificadora e habitual,
entendido como as “determinações sociais” para uma vida criminosa,
essas formas de enunciações deslocam, implicitamente, o sentido da
explicação para supostas causas individuais (essencializadas) de
“falha de caráter”. Algumas formas de enunciações discriminatórias
tornam-se mais explícitas justamente quando há a “quebra de
expectativa” em relação a uma lógica combinatória implícita de
análise ou interpretação do comportamento. Daí o espanto,
em certa medida hipócrita, tão comumente apresentado
nos meios de comunicação, quando são jovens de classe média que
roubam lojas de conveniência, queimam e espancam mendigos,
homossexuais e prostitutas em madrugadas de “zuadas de bad boys”.
Em termos simples, tal estado de surpresa ocorre porque o crime
parece fora daquilo que seria considerado, por excelência, o
seu lugar social.
Assim, no final das contas, a “explicação
individualizante” dos problemas sociais e a “sociologização-clichê”
têm em comum o fato de considerarem haver uma equação perfeita
e unidimensional entre o sujeito do comportamento e
uma suposta essência (individual ou sociológica) de
predicativo comportamental. É possível identificar esta mesma lógica
combinatória de essência (social ou psicológica) e
sujeito no filme “O Silêncio dos Inocentes”.
Porém, neste filme, as expectativas habitualmente essencializadas
de análise comportamental da agente do FBI não foram quebradas. Por
isso, não há surpresa ou espanto naquilo que ela observa, mas tão
somente a confirmação de suas fórmulas interpretativas do
comportamento criminoso. No entanto, as operações do dia-dia de
nossas vidas estão sujeitas a combinações imprevistas e desafiam, a
todo instante, os nossos hábitos de interpretação.
Então, se nossas análises sociais não devem ignorar
que as escolhas individuais não são feitas num vazio de
determinações sociais, também não se deve esquecer que tais
determinações não são de fácil e óbvia apreensão, de modo que
devemos estar atentos para que, em nossa prática de análise,
evitemos reificar uma lógica combinatória implícita de um hábito
interpretativo. As nossas categorias analíticas devem ser
testadas e desafiadas pela experiência social, para que o
espanto não seja discriminatório, mas sim uma possibilidade
de olhar de novo (de um outro jeito e dinamicamente) a nossa
existência.
Explicar os caracteres do mundo social que determinam
as escolhas coletivas e individuais é um grande desafio, pois
implica em o ser humano ter que pensar em algo que lhe é
estruturante e, ao mesmo tempo, que lhe escapa. Isso tudo poderia
ser resumido numa pergunta: Como pensar sobre o que faz pensar, ou
como pensar sobre o que faz sentir e escolher, quando a incógnita da
equação é o próprio processo social de formação do homem? Ou seja,
não há ponto fora do homem a partir do qual o homem possa observar a
si mesmo. Daí, é sempre através da possibilidade de comparação com o
que é coletivamente ou individualmente variável que o homem é
desafiado a pensar, de algum modo, em seus elementos estruturantes.
No entanto, tal busca tem um potencial para a discriminação e
violência se pressupor que haja um elemento essencial ou um
fundamento último ou primevo para a estruturação de sua vida social.
Cada homem é sempre um coletivo – é todo e uno ao mesmo tempo –, e
falar sobre si é necessariamente falar sobre como o homem se
representa em diferentes circunstâncias.
-2-
Tentarei, agora, exercitar todas essas considerações
num assunto que recorrentemente situa o homem entre o “natural” e o
“social”: a questão dos papéis sexuais. Para começar, vou definir a
sexualidade como a manifestação sociocultural do desejo sexual.
Observe que, deliberadamente, uso o termo “desejo” e não “impulso”.
Isso se justifica porque “desejo”, diferentemente de “impulso”, está
implicado com uma situação não-errática, ou seja, o ser
humano é um animal sem cio e, portanto, o que estimulará o
instinto sexual – i.e., a base biológica de sua
sexualidade – não será uma simples exalação de feromônio.
Nesse sentido, aquilo que é desejado é julgado “belo” ou
“atraente” a partir da prescrição de valores mais ou menos
conscientes e socialmente (mas não igualmente em seus efeitos)
compartilhados: deseja-se qualidades presentes, ou que se julga
presentes, no objeto de desejo – e qualidades implicam um julgamento
simbólico de valor, coisa impossível aos animais não-humanos.
A direção que um determinado desejo sexual venha a
tomar pode ou não ser socialmente aceitável – e, caso não o seja, é
visto como “tabu”. Quem deseja o que é “tabu” num agrupamento
social, sofrerá as sanções do grupo, quando não as impinge a si
mesmo (autocontrole), gerando formas mais ou menos explícitas de
neurose. Geralmente, tocar em algo que é tabu gera uma sensação de
culpa, desconforto, contaminação ou impureza. E o “culpado” pode
aliviar-se dessa culpa de diferentes formas. Uma delas – a que mais
me interessa tratar aqui devido à sua vulgarização midiática e em
alguns movimentos sociais – tenta assentar o suposto comportamento
sexualmente “desviante” numa espécie de força inata,
essencial e incontornável: a Genética.
Frente às violências físicas, institucionais e
simbólica que sofrem, vários grupos organizados de homossexuais
procuram uma base biológica para lutar ou justificar o seu
direito à diferença: ou “todo mundo” é potencialmente “gay”,
bastando a oportunidade para o afloramento da “estrutura
homem/mulher” nos “homens” e nas “mulheres”; ou se é individualmente
“gay” porque se “nasceu assim” ou porque “deus me fez assim...e
sinto orgulho”. Em todo caso, evoca-se uma força ou ente
externo ao mundo social como sobredeterminante
do comportamento ou desejo sexual.
É fato biológico que toda espécie animal que não é
hermafrodita terá os fatores de sua reprodução em corpos sexualmente
distintos e complementares. Do ponto de vista biológico, isto define
o macho e a fêmea de uma espécie, cuja reprodução ocorrerá por troca
de gametas. No entanto, embora macho e fêmea
sejam definições biológicas e, na espécie humana, o homem
é o macho da espécie e a mulher é a fêmea da espécie,
isto não deve ser confundido com as noções de masculino
e feminino. Os termos masculino e
feminino não definem “gêneros biológicos”, mas uma idéia de
comportamento culturalmente configurado e incidentalmente assentado
neles.
Cada sociedade define os seus campos do
masculino e do feminino, assim como formas de
tolerar ou discriminar quando tais papéis culturais
não coincidem com corpos machos e corpos fêmeas.
Não se precisa ir até o magistral relato de Pierre Clastre, a
respeito dos tabus do “arco” e do “cesto” entre os guaranis, para se
entender o caráter socialmente construído dos campos masculino
e feminino. Basta atentarmos para alguns de nossos
comportamentos cotidianos: se falamos em brinquedos, o carro é para
o menino e a boneca para a menina; se falamos de espaços de
sociabilidade infantil, a rua é para o menino e a casa para a
menina; se falamos de expectativas de comportamento, a rispidez é
própria para o menino e a delicadeza para a menina, etc... Nesse
sentido, um jovem delicado e uma moça virago chamam logo a
atenção porque estariam, conforme os tabus, fora do
lugar.
Assim, o “gay” e a “lésbica” causam desconforto
ou estranheza para algumas consciências porque representam
uma quebra das expectativas socioculturais a respeito do
comportamento que deveria ser o “mais condizente” (e, portanto,
“natural”) para os seus “gêneros biológicos”. Justamente por isso,
não se deve deixar de mencionar que muitos indivíduos do “mundo gay”
acabam por reproduzir padrões discriminatórios de julgamento do
comportamento que são próprios do modo como se definem os atributos
do masculino e do feminino em nossa
sociedade.
Na paisagem cultural em que se criou como expectativa
que o comportamento feminino deve coincidir com a
unidade biológica corpórea mulher e que o
comportamento masculino deve coincidir com a unidade
biológica corpórea homem, estranha-se
quando um homem deseja outro homem e não é afeminado,
ou quando uma mulher deseja outra mulher e não é viril.
Em todo caso, estranha-se porque alguns não trazem
as marcas claras do visível de uma determinada
programação sociocultural. Tal ansiedade com aquilo que é liminar e
que, portanto, evidencia o caráter artificial das fronteiras de
classificação dos papéis sociais, é que condiciona tentativas
explícitas ou veladas de controlar o “desvio”, seja definindo para
ele lugares próprios, seja exigindo a exibição de
marcas próprias identificadoras (por exemplo, carregar o
“cesto” ou o “arco”, para metaforizar Clastres; ou talvez portar o
“triângulo rosa”, como no caso-limite do exterminismo nazista).
Assim, definindo-se uma marca e um
nicho para o suposto “desviante”, devolve-se a sensação
de segurança para uma comunidade que não quer que seus tabus sejam
ameaçados. Nesse sentido, considerando o universo de tabus de sexo e
as discriminações sociais ligadas a eles, muitos movimentos de
grupos homossexuais, ao pretenderem “marcar uma posição”
de direito, devem fazê-lo tendo o cuidado de não reproduzirem os
estigmas discriminatórios dos tabus modelares e hegemônicos
heterossexuais.
Vejamos um exemplo corriqueiro de como o tabu dos
papéis sexuais héteros é usado imperceptivelmente como parâmetro
para as práticas homossexuais. Quando se fala de casais
homossexuais, algumas pessoas (heterossexuais ou não) chegam mesmo a
perguntar em tom de galhofa: “Quem é o homem(ativo) ou
a mulher(passivo) da relação?”. Quando esta forma de
pergunta refere-se especificamente a companheiros gays, ficam
mais evidentes ainda os parâmetros patriarcais de valor e poder
implícitos nela: o primeiro deles é pensar que, numa relação
sexual, haja uma diferença qualitativa entre homem e mulher; o
segundo é imaginar que, entre dois homens sexualmente envolvidos
(i.e., entre duas unidades biológicas fálicas), haja uma diferença
qualitativa entre o papel convexo (equivocadamente
chamado de ativo) e o papel côncavo
(equivocadamente chamado de passivo).
Em todo caso, segundo tais parâmetros, “ser a
mulher da relação” é cumprir um papel menos aceitável porque
inferior – logo, o termo “mulher”, sendo
derivado para uma forma adjetivante, torna-se uma metáfora de
inferioridade para aquilo que é equivocadamente entendido
como “passividade anal”. Como bem sabemos, toda
marca estigmatizante simplifica a existência daquilo a que
se adere e está longe de representar a diversidade de variantes
comportamentais que podem estar sendo convergidas para um mesmo
signo identificatório.
Nas sociedades humanas, quase tudo que habitualmente
consideramos “natural” é uma construção de subjetividades, que estão
inscritas numa pragmática social que envolve relações de poder,
concessões, disputas, discriminações e conflitos. Nesse sentido,
como foi dito inicialmente, não há um ponto arquimediano fora do
social que possa fornecer uma fórmula definitiva desveladora da
matéria humana. Assim, se deixarmos de lado tanto os parâmetros
patriarcais quanto os biologizantes de interpretação dos
comportamentos humanos associados ao desejo sexual,
chegaremos à conclusão de que não há para eles um protocolo
fixo, definitivo, essencial
ou uma natureza.
Em nossa espécie, o fato de nascermos como unidades
biológicas machos ou fêmeas – e
estarmos, através dessa diferença, mutuamente implicados na
reprodução da espécie – não significa aceitar que deva haver uma
sobreposição “natural” ou “óbvia” entre (1) os papéis biológicos
reprodutivos, (2) a construção sociocultural dos atributos
masculino ou feminino e (3) as formas individuais
de busca de satisfação do desejo sexual. Portanto, não há
uma forma única de combinação destes três elementos na formação
desta matéria (tão plasticamente variável) chamada humanidade.
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