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Avaliação da concepção familiar sobre a esquizofrenia
por Elziane Mota dos Anjos Trajano
Resumo:
Apresenta-se uma revisão
bibliográfica, salientando-se a importância da participação da
família no tratamento e na interação social do paciente
esquizofrênico. Objetivou-se caracterizar os familiares
cuidadores e conhecer suas percepções sobre a esquizofrenia.
Foram entrevistados 05 familiares. Os discursos foram analisados
segundo análise do conteúdo de Bardin. As percepções apreendidas
organizaram-se em torno da causalidade e conhecimento da
esquizofrenia. Também circularam idéias relativas a
“preocupações com o tratamento “ e”sentimentos do cuidador”
Palavras – chave:
Enfermagem. Esquizofrenia. Família.
Abstract:
It is a
literature review, focusing on the importance of the
participation of the family in treatment and social interaction
of the schizophrenic patient. This study aimed to caregivers in
these families and hear perceptions about the illness. Five
family members. Their speeches were analyzed according to
content analysis Bardin. The perceptions acquired showed an
organization around casualty and awareness of schizophrenia.
Ideas concerning” worries about treatment” and “feelings of the
caregiver” were also present.
Keywords: Nursing.
Schizophrenia. Family.
Introdução
Dentro do espectro dos transtornos psíquicos, a
esquizofrenia é uma das formas mais sérias de doença mental, para a
qual não existem causas orgânicas demonstráveis ou déficit
intelectual, sendo completamente abrangente, já que afeta todas as
dimensões da existência do indivíduo. Caracteriza-se por uma
perturbação da personalidade e perda da capacidade para interferir
na realidade, mas sem evidências de relações entre o transtorno e os
processos físicos do cérebro (AZEVEDO, 2005).
Nem todos os familiares possuem condições
estruturais, econômicas e emocionais para conduzir satisfatoriamente
esses aspectos da convivência com a doença. Entretanto, de alguma
forma elaboram a experiência, lidam com seu sofrimento e
expectativas e podem viabilizar a convivência com a doença, buscando
apoio em sua rede de conhecidos, em algum sistema de crenças e em
tratamentos alternativos. Enquanto unidade, a família é vista como
um sistema, e seus membros como componentes deste, ocorrendo
influências recíprocas (SCAZUFCA, 2000).
Portanto, é apropriado investigar a constelação
familiar do portador de esquizofrenia por meio das percepções
trazidas no discurso de um dos seus membros. A esquizofrenia é vista
como uma doença que pode se manifestar em indivíduos biologicamente
vulneráveis, nos quais um ambiente afetivo familiar não favorável
pode colaborar para o início da doença ou recidivas. Portanto, é
sugestiva e instigante a investigação científica desta possível
interferência (AZEVEDO, 2005).
O modo como à família interpreta a doença mental de
um dos seus membros influencia as práticas de cuidado por ela
adotado, e o sucesso na reabilitação depende das relações
estabelecidas entre aquele que cuida e o que é cuidado. A idéia de
trabalhar e problematizar esta temática partiu da minha experiência
enquanto parente de um esquizofrênico e pelas dúvidas e incertezas
da família, aliado a pouca orientação e conhecimento sobre a doença
e a ignorância perante um assunto tão permeado de preconceitos,
estigmas e sofrimento, como é a doença mental (AZEVEDO, 2005).
É por essas razões, e também por ser o esquizofrênico
um ser humano dotado de necessidades especiais, que a enfermagem em
saúde mental tem um papel significativo no curso desta patologia,
seja no âmbito da promoção, tratamento ou na reabilitação da saúde
do portador e de sua família. Dessa forma, o enfermeiro assume a
posição de um profissional de referência, já que ouve e presencia
com freqüência as manifestações sadias e patológicas de clientes e
familiares, compartilhando angústias, temores e fantasias (AZEVEDO,
2005).
A esquizofrenia e vista como uma doença que podem se
manifestar uns indivíduos biologicamente vulneráveis, nos quais um
ambiente afetivo familiar não favorável pode colaborar para o início
da doença ou recidiva. Portanto, é sugestiva e instigante a
investigação científica desta possível interferência (AZEVEDO,
2005).
O modo como à família interpreta a doença mental de
um dos seus membros influencia as práticas de cuidado por ela
adotada, e o sucesso na reabilitação depende das relações
estabelecidas entre aquele que cuida e o que é cuidado (AZEVEDO,
2005).
Para ter acesso a questões tão inquietantes em nossa
prática, objetiva-se caracterizar os familiares cuidadores e
analisar as percepções destes acerca do transtorno mental de seu
ente.
Metodologia
Trata-se de uma investigação quanti-qualitativa, do
tipo exploratória e descritiva com o interesse em descobrir e
observar fenômenos, procurando descrevê-los, classificá-los e
interpretá-los (RUDIO, 2002).
A pesquisa foi efetuada na residência dos familiares,
localizada no município de Canavieira-PI. A amostra foi constituída
por 05 familiares de pacientes com o diagnóstico de Esquizofrenia
Catatônica (F20. 6), de acordo com Décima Classificação Estatística
Internacional das Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10).
Aos familiares, sujeitos da pesquisa foram
apresentados o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, conforme
preconiza a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde – Ética
na Pesquisa Envolvendo Seres Humanos (BRASIL, 1996).
Os dados qualitativos obtidos através da entrevista
foram organizados e analisados e, posteriormente, discutidos com
base na fundamentação teórica.
O instrumento utilizado consistiu em uma entrevista
semi-estruturada. Foram entrevistados 05 familiares que acompanhavam
o tratamento e a progressão da doença. Toda a entrevista foi gravada
em audiotape e transcrita na íntegra.
Apresentação e discussão dos resultados
Em concordância com a natureza quantitativa –
qualitativa que imprimiu-se a este estudo, julgou-se necessário
introduzir a apresentação dos resultados,bem como as discussões
empreendidas,por meio da caracterização dos familiares cuidadores.
As análises dos resultados evidenciam algumas
questões discutidas na literatura a respeito das intervenções breves
com familiares, que incluam apenas estratégias educativas, podendo
resultar em informações que os familiares têm sobre a esquizofrenia.
Tais intervenções têm como meta, reduzir ou prevenir os sintomas da
esquizofrenia e melhorar a qualidade de vida de toda família
(AZEVEDO, 2005).
Categorização do Discurso do Familiar Cuidador de
Portadores de Esquizofrenia
Como resultado da análise empreendida sobre os
discursos coletados, passa-se a apresentar as categorias
identificadas. Para situarmos dentro dos resultados o sujeito
entrevistado, utilizou-se a sigla “F” de familiar, seguido do número
na seqüência das entrevistas.
Em resposta feita aos familiares durante a entrevista
teve-se a compreensão das causa da esquizofrenia. Quando os sujeitos
remetem a causalidade da esquizofrenia a fatores biológicos,
situam-se teoricamente em afinidade com a teoria organicista ou
biológica, segundo a qual a doença mental provém de problemas na
constituição e no funcionamento cerebral (AZEVEDO, 2005).
Como exemplo desta concepção, citamos as seguintes
falas:
“(...) Ele disse que criou “um frio por dentro”
que quase se acaba” (F.02);
“(...) À noite ele tentava se concentrar para
dormir e não conseguia” (F.01).
De forma oposta,quando não se tem indício da doença
nestas condições,busca-se respaldo no que é congênito e de cunho
hereditário:
“(...) Já tivemos vários tios como essa doença,
teve um que foi obrigado morder a orelha para parar a crise”
(F.05);
“(...) já nasceu com problema, vem do sangue da
mãe” (F.03).
Já os fatores psicossociais, enquadariam-se na mais
atual e aceita teoria sobre a etiologia dos transtornos mentais.
Faz-se referência à teoria eclética, segundo a qual os transtornos
mentais são de origem multicasual e, principalmente, seus fatores se
apresentam de forma inter-relacionada. (AZEVEDO, 2005).
Na subcategoria “Relacionamentos Familiares
Inadequados”, os cuidadores identificam que a falta de harmonia nas
relações familiares desequilibra o funcionamento sadio do sistema.
Os seguintes relatos constatam o que foi sugerido:
“(...) é problema de família, menino muito
mimado” (F.02);
“(...) proteção demais dá nisso” (F.05).
Por meio do exemplo citado, fica evidente que os
cuidadores percebem a importância da existência de valores e bases
familiares sólidas na vida do ser humano, como condição para a saúde
mental. O grau de sofrimento do indivíduo está diretamente
relacionado às experiências vivenciadas no contexto familiar.
“Conhecimento da terminologia científica”.
“[....] O médico diz que é esquizofrenia”(F.02);
“[...]não sei, é um desequilíbrio mental, não é
não?”(F.04).
A representação e o conceito de doença têm estreita
ligação com o estilo de pensamento dominante. Atualmente, há uma
multiplicidade de abordagens deste conceito, indo desde isolados de
uma área de conhecimento até modelos plurais de abordagem. A forma
dispersa dos familiares de conceberem a doença, pode ser atribuída à
omissão de informações sobre a patologia fornecidas pelos
profissionais de saúde. Para tornar clara esta inferência, basta
constatar a inexistência de equidade entre o conhecimento
mágico-religioso e científico elucidado nos achados (AZEVEDO, 2005).
Faz-se necessário rever a maneira como a família está
sendo instruída pelos profissionais de saúde na busca do
entendimento coerente do transtorno mental. Onde andaria a tão
discutida e propalada educação em saúde atribuída aos profissionais,
em especial aos enfermeiros?Há muito que se refletir sobre esta
prática, principalmente no campo da enfermagem que tem na educação
uma das suas principais ferramentas na atenção e promoção de saúde
da comunidade. Familiares e pacientes têm direito à informação sobre
a situação que estão vivendo e também a esclarecer as suas dúvidas
sobre a doença. Mesmo que os familiares apresentem idéias
aparentemente absurdas sobre a esquizofrenia, elas devem ser
respeitadas e discutidas por todos (SCAZUFCA, 2000).
Os familiares reconhecem uma situação de doença e,
para caracterizá-la, recorrem aos relatos das dificuldades vividas
no cotidiano e aos comportamentos dos pacientes considerados
problemáticos. O grau de sofrimento do indivíduo está diretamente
relacionado a experiências vivenciadas no contexto familiar,
principalmente no tocante aos sucessos ou decepções de suas
projeções (BARDIN, 1977).
Familiares e pacientes têm direito à informação sobre
a situação que estão vivendo e também a esclarecer as suas dúvidas
sobre a doença. Mesmo que os familiares apresentem idéias
aparentemente absurda sobre a esquizofrenia, elas devem ser
respeitadas e discutidas por todos (AZEVEDO, 2005).
“[...]quando ele foi para o exército lá o
colocaram para atravessar uma lama “empendurado” numa corda. Ele
disse que criou “um frio por dentro” que quase se acaba. Tinha
que caminhar pela corda, diz que caiu três vezes dentro dessa
lama. Aí quando ele caía o povo gritava que tinha jacaré, cobra
tinha tudo naquela lama. À noite ele tentava se concentrar para
dormir e não conseguia, porque ficava lembrando de tudo aquilo,
todos aqueles bichos” (F.03).
A convivência com uma doença pouco compreendida como
a esquizofrenia leva frequentemente os familiares a tomarem decisões
precipitadas.
...Teve uma vez que foi preciso amarrar ele, mais
a família na permite mais que isso se repita,prefere manter ele
trancado num quarto com medo dele sair.
Por último foi possível identificar na temática
“Sentimentos do Cuidador” o lamento, a tristeza e o sofrimento de
ter no núcleo familiar um portador de esquizofrenia. O envolvimento
afetivo característico dos laços familiares de alguma forma orienta
as tentativas de entendimentos e as buscas de soluções para muitas
questões pertinentes ao convívio com um familiar doente (AZEVEDO,
2005).
“(...) Eu tenho muita pena dele” (F.04);
“(...) Alguns têm medo, outros não, eu mesma não
tenho medo” (F.02).
Estas afirmações denotam um sentimento de intensa
tristeza e sofrimento, e ao mesmo tempo, de impotência perante uma
doença que não tem perspectivas de cura. Considerando tudo que diz
respeito à família, sua estrutura, suas crenças, modo de
convivência, como parte da esfera popular e com maior peso na
estrutura total dos sistemas de saúde do que comumente se atribui.
No tratamento de doenças graves como a esquizofrenia é indiscutível
a influência deste setor. Expressa–se ainda que a relevância do
estudo da conceitualização de doença mental pelos familiares está em
explorar um campo ainda bastante desconhecido e empreender uma
aproximação de dois pontos de vista: o profissional, com a clínica e
as terapêuticas existentes e o popular com a compreensão e as
necessidades dos pacientes e familiares.(SCHLITHLER,2000).
Considerações finais
Por isso quando a família descobre qual é a
enfermidade, em geral lhe falta saber seu significado para ter noção
do que de fato está ocorrendo. Ela não tem informação sobre o que
sejam as psicoses e resiste em acreditar que este seja o problema
enfrentado pelo paciente.Surgem os estereótipos e muitas dúvidas
sobre a possibilidade e as formas de controlar a situação e também a
respeito de qual seja o tratamento mais adequado.
Torna-se imperioso aos profissionais de saúde, em
especial à Enfermagem, buscar estratégias que proporcionem uma
melhora na qualidade de vida e promoção de saúde no núcleo familiar
do portador de esquizofrenia.
Cabe a família promover o contato entre o doente e os
serviços de saúde existentes e lidar com as situações de crise,
decidindo quando é possível o manejo em casa e quando buscar ajuda
emergencial e ao profissional de saúde envolvido, fornecer
informações que contribuam para uma convivência menos dolorosa.
Referências
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Gaudêncio MMP. A esquizofrenia sob a Ótica Familiar: o
discurso dos cuidadores. Campina Grande, 2005.73p.
[
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de Enfermagem, Universidade Estadual da Paraíba.
BARDIN L. Análise
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SACAZUFCA M.
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Mari JJ. Concepções de Doença por Familiares de Pacientes com
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