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RODRIGO MANOEL DIAS DA SILVA
Mestrando em Ciências Sociais na
Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS. Bolsista
CAPES.
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Democracia Radical e Crise da Política no Brasil
por Rodrigo Manoel Dias da Silva
O cenário político brasileiro posterior à
Constituição de 1988 poderia ser caracterizado como locus de
uma ampliação das esferas de participação democrática. Aos poucos,
diferentes atores sociais foram ocupando espaços no campo político,
passando a dominar, inclusive, as ferramentas lingüísticas ou
discursivas presentes na vida política. Desde então, temas políticos
ocuparam, vigorosamente, a atenção popular, os quais desdobraram-se
nestes novos vocabulários presentes, dentre outros, nos debates
sobre corrupção: Comissões Parlamentares de Inquérito, apelos por
condenação, cassação de mandato, transparência na gestão, renúncia
de mandato parlamentar, demissão nas cúpulas decisoras de partido e
de governo, crise política.
Neste contexto, em que assistimos à emergência de uma
multiplicidade de imagens de corrupção, as mídias apressaram-se em
transformar tal incidente em um vetor de crise política. Passou-se a
veicular, diariamente, notícias da ilicitude de ações políticas
governamentais nas três esferas, isto é, tal período possibilitou
condições discursivas para novas reflexões sobre a política no
Brasil. Viveríamos uma crise política no Brasil? Seria a corrupção
um indicativo desta crise política que supostamente vivenciamos?
Como, pois, definir o momento político pelo qual o país atravessa?
Sobre as questões acima provocadas, da vigência de
uma crise política neste país, parece-nos oportuno que a resposta de
tal pergunta seja um campo constituído por ambivalências, não
havendo, portanto, um ‘sim’ ou ‘não’ absoluto. Com a intenção de
refletir sobre a condição atual da democracia no país, segmentamos,
didaticamente, este artigo em duas partes. Na primeira, definimos o
marco conceitual no qual operamos: os aportes discursivos para
reflexão da Política em Ernesto Laclau e Chantal Mouffe. Na segunda,
tecemos algumas análises sobre a condição atual da Política no
Brasil expressa, sobretudo, nas veiculadas e escandalizadas notícias
em torno da corrupção.
Democracia radical: significantes e paradoxos
Nesta seção textual, apresentamos uma breve discussão
sobre a condição da democracia na atualidade, sobretudo desde dois
conceitos elaborados por Laclau e Mouffe (LACLAU, MOUFFE, 1987;
LACLAU, 2006; PINTO, 2004a e 2006): o de “significante vazio” e o de
“paradoxos da democracia” pretensiosamente articulados com uma
radicalização da democracia, os quais sob nossa leitura apontam
elementos significativos para refletirmos sobre a atualidade da
questão política no Brasil.
O declínio das metanarrativas narrados por Lyotard
(2002) significou, guardadas as devidas proporções, o declínio
daquelas perspectivas antagônicas do social, vigorando uma situação
nova de instabilidade que sugere novos e instáveis espaços da
política, submetidos a constantes deslocamentos e requer um
incessante processo de redefinição. Desde tal constatação, os
autores defendem dois pontos base: a negação de um espaço político
unificado e a pluralidade e a indeterminação do social - tais pontos
convergem para uma leitura pós-estruturalista da política desde
Laclau e Mouffe (1987). Assim a política não está localizada em
apenas um âmbito (esfera pública, arena política ou outra condição
coletiva universal), mas definida e articulada a um campo de
antagonismos, isso fica visível quando os autores mencionam
Foucault, em sua clássica expressão, “en todo lugar donde hay poder
hay resistencia” (LACLAU, MOUFFE, 1987: 171).
Portanto, se a democracia radicaliza-se e desloca-se
para as esferas culturais, faz-se possível verificar uma lógica de
equivalência entre os distintos discursos que a constituem, porque,
por exemplo, com o advento do feminismo há um deslocamento no
interior do discurso democrático do campo da igualdade política
entre os cidadãos para o terreno da igualdade sexual. E é
precisamente neste deslocamento para as matizes culturais que a
democracia radicaliza-se, dissemina-se e pulveriza-se em novas
relações sociais.
Ao radicalizar-se um outro conjunto de formas de
subordinação assumem relevo, devido a novos antagonismos oriundos
desta democracia (LACLAU, MOUFFE, 1987:181):
De ahí la multiplicidad de relaciones sociales
que pueden estar en el origen de antagonismos y de luchas: el
habitat, el consumo, los diferentes servicios, pueden todos
ellos constituir terrenos para la lucha contra las desigualdades
y para la reivindicación de nuevos derechos.
Este deslocamento altera as delimitações entre o
público e o privado, mesmo sabendo que analisam desde um Estado de
Bem Estar Social, o que geram novas formas de intervenção estatal,
promovendo novos antagonismos. Neste sentido, tal deslocamento
promove um efeito ambíguo: por um lado, amplia o caráter do espaço
político ao radicalizar a democracia, por outro, cria novas formas
de subordinação, o que, por si, evocaria para a emergência de novos
sujeitos políticos. De fato, os antagonismos novos são a expressão
de resistências, dentre outros fatores, à homogeneização crescente
da vida social estimulando uma certa proliferação de particularismos
e redefinem a busca por autonomia destes próprios sujeitos, porque,
se por uma perspectiva moderna a democracia assentou-se no princípio
da igualdade, ora a liberdade adquire estatuto diferenciado na
democracia.
Porém, este sujeito político que radicaliza o
discurso democrático parte, conceitualmente, e aqui talvez uma
similitude a Hall (2006), de uma renúncia da categoria sujeito como
uma entidade unitária e, no mesmo movimento, abre caminho para o
reconhecimento da especificidade dos antagonismos constituídos desde
diferentes posições de sujeito e, de tal sorte, a um possível
aprofundamento de certa concepção pluralista e democrática (Laclau,
Mouffe, 1987). Assim, (LACLAU, MOUFFE, 1987:215):
El discurso de la democracia radicalizada ya no
es más el discurso de lo universal; se há borrado el lugar
epistemológico desde el cual hablaban las clases y su sujetos
universales, y ha sido sustituido por una polifonía de voces
cada una de las cuales construye su propia e irredductible
identidad discursiva.
Nesta relação radicalizada de democracia enquanto
polifonia de vozes, talvez identificada com a noção de dissenso de
Lyotard, remete ao conceito de “significante vazio”, ou seja,
“quando um significante perde sua referência direta a um determinado
significado” (LACLAU, 2006:25). Mais especificamente, refere-se à
democracia, a qual, pelo menos pela leitura que prioriza o consenso,
que possui internamente inúmeros elementos heterogêneos entre si,
porém não tem um significado preciso, tende a unificar uma
multiplicidade de processos sociais sobre o mesmo nome – o que lhe
esvazia a significação.
Desde um outro registro, poderíamos acrescentar que
este esvaziamento dos significantes da democracia, decorrente por
certo de sua impossibilidade de generalização, provavelmente remete
a conceitos paradoxais de democracia, uma vez que a mesma desloca-se
para locais de enunciação distintos (PINTO, 2006). Nesta direção, a
autora (PINTO, 2004a) revela-nos os três paradoxos da democracia,
pautados em precisa leitura de Chantal Mouffe, a saber: a
incompatibilidade na relação entre igualdade e liberdade, a atual
condição da democracia na ausência de “inimigos” legítimos e a
(provável?) crise da representatividade na democracia.
Mouffe (in PINTO, 2006) estabelece, o que seria o
primeiro paradoxo, a impossibilidade de convivência de seus
princípios constitutivos, quais sejam: a igualdade e a liberdade e
que, ao mesmo tempo, a democracia é uma constante negociação-tensão
entre elas. Do contrário, uma larga presença de ambas seria uma
idealização, por isso, mesmo frente ao privilégio da igualdade nos
discursos modernos, os discursos pós-estruturalistas estão
preocupados com a liberdade. A expressão “terceira via” tal como
escrita por Giddens, ou sua faceta contemporânea expressa no
terceiro setor (ONGs, sobretudo), tende não tensionar estes
princípio, o que, em parte, revela a perda da natureza política da
democracia (PINTO, 2004a:22).
Um segundo paradoxo, sinteticamente, introduz que:
até vinte ou trinta anos atrás, a democracia estava permanentemente
sob ameaça, ao passo que, hoje a mesma vive tempos de estabilidade,
pois ninguém é capaz de contestar a democracia a favor de regimes
autoritários. Mas, cabe mencionarmos que, enquanto valor a ser
defendido, na América Latina, a democracia surgiu nos anos de
1960/1970 em oposição às ditaduras militares vigentes. O paradoxo
demonstra que, mesmo frente a sua ausência de opositores, a
democracia vê diminuída sua capacidade de gerir a crise social em
que se encontra (idem, p.27).
O terceiro paradoxo refere-se à dificuldade da
democracia em construir interesses gerais (idem, p.29) de modo que a
própria representação vê-se sem representatividade. Oportunamente,
diria que o paradoxo em tese quer dizer que as diferenças manifestas
ou representadas politicamente na esfera pública, acabavam por ter
sonegado seu potencial propriamente político, uma vez que diferença
assumia condição de coesão (PINTO, 2004b). Com isto, não se pretende
igualar as condições de representantes ou representados, apenas
ressaltar que seus discursos partem de lugares distintos, pois: “A
idéia de separação entre representantes e representados é
fundamental para que se possa, inclusive, delimitar o espaço da
política; sem ela esse espaço simplesmente não existiria” (PINTO,
2004b:106).
Estes paradoxos são o próprio lugar da democracia na
contemporaneidade. Na próxima e última seção textual, exploraremos a
condição da política no Brasil em tempos de multiplicação da idéia
de crise e apologia à corrupção como metáfora deste tempo.
Vivemos uma crise política no Brasil?
Se partirmos da tese que há uma crise política no
Brasil desde os anúncios recentes de corrupção, a mesma não traria
dificuldades em ser refutada, bastaria lançar olhares para a
trajetória política brasileira desde os princípios da República,
pelo menos, onde iniciativas como o uso pessoal de bens públicos e a
“confusão” entre o público e o privado eram usuais e tidos como
inerentes ao “ser político”. Assim, o que hoje parece escandalizar
como sendo corrupção, por uma lente histórica, nada mais seria que a
continuidade daquelas premissas patrimonialistas, legalmente
auferidas, de usos do Estado pelo benefício daquele sujeito
investido em cargo ou função pública. Tal referência indica ao fato
de identificarmos a corrupção como algo existente desde tempos e
tramada no jogo político nacional, portanto, em si mesma, não
indicando uma crise política.
Mas, então, se a crise política é relativa apenas a
alguns âmbitos da política e a corrupção não é sintomática desta
condição, que elementos têm sido deslocados em sua significação de
maneira que tenha produzido tamanhos estranhamentos capazes de serem
nominados por “crise”? Na contemporaneidade, como podemos definir o
momento político vigente no Brasil? Na mesma linha de reflexão
histórica sobre a corrupção, que nos permitiu entrever a
continuidade da temática e nem tanto uma leitura catastrofista da
política, poderíamos refletir sobre a efetividade da representação
democrática. Pensemos que no início dos anos de 1920, a
representação eleitoral era plena, porque aqueles que eram
candidatos a cargo eletivo e aqueles que eram eleitores, eram as
mesmas pessoas ou pertencentes das mesmas elites políticas e
familiares – e isto era representação. O cidadão apresentava uma
relação pessoal com o seu representante e este, por sua vez, com o
Estado, de modo que, tal como se confundiam patrimônios público e
privado, havia uma representação de interesses pessoais, mesmo que
sob uma face coletiva. E, sob tal condição, não existia
possibilidade de não se dizer coletiva, pois eleitos e eleitores
viam-se contemplados nestes processos erigindo, inevitavelmente, um
estatuto de igualdade política no país.
O limiar do século XXI, no Brasil, evidenciou novas
condições discursivas para o postulado da política nestas terras e,
como novidade, assume a alcunha de “crise” simplesmente por não
sabermos o que fazer frente a modificações na antes igualitária
esfera pública e nem tanto pela ampliação efetiva da corrupção. É
claro que o combate à corrupção é necessário a um país que carece
reverter um ciclo de desigualdades que tem se perpetuado,
entretanto, compreender os novos jogos de relação política que se
instauram é fundamental. É exemplar desta situação a ampliação da
idade eleitoral para a juventude aos dezesseis anos. Desta maneira,
há uma crise de representatividade devido à desproporcionalidade das
demandas eleitorais no contraste com a perda de vínculos entre
representantes e representados, tendo como foco de antagonismo os
interesses privados.
Esta questão da ampliação quantitativa dos atores
políticos, não somente por adesão à democracia, desdobra-se em um
importante tensionamento atual da política: a perda do potencial
integrativo da política (ao menos em suas noções de igualdade
política). Há um campo plural de negociações e antagonismos para
além do ingresso na esfera pública, o que, por um lado, amplia a
noção de política e, por outro, remete a uma noção de política
pautada na diferença e nas contingências. Se a noção tradicional de
democracia recorre à liberdade e à igualdade como pilares fundantes,
sobretudo a segunda em detrimento da primeira, o que se exige da
democracia hoje é ampliar-se para alcançar as diferenças culturais.
Vivemos uma crise política no Brasil? Talvez sim,
dependendo do que entendemos por crise. Mas isto que
reincidentemente nomeamos por “crise”, por vezes é apenas a
manifestação de nossa incapacidade de definirmos o espaço político
no qual habitamos, que rapidamente passou a ser múltiplo,
contingente e não-universal. E nestes deslocamentos contemporâneos
de significação, como escreveu Ernesto Laclau, os tensionamentos em
torno da corrupção são a expressão de um dos tantos antagonismos
deste campo político e, muito menos, indicativo de uma patologização
da política ou da democracia. Pois, de fato, apologias à corrupção
em nossa cultura política podem revelar um certo saudosismo daqueles
tempos que a Política era “boa” e para poucos.
Referências
HALL, S. Quem
precisa da identidade? In: SILVA, T. T. (org.)
Identidade e Diferença – A perspectiva dos Estudos Culturais.
Petrópolis: Vozes, 2000, p.103-133
____. A identidade
cultural na pós-modernidade. 11ª ed. Rio de Janeiro: DPA, 2006.
LACLAU, E.; MOUFFE,
C. Hegemonia y estrategia socialista. Hacia una radicalización de la
democracia. Madrid: Siglo XXI, 1987.
LACLAU, E.
Inclusão, exclusão e a construção das identidades.
In: AMARAL Jr.. A., BURITI,
J. (orgs.) Inclusão Social, identidade
e diferença: perspectivas pós-estruturalistas de análise social. São
Paulo: Annablume, 2006, p.21-38
LYOTARD, J. F. A
condição pós-moderna. 7ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002.
PINTO, C. R. J.
Teorias da Democracia: diferenças e identidades na
contemporaneidade. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004a.
____. Espaços
Deliberativos e a Questão da Representação. Revista Brasileira de
Ciências Sociais. ANPOCS. Vol. 19, N°54, 2004b, p.97-114
____. O discurso
democrático deslocado: a propósito do paradoxo da democracia. In:
AMARAL Jr.. A., BURITI, J. (orgs.) Inclusão Social, identidade e
diferença: perspectivas pós-estruturalistas de análise social. São
Paulo: Annablume, 2006, p.93-122.
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