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SAULO RONDINELLI XAVIER
DA SILVA
Mestrando em Cultura e Turismo –
UESC (Ilhéus-BA.); Especialista em Educação Geoambiental –
FacSul (Itabuna-BA)

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A imagem como meio de comunicação: a representação simbólica de
uma “realidade”
por Saulo Rondinelli Xavier da Silva
Nesse artigo, faremos uma breve análise sobre a
imagem material, especificamente, a imagem fotográfica do
cartão-postal. Através de um referencial teórico específico onde o
principal foco extraído foi, justamente, a limitação da imagem
fotográfica em transmitir uma realidade, visto que a fotografia é
passível de influências, o que a confirma como documento. Nota-se
que a imagem material é vulnerável à intervenção humana desde a sua
criação (quando se registra sob forma material um fragmento do
espaço) até a sua repercussão (disseminação de idéias e impressões),
que vai depender do primeiro. Assim, buscamos investigar sobre a
utilização de imagens fotográficas na atividade turística,
compreendendo a sua influência como elemento motivador e
determinante para a sua realização.
Ao realizar uma observação do espaço, o fotógrafo,
muitas vezes, faz uma percepção acrítica e apreende um fragmento da
paisagem para ser registrado de forma material. Embora realize uma
tarefa inerente ao geógrafo, a crítica só vai existir quando o
usuário da imagem interpretá-la de acordo com os seus anseios.
Entretanto, existe uma crítica na produção de uma imagem fotográfica
quando o seu criador – o fotógrafo – tem certa postura radical com a
realidade onde vive, por exemplo, e tem a intenção de captar uma
determinada realidade que expresse essa sua postura.
Na atualidade, com a proliferação de imagens
fotográficas materiais e virtuais que veiculam a cena urbana, como
os cartões-postais e outras fotografias de cidades, com o
crescimento da atividade turística, e com uma população que passa a
exercer cada vez mais o Turismo Cultural, essas imagens passam a ser
freqüentemente utilizadas, “se padronizam cada vez mais e se resumem
à representação quase exclusiva de monumentos” (MONDENARD, 1999:
108).
Pode-se perceber, então, que antes mesmo da mensagem
chegar a um usuário, quando a imagem é produzida pelo fotógrafo com
o objetivo de expressar “valores” para servir como um cartão-postal,
uma vista representativa da cidade, esta é idealizada com os
interesses de elites e do Estado visando a construção de uma imagem
“oficial” que, assim como outros documentos, é plena de
ambigüidades, portadora de significados implícitos e de omissões
calculadas que aguardam uma decifração (SILVA, 2003: 17).
Segundo Junior in Vasquez (2002: 17-19), o
cartão-postal serve como um suporte para a imortalização da memória
cultural, e também pode ser entendido como um elemento do processo
de mundialização
– por ser um veículo de mensagens que as propaga por todas as
“latitudes”, colaborando também para o dinamismo da indústria
gráfica, que, logo transformou o produto – o cartão-postal – num
objeto de coleção e, por transmitir informações (elementos
geográficos, históricos e sociais) pode ser considerado, ele
próprio, um Patrimônio Cultural.
Nesse caso, podemos definir como Patrimônio Cultural
o amplo conjunto de produções ou manifestações, individuais ou
coletivas, que expressam as crenças, costumes, tradições e
conhecimentos de um determinado grupo social. Desse modo, “devemos
incluir sob o termo Patrimônio Cultural não só os monumentos
arquitetônicos de cunho histórico, mas, também, todas as
representações e produções culturais produzidas pelo homem”. Aqui, o
cartão-postal apresenta as duas funções, podendo ser e ao
mesmo tempo representar um patrimônio (PELLEGRINI FILHO,
1997).
Dessa forma, o cartão-postal proporciona ao receptor,
quem o coleciona ou quem simplesmente o analisa como
usuário, uma
compreensão e um reconhecimento. Informações
podem ser
suficientemente fornecidas acerca do que é retratado numa fotografia
por sua própria imagem. Por exemplo, as características e os fatores
típicos e/ou determinantes de uma ruela ser estreita e sinuosa nos
faz inferir sobre a época de seu registro fotográfico, logo, podemos
relacionar com o período manufatureiro da nossa economia, ou mesmo,
o vestuário do cidadão ilheense em fotografias do início do século
passado: mulheres todas de longos vestidos e homens com chapéu,
paletó, gravata e polainas; são elementos que facilitam a
periodização, pois caracterizam uma população da época de apogeu da
cultura cacaueira.
É a partir daí que se identifica a capacidade e o
potencial do cartão-postal em transmitir em que época foi produzido,
destacando valores e elementos que foram privilegiados durante o
registro fotográfico. Portanto, a imagem fotográfica registra uma
determinada realidade sob a forma de extensão espacial e passa a
deixar de ser uma “simples” publicação para ser uma imagem que pode
ser analisada de diversas formas.
Contudo, percebe-se que a imagem não busca transmitir
informações genuinamente inéditas, mas evidenciar situações de
espaços superpostos ou paralelos em relação ao conhecimento prévio
do receptor, podendo assim até ser parcialmente redundante quanto à
memória deste, expressando determinados valores, provenientes do
contexto social – que vai depender do momento em que essa imagem foi
produzida e dos objetivos de quem a produziu. Podendo contribuir em
atividades de Educação Patrimonial, por exemplo, podendo até
aprimorar o Turismo Cultural no lugar, se essas imagens expressarem
a memória coletiva de determinada comunidade, despertando nesta o
sentimento de pertença e reconhecimento ao representar a sua
identidade como valor simbólico, e servindo como fonte de
investigação e instrumento de interpretação para atividades de
Turismo Cultural, e para pesquisas sobre determinada sociedade.
A imagem fotográfica sempre exerceu o papel de um
poderoso instrumento para a repercussão de idéias e da manipulação
da opinião pública. Esse atributo ganhou intensidade a partir dos
avanços tecnológicos da indústria gráfica, que possibilitou a
multiplicação massiva de imagens através dos meios de informação,
como o cartão-postal, e sua divulgação em todas as partes. A começar
pelas pinturas, passando pelas imagens de lugares freqüentados por
uma sociedade privilegiada, com prédios públicos bem desenhados,
praças projetadas cuidadosamente, ruas movimentadas pelos bondes,
carruagens e automóveis, as estações ferroviárias, as pontes e
viadutos, que denotam o progresso tecnológico, até chegar à
fotografia digital. Hoje, o cartão-postal pode, assim, ser
classificado em: paisagístico, jornalístico, publicitário e,
virtual.
A variedade temática de ilustrações dos
cartões-postais é tão múltipla quanto suas possibilidades de
leitura, desde as fotografias de paisagens urbanas, os enfoques
meramente saudosistas e humorísticos, fotografias retratando desde
os temas bélicos de cunho patriótico (a Primeira Guerra Mundial deu
inclusive ensejo à edição de dezenas de séries especialmente
dedicadas aos combatentes franceses) e, o exótico também teve
presença garantida na produção dos editores de cartões-postais;
constituindo igualmente “rica fonte de informações para o
conhecimento da paisagem social e humana do período” (Vasquez,
2002:19).
Os historiadores costumam situar a idade de ouro do
cartão-postal entre as décadas de 1890, quando surgiram os primeiros
cartões ilustrativos, e 1920, quando teve início a decadência da
voga do envio e do colecionismo de postais, período em que
consolidaram e se expandiram os meios de transporte oitocentistas –
como o trem e o navio a vapor – e surgiram outros, ainda mais
rápidos e modernos, como os dirigíveis, os aviões comerciais e, os
automóveis. No Brasil, esse período corresponde exatamente à
República Velha, definitivamente enterrada pela Revolução de 1930 (ibid.).
Para Kossoy (1999: 52), “a imagem de qualquer objeto
ou situação documentada pode ser dramatizada ou estetizada, de
acordo com a ênfase pretendida pelo fotógrafo em função da
finalidade ou aplicação a que se destina”, essa manipulação, se
torna possível graças a confiança mencionada que a imagem tem
perante a massa, para quem seus conteúdos (informações) são aceitos
e assimilados como a expressão da verdade.
Partindo do exposto, podemos verificar que, desde o
seu surgimento, a fotografia tem imposto e tem sido aceita pelo seu
potencial em registrar aspectos da realidade, sendo utilizada como
um artefato, uma prova definitiva de um fato e, por apresentar
elementos como estes realmente “se parecem”, a imagem fotográfica
ganhou elevado status de credibilidade.
Como todo documento, a fotografia também apresenta
limitações e, o cartão-postal as maximiza, pois, seu principal
objetivo é mostrar a cidade em momento majestoso, com ruas bem
planejadas e asseadas, praças ornamentadas, edificações bem
estilizadas, tudo para expressar uma “sofisticação urbana” (JUNIOR
in VASQUEZ, 2002: 18). Essa característica pode favorecer uma
determinada comunidade, no sentido de valorizar e divulgar aspectos
positivos de sua cidade. Porém, para o indivíduo – o cidadão –
existirá uma diferença entre a realidade dele e o que foi
fotografado e está sendo divulgado.
Sem dúvida, as representações simbólicas do popular
se adequaram às manipulações ideológicas (e, em parte, foram produto
delas), por parte das elites brasileiras, Santaella (1995: 86)
salienta que a idústria cultural e o desenvolvimento técnico dos
meios de comunicação entra, assim, em choque com os sistemas de
controle quer políticos, quer econômicos, que dividem transmissores
e receptores em produtores e consumidores.
Nessa perspectiva, uma revisão bibliográfica tem
demonstrado, também, que o cartão-postal tem sido um objeto
utilizado no turismo, contudo, apenas como um meio de propagação de
uma imagem material de uma dada realidade, ou seja, uma fotografia
produzida num momento escolhido para este fim. Assim, considerando o
valor documental dos cartões-postais e suas limitações, quando esta
imagem é produzida com o objetivo de representar o objeto ausente:
a cidade, pensamos que é preciso ultrapassar a visão captada pelas
lentes dos fotógrafos profissionais que têm a intenção de mostrar o
lado positivo da cidade, e, explorar as potencialidades do
cartão-postal como instrumento de Educação Patrimonial.
Partindo desta proposição, vale salientar que
Educação Patrimonial consiste na implementação de ações educativas
de investigação, apropriação e valorização do Patrimônio Cultural,
um processo permanente e sistemático centrado nesse instrumento de
afirmação da cidadania. A Educação Patrimonial procura descobrir os
valores, costumes, hábitos, aspectos da vida, lendas, cultura
material e particularidades de instalação no ambiente, a fim de
revitalizá-los para que toda a comunidade tenha acesso a essas
informações (CASTRO, 2006).
Nesse sentido, “a Educação Patrimonial fornece
elementos que possibilitam a percepção do espaço cultural pela
população”, se tornando um dos subsídios para o desenvolvimento do
Turismo Cultural, ao mesmo tempo em que se constitui numa ação
estratégica para que o turismo possa contribuir no sentido de
valorização das culturas locais e de desenvolvimento social. (ibid.)
“Para identificar e valorizar é preciso preservar o
patrimônio, e para preservar é preciso conhecer”. Esse conhecer pode
ser obtido através da Educação Patrimonial, conscientizando a
comunidade sobre a importância da preservação do patrimônio que se
encontra ao seu redor, incluindo sob a noção de Patrimônio Cultural
as manifestações, por múltiplas formas, do modo de viver, pensar e
agir de uma sociedade, e suas representações (ibid.).
Assim, consideramos que o cartão-postal é, antes de
tudo, uma representação a partir do real, um fragmento do espaço em
sincronia com o tempo, registrado dentro de uma atmosfera
contemplativa à quem se posicionar na condição de receptor. A
paisagem retratada é demonstrada por meio de um processo criativo,
originado de uma visão de mundo particular de quem a fotografa; é o
fotógrafo que, na sua mediação, produz a representação transmitindo
elementos próprios de uma memória coletiva, estimulando paixões,
nostalgias e imaginários. Num contexto em que o turismo pode ser
entendido como uma atividade econômica e social, cuja oscilação está
na sua motivação que pode, por sua vez, ser influenciada pela
percepção de uma imagem, de uma mensagem (MONDENARD, 1999: 108), as
imagens fotográficas difundidas pelos cartões-postais podem se
constituir num importante instrumento de referência e de valorização
da cultura, da vida social e de determinado lugar.
Referências
CASTRO,
Claudiana Y. A importância da Educação Patrimonial para o
desenvolvimento do Turismo Cultural. P@rtes. São Paulo, 2006.
Disponível em:
http://www.partes.com.br/turismo/turismocultural.asp.
Acesso em: 15 abr. 2008.
KOSSOY, Boris.
Realidades e ficções na trama fotográfica. Cotia-SP: Ateliê
Editorial, 1999. 149p.
MONDENARD, Anne de. A
emergência de um novo olhar sobre a cidade: as fotografias urbanas
de 1870 a 1918. Trad: Eveline B. Kavakama. In: Projeto
História. v. 18. São Paulo: Edusc, 1999. p.107-113.
PELLEGRINI FILHO,
Américo. Ecologia, cultura e turismo. 2.ed. Campinas:
Papirus, 1997.
SANTAELLA, Lúcia.
(Arte) & (Cultura): equívocos do elitismo. 3.ed São Paulo:
Cortez, 1995.
SILVA, S R X. O
cartão-postal: uma teoria de interpretação do espaço. 2003. 53f.
Monografia (Graduação em Geografia) - Universidade Estadual de Santa
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VASQUEZ, Pedro Karp.
Postaes do Brazil: 1893-l 930. São Paulo: Metalivros, 2002.
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YÁZIGI, Eduardo et
al. Turismo: Espaço, Paisagem e Cultura. 3.ed. São Paulo:
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ORTIZ, Renato.
Mundialização e cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.
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