Reforma Tributária e Direitos Sociais
Rudá Ricci
No último dia 15 de maio ocorreu em Brasília um
seminário sobre reforma tributária, organizada pelo Conselho de
Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), vinculado ao gabinete
da Presidência da República. Alguns representantes de entidades
da sociedade civil e muitos empresários estiveram presentes. A
programação se dividiu em painéis e uma oficina (esta última,
organizada pelo Observatório da Equidade, organizada no interior
do CDES e que recentemente elaborou indicadores de avaliação da
educação pública no Brasil).
Logo no primeiro painel do evento, o tom da
reforma tributária em discussão na Comissão Especial da Câmara
Federal que se debruça sobre este tema já ficou estampado. E já
deixou muita liderança social preocupado com o prenúncio de
perdas sociais. Logo após o senador Garibaldi Alves, Presidente
do Congresso Nacional, lançar o slogan (sem vida) da “Reforma
Tributária, Já!”, os presentes ouviram o Deputado Sandro Mabel,
relator da Comissão Especial da Reforma Tributária. Tinha início
o alinhamento entre os interesses empresariais com os do governo
federal e do Congresso Nacional. Sandro Mabel destacou que a
reforma terá as seguintes características: a) “o ótimo é inimigo
do bom” (não será possível realizar a reforma tributária dos
sonhos e, depois desta, novas mini-reformas darão
prosseguimento); b) o central da reforma tributária é a
simplificação (não destacou a justiça social); c) terminará
progressivamente com a guerra fiscal entre entes federativos. Um
acordo entre governos estaduais, governo federal e empresariado.
A determinação é de tal monta que um calendário de votação sem
paralelo na história da Câmara Federal (dada a velocidade e
prazos exíguos) chegou a merecer explicações e justificativas do
próprio relator, procurando afirmar que poderia parecer
otimismo, mas que tudo já está acertado politicamente. O
calendário acordado é o seguinte:
-
Até 15 de junho: audiências públicas na
comissão especial
-
Até 27 de junho: apresentação do relatório de
Sandro Mabel
-
Até 03 de julho: Votação na Comissão Especial
-
Até 16 de julho: Votação na Câmara (dois
turnos).
Frisou (e o ex-ministro Antonio Palocci, presente
no seminário, confirmou) que as datas serão respeitadas de
qualquer maneira. Enfim, há pressa. Do governo e dos
empresários. Não por outro motivo, vários empresários
comentavam, no café: "Agora vai!".
Os interesses sociais e políticos estavam
estampados em cada exposição.
“Neutralidade Tributária” ou Imposto
Progressivo: a opção já tomada
Ao lado do primeiro painel, tinha início a
oficina para elaboração de indicadores de qualidade do sistema
tributário nacional, organizado pelo Observatório da Equidade do
CDES. O perfil dos presentes e os debates pareciam um reflexo
invertido do que se ouvia no outro salão. Márcio Pochmann,
Presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA)
fez uma exposição de abertura de cunho progressista. Acusou a
ausência de atenção, na reforma tributária que será votada até
julho, aos impostos indiretos, que penalizam os pobres. Divulgou
que a participação do rendimento do trabalho na renda nacional
caiu, de 1959 (que estava em 56,6%) para 39,1%, em 2005 (ver
gráfico, abaixo). Afirmou que a cada 10 empregos criados no
Brasil, 7 são do setor de serviços. Por este motivo, afirmou que
temos que pensar em novas formas de arrecadação, contemporâneas.
Citou a CPMF como forma moderna, que superava a nota fiscal e a
fiscalização do auditor.
Brasil - evolução da participação do
rendimento do trabalho na renda nacional em anos selecionados
(em %)
Na oficina em que tentamos contribuir para
elaborar alguma leitura social ao governo federal, foi
apresentada como motivação uma espécie de síntese dos problemas
centrais que envolveriam o tema da política tributária do país.
Revelam bem as posições antagônicas que se procura acolher num
mesmo cesto, uma espécie de “norte pragmático” das intenções
políticas do governo federal: a) a carga tributária é mal
distribuída (67% da tributação incide sobre o consumo e apenas
4% sobre o patrimônio, segundo a Receita Federal); b) a carga
tributária e regressiva (60% são impostos indiretos, penalizando
o consumo de pobres); c) a carga tributária é alta (35,9% do
PIB). Ocorre que o segundo ponto conflita com o último. A adoção
de imposto progressivo pode aumentar a carga tributária para
alguns.
Brasil: evolução do índice da desigualdade
pessoal da renda em anos selecionados (Gini) 
Enquanto numa sala procurava-se colocar o ovo em
pé, na outra, Antonio Palocci, ex-ministro e presidente da
comissão especial da reforma tributária, definiu a linha
governamental. Disse que não há situação de aperto fiscal nos
governos e não há necessidade de aumentar impostos para garantir
ganhos fiscais, o que revela um cenário mais que propício para a
reforma tributária. Atestou que um fundo de estabilização de
receitas garantirá a compensação dos Estados, embora tenha
sinalizado que a reforma não criará perdas para os governos
estaduais. Citou a unificação de vários impostos a partir do
Imposto sobre Valor Agregado (IVA Federal) que foi criado nos
anos 60 de maneira estadualizada. Enfatizou a necessidade de
tributar o lucro ou faturamento e não o investimento, para não
inibir o setor produtivo. Destacou, no que parecia um limite de
negociação com os empresários, que a "guerra fiscal" deve
acabar, mas que os incentivos regionais devem permanecer,
através dos Fundos Constitucionais, "mas não por incentivos
tributários". E finalizou, com esta máxima: "tributo sobre
patrimônio é o mais difícil de ser cobrado e, por este motivo,
vai sendo abandonado. Vejam o caso do Imposto Territorial Rural
(ITR) que não arrecada nada." O empresariado delirou. Ao ser
perguntado por Zilda Arns sobre os recursos para a saúde e
educação, não respondeu o que fará com a educação. Mas disse que
para a saúde há três alternativas: a) embutir na reforma
tributária alguma salvaguarda (falou sem grande convicção); b)
recriar uma CPMF (parece ser a solução preferida pelo
ex-ministro que, dias depois, foi anunciada como medida do
governo federal, com uma taxa sobre movimentação financeira
abaixo de 1%) ou c) tributar supérfluos, como cigarros e
bebidas, embora tenha advertido que tal medida (o governo
federal anunciou, dias depois, aumento de taxação sobre
cigarros) poderia incentivar o mercado negro (no caso dos
cigarros) ou incidir sobre os índices de inflação (caso das
bebidas). Os representantes da sociedade civil presentes ficaram
preocupados com os sinais implícitos desta fala. Sentimos o fim
da vinculação de recursos orçamentários obrigatórios para a área
social (saúde e educação).
O debate entre Flávio Castello Branco (da
Confederação Nacional da Indústria, patronal) e José Feijó (CUT)
foi dos mais reveladores. Com poucas ressalvas à proposta de
reforma tributária, Flávio citou alguma salvaguarda para resgate
dos créditos do IVA federal e ICMS pago nas exportações. Citou,
ainda, que superposição entre ICMS e ISS deve ser superada e que
o IPI deveria estar inserido no IVA Federal. Já Feijó foi no
caminho inverso. Sugeriu o fim dos tributos sobre consumo e a
imediata adoção do tributo sobre herança. A platéia, lotada de
empresários, suspirou e olhava para os lados. Feijó disse que o
Imposto de Renda é regressivo, já que penaliza quem é
assalariado e pediu o tributo sobre faturamento, garantindo os
recursos da previdência pública.
Brasil - evolução da carga tributária na renda
familiar segundo faixas de renda e variação entre 1995/06 e
2003/03 (em %) 
A necessária reação social
O Conselho Nacional de Representantes da Undime
decidiu se reunir em Brasília para um debate sobre os impactos
da Reforma Tributária nos recursos da educação. Trata-se de ação
urgente e que deveria ser seguida pelos conselhos de saúde e
educação, de direitos da criança e adolescente, sindicatos de
professores e diretores de escolas públicas, além de Consed,
CNTE, Uncme, Campanha Nacional pelo Direito à Educação, ongs e
fóruns nacionais. O evento acontecerá no dia 18 de maio, véspera
do encontro do “1º ano de vigência do Plano de Metas Compromisso
Todos Pela Educação”.
O tema do orçamento público começa a envolver
entidades populares e movimentos sociais, mas ainda é algo
extremamente técnico. A reforma tributária, então, parece algo
distante e que realmente diz respeito apenas ao empresariado.
Ledo engano. É exatamente aí que está o perigo e as ameaças em
relação aos direitos sociais conquistados a partir da
Constituição de 88.
Há um duplo movimento perigoso em curso. A
conformação de um “discurso único” na política partidária e,
paralelamente, um outro “discurso único” a respeito da política
econômica nacional. Em relação a esta segunda questão, a agenda
de reformas microeconômicas vai ganhando espaço, como
sinalização positiva aos investimentos empresariais. A política
macroeconômica teria solucionado os grandes entraves do país. E
agora, teríamos que superar o que um dia se denominou de Custo
Brasil, o custo de produção para o empresariado.
Mas, e a desigualdade social? E o controle sobre
as políticas públicas? Teríamos avançado? As esferas
neo-corporativas, onde o empresariado negocia a agenda nacional,
é inexistente para as organizações sociais brasileiras de luta
pelos direitos.
A reforma tributária, assim, ganha cores
políticas das mais relevantes. Trata da agenda nacional para
consolidação democrática. E, como está, distorce a concepção
participacionista que tentamos inserir na nossa Constituição
Federal. Mal conseguimos consolidar um ou outro instrumento com
esta características e já começamos a perder espaço a partir de
um tema árido e pouco compreendido pela maioria de nossa
população.