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GABRIEL S. S. LIMA REZENDE
Doutorando em
Musicologia pela Universidad de Granada/Espanha e mestrando em
Sociologia pela UNICAMP
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Música, experiência e memória: algumas considerações sobre o
desenvolvimento da partitura a partir das obras de Max Weber e
Walter Benjamin
por Gabriel S. S. Lima Rezende
A cultura musical ocidental se diferencia das demais,
entre outros fatores, porque o desenvolvimento de nossa música está
marcado por um tipo de racionalismo que é específico do Ocidente.
Sob o jugo da Igreja, os mais distintos parâmetros sonoros e as mais
diversas práticas musicais foram sistematicamente organizados e
regulamentados desde o século XII. Este primeiro impulso à
racionalização do material sonoro-musical foi seguido por uma etapa
de “modernização secular” da vida musical, impulsionada, a partir do
Renascimento, pelas atividades especulativas e práticas dos
“reformadores” da música.
Alguns séculos mais tarde, os intelectuais ilustrados assumiram o
ideal renascentista de que a música deveria ser “elevada” ao nível
de uma ciência. Estes intelectuais obraram intensamente em direção à
racionalização da prática musical, até o ponto que seria possível
compor com um dicionário de figuras musicais.
Entre os filhos pródigos deste processo está nossa
notação musical, que representa um fenômeno singular dentro da
história da música dos mais distintos povos. Essa notação foi
verdadeiramente revolucionária, pois, entre outras coisas,
possibilitou a consolidação de uma música baseada em progressões de
acordes, a formação das grandes orquestras, a duração e repercussão
de nosso “patrimônio” musical e o surgimento da figura do compositor
moderno. Ao mesmo tempo, essas conquistas também são manifestações
de um processo latente de transformações sociais que mostrará todo o
seu vigor a partir do século XIX.
O estudo do desenvolvimento da partitura nos servirá
de ponto de partida para algumas reflexões sobre nossa “falta de
memória”. Tais reflexões, que devem ser entendidas como uma
tendência e não como uma realidade consumada, estarão limitadas
historicamente ao período que antecede a popularização das
tecnologias de gravação e reprodução sonora inauguradas com o
advento do fonograma.
Do século XII à modernidade
A necessidade de codificar a experiência musical é
algo comum a muitos povos em distintas épocas. Seja como um reforço
para a memória ou como uma forma de comunicação, a notação musical
sempre foi um importante meio de transmissão dos conhecimentos
musicais. O surgimento da notação musical escrita pressupõe a
existência de uma classe social letrada, que se utiliza de letras do
alfabeto, sílabas, palavras, números, signos gráficos, entre outros
recursos, para construir um sistema de representação da experiência
musical. Desde os babilônios, sumérios e assírios podemos encontrar
vestígios tanto de sistemas de notação pictográficos quanto de
sistemas de notação fonéticos, destinados especialmente a descrever
o processo de afinação dos instrumentos e a indicar aos
instrumentistas as formas de acompanhamento do canto.
Até o século XI os instrumentistas europeus não
dispunham de uma escrita musical, pois ao contrário do que se
observa como “regra geral”, a escrita musical ocidental foi
desenvolvida primeiramente para o canto. A prática do cantochão
foi codificada especialmente através dos neumas, signos
gráficos utilizados para representar melodias, que relacionavam
canto e texto. Esse tipo de notação visava basicamente
lembrar o leitor de características fundamentais de uma melodia que
já havia sido aprendida, e não determinar de forma exata a altura
dos sons. A necessidade de criar signos específicos para esta função
estava muito mais presente em textos teóricos.
As ações que influenciaram profundamente o curso do
desenvolvimento de nossa escrita musical foram sistematizadas por
Guido D’Arezzo que, em 1030, propôs e implementou uma reforma na
notação musical do Ocidente. (SADIE, 2001: 101) “Baseado no uso de
uma pauta, seu sistema mudou completamente o relacionamento entre
escrita e música em grande parte da Europa em um período
extraordinariamente curto, e criou as pré-condições para
desenvolvimentos de grande importância na música ocidental”, afirmam
Hiley e Szendrei. A simplicidade e praticidade desse sistema, e sua
capacidade de incorporar elementos de sistemas anteriores, são
fatores fundamentais que explicam o rápido sucesso da reforma de D’Arezzo.
Ao mesmo tempo, este teórico contou com o apoio do Papa João XIX,
que ficou encantado com a possibilidade de que uma melodia
desconhecida pudesse ser aprendida somente pela notação. O sistema
guidoniano tornou-se a notação musical oficial de Roma justamente
num período em que o papel do papado e o relacionamento entre Roma e
as igrejas locais se transformavam. A disseminação desse sistema
“coincidiu” com a época das cruzadas, e fez parte do “arsenal” (SADIE,
2001: 101) de reformas do Papa Gregório VII destinadas a facilitar a
reforma litúrgica e preservar a unidade e a centralização dos
costumes.
Dentre as diversas transformações que se processavam
nas formas de codificar a experiência musical a partir da reforma
guidoniana, podemos destacar que o desenvolvimento da square
notation sugere que o canto passou a ser pensado mais em termos
de notas individuais do que em linhas ou frases melódicas
improvisadas. A maior visibilidade dada a cada nota em particular
fez com que esta divisão em quadrados facilitasse o canto a partir
de um codex, revelando a tendência de se cantar diretamente
de um livro ao invés de resgatar uma experiência memorizada. Os
livros de canto podiam ser encomendados de copistas profissionais
não familiarizados com as idiossincrasias das escritas musicais das
diversas regiões, e as novas ordens religiosas (como os
franciscanos, dominicanos e agostinianos) tornaram obrigatória a
square notation para os livros de canto. A secularização da
produção dos livros para o canto e o surgimento dos copistas
profissionais foram impulsos importantes em direção à simplificação
e padronização da escrita musical. Esse processo também incidiu no
estabelecimento de uma aparência geral para os neumas. A
partir do século XIII predominou na Europa o modelo misto de
Alemanha-Messina de grafia dos neumas, que colocava maior
ênfase na nota individual em detrimento do contorno melódico.
Até então, o ritmo musical era dado pelo ritmo das
palavras. O desenvolvimento da notação mensural indica o rompimento
desta simbiose. A necessidade de medir a duração dos sons foi
ganhando força à medida que se tratou de codificar o canto
polifônico, pois era necessário encontrar na escrita uma forma de
coordenar as ações das diversas vozes. Ainda no século XIII esta
relação entre a prática da música polifônica e a teoria musical era
problemática, pois esta última buscava traduzir ou moldar uma
tradição musical que nascera pelo menos meio século antes. Desse
modo, o sistema de ritmo modal desenvolvido pelos tratadistas
para descrever as práticas dos cantos polifônicos era bastante
impreciso. Ele basicamente padronizava alguns modos rítmicos que
eram mais freqüentes na prática musical.
Entre os séculos XIII e XIV o desenvolvimento da
notação se deu quase exclusivamente no âmbito do ritmo. Neste
sentido se destacam as ações de Franco de Cologne, que desenvolveu
um sistema no qual os símbolos das notas eram capazes de indicar os
modos rítmicos ao invés de serem determinados por eles. As relações
internas entre as figuras foram se tornando mais importantes do que
as relações entre elas e o texto ou o contexto musical. Ainda no
século XIV, tratadistas posteriores a Franco de Cologne assumiram o
seu legado e distinguiram visualmente quatro níveis principais de
valor das notas (longa, breve, semibreve e
mínima), estabelecendo relações binárias e ternárias entre elas.
Mas foi somente no começo do século XVI que os valores das notas
vieram a ser determinados com precisão pela aparência,
independentemente do contexto em que eram identificadas como
breve, longa, etc. Este foi um passo importante em
direção à simplificação e praticidade do sistema de notação mensural.
Tais elementos estabeleceram as bases para o
desenvolvimento da notação musical a partir do Renascimento. Até
então, os sistemas de notação medievais estavam dirigidos,
sobretudo, aos cantores. Nos séculos seguintes (XVI, XVII e XVII),
especialmente depois do surgimento do baixo contínuo, (SADIE, 2001:
140) “[...] teoria e ensino foram paulatinamente sendo controlados
por instrumentistas como tecladistas, e a notação de pauta utilizada
para a maior parte do repertório foi influenciada pelas necessidades
instrumentais, adotando muitas características que a permitiram
expressar informações cada vez mais complexas.”.
Durante este período também foram desenvolvidas
várias propostas de reforma da notação musical com o objetivo de
alcançar uma representação universal, ilustrando (SADIE, 2001: 140)
“[...] o desejo destes copistas por uma notação independente de
qualquer estilo musical.”. Estes impulsos em direção a um
“desenraizamento” completo da escrita musical eram acompanhados por
ações menos ambiciosas, mas provavelmente muito mais efetivas.
Copistas como o próprio Bach, por exemplo, preferiam escrever os
ornamentos melódicos, e esta tendência acompanhou o declínio das
ornamentações improvisadas. No âmbito do ritmo, a falta de confiança
nas fórmulas de compasso como indicadoras da pulsação levou ao
emprego de termos específicos para este propósito. Mas até mesmo
estas indicações não foram suficientes. Em busca de maior precisão,
os andamentos foram especificados em função do metrônomo e, no
século XX, passou-se a indicar a duração exata da peça em minutos e
segundos.
Do inicio do desenraizamento à perda da memória
Mesmo em povos possuidores de uma escrita musical, a
tradição oral se mantinha como principal meio de transmissão do
conhecimento musical. No Ocidente, por outro lado, a tradição
musical foi conservada especialmente através dessa nova forma de
notação desenvolvida a partir do século XI, que era capaz de
determinar de maneira precisa os diversos elementos que se
articulavam dentro de uma composição. Nas palavras de Max Weber
(WEBER, 1995: 119):
“Uma notação desta espécie é, para a existência de
uma música tal como a possuímos, de importância muito mais
fundamental do que, digamos, a espécie de escrita fonética para a
existência das formas artísticas lingüísticas [...] uma obra de arte
musical moderna, por menos complicada que seja, não poderia ser
reproduzida, nem transmitida, nem reproduzida sem os meios de nossa
notação: sem ela uma obra musical moderna não pode em geral existir
em lugar algum e de nenhuma maneira, nem mesmo como uma propriedade
interna de seu criador.”.
Esta reflexão de Weber também nos possibilita
vislumbrar algumas questões. Além de constituir um dos pilares
fundamentais sobre os quais se apóia toda a música moderna
ocidental, nosso sistema de notação musical também se insere no
processo de “perda da memória” que Walter Benjamin, em 1936, já dava
por consumado (BENJAMIN,
1994).
Ainda que houvessem existido diversos sistemas de
representação e decodificação da experiência musical, as distintas
formas de transmissão deste conhecimento sempre haviam dependido
essencialmente da tradição oral. O contato direto entre músicos
abrira um canal por onde melodias e ritmos puderam deslizar ao longo
dos séculos e milênios. Através deles se contava e recontava uma
história, e cada experiência única garantia sua continuação. A
tradição se mantinha, em última instância, na efemeridade de cada
experiência musical singular. Não a tradição entendida como
argumento próprio das classes dominantes num esforço para se
distanciarem e diferenciarem das demais. Mas a tradição que nasce de
uma experiência coletiva e que, ao longo dos anos, tece uma
história.
Benjamin descreve a construção das narrativas como um
longo processo, pautado por um ritmo semelhante ao da formação da
crosta terrestre; uma lenta superposição de camadas. Elas pertencem,
portanto, a determinadas formas de vivência em que o ritmo das
transformações está organicamente relacionado com o próprio ritmo da
vida humana (BENJAMIN, 1994: 202). As transformações no domínio da
experiência musical seguiam um tempo semelhante, pois, em última
instância, dependiam tanto do contato direto entre duas ou mais
pessoas quanto da limitação fundamental que a tradição oral impunha
ao volume e à complexidade do conhecimento que era transmitido.
A apropriação racional dos mais diversos aspectos do
fenômeno musical através da previsão e do cálculo possibilitou que o
desenvolvimento da música ocidental se descolasse de tal ritmo. As
infinitas possibilidades que se abriram ao racionalismo ocidental
com o desenvolvimento da notação musical moderna alteraram a própria
natureza da experiência musical e romperam a simbiose entre tradição
oral e escrita musical: nossa notação foi um impulso fundamental
para libertar a ratio musical das amarras da tradição oral.
Em suas linhas e espaços puderam ser reunidos e sintetizados
diversos princípios e práticas musicais heterogêneos, como a
polifonia, o contraponto, o cânone, a fuga, a imitação, etc. Dessa
maneira foi possível organizar e coordenar as ações de um sem número
de instrumentos, assim como determiná-las de maneira precisa. E além
de garantir a precisão técnica da execução musical, essa notação
também possibilitou uma virada qualitativa na práxis da
música ocidental. O desenvolvimento de uma música baseada
fundamentalmente na progressão de acordes em centros tonais,
particularidade específica de nossa cultura musical, depende
essencialmente dessa notação.
Com tudo isso, o ritmo das transformações na vida
musical se acelerou intensamente, deixando para trás a tradição, a
narrativa, o narrador, a experiência, a memória... A relação entre o
ouvinte e o narrador, que segundo Benjamin (BENJAMIN, 1994: 210)
“[...] é dominada pelo interesse em conservar o que foi narrado”, já
não é mais possível, pois ela pressupõe que (GAGNEBIN, 1994: 10) “a
experiência transmitida pelo relato dever ser comum ao narrador e ao
ouvinte”. Neste sentido, a memória aparece em Benjamin como a
faculdade que possibilita ao narrador articular as histórias que
constituem uma tradição. No entanto, as condições sociais que
permitiam uma (GAGNEBIN, 1994: 9) “experiência e uma narratividade
espontâneas”, a saber, uma organização comunitária centrada no
artesanato, foram destruídas pelo desenvolvimento do capitalismo e
da técnica. Ou seja, perdera-se a capacidade de intercambiar
experiências, pois já nem existem mais experiências comuns, nem as
próprias condições para que elas possam ser contadas e recontadas.
Portanto, a destruição dos antigos laços comunitários e a perda da
capacidade de intercambiar experiências também anunciam o fim da
memória – que retinha e recriava as histórias nascidas das
experiências comuns – e da tradição – que resultava do acúmulo
dessas histórias.
Se as transformações ocorridas na vida musical entre
os séculos XI e XV dão início ao desmanche do tecido da memória, a
partir do Renascimento já começamos a vislumbrar suas conseqüências.
As determinações dos diversos âmbitos da execução musical são cada
vez mais estabelecidas em função de uma ordem abstrata.
No decurso de seu desenvolvimento, a partitura passa a se alimentar
das próprias relações internas entre os elementos musicais. E estes
últimos também vão se distanciando paulatinamente de suas origens
numa tradição musical concreta até o ponto em que qualquer lastro
com uma realidade viva se torna desnecessário.
Da narrativa à partitura
A relação entre o homem e a música que nasce da
partitura se assemelha àquela entre o homem e o romance. Contrapondo
o romance à narrativa, Benjamin nos conta que (BENJAMIN, 1994: 201)
“A tradição oral, patrimônio da poesia épica, tem uma
natureza fundamentalmente distinta da que caracteriza o romance. O
que distingue o romance de todas as outras formas de prosa – contos
de fada, lendas e mesmo novelas – é que ele nem procede da tradição
oral nem a alimenta. Ele se distingue, especialmente, da narrativa.
O narrador retira da experiência o que ele conta: sua própria
experiência ou a relatada pelos outros. E incorpora as coisas
narradas à experiência dos seus ouvintes. O romancista segrega-se. A
origem do romance é o indivíduo isolado, que não pode mais falar
exemplarmente sobre suas preocupações mais importantes e que não
recebe conselhos nem sabe dá-los. Escrever um romance significa, na
descrição de uma vida humana, levar o incomensurável a seus últimos
limites. Na riqueza dessa vida e na descrição dessa riqueza, o
romance anuncia a profunda perplexidade de quem a vive.”.
O compositor moderno guarda semelhanças com o
romancista. À diferença do aedo, por exemplo, sua música não
recria experiências comuns e concretas. Não anuncia a chegada da
primavera, não celebra a colheita bem sucedida, não evoca as
lembranças de um exílio.
Sua obra, que nasce do isolamento, se dirige também ao indivíduo
isolado; e, como afirma Weber, adquire o caráter de uma redenção
intramundana, (WEBER, 2006: 338) “[...] libertando o homem do
quotidiano e, sobretudo, também da pressão crescente do racionalismo
teórico e prático.”. Deste modo se aproxima novamente do romance,
mas agora do ponto de vista do leitor. Segundo Benjamin (BENJAMIN,
1994: 214)
“[...] o leitor do romance procura realmente homens
nos quais possa ler o ‘sentido da vida’. Ele precisa, portanto,
estar seguro de antemão, de um modo ou outro, de que participará de
sua morte. [...] Em conseqüência, o romance não é significativo por
descrever pedagogicamente um destino alheio, mas porque esse destino
alheio, graças à chama que o consome, pode dar-nos o calor que não
podemos encontrar em nosso próprio destino. O que seduz o leitor no
romance é a esperança de aquecer sua vida gelada com a morte
descrita no livro.”.
Liberta dos fins práticos aos que servia, a música se
torna um ponto de fuga para nossa existência insalubre. Assim como a
morte no romance, ela deve ajudar a ocupar o vazio que nos preenche.
Ela deixa de contar e ensinar coisas sobre nossa própria vida
concreta e real e se torna um meio de afastar-nos dessa vida, seja
sublimando nosso espírito para transcendê-la, ou entretendo nossas
mentes e corpos para esquecê-la.
Nota sobre Adorno...
Faz-se necessário um breve esclarecimento de nossa
posição em relação ao pensamento de Adorno sobre o processo de
racionalização da música. Limitando-nos aos objetivos deste trabalho
destacamos que, neste autor, essa problemática se desenvolve em duas
direções. Por um lado, a tradição musical burguesa se apresenta como
um processo dialético. Em sua fase progressista, que encontra seu
ponto de virada na obra de Beethoven, o todo musical seria
resultante da particularidade de cada um de seus motivos musicais,
coincidindo assim com a fase progressista da sociedade burguesa,
onde o todo social seria a consequência da associação entre cada
indivíduo em particular. Em sua fase decadente, que culminaria com a
obra de Wagner – que é, ao mesmo tempo, a que abre definitivamente
espaço para a superação da tonalidade –, o todo musical,
preestabelecido, se impõe sobre cada individualidade, coincidindo
assim com uma concepção da sociedade que se aproxima tanto do
ideário nazista quanto das relações sociais dentro das “democracias
de massas”. Neste último caso, a produção de subjetividade na linha
de montagem da indústria cultural se utiliza da música como
instrumento de dominação social e veículo de alienação das massas,
expondo o ouvinte à constante repetição de fórmulas musicais rasas e
padronizadas. Por outro lado, a “nova música”, representada
especialmente pela obra de Schoenberg, também apresenta uma relação
dialética. Com a dissolução da tonalidade e da falsa identificação
entre parte e todo, essa música lograria revelar a violência do todo
social sobre os indivíduos que são objeto de sua dominação. No
entanto, também representaria a elevação ao extremo da racionalidade
procedural, onde a música, por fim, acaba se reduzindo simplesmente
à aplicação de determinados procedimentos matemáticos, onde todo
potencial criativo humano volta a ser dominado pela mesma
racionalidade da qual tentara escapar.
Reconhecendo todo o valor das idéias adornianas,
queremos marcar aqui nossa diferença. Em nossa análise sobre o
desenvolvimento da notação musical, o processo de racionalização
aparece como separação entre indivíduo e música. Ao
alimentar-se apenas de suas relações intrínsecas, a música tende a
se descolar de todas as dimensões da vida social, entre elas, a
dança, a religião, as festividades, etc... Nesse sentido, manifesta
a perda de uma experiência coletiva e a elevação da figura solitária
do compositor, que traça no pentagrama tanto as notas de uma obra
prima quanto as de um primeiro lugar nas paradas de sucesso. Ou
seja, enquanto Adorno contrapõe a repressão da indústria cultural à
sublimação da verdadeira arte, nossa perspectiva neste breve estudo
sobre o desenvolvimento da notação musical procura destacar a
irreversível situação de que esses dois tipos de experiência musical
postulados pelo frankfurtiano só se tornam uma realidade dominante
quando a música se desprende da vida concreta dos indivíduos aos
quais ela se destina.
Bibliografia
ADORNO, T. W.
Filosofia da nova música. São Paulo: Perspectiva, 1989.
________.
“Sobre música popular”.
Em COHN, G. (org.). Theodor W. Adorno: sociologia. São Paulo:
Ed. Ática, 1994.
Doutorando em Musicologia pela Universidad de
Granada/Espanha e mestrando em Sociologia pela UNICAMP.
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