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ROBERTO SARAIVA
ROMERA
Economista pela Fundação Santo
André, Especialista em Administração pela Universidade
Presbiteriana Mackenzie e professor da Rede Formare
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GIAMBIAGI,
Fabio. Reforma da Previdência: O Encontro Marcado. Rio de
Janeiro: Editora Campus, 2007.
Um
tema delicado:
A
Reforma da Previdência
por Roberto Saraiva
Romera
Um dos mais novos livros do economista Fabio
Giambiagi aborda um tema importante, delicado, incômodo, mas ao
mesmo tempo necessário: a reforma da previdência. O objetivo do
autor é “procurar explicar ao leitor, usando argumentos qualificados
e apoiados em estatísticas, por que é importante que o Brasil
promova uma nova reforma previdenciária” (GIAMBIAGI: 2007, p.69).
Giambiagi busca explicar o nó previdenciário que o
Brasil está inserido e o motivo da sua taxa de juros ser uma das
maiores do mundo, chamado-a de “caso especial” que combina risco
político razoável, dívida pública elevada (50% do PIB) e concentrada
no mercado interno, o que inviabiliza a possibilidade de
renegociação ou calote, haja vista os impactos que traria no mercado
interno.
Afinal qual a razão de se falar em juros num livro
sobre previdência? O ponto é como o Brasil tem déficit nas contas da
previdência resta ao Tesouro Nacional contrair dívida para suportar
este déficit que segundo o autor é decorrente de diversos fatores
como falta de idade mínima para aposentadoria, abuso nos auxílios
doença, benevolência na concessão de benefícios, assim, apenas com
uma nova e ampla reforma poderíamos solucionar a “herança maldita”
previdenciária que poderemos deixar para “nossos filhos”.
Mitos Previdenciários
Um ponto polêmico abordado no livro é a aposentadoria
feminina, onde o autor reconhece a “dupla jornada”, fato este
mundial, mas pergunta-se “por quê a mulher brasileira aposenta-se 10
anos antes que a mulher grega?”, fato que ocorre também quando
compara-se o Brasil com outros países. Deve-se por outro lado dizer
que além de tudo as mulheres possuem uma expectativa de vida maior
que a dos homens, fato que per si onera a previdência.
Um “mito” que Giambiagi procura atacar é a Dívida
Ativa do INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social) onde o autor
analisa a lista dos 50 maiores devedores da previdência e constata
que na maioria trata-se de empresas públicas tais como Petrobrás,
Correios e Banco do Brasil, além dos governos das maiores cidades e
estados do país, por outro lado na iniciativa privada temos casos
como Vasp, Varig e TV Manchete. Vale dizer que os 50 maiores
perfazem um total de R$ 13,25 bilhões enquanto a dívida total perfaz
R$ 108,9 bilhões, ou seja, os 50 maiores devedores representam
apenas 12% do total, o que indica que a dívida ativa da previdência
está pulverizada e em muitos casos dificilmente será paga devido ao
processo falimentar de muitos dos devedores.
Outro “mito” que Giambiagi procura atacar está
relacionado à concessão de aumentos reais
as aposentadorias, tais aumentos, quando aplicados a totalidade de
benefícios, poderão antecipar um cenário de colapso nas contas
públicas, afinal muitos políticos acreditam como disse Giambiagi “a
expressão máxima da velha crença, tão comum na arena política, de
que, dinheiro dá em árvore” (GIAMBIAGI: 2007, p.57). Não se pode
negligenciar que o aumento real possui um elevado caráter social,
principalmente no interior do país, onde muitas cidades e famílias
são sustentadas por aposentados que ganham exatamente um salário
mínimo. Mas, o xis da questão está no fato de que o salário médio do
trabalhador (na ativa) não teve aumento real nos últimos 13 anos e
este serve de base para o financiamento do INSS, além disso, os
aumentos reais do salário mínimo não contribuem para a redução da
pobreza extrema, pois os indivíduos que situam-se nesta
classificação muitas vezes sequer fazem parte do INSS ou da LOAS
(Lei Orgânica de Assistência Social), sendo que em muitos momentos a
inclusão deste indivíduo em programas sociais como o Bolsa Família
poderia ser mais eficiente que o aumento real do salário mínimo.
Uma das frases mais comuns em todo o livro é “não
existe mágica em economia”, num dos exemplos levantados indica que
se o “peso relativo” do gasto previdenciário aumenta, o peso
relativo dos demais gastos terá que diminuir, por exemplo:
segurança, saúde e num caso recente infra-estrutura. Vale ressaltar
que, os gastos previdenciários eram 2,5% do PIB em 1988 e hoje
representam quase 8% enquanto os investimentos públicos caíram na
mesma proporção.
Benevolência
Giambiagi comenta a respeito do ciclo de vida de um
indivíduo e as barreiras que contribuem para as variações da mesma
tais como: Mortalidade Infantil (ainda no primeiro ano), Insegurança
Pública (entre os 20 e 30 anos) e “Doenças Típicas da Vida Adulta”
como câncer e enfarto (entre os 40 e 50 anos). Por isso, Giambiagi
classifica de “sobreviventes” as pessoas após o 60 anos fase “cuja
chance de viver mais anos do que se esperava na média ao nascer
aumenta muito pelo fato de ter vencido algumas das barreiras mais
difíceis. Ou seja, quem não morreu com poucos meses, não levou um
tiro aos 20 anos e não teve um ataque cardíaco aos 45, está
preparado para viver muito tempo” (GIAMBIAGI: 2007, p.36). O fato do
aumento da expectativa de vida é um item importante, pois quanto
mais tempo um indivíduo viver, mais tempo ele receberá a
aposentadoria.
Giambiagi também faz uma comparação da previdência
social brasileira com o resto do mundo, e afirma que a previdência
brasileira é “benevolente” por exemplo, na Costa Rica homens e
mulheres se aposentam com 65 anos, na Argentina o homem deve ter 65
anos com 30 anos de contribuição, caso similar em Portugal e México,
já no Brasil, em 2004, 61% das aposentadorias ocorriam antes dos 55
anos de idade, “países ricos” como a Suécia, sempre usada como
referência quando se fala em gasto social, a idade mínima é de 65
anos, ou seja, se não é benevolente pelo menos possui alguns pontos
a serem melhorados.
Existem dois tipos de reformas da previdência uma
delas é: mudança de regime que consiste na transformação do regime
de repartição (no caso do Brasil) para o regime de repartição
(Inglaterra) isto ocorreu apenas no Chile em plena ditadura
Pinochet. Outro tipo de reforma é a alteração de parâmetro “que
conserva a lógica de um sistema de repartição, mas com modificação
dos seus parâmetros de funcionamento”.
Reformas no Brasil
No Brasil já ocorreram duas reformas da previdência,
ambas com mudanças de parâmetros: uma no governo Fernando Henrique e
outra no governo Lula. Na primeira reforma previdenciária atuou-se
apenas no INSS, com o estabelecimento do “pedágio” de 20% no tempo
remanescente de contribuição e a criação do chamado “fator
previdenciário”. Em 2003, o governo Lula atuou basicamente no
funcionalismo público com a taxação em 11% sobre o valor da
aposentadoria que excedesse o mínimo de isenção, que passou a ser
igual ao teto do INSS.
Assim, uma pergunta que o próprio Giambiagi levanta é
“por quê as reformas previdenciárias de FHC e Lula não serviram para
(quase) nada?” além disso, estas reformas tiveram um “custo político
alto e um benefício fiscal baixo”, pois poderão contribuir no médio
e longo prazos, sem contudo resolver o déficit previdenciário hoje.
Giambiagi propõem medidas visando reduzir o déficit
previdenciário que incluem o estancamento dos aumentos reais do
salário mínimo, a desvinculação do mesmo dos benefícios rurais,
mesma idade para aposentadoria de homens e mulheres e o
estabelecimento de idade limite para o início da concessão dos
benefícios.
Assim, uma dúvida paira no ar, como estabelecer uma
idade mínima de 65 anos para aposentadoria num país onde um
trabalhador com mais de 40 anos é considerado velho? Além disso,
como querer igualdade de tratamento na concessão de aposentadorias
entre homens e mulheres se a mesma igualdade não existe no mercado
de trabalho quanto ao pagamento de salários? Pode-se concordar com a
necessidade de reformulação da previdência social, mas antes de
qualquer coisa é preciso repensar nos benefícios que são concedidos
ao que o ex-presidente Fernando Collor chamou de “marajás” como
deputados e senadores que se aposentam com “8 anos de contribuição”,
somente acabando com estes abusos a sociedade brasileira irá aceitar
uma reforma da previdência justa.
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