A catástrofe (naqba, em árabe)
dos Palestinos - ou um olhar para o outro lado do
muro
por Henrique Rattner
Enquanto Israel festeja seu sexagésimo
aniversário, com parada militar e a presença de vários
chefes de Estado, do outro lado do muro, os palestinos
manifestam seu luto pela Naqba, dia da catástrofe, em árabe.
Tanto na
Faixa de Gaza quanto na Cisjordânia, a população lembra a
perda de suas terras e sua expulsão dos territórios
destinados à criação do Estado de Israel. Desde a criação de
Israel, em 1948, mais de 760 mil palestinos foram forçados
ao êxodo. O Estado judeu resiste à negociação do retorno
desses refugiados ou de seus descendentes, estimados hoje em
5 milhões de pessoas.
Outros
povos também têm sofrido grandes tragédias, mas o trauma dos
palestinos tende a se repetir sem fim e seus efeitos
envenenam a política em todo o Oriente Médio e , muito além,
no mundo islâmico. A origem do conflito deve ser traçada
desde 1948, quando cinco governos de Estados árabes mandaram
suas tropas para impedir a criação do Estado de Israel.
Durante o consequente conflito – a naqba inicial dos
palestinos, mais da metade da população nativa da Palestina
fugiu ou foi expulsa de seus territórios que foram
incorporados ao Estado de Israel, cujas tropas impediram sua
volta e arrasaram sistematicamente 531 aldeias ancestrais
dos palestinos.
A Guerra
dos 6 dias, em junho de 1967, levou à incorporação de mais
20% da Palestina histórica sob o governo de Israel e
expulsou mais 200 mil refugiados. No seu exílio, os
palestinos foram perseguidos, atacados ou expulsos dos
países onde procuravam asilo. Membros da PLO – Palestine
Liberation Organization – foram forçados a fugir da
Jordânia, após um levante que custou milhares de vítimas.
Cristãos libaneses destruíram os campos de Tel Zaatar e
Quarantina e massacraram palestinos em Sabra e Chatila, em
1982.
No mesmo
ano, o exército israelense cercou a PLO em Beirut,
deportando seus lideres para o exílio na Tunísia. Os sírios
fizeram a mesma coisa em Tripoli, em 1984. Em 1991, muitos
dos 300 mil palestinos, bem estabelecidos e remediados foram
expulsos do Kuait, depois de seus lideres louvarem a invasão
do Emirado, pelas tropas do Iraque. A Líbia expulsou mais
alguns milhares sob o pretexto de que a assinatura do acordo
de paz em Oslo abriria as portas para seu retorno à casa.
Desde a invasão do Iraque em 2003, praticamente todos os 20
mil palestinos foram expulsos para as fronteiras onde
vegetam em áreas desérticas.
Apesar
de todas essas dificuldades, a tenacidade dos palestinos em
manter sua identidade nacional não diminuiu. Mas, os
obstáculos a sua coesão como um povo são cada vez mais
graves do que em qualquer outra época.
Aproximadamente 5 milhões de palestinos vivem na Palestina
histórica, sob o controle dos israelenses. Na Cisjordania,
assentamentos e zonas militares ocupam até 40% do
território. Em retaliação à segunda Intifada (insurreição)
dos palestinos, um levante que começou em 2000, Israel
cercou o território com muros, cercas e postos de controle
que fecham 2,5 milhões de palestinos em enclaves separados.
Desde
que o Hamas – partido islâmico – assumiu o controle da Faixa
de Gaza, 1,5 milhão de pessoas foram confinadas numa faixa
estreita de 387 km2, sobrevivendo de precária
ajuda internacional. 1,1 milhão de palestinos que vivem
dentro do Estado de Israel estão em situação melhor, embora
tenham sofrido discriminação econômica e legal durante longo
período, os quais estão crescentemente isolados de seus
irmãos e parentes e receiam a expulsão futura. Os 250 mil
palestinos residentes na Jerusalém oriental anexada por
Israel em 1967, têm permissão de residência, mas Israel não
lhes permite viajar para Gaza ou outros países árabes,
receando a penetração de “homens-bomba”. Políticos
israelenses da direita radical levantam a polêmica sobre uma
possível “quinta coluna”.
Fora dos
limites da Palestina histórica a situação dos palestinos é
ainda mais complicada. A maioria que vive na Jordânia goza
de direitos de cidadania e, portanto, de liberdade relativa.
O Líbano, a Síria e o Egito concedem aos palestinos um “laissez
passer” em vez de um passaporte, sempre sob o severo
controle das autoridades imigratórias. A Síria com sua
ideologia baathista secular concede aos 450 mil palestinos
quase todos os direitos civis, exceto o de votar. O Líbano,
com medo de reforçar os Sunitas, recusa aos palestinos o
direito à cidadania, para não alterar o precário equilíbrio
de suas etnias. Mesmo os refugiados de terceira geração
arriscam o direito ao retorno ao se demorar por mais de seis
meses no exterior. O Egito, que abriga 70 mil palestinos
pratica medidas ligeiramente mais tolerantes. Os palestinos
podem viajar ao exterior até um ano, dependendo de uma
autorização especial. Ironicamente, os palestinos que vivem
na Shaatat – a diáspora mais distante, além do mundo árabe,
sentem-se mais seguros.
No Chile
vivem 300 mil palestinos, em El Salvador, 100 mil e nos
Estados Unidos, aproximadamente, 250 mil. Mas, distâncias e
fronteiras não constituem os únicos obstáculos que dividem
os palestinos. Há um fosso crescente entre ricos e pobres,
entre seculares, islâmicos e cristãos, agravado por milhares
de facções políticas entre refugiados, não refugiados e
ex-refugiados.
A
agência das Nações Unidas – UNRWA – criada para aliviar os
sofrimentos e criar empregos para refugiados é responsável
pelo bem estar de 4,5 milhões de palestinos refugiados
registrados. Pelo menos metade dos palestinos que vivem nos
territórios ocupados, incluindo os habitantes de Gaza, são
refugiados. Também, um quarto dos palestinos que vivem em
Israel, perdeu seus lares originais. Suas condições de vida
variam tremendamente. Na Cisjordania, um terço da população
vive em campos, sendo que mesmo lá as tendas da UNRWA foram
substituídas por áreas de favelas densamente ocupadas. Em
Aman, capital da Jordânia, os ricos vivem no alto das
colinas e desprezam os religiosos conservadores que povoam
os fundos dos vales. Palestinos cristãos são os que mais
procuram emigrar, tornando-se uma minoria, às vezes,
perseguida pelas milícias islâmicas mais radicais.
Em 1968,
pouco depois da Guerra dos 6 dias, a então primeira-ministra
Golda Meir teria afirmado que “...não existe algo como um
povo palestino”. Historiadores respeitados, após muita
pesquisa, aceitam a idéia que a nacionalidade palestina se
formou no fim do século XIX, coincidindo com o começo da
colonização pelos judeus. Mas, diferentemente dos judeus que
foram para a diáspora com uma tradição religiosa e séculos
de estudos bíblicos, os exilados palestinos ficavam ligados
menos pela História do que pela perda de suas terras e o
sonho de um retorno. Yasser Arafat, líder da PLO, concordou
com os termos do Acordo de Oslo que não chegou a prometer o
retorno dos refugiados em troco do reconhecimento de Israel.
Com a expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia,
cada vez mais palestinos rejeitaram os termos de
nacionalismo preconizado por Arafat e ingressaram as
fileiras mais militantes do Hamas.
O Hamas
construiu sua credibilidade mediante programas sociais nas
áreas de educação e saúde e uma reputação de honestidade e
sua rejeição de um processo de paz que favoreça Israel. Os
votos ganhos pelo Hamas, nas eleições de 2006, foram devidos
mais aos desastres da administração do Fatah do que a
ideologia pregada por seus adeptos. As tentativas dos EUA e
de Israel de reprimir as atividades de Hamas tiveram o
efeito contrário. Desde a segunda Intifada, o número de
vítimas palestinas ultrapassou os 5 mil enquanto endureceram
suas atitudes hostis para com Israel.
Um
número cada vez maior de palestinos parece convencido que os
israelenses, estabelecidos na Cisjordânia, irão dificultar
uma solução de um Estado binacional, com direitos iguais
para todos. As conversas sobre o “direito de retorno” dos
palestinos desencadearam uma onda de alarme entre os
israelenses, que receiam ser superados em números pelas
ondas de palestinos pretendendo retornar e, assim, a perda
da maioria no Estado judeu. Demógrafos israelenses, fazendo
suas pesquisas sobre crescimento populacional, chegaram à
conclusão alarmante de que o retorno de pelo menos parte dos
refugiados iria alterar a natureza do estado judeu. Propõem
um sistema de compensação pelas perdas sofridas pelos
palestinos, cuja estimativa chega aos 55 até 85 bilhões de
dólares. Ademais, o primeiro ministro Ehud Olmert não pode
ceder nem uma polegada de território sem incorrer na ira da
“direita” e dos religiosos. Por outro lado, Mahmoud Abbas
que preside o Fatah e a região da Cisjordânia não está em
condições de conceder mesmo parte das reivindicações de
Israel. Mas, se Israel for capaz de concordar em ceder a
Cisjordânia e Gaza ao futuro Estado palestino, o sexagésimo
aniversário do Naqba poderia dar início a um processo
progressivo de paz.
Enquanto
Israel celebra a vitória na guerra de 1948 que deu orígem ao
seu Estado, os palestinos estão de luto porque uma grande
parte de sua população fugiu, encorajados pelos exércitos
árabes que prometeram “jogar os judeus no mar”. O desastre
repetiu se, em proporção maior, quando a aliança entre o
Egito, Síria e Jordânia acreditou poder cumprir essa
promessa e sofreu uma derrota fragorosa, causando um novo
êxodo dos palestinos de seu território.
Assim, o Estado palestino que lhes foi
prometido pela Resolução 194 das Nações Unidas, permaneceu
cada vez mais, fora do alcance, embora todos os países
membros das Nações Unidas, inclusive os Estados Unidos e
Israel declararam seu apoio a criação desse Estado na
Cisjordânia e na Faixa de Gaza.
Como explicar a perpetuação desse conflito
através de três gerações? Os dois lados proclamam seus
direitos a um Estado, embora uma solução pacífica pareça
cada vez mais distante.
O mundo e as Nações Unidas têm uma obrigação
moral de ajudar os palestinos e a causa dos palestinos é
abraçada por centenas de milhões de fé islâmica que
alimentam a corrente de candidatos à guerra santa – o
“jihad”. Uma solução só pode ser alcançada com a intervenção
dos Estados Unidos, o único país que merece a confiança dos
israelenses e tem o poder de pressionar para que se chegue a
um compromisso territorial.
Durante essa última década, sobretudo no
governo de George W. Bush, nada tem sido feito para sustar a
contínua ocupação dos territórios da Cisjordânia. Se a
participação dos EUA é imprescindível para encontrar uma
solução, é importante também que haja da parte dos
palestinos uma liderança pragmática e eficiente para
negociar e implementar a paz baseada na criação de dois
Estados. Entretanto, os palestinos continuam divididos entre
os partidários de Mahmoud Abbas, mais pragmático porém
ineficiente. Seu rival, o Hamas é muito mais efetivo em sua
liderança na Faixa de Gaza, porém, afirma que não acredita
em paz com Israel.
Sessenta anos atrás, os palestinos recusaram
a divisão em dois estados, um erro de graves conseqüências.
Hoje, a situação tornou-se mais complicada porque a
população israelense cresceu nove vezes e apresenta
indicadores de desenvolvimento impressionantes. Propor a
dissolução de Israel, como o faz o Hamas, além de irrealista
é também inviável. Não se corrige um erro, cometendo uma
injustiça, ao repetir os erros do passado. A promessa de
Hamas de conceder um “longo” período de armistício que,
eventualmente, possa tornar-se permanente, não tem
credibilidade junto aos israelenses. O Hamas afirma que as
negociações de Yasser Arafat em Oslo não produziram
resultados concretos para os palestinos. As guerras e as
Intifadas resultaram em perdas adicionais.
Para avançar no caminho da paz é necessário
que os palestinos deixem de lado o passado doloroso e
aceitem a existência de Israel. Um futuro pacífico nesta
região mais turbulenta do globo será alcançado com dois
Estados e não somente um.
Este texto foi elaborado com base numa série de
artigos publicados na revista “The Economist”, no
período de janeiro a abril de 2008.