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WALTER
PRAXEDES
Docente
na Universidade Estadual de Maringá, Departamento de Ciências
Sociais; Doutor em
Educação pela USP e co-autor de O Mercosul e a sociedade
global (São Paulo, Ática, 1998) e Dom Hélder Câmara:
Entre o poder e a profecia, publicada no Brasil pela Editora
Ática (1997) e na Itália pela Editrice Queriniana (1999)

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Por uma Nova Ciência
por Walter Praxedes
A
ciência é uma forma de saber que é difundida como a mais importante
para a vida das sociedades modernas. É considerada como um conjunto
de conhecimentos imprescindíveis pertencente a toda a humanidade,
sem o qual não teremos acesso às novas tecnologias e, portanto, ao
desenvolvimento econômico necessário para o bem estar, à qualidade
de vida e uma forma de organização social e política civilizada.
Bem, pelo menos este é o discurso oficial sobre o
significado do termo “ciência”. O uso que fazemos da palavra
“ciência” esconde que no passado o termo de origem na língua latina
– “Scientia“ – era utilizado para designar o conhecimento de um modo
geral, não especializado e sem um método único. Muitas formas de
conhecimento eram chamadas de ciência. Ao estudarmos os usos da
palavra ciência nos últimos séculos na Europa e nos países
colonizados pelos europeus podemos constatar uma disputa entre os
estudiosos, uma verdadeira luta política, para se decidir quais os
significados aceitáveis para a “ciência” e quais as atividades que
podem ser consideradas como científicas.
Escrevo sobre esta luta política sobre a definição da
noção de ciência por dois motivos: primeiro, porque inúmeros
cientistas e filósofos europeus como Lineu, Blumenbach, Voltaire,
Hume, Kant, Hegel, Comte, Durkheim, etc.- a lista é muito extensa –
utilizaram a definição que criaram de ciência para se referirem aos
povos não-europeus, como raças inferiores incapazes
intelectualmente, já que estes não teriam criado a mesma forma de
conhecimento primeiramente filosófico e depois científico; em
segundo lugar, porque a definição de ciência baseada nos paradigmas
das ciências naturais que acabou prevalecendo até o presente no
ocidente moderno nega que outras formas de conhecimentos sejam
dotadas de racionalidade, como os saberes populares, cosmologias,
artes, e até mesmo as religiões ocidentais, o direito, a história e
a filosofia.
O professor Walter Mignolo (2004, pág. 670) avalia
que “o conceito moderno de conhecimento e de ciência foi concebido e
usado para descartar conhecimentos e formas de saber” como as
cosmologias dos povos africanos e indígenas das américas, as
religiões e os saberes islâmico-árabes ou os confucionistas-chineses”,
por exemplo. “As consequências práticas das realizações científicas
e a ideologia que as acompanha são hoje visíveis por todo o lado
desde o extermínio da natureza até à marginalização e extermínio de
seres humanos”, completa Mignolo (2004, pág. 677).
Mesmo que algumas vozes do pensamento europeu como os
polêmicos Heidegger e Wittgenstein, ou os teóricos da chamada
Escola de Frankfurt e, no final do século XX, o pensamento
pós-colonial de Frantz Fanon, Amilcar Cabral, Edward Said, Anibal
Quijano e Enrique Dussel, se oponham à concepção restritiva de
ciência, no ocidente acabou prevalecendo nesta disputa um conjunto
de significados que provocaram e ainda provocam muitos problemas
para a produção de conhecimento e para a vida em sociedade.
O conceito de “ciência” permanece capturado por
estudiosos que infundiram uma concepção que restringe e limita a
atividade de pensar e estudar, pois se tornou burocrática,
disciplinada e excessivamente especializada em alguns casos. A
ciência ainda contribui para a corrupção das formas de convivência
entre os humanos, já que possibilita a dominação política, as
guerras tecnológicas, e a exploração econômica das classes dominadas
através das tecnologias que gera e que são dominadas pelas empresas
e Estados capitalistas mais ricos. Devemos recordar, ainda, o uso
predatório do meio ambiente transformado em manancial de recursos
naturais para as grandes empresas. É necessário, portanto, uma
crítica severa à concepção dominante de ciência, para libertarmos o
conhecimento das limitações que foram introduzidas pelos filósofos e
cientistas modernos desde Descartes e Bacon.
A sociologia da ciência de Pierre Bourdieu
No último curso que lecionou como professor do
Collège de France, no ano letivo de 2000-2001, portanto, pouco antes
de se aposentar e falecer em janeiro de 2002, Pierre Bourdieu se
dedicou a uma sistematização de uma vertente importante de sua obra
que é a sociologia da ciência. No prólogo de seu curso Bourdieu
argumenta que escolheu como tema a sociologia da ciência por
considerar que a autonomia científica, que se realiza com a
independência dos cientistas em relação aos poderes estabelecidos,
políticos, econômicos e religiosos, estava sendo ameaçada.
Para Bourdieu, os cientistas infelizmente não formam
uma comunidade de pensadores voltados para a busca do bem e da
verdade, mas formam aquilo que denominou como um “campo científico”,
no qual a competição mais mesquinha por prestígio e recursos orienta
a relação conflituosa entre os pesquisadores. “Todos conhecem a
verdade das práticas científicas, e todos continuam a fingir não
saber e a acreditar que isso se passa de outro modo. (BOURDIEU,
2004, pág. 108).
Para realizar o seu trabalho de investigação o
cientista não pode ignorar esta realidade que o condiciona e
constrange. Mas seria um erro grosseiro tanto pensarmos que os
cientistas formam uma comunidade encantada de sacerdotes do saber,
quanto imaginá-los como uma matilha de arrivistas cínicos e
interesseiros, preocupados apenas com prestígio e poder político.
Como afirma Bourdieu, “a ciência é dependente de toda uma tecnologia
de investigação. A ciência tem uma história cumulativa, recursos
acumulados, metodologias, instrumentos, bibliotecas, laboratórios”
(BOURDIEU, 2004, pág. 100), aos quais os cientistas deverão ter
acesso para a realização de sua vocação de pesquisadores. Então,
como avalia Bourdieu, “o sujeito da ciência não é o cientista
singular, mas o campo científico”, a partir das relações de
concorrência, comunicação, baseadas na argumentação e na
verificação. “Os cientistas nunca são os “gênios singulares” de quem
se faz a história hagiográfica..., mas sujeitos coletivos... que
trabalham no seio de grupos coletivos com instrumentos que pertencem
à história coletiva...” (BOURDIEU, 2004, pág. 99). Não podemos,
então, entender os cientistas, como vivem e suas obras, se os
considerarmos como seres isolados que fazem descobertas geniais, já
que todos nós dependemos das teorias e experiências científicas que
nos foram transmitidas pelos cientistas do passado, dependemos de
condições de vida, educacionais e culturais, enfim, das
universidades, laboratórios, editoras e meios de comunicação que
existem na nossa sociedade.
Uma consequência desta argumentação é que o
conhecimento científico é gerado pela relação de diálogo e muitas
vezes de conflito entre os pesquisadores, ainda mais porque deverão
ser os membros da comunidade científica que deverão reconhecer como
válida e importante uma descoberta científica. Quando um cientista
critica o trabalho de outro ele está colaborando para o seu
aprimoramento e para a validação do trabalho.
Um outro aspecto muito importante é o grau de
internacionalização que chegou a ciência, uma vez que “o campo
científico é internacional. Não se fecha nas fronteiras nacionais”,
de modo a que não podemos ignorar a existência de pesquisas nas
universidades, laboratórios e empresas de outras partes do mundo,
para não sermos condenados a realizar pesquisas que em outros
lugares já trouxeram resultados muitas vezes desastrosos.
Esta interpretação sociológica da ciência proposta
por Bourdieu evidencia o porque de não ocorrer em nossa sociedade
uma distribuição igualitária das oportunidades para a formação de
novos cientistas, de realização de pesquisas e de acesso às
informações sobre os conhecimentos produzidos pelas pesquisas
científicas, uma vez que os próprios cientistas buscam o privilégio
advindo do monopólio sobre o saber científico, o que faz com que a
maioria dos membros da sociedade brasileira e dos povos espalhados
pelo mundo não tenham acesso à produção e ao consumo dessa
modalidade conhecimento.
Superar a concepção moderna de ciência
O filósofo Charles Taylor (2000) é um outro autor que
podemos recorrer em uma discussão sobre as limitações da concepção
moderna de ciência. Ele sintetizou suas críticas em três idéias. A
primeira crítica é à idéia de que o cientista deva ser um sujeito
dotado de um pensamento autônomo que realiza sua atividade de
investigação de forma independente em relação à comunidade ou
sociedade em que vive.
Em segundo lugar, Taylor também critica a idéia
ilusória de que o cientista deva ser um indivíduo totalmente
racional, que estuda os mundos natural e social de forma
instrumentalizadora, “como senhores e proprietários da natureza” na
expressão célebre de Descartes, ou seja, tomando os seres humanos e
a natureza como objetos passivos para a experimentação científica.
Por último, Taylor ainda critica a idéia de que não
deva existir nenhum entrave aos propósitos individuais do sujeito do
conhecimento, o cientista como indivíduo empreendedor, que realiza
egoísticamente o cálculo dos meios que deseja utilizar para alcançar
os seus fins.
O problema que nos cabe discutir neste artigo é que
os filósofos e cientistas modernos conseguiram difundir no mundo
todo a idéia de que ciência é um conhecimento produzido por um
sujeito individual racionalista, neutro, sem valores ou sentimentos,
dotado de uma mente separada do corpo e desconectada dos mundos
natural e social em que vive.
Uma nova ciência
Como afirmou Marcuse, “o método científico que levou
à dominação cada vez mais eficaz da natureza passou assim a fornecer
tanto os conceitos puros, como os instrumentos para a dominação cada
vez mais eficaz do homem pelo homem através da dominação da
natureza” (citado por HABERMAS, 1975, pág. 305.) O cientista de um
modo geral já foi transformado em um trabalhador controlado
administrativamente e de forma autoritária dentro das empresas e
universidades, para trabalhar na produção de conhecimentos que não
lhe pertencem, nem à sua comunidade, e dos quais ele não controlará
o uso, transformado em tecnociência que pode ser usada tanto para a
produção de um medicamento como de uma nova forma de matar as
pessoas.
Para homenagear os 70 anos de seu amigo Herbert
Marcuse, o filósofo Jürgen Habermas apresenta algumas possíveis
soluções para os limites e os problemas gerados pelo conhecimento
científico na modernidade propondo “uma nova ciência alternativa”
que
“em vez de tratar a natureza como objeto passivo
de uma possível manipulação técnica, podemos dirigir-nos a ela
como a um parceiro numa possível interação. Em vez da natureza
explorada podemos ir em busca da natureza fraterna. Ao nível de
uma intersubjetividade ainda incompleta, podemos atribuir a
subjetividade aos animais, às plantas e até mesmo às pedras e
comunicar-nos com a natureza, em vez de nos limitarmos a
trabalhá-la, quebrando a comunicação. E a idéia de que uma
subjetividade da natureza ainda agrilhoada não possa emergir
antes de que a comunicação entre os homens se torne livre, essa
idéia – e isso é o mínimo que dela se pode dizer – continua a
ter uma força de atração toda especial. Só se os homens pudessem
se comunicar sem coação e se cada homem pudesse reconhecer-se no
outro, só então a espécie humana poderia eventualmente
reconhecer a natureza como um outro sujeito – não a natureza
como um seu outro, como pretendia o idealismo, mas a si mesma
como sendo o outro desse sujeito. (HABERMAS, 1975, pág. 308).
Para nos contrapormos à concepção dominante de
ciência devemos considerar que não é possível ser um agente humano,
sem outros seres humanos com os quais construímos nossas identidades
individuais e coletivas e nossas formas práticas de vida. O ser
humano é um ser social e histórico dotado de cultura, que depende
das relações sociais que estabelece com outros seres humanos para
construir sua existência corpórea e sua identidade. Também é
evidente que somos parte da natureza. Para vivermos individualmente
temos que viver em sociedade e no meio natural, e por isso o
conhecimento não pode ignorar estes vínculos, como se pudéssemos
como cientistas, tratar o mundo natural e os outros seres humanos
como objetos que nos sirvam como instrumentos e vítimas de nossas
descobertas científicas e invenções tecnológicas. Temos que pensar
em uma forma de ciência alternativa que nos ajude a restabelecer
nossos vínculos comunitários e com o meio natural como agentes
humanos e não como sujeitos isolados do mundo com objetivos
egoístas.
Se opor a produção de conhecimento “científico”
voltado para servir à lógica da competição de mercado entre as
empresas e tornar prevalecente uma nova concepção de ciência: estes
são os grandes desafios reservados para os cientistas na
atualidade.
Referências
BOURDIEU, Pierre. Para uma sociologia da ciência. Lisboa,
Edições 70, 2004.
HABERMAS, Jürgen. Técnica e ciência como “ideologia”. In: BENJAMIN,
W. HORKHEIMER, M. ADORNO, T. HABERMAS,, J. Textos Escolhidos.
Coleção Os Pensadores. São Paulo, Editora Abril Cultural, 1975.
MIGNOLO, Walter. “Os esplendores e as misérias da “ciência”:
colonialidade, geopolítica do conhecimento e pluri-versalidade
epistêmica”. In: SANTOS, Boaventura de Sousa (org). Conhecimento
prudente para uma vida decente: um discurso sobre as ciências
revisitado. São Paulo, Cortez, 2004.
MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil.
Petrópolis, Vozes, 1999.
SAID,
Edward W. Cultura e imperialismo. São Paulo, Companhia das
Letras, 1995.
SANTOS, Boaventura de Sousa. “Para uma sociologia das ausências e
uma sociologia das emergências”. In: SANTOS, Boaventura de Sousa
(org). Conhecimento prudente para uma vida decente: um discurso
sobre as ciências revisitado. São Paulo, Cortez, 2004.
TAYLOR, Charles. “Superar a epistemologia”. In; TAYLOR, C.
Argumentos filosóficos. São Paulo, Edições Loyola, 2000.
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