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JOSÉLIA GOMES NEVES
Professora da UNIR-Campus de Ji-Paraná. Mestra em Desenvolvimento
Regional e Meio Ambiente (UNIR). Líder do Grupo de Pesquisa em
Educação na Amazônia–GEPEA. Doutoranda em Educação Escolar –
UNESP.

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Alfabetização intercultural:
oralidade, escrita e bilingüismo em sociedades indígenas
por Josélia Gomes Neves
Os/as educadores/as não
poderão ignorar, no próximo século, as difíceis questões do
multiculturalismo, da raça, da identidade, do poder, do
conhecimento, da ética e do trabalho que, na verdade, as escolas já
estão tendo de enfrentar. Essas questões exercem um papel importante
na definição do significado e do propósito da escolarização, do que
significa ensinar e da forma como os/as estudantes devem ser
ensinados/as para viver em um mundo que será amplamente mais
globalizado, high tech e racialmente diverso que em qualquer outra
época da história.
(GIROUX, 1995, p.88)
Este trabalho tem o propósito de sistematizar um
pouco da discussão referente ao processo de aquisição da leitura e
da escrita em áreas indígenas, designada de alfabetização
intercultural. Trata as temáticas que sustentam o debate de como
o processo educacional formal deve ser desenvolvido junto a estes
grupos étnicos envolvendo a oralidade, escrita e educação bilíngüe.
Estudos sobre
alfabetização intercultural vêm sendo desenvolvidos por vários
pesquisadores no intuito de verificar principalmente as implicações
da cultura escrita
em sociedades ágrafas, neste caso específico, as populações
indígenas, tendo em vista as demandas surgidas que apontam para a
necessidade da aquisição deste saber em função das relações
pós-contato entre estes e a sociedade não-indígena.
Vale ressaltar que a
expressão alfabetização intercultural que apresentamos neste
texto deriva do termo Educação intercultural bilíngüe, utilizado
pela UNESCO para designar uma importante característica da educação
escolar indígena, pois pressupõe o esforço do diálogo entre
diferentes culturas e saberes, neste caso, a sociedade indígena e
não-indígena. Encontra-se também fundamentada na Lei de Diretrizes e
Bases da Educação, Nº. 9394/96 no artigo 78, que estabelece que:
O Sistema de Ensino da
União, com a colaboração das agências federais de fomento à cultura
e de assistência aos índios, desenvolverá programas integrados de
ensino e pesquisa, para oferta de educação escolar bilíngüe e
intercultural aos povos indígenas, com os seguintes objetivos: I -
proporcionar aos índios, suas comunidades e povos, a recuperação de
suas memórias históricas; a reafirmação de suas identidades étnicas;
a valorização de suas línguas e ciências; II - garantir aos índios,
suas comunidades e povos, o acesso às informações, conhecimentos
técnicos e científicos da sociedade nacional e demais sociedades
indígenas e não-índias.
Entretanto, a concepção
intercultural é recente, pois a trajetória da educação escolar
indígena (LOPES DA SILVA;
GRUPIONI, 1995) nos informa que de maneira geral, a pretensão da
escola era de integrar estas populações étnicas à sociedade
nacional. No entanto, uma das razões que impossibilitava a
consecução deste objetivo eram as línguas indígenas.
Neste sentido, a tarefa da
escola será justamente a de ensinar os alunos e alunas da aldeia a
falar, ler e escrever em língua portuguesa para que assim este
entrave fosse superado, questão que trataremos mais adiante. Este
trabalho está estruturado a partir dos seguintes tópicos: oralidade,
escrita e educação bilíngüe, consideradas como categorias relevantes
que compõem os estudos sobre alfabetização intercultural.
I – Oralidade e Escrita
Os estudos sobre a oralidade e escrita têm sido
particularmente importantes para ajudar na compreensão dos processos
de escolarização que acontecem em contextos ágrafos. Em termos de
comportamento da linguagem humana a manifestação inicial surge
através da oralidade modo mais antigo de comunicação, posteriormente
é que foi inventada a escrita.
Inicialmente, estes dois modos de manifestação
lingüísticas, eram imaginadas ou como sendo uma (a oralidade) a
transcrição da outra (escrita), ou sendo duas modalidades da língua
que se distinguiam por completo. Atualmente sabemos que estas duas
faces da linguagem não têm necessariamente as mesmas formas, nem a
mesma gramática, nem os mesmos “recursos expressivos”; cada uma
possui características próprias. Isso não significa, porém, que fala
e a escrita devam ser vistas de forma separada ou antagônica. Pois
de acordo com Marcuschi (1995, p.13): ”As diferenças entre fala e
escrita se dão dentro do continuum tipológico das práticas sociais e
não na relação dicotômica de dois pólos opostos”.
Monte (1994) elaborou um estudo que aborda as
relações entre a oralidade e a escrita na escola indígena, sob um
ponto de vista muito interessante. Sua motivação inicial deu-se em
função da necessidade de uma melhor investigação sobre as
representações e práticas destas duas questões, bem como sobre a
relação com a alfabetização em uma perspectiva bilíngüe.
Seus estudos evidenciaram que a oralidade tem relação
direta com a utilização da língua indígena – relacionada às esferas
sociais da tradição oral, enquanto a escrita, se aproxima mais da
língua portuguesa, pois as ações verbais e a interacionais estão
mais ligadas às práticas sociais da escrita, correspondência esta
que tem a ver com uma tendência histórica observada na prática
bilíngüe. Levantou informações sobre a utilização funcional da
língua portuguesa, isto é, as situações comunicativas em que os
falantes fazem uso deste conhecimento, tais como: escritas de cartas
a parentes e não indígenas, livros didáticos, relatórios de
atividades, cadernos de registros de agentes indígenas de saúde,
entre outros. A autora justifica o processo assimétrico ocorrido na
distribuição de espaços da lectoescrita entre a língua portuguesa e
a língua indígena em função do binômio oral/escrito como elementos
descontínuos e independentes.
Para Monte (1994), há descontinuidades nas práticas
orais e escritas, tanto nas de língua portuguesa, como nas de língua
indígena. A ênfase é quase sempre da língua portuguesa. Afirmação
baseada em pesquisa desenvolvida com docentes indígenas da região
acreana. Observou-se que a língua portuguesa foi mais citada para a
escrita de materiais – cartas, jornais, trabalhos escolares, livros
e relatórios. Em relação à competência bilíngüe docente,
verificou-se que ela se materializa nas modalidades orais e
escritas. Consideram-se melhores falantes na língua indígena e
melhores escritores na língua portuguesa.
Outra aspecto observado referiu-se ao espaço no
interior ou exterior da aldeia que acaba por separar as línguas
indígena e portuguesa: por exemplo, fala-se língua indígena dentro
da aldeia em reuniões, no trabalho, nas festas. E por sua vez
fala-se língua portuguesa, fora da aldeia, na cidade. As práticas
tradicionais coletivas como caçar, pescar, coletar, roçar ou fazer
artesanato – estão mais relacionadas ao uso da língua indígena. Já
atividades como extração da seringa, da castanha, do comercio na
cidade, estavam mais vinculadas à língua portuguesa. Um importante
dado neste trabalho foi de que as transferências das habilidades
escritas adquiridas em língua portuguesa podem ser transportadas
para as de língua indígena. Situação corroborada por Seki, (1993)
que as crianças que sabem ler na língua materna – no caso Quéchua e
Aymara, vão melhor no castelhano.
Assim Monte (1994), conclui o estudo evidenciando que
a escrita era originalmente invenção do mundo não indígena, do
outro, do estranho. Já a oralidade – integrante da sua linguagem
própria, íntima, mas por sua vez distanciada da escola. Assim, a
ausência do português oral na escola significa o silêncio e a
ausência da escrita nas práticas sociais da língua indígena – a
folha branca.
Então, pesquisas como essa, evidenciam os elementos
importantes que envolvem as relações entre a oralidade e escrita,
sua estrutura na aldeia indígena em campos distintos mais
completares, a oralidade se aproximando mais da cultura tradicional
e a língua portuguesa escrita com vínculos na cultura do outro, do
“branco”, do não-indígena.
II – Educação Bilíngüe
Até se construir um consenso sobre o bilingüismo na
escola indígena, por parte de docentes indígenas e
pesquisadores(as), isto é traduzido no trabalho articulado entre a
língua portuguesa e a língua indígena, um grande debate foi travado
neste sentido. Até os tempos do Serviço de Proteção aos Índios – SPI
de 1910 a 1967, como o objetivo oficial na época era o de integrar
as populações indígenas à sociedade nacional, essa questão sequer
era cogitada. O processo de alfabetização acontecia em língua
portuguesa, os docentes não eram indígenas e os conteúdos eram quase
conteúdos exclusivamente “de branco” (LOPES DA SILVA; GRUPIONI,
1995).
O bilingüismo vai se colocar como proposta mais
consistente a partir da impossibilidade de se conseguir êxito na
alfabetização em língua portuguesa.
Sobre a questão, Maria
Cândida Barros, afirma que: “[...] Uma experiência anterior de
alfabetização entre as crianças Karajá havia mostrado sua
inutilidade. O conhecimento da escrita havia caído no esquecimento
pela falta de oportunidade e de necessidade de usar a escrita”
(BARROS, 1994, p. 27).
Situações como esta nos
remetem às reflexões de Vygotsky sobre os estudos da linguagem
enquanto um sistema simbólico produzido pelo ser humano, ou seja,
uma espécie de ganho no processo evolutivo da espécie. Para ele, é
por meio da linguagem, que podemos fazer a mediação entre o sujeito
e o objeto do conhecimento, bem como, possibilitar o desenvolvimento
das funções mentais superiores que depois são culturalmente
compartilhadas. Assim postula que “O ensino tem que ser organizado
de forma que a leitura e a escrita se tornem necessários às crianças
[...] e a escrita deve ter significado para as crianças, uma
necessidade intrínseca deve ser despertada nelas e a escrita deve
ser incorporada a uma tarefa necessária e relevante para a vida”. (VYGOTSKY,
1989, p. 133).
Então com o insucesso da alfabetização na escola
indígena em língua portuguesa, houve a introdução da língua indígena
– a língua de conhecimento dos alunos e alunas da etnia.
Posteriormente há a implantação da educação bilíngüe, pois
permanecia o interesse de integrar os índios à sociedade nacional,
assim que os alunos aprendiam a ler e a escrever, a língua indígena
era retirada da sala de aula, já que a aquisição da língua
portuguesa escrita continuava a ser a grande meta.
Desta forma, a escola indígena acabava por contribuir
para o fortalecimento da idéia da integração das sociedades
indígenas. Por sua vez acabavam por enfraquecer, desprestigiar e de
certa forma invisibilizar as línguas indígenas (BRASIL, 1998).
Barros (1994) afirma que esse modelo de educação com
base lingüística no Brasil tem origem na relação entre indigenistas
mexicanos e missionários do SIL -
Summer Institute of Linguistics ou
Sociedade Internacional de Lingüística
que pretendia “realizar estudos descritivos e comparativos de
línguas indígenas, dando-lhes uma forma escrita; traduzir, para
línguas indígenas, material de valor moral e cívico, inclusive
trechos da Bíblia [...]”.
No entanto, para esta autora, a estratégia utilizada
pelo SIL era de sistematização e publicação de materiais
especificamente religiosos separados dos materiais didáticos, assim:
“As cartilhas de alfabetização não eram catecismo ou Novo
Testamento, mas sabendo ler os primeiros, o alfabetizado tornava-se
capacitado para ler os textos religiosos”. (p. 22)
A ligação entre indigenistas mexicanos e missionários
do SIL está relacionada a experiências desenvolvidas na implantação
da educação indígena no México nos anos de 1930. Entre outras
atividades, destacamos a campanha de alfabetização que aconteceu em
Tarasco, que, mais tarde desencadeou o Projeto Tarasco –
caracterizado pela oficialização da alfabetização em língua
indígena, difundindo-se posteriormente por toda a América Latina,
como Guatemala, Peru, Brasil e outros países.
É neste contexto que surge a figura do lingüista como
profissional estratégico, inclusive com a função de educador e
sistematizador das línguas indígenas. Então, o bilingüismo se
instala na América Latina a partir de uma aliança entre indigenistas
e missionários.Os primeiros que viam nesta proposta uma forma
eficiente de assegurar a aprendizagem da escrita em português e os
missionários, que viam na educação bilíngüe a possibilidade de
evangelização por meio da alfabetização. Vale acrescentar que a
UNESCO em 1951 orienta que a língua mais adequada para a
alfabetização é a indígena.
No Brasil, a influência do SIL também é considerável,
entre a comunidade acadêmica, conforme Franz Boas citado por Barros
(1994), pois conseguem produzir materiais didáticos - cartilhas em
língua indígena no período de 1959 a 1962, envolvendo os povos
Terena, Kaigang e Sateré-Mawé. Suas relações com a Fundação Nacional
do Índio – FUNAI desencadeou na assinatura de um convênio em 1969,
sendo que logo depois foi publicada a Portaria nº75/1972, tornando a
educação bilíngüe obrigatória em todo o país. Deste modo, o SIL
mediante acordos oficiais, consegue assegurar espaço para difundir a
escrita e de forma camuflada capacitar futuros colaboradores para
tradução da Bíblia e conseqüentemente a ampliação de seu projeto
evangelizador. Esta aliança é confirmada por Mindlin (2004) no que
se refere à produção teórica sobre o assunto no Brasil: “[...] ao
lado de experiências educacionais bilíngües, há algumas de
alfabetização em português e outras que revelam tolerância ou quase
defesa do trabalho do SIL” (MINDLIN, 2004, p. 108-109).
No entanto, após vários questionamentos, da
influência considerada inadequada por parte do SIL, há o rompimento
entre este instituto e os órgãos oficiais responsáveis pela política
indigenista. Posteriormente, a
Constituição Federal de 1988 possibilita um novo arcabouço jurídico
que permite que a escola se constitua como um elemento a favor dos
povos indígenas, na medida em que pode estimular e favorecer a
manutenção ou revitalização das línguas indígenas ao incluí-la em
seu currículo com a função e status de língua plena, desta forma
assegurando uma proximidade em termos de paridade com a língua
portuguesa. Em relação ao ensino da língua, no artigo 210
assegura às comunidades indígenas o “uso de suas línguas maternas e
processos próprios de aprendizagem”.
Outro documento que contribui para esta discussão é o
Referencial Curricular Nacional para as Escolas Indígenas (BRASIL,
1998) que estabelece o direito à escrita em língua indígena (p.
127). Este documento apresenta o debate sobre a pertinência da
língua escrita na aldeia. Enfatiza que é preciso disponibilizar os
saberes de leitura e escrita aos povos indígenas, sujeitos
portadores de direitos à educação. Orienta como trabalhar as línguas
- indígena e portuguesa na escola, como línguas de instrução oral e
escrita. Enfatiza o trabalho com a oralidade e sua relação com a
escrita.
Estudos como o de Gonzalez Lorenzo
(1985) citado por Monserrat (1994) evidenciam que as situações do
bilingüismo acontecem de duas formas: a primeira como uso exclusivo
da língua indígena no decorrer dos primeiros anos da escolaridade
com o acompanhamento da língua portuguesa na forma oral e a segunda
na transição para a segunda língua a partir do 2º ou 3º ano que como
língua de ensino dos conteúdos curriculares, a língua indígena se
mantém apenas como língua de instrução oral.
Já sobre os tipos de bilingüismo, Gonzalez Lorenzo
(1985) afirma que há uma relação direta com a forma como a língua é
enfatizada, podendo ser classificados como método direto, programas
bilíngües de transição e bilingüismo institucional. Sobre os dois
primeiros, há uma clara indicação de inadequação por parte do autor
segundo Monserrat (1994) por penalizarem a língua indígena: no
método direto, a língua indígena só é utilizada até o aprendiz
dominar a portuguesa e nos programas bilíngües de transição a língua
materna é deixada de lado, sob o argumento da inexistência de
materiais didáticos que potencializem sua utilização. Para ele, o
bilingüismo institucional se caracteriza por ser um processo
vinculado às práticas sociais da comunidade de manutenção da língua
indígena na medida em que possibilita o seu desenvolvimento
contribuindo para a sua permanente afirmação e reconhecimento
étnico diante da sociedade não indígena.
Então a língua indígena não pode se limitar nem só
aos primeiros anos da escola, nem tampouco servir apenas como língua
de instrução oral. É preciso, sobretudo que seja estudada por todos
e, em relação aos docentes, Monserrat (1994, p. 13) atribui uma
tarefa, que identifico como a de interlocutor cultural, pois
recomenda que:
Contemple sua formação específica como professores e
em primeiro lugar como alfabetizadores em sua língua materna, sem
esquecer, porém que também aqui eles terão de operar a síntese entre
métodos e procedimentos requeridos pelo ensino e aprendizagem na
situação específica da sala de alfabetização – realidade estranha à
cultura tradicional e os métodos e procedimentos de ensino e
aprendizagem características de suas culturas.
Portanto, a educação bilíngüe, no início de sua
implantação serviu tanto a propósitos religiosos - a evangelização
das comunidades indígenas - como estratégia de integração destes
grupos étnicos à sociedade não-indígena. No entanto, a legislação
brasileira, os documentos oficiais de forma geral e os estudos sobre
a temática sugerem que o bilingüismo se encontra em processo de
consolidação nas comunidades, o que significa afirmar que o ensino
bilíngüe representou a possibilidade concreta da superioridade das
línguas indígenas na escola, embora, a nosso ver, seja necessário
ainda aprofundar estudos sobre os espaços ocupados por cada uma das
línguas de forma a assegurar uma educação bilíngüe menos
assimétrica.
Considerações finais
As leituras desenvolvidas que possibilitaram a
elaboração deste trabalho apontaram para várias questões que, se não
estavam diretamente relacionadas ao objeto estudado, permitiram a
produção de várias inferências em relação à oralidade, a escrita e
ao bilingüismo em contextos educacionais indígenas.
A produção teórica sobre alfabetização demonstra que
esta discussão ficou sob a responsabilidade exclusiva de lingüistas
e antropólogos. As contribuições da Pedagogia ficam à margem do
processo, inclusive conforme cita Franquetto (1984, p.7) "[...]
pedagogos são os que demonstram uma inserção ainda tímida na área",
no entanto, a aquisição da língua a partir da realidade dos alunos e
alunas, confirma a influência progressista da Pedagogia,
particularmente de Paulo Freire (1983) nos materiais didáticos
(MONTE, 1984);
Avaliamos que houve uma ênfase muito grande para o
trabalho de sistematização e normatização das línguas indígenas, sem
considerar estudos e pesquisas sobre o processo de aquisição da
leitura e escrita, prevalecendo a produção de materiais tipo
cartilhas, com ênfase mais na memorização que na compreensão. A
discussão em torno do ensino da língua acontecia vinculada à
implantação da escola, seja como proposição dos órgãos oficiais ou
reivindicação do movimento indigenista.
Assim, o desafio é pensar com as comunidades
indígenas propostas de alfabetização efetivamente diferenciadas que
possibilitem uma relação com a língua escrita com vistas a
autonomia. Talvez esta forma de pensar a alfabetização em escolas
indígenas se aproxime da expressão proposta por Macedo (2000, p. 85)
a de alfabetização como política cultural: [...] um construto
significativo a ponto de ser encarada como um conjunto de práticas
que atuam quer para dar poder, quer para marginalizar as pessoas. No
sentido mais amplo, a alfabetização é analisada como instrumento de
reprodução das formações sociais existentes ou como um conjunto de
práticas culturais que promovam a mudança democrática e
emancipadora.
Não podemos condenar as comunidades indígenas a
modelos de alfabetização que não alfabetizam, que não asseguram a
apropriação da escrita ou da cultura escrita, como alguns que ainda
teimam em se manter em nossas escolas, caracterizados pela ênfase na
memorização excessiva, na fragmentação da língua. Modelos que vêem
na alfabetização apenas uma etapa para o desenvolvimento de
habilidades com vistas à aquisição da língua, excluindo o aspecto
cultural dos falantes por estes fazerem uso de variedades
lingüísticas desprestigiadas. Neste sentido, acabam por limitar o
processo alfabetizador a nada mais que lugar de repetição dos “[...]
patéticos beabás”, conforme questiona Marcos Terena (1984).
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Porto Alegre: Artmed, 2001.
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