|
MAURO
CASTELO BRANCO DE MOURA
Professor do Departamento de
Filosofia da Universidade Federal da Bahia e autor, entre outras
obras, de Os Mercadores, o Templo e a Filosofia: Marx e a
Religiosidade, Coleção “Filosofia” nº 181, Porto Alegre,
Editora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
(Edipucrs), 2004.
|
|
Não li e não gostei!
Espaço Acadêmico abriu suas páginas ao vitupério e à apologia do
obscurantismo
por
Mauro Castelo Branco de Moura
“Não há entrada já aberta para a
ciência e só aqueles que não temem
a fadiga de galgar suas escarpas
abruptas
é que têm a chance de chegar a seus
cimos
luminosos”
Karl Marx
A pretexto da irretorquível defesa da liberdade de
pensamento a REA abriu suas páginas, infelizmente, à apologia do
mais abjeto obscurantismo. Em seu
nº 83, de abril do corrente, o Diplomata Paulo Roberto de
Almeida, em artigo supostamente bem humorado, intitulado
O fetiche do Capital, defende ostensivamente a idéia de que
não se deva estudar O Capital de Marx nas
universidades, pois se trataria, em síntese, de obra completamente
ultrapassada. Mesmo quando afirma “que não tenho nada contra a
leitura do Capital” o Diplomata Almeida logo se apressa em
acrescentar a seguinte ressalva: “sempre bem-vinda e interessante
quando se dispõe de tempo e do lazer necessários a um mergulho na
história das idéias econômicas do século XIX”. Em tom professoral o
preocupado diplomata adverte: “Tenho reparado, pela minha
freqüentação de listas de discussões e pela leitura de sites
acadêmicos que professores universitários brasileiros continuam a
insistir com seus alunos na leitura do Capital, leitura que é
feita sempre parcial e truncadamente, pois que não concebo um
estudante “normal” de nossas instituições de ensino superior
mergulhando na leitura sistemática dos três livros do Capital
(e mais quatro sobre a Teoria da Mais-Valia), sem correr
seriamente o risco de ser reprovado nas demais matérias por falta de
estudo, o que seria a suprema ironia”.
Não deixa de ser curioso o incômodo provocado em
Paulo Roberto de Almeida com o fato de que, eventualmente, algum
professor universitário insista em que seus alunos leiam O
Capital de Karl Marx. Digo, eventualmente, porque todo
aquele que freqüente as academias brasileiras nos dias de hoje sabe
o quão difícil será encontrar algum professor que ministre aulas
sobre esta obra clássica. Fica a pergunta: porque este empenho em
censurar o ensino de um clássico, condenando-o ao esquecimento?
O diplomata insinua uma preocupação de exegeta contra
leituras parciais e truncadas, já que por sua extensão e (ele não
afirma, mas eu poderia acrescentar) complexidade a leitura cabal da
obra não estaria ao alcance de nossas instituições de ensino
superior e assim, em tom libertário, pretende “livrar” os estudantes
brasileiros deste penoso fardo. Destarte, seguindo a linha de
raciocínio do cioso diplomata, deduzo, como professor de filosofia,
que o ensino de minha disciplina é absolutamente inapropriado nas
universidades brasileiras. Como pedir a alunos que leiam a
Crítica da Razão Pura de Kant ou a Ciência da Lógica
de Hegel uma vez que são obras extensas e reconhecidamente
difíceis? E o ensino dos pensadores antigos, não seria ainda mais
problemático? Teria algum sentido, na perspectiva do cioso
diplomata, ler a Metafísica de Aristóteles, por exemplo, obra
escrita há mais de dois mil anos? “Livremos nossos alunos de toda a
cultura clássica!”, é isso o que apregoa Paulo Roberto de Almeida?
Devemos fazer o que, ler gibi ou livros de auto-ajuda em sala de
aula?
Não obstante, só ao Capital de Marx o
Diplomata Almeida pretendeu defenestrar, só esta obra mereceu entrar
em seu índex pessoal... Em sua cruzada por “libertar” os alunos
deste penoso e inútil fardo o cioso articulista se despoja de
qualquer rigor acadêmico e inicia um vale-tudo onde a pose inicial
de exegeta se desvanece completamente. A displicência começa quando
afirma que a “edição original” de O Capital teria sido em
1863 (sic).
O paladino dos estudantes erigiu seu moinho de vento (porém, sem a
honesta e enlouquecida ingenuidade do “engenhoso fidalgo da Mancha”)
sem citar a própria obra em questão uma única vez. Com enorme
desassombro dedicou-se a imprecar contra o clássico sem qualquer
pudor intelectual, fazendo tábula rasa da enorme literatura crítica
que o cerca, citando apenas Pareto, porém no frágil contexto do
magiter dixit. Isto numa revista denominada Espaço Acadêmico...
Qual seria o objetivo do cioso diplomata?
Decerto que não pretendeu estimular o debate acerca
da obra, o que seria, per se, louvável e academicamente
salutar, independentemente da posição que assumisse. Aliás, para
encomiar ou para combater seria de bom alvitre certo distanciamento
crítico, não é o que pretendeu o Diplomata Almeida. Na verdade, seu
primeiro objetivo foi o de tender um cordão sanitário em torno da
obra de Marx, convidando os que não a leram a que continuassem a
ignorá-la. O mais tacanho obscurantismo, portanto, moveu-o em seu
libelo, sem sequer ser original neste execrável intuito (quantos
destruidores de livros a história já conheceu!). Porém, ao fazê-lo
esqueceu que aos clássicos não lhes dá a medida o pigmeu, mas é a
própria insignificância que se revela sem disfarces na comparação.
O Capital, como qualquer outra obra clássica, não está sub
judice, pelo contrário, é ele que julga àqueles que pretendem
ajuizá-lo. É como uma Mona Lisa a espreitar as legiões de visitantes
do Louvre que dela se aproximam, sempre haverá os que não a estimem
uma obra meritória... Porém, ela seguirá lá impávida, julgando, com
seu sorriso enigmático, novas multidões de admiradores...
Lembro-me, quando era ainda bastante jovem, no tempo
da ditadura militar, que Mário Henrique Simonsen, à época ministro
(da fazenda se não me engano), escreveu certa feita um artigo para o
caderno cultural do Jornal do Brasil louvando a
reedição de O Capital, cuja primeira edição no Brasil já se
achava esgotada. Sem qualquer suspeição de simpatia pela obra, o
ex-ministro, como qualquer homem lúcido e bem informado haveria de
fazê-lo, destacava a importância da obra (e só um obscurantismo
desvairado a circunscreveria apenas ao âmbito restrito do contexto
do século XIX). Porém Mário Henrique Simonsen não fez verão sozinho.
Raymond Aron, por exemplo, que dedicou uma parte relevante de sua
extensa obra à crítica dos marxistas, jamais pretendeu que Marx não
fosse lido, pelo contrário, tornou-se um excelente especialista,
referência para críticos ou admiradores.
Para continuar no âmbito francês, Jacques Attali,
líder de uma comissão de notáveis designada pelo Presidente Nicolas
Sarkozy (que não pode, de modo algum, ser acusado de “marxismo”!)
para sugerir um plano de reformas ao governo francês por ele
presidido, conhece tão bem a vida e a obra de Marx que é autor de
uma biografia (Karl Marx ou l’esprit du monde, Paris, Fayard,
2005), relativamente bem documentada, onde destaca, precisamente, a
atualidade do pensamento do autor que o Diplomata Almeida quer ver
confinado nas calendas do século XIX e sem ser lido no século XXI.
Como se vê, não é necessário esposar o ideário marxista para
reconhecer a importância do legado de Marx, sobretudo de O
Capital, basta algum descortino...
Sem
embargo, Paulo Roberto de Almeida não parou por aí. Tendido o cordão
sanitário em torno do legado de Marx, o cioso diplomata revela
agora, com toda a clareza, outra faceta (já antes esboçada, mas de
modo velado!): a de provocador. Contrariando a expectativa que se
tem dos egressos do prestigioso Instituto Rio Branco, o Diplomata
Almeida não revela qualquer politesse ao “resenhar” na
REA nº 84, de maio do corrente, o livro Incontornável Marx,
organizado por Jorge Nóvoa. Decerto que não há nada de errado na
emissão de comentários críticos acerca de uma obra resenhada,
porquanto não se exige de quem escreve uma resenha uma postura
neutra. Pelo contrário, é desejável que emita uma opinião
argumentada, se favorável ou desfavorável, pouco importa. Porém,
coloco o “resenhar” entre aspas porque em momento algum o
articulista expôs o conteúdo do livro, apenas limitou-se ao
vitupério e ao achincalhe, confundindo imprensa marrom com revista
acadêmica (e isto caberia aos editores da REA impedir!).
Sua tese, ou melhor, sua obsessão, que começa no
deselegante e desrespeitoso título,
Marxistas totalmente contornáveis, parece ser a de
demonstrar que Marx é um autor completamente defasado, sem qualquer
valor atual e que o interesse por sua obra se confinaria a
nostálgicos empedernidos e sádicos.
Ensandecido pelas próprias diatribes, o cioso diplomata, convertido
agora em paladino da causa do capitalismo, atropela o conjunto dos
colaboradores do livro, nacionais e estrangeiros, alguns de grande
nomeada, com uma enxurrada de adjetivos. O menos defenestrado por
suas invectivas foi Michael Löwy, cujo texto, no entanto, se
enquadraria, segundo o intrépido diplomata, na categoria
“arqueologia marxista”... Porém, a apoteose da “resenha” é o seu
grand finale, quando o Diplomata Almeida deixa cair a máscara e
se converte em bufão, esquecendo completamente que o debate de
idéias, pelo menos no seio da academia (e de publicações como a REA),
deveria estar pautado pelo respeito (se é que se quer
verdadeiramente debater), e conclui com a seguinte pérola de
rasteira grosseria: “Pessoalmente, não creio que o conteúdo
ontológico deste Marx “incontornável” valha o preço do papel no qual
ele foi impresso. Pelo peso do volume, ele deve valer bem duas ou
três pizzas em algum micro-empreendimento capitalista: assim, o seu
dinheiro estará muito melhor empregado. O livro não é apenas
contornável e dispensável: ele é totalmente indigesto. Melhor ficar
com a pizza...”
Pergunta-se: se Marx e seus seguidores são carta fora
do baralho da história, porque tanto empenho em atacá-los? Não se
pode imaginar que o cioso diplomata não tenha nada melhor a fazer em
seus momentos de ócio do que vituperar e achincalhar superados
jurássicos... Pelo contrário, a provocação não parece um destempero
gratuito, mas a obra de alguém obcecado e que tem um alvo a atingir.
Pelo ânimo virulento da linguagem empregada depreende-se que o
Diplomata Almeida arvora-se em paladino de uma causa. Qual seria
ela?
Algumas pistas podem estar no mesmo número da
REA (84, de maio de 2008) que contém a aludida “resenha”. Num
artigo intitulado
As roupas novas do império: 21 teses rápidas Paulo Roberto
de Almeida declina aos leitores da revista algumas pérolas de seu
ideário. Em suas próprias palavras: “Um império é, basicamente, um
sistema extrator de recursos por meio da coerção, o que não ocorre
no caso dos EUA, que estão comprometidos com valores e princípios
condizentes com a liberdade de mercados e as franquias políticas
democráticas. Qualquer afirmação em contrário teria de comprovar que
as ditaduras que os EUA apoiaram em várias partes do mundo, na era
da Guerra Fria, foram obras construídas consciente e deliberadamente
pelos EUA para assegurar um tipo qualquer de extração de recursos
por via da coerção militar”.
Por mais admiração que se tenha pelos Estados Unidos
e, sobretudo, pelo povo e cultura norte-americanos (e este é o meu
caso pessoal!), só alguém cegado pelo fanatismo poderia afirmar uma
coisa assim, quando os contra-exemplos são tão evidentes. Como o
Diplomata Almeida classificaria a invasão do Iraque? Em nome da
defesa de que “valores”? Ou seria das receitas das empresas
apaniguadas da Casa Branca? Ou do controle do petróleo iraquiano?
Quais “franquias políticas democráticas” são defendidas no Iraque? E
em Guantánamo? Ou há algumas décadas foram defendidas no Vietnam?
Será pela defesa da “liberdade de mercados” que o etanol brasileiro
encontra barreiras no mercado americano? Seria infindável continuar
com os contra-exemplos... Porém, a segunda parte da assertiva
mereceria um rápido exame. Contudo, para não cometer a indelicadeza
de pontificar sobre outros países, seria melhor circunscrever o
debate ao caso do Brasil, nação à qual o Diplomata Almeida é pago
para servir.
Hoje, em virtude da documentação disponibilizada, não
há mais qualquer dúvida acerca da ingerência dos Estados Unidos em
apoio à quartelada que feriu de morte a ordem constitucional
brasileira em 1964 e isto foi feito tão “consciente e
deliberadamente” que o próprio Embaixador Americano no Brasil à
época, Lincoln Gordon, admitiu sua atuação em favor dos golpistas.
Imaginar que a participação americana na quartelada foi em defesa
das “franquias políticas democráticas” dos brasileiros e que isto
não propiciou a “extração de recursos” do país é de uma
“ingenuidade” comovente! Só um fanático, obcecado por uma idéia,
pode ter uma leitura tão tortuosa da realidade. Contrariando toda a
evidência empírica o destemido Diplomata Almeida perece acreditar
que a Grande Nação Americana é a própria manifestação terrena da
Liberdade. Em suas palavras: “Nesse sistema de portas abertas, a
única “ditadura” suscetível de ser criada pela hegemonia dos EUA é
aquela que destrói todas as ditaduras. Estas são as bases
indiscutíveis do “império” americano: a livre circulação de fatores
de produção e de produtos da inteligência e da criatividade humanas.
Esse é um sistema destruidor de todas as hegemonias conhecidas
historicamente. Mas quem destrói todas as velhas hegemonias não é o
poder comercial ou econômico dos EUA, e sim a força das
suas idéias, idéias muito simples: liberdade de iniciativa,
liberdade política, liberdade de acumular e de circular riquezas”.
Fica aqui a pergunta: se as idéias americanas são assim tão fortes,
porque precisam de tantas armas?
Chega a ser tocante, porém, pouco realista, a
admiração que o Diplomata Almeida nutre pelos Estados Unidos (aliás,
por mim compartilhada, porém sem este viés fanático e
fundamentalista) e é de se perguntar se isso não lhe causa nenhum
conflito íntimo quando seu desempenho como diplomata o obriga a
defender os interesses nacionais frente aos do país que tanto
idolatra, a menos, é claro, que pense como o notório político que
não teve qualquer pejo em afirmar que “o que é bom para os Estados
Unidos é bom para o Brasil”... Em países menos tolerantes que o
nosso este tipo de amor obcecado a uma potência alienígena pode ser
considerado traição à pátria, sobretudo quando envolve pessoal do
seu corpo diplomático. E os próprios Estados Unidos, por exemplo,
não costumam ser muito indulgentes com seus concidadãos envolvidos
neste tipo de conflito de interesses.
Em sua idolatria, talvez ao Diplomata Almeida não lhe
ocorra interrogar-se, por exemplo, acerca do caráter intrinsecamente
antidemocrático do sistema eleitoral americano, pelo menos quando
comparado ao brasileiro. Em nosso país (sem deixar de reconhecer as
imensas imperfeições do sistema político brasileiro), porém onde
tivemos uma vasta campanha popular em prol de eleições diretas, o
sistema americano de eleições indiretas não pode despertar muitas
simpatias. Ter um presidente eleito com menos votos do que seu
contendor, como foi o caso de Bush II em seu primeiro mandato (sem
falar da fraude, notadamente na Flórida onde seu irmão era o
Governador) não pode ser muito edificante para quem pretenda
exportar democracia... E a Liberdade de que fala Paulo Roberto
Almeida não pode ser abstrata, seria algo demasiado paradoxal para a
nação berço do pragmatismo. Não obstante, é possível que muita gente
nos próprios Estados Unidos ou alhures (sob os influxos dos mesmos)
não consiga experimentar esta Liberdade na prática, talvez por isso
a população carcerária americana seja tão grande e o recurso à pena
de morte tão utilizado!
O Diplomata Almeida, em seu fundamentalismo
maniqueísta, habita em um mundo nostálgico da Guerra Fria. Se ela
não existe mais, torna-se mister recriá-la! Há um tocante simplismo
hollywoodiano em suas colocações. De um lado, o bem e o
Sétimo de Cavalaria; do outro, o mal, índios, comunistas e quejandos...
Porém, só a crassa desinformação e a cegueira do fanatismo puderam
conduzir o intrépido combatente da Guerra Fria rediviva ao equívoco
de afirmar que: “As ações “Marx” estão indiscutivelmente em baixa no
mercado”. Ledo engano Diplomata Almeida! Jamais os estudos sobre
Marx tiveram tanto impulso! A retomada do projeto editorial de
publicação do conjunto da obra de Marx e Engels na última década do
século passado já começa a produzir frutos
e, na contramão dos desejos do nostálgico diplomata, há um
expressivo movimento de retomada nos estudos sobre a obra do ilustre
pensador renano. À esteira da Marx-Engels Gesamtausgabe os
projetos de tradução também proliferam. Acaba de ser lançado na
Sorbonne, em Paris, o projeto GEME (grande édition Marx et Engels)
que pretende efetuar uma nova tradução das obras desses autores em
francês, proporcionando, a partir de 2010, uma edição eletrônica das
obras. Na Itália, Edizioni "La Città del Sole" retomou a publicação
das Opere complete di Marx ed Engels (e já vai pelo vigésimo
segundo volume!) . No Brasil há um visível incremento no número de
títulos de Marx disponíveis no mercado editorial, para não falar de
obras sobre o pensamento de Marx como o Incontornável Marx,
cuja primeira tiragem esgotou-se...
|
|
versão para imprimir (arquivo em pdf)
|