MÁRIO MAESTRI

Historiador e professor do Curso de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UPF, RS

 

 

 

O Sentido Histórico de 1968*

por Mário Maestri**

 

Desde inícios de 2008, sobretudo na Europa, realizam-se encontros, seminários, palestras, lançamentos de livros e de documentários sobre 1968. Essas atividades alcançam seu apogeu no presente mês de maio, devido ao célebre sucesso em Paris, há quarenta anos, que, em geral, tendem, por sua relevância, a obscurecer o caráter multinacional daquelas jornadas. No Brasil, as celebrações programadas foram igualmente diversas, sobretudo porque os fenômenos que estremeceram boa parte do mundo expressaram-se poderosamente entre nós, com ápice nos meses de junho-julho daquele ano germinal.

Existe já uma enorme produção bibliográfica sobre os acontecimentos que cumprem quatro décadas, referente sobretudo aos países em que eles expressaram-se em forma mais poderosamente, como a Alemanha Federal, a China, a Espanha, os Estados Unidos, a França, a Itália, o Japão, o México, o Paquistão, a Tcheco-Eslováquia, etc.[1] Há também valiosos ensaios de interpretação do fenômeno como um todo. Lamentavelmente, mesmo com as atuais celebrações, apenas uma muito pequena parte dessa produção encontra-se traduzida ao português, ainda que já haja considerável bibliografia nacional sobre aqueles acontecimentos.[2] 

Como ocorre no Brasil, comumente os atos comemorativos em curso dedicam-se prioritariamente à apresentação histórica dos sucessos de 1968, pois já fazem parte de um passado relativamente distante, que obriga necessariamente a sua recuperação histórica, para ser apropriado pelas novas gerações que nasceram após os mesmos. Uma recuperação facilitada, nesse transcurso das quatro décadas de 1968, pela presença ainda significativa de protagonistas daquelas jornadas, o que certamente não ocorrerá, quando das celebrações do próximo cinqüentenário, em 2018.

Significados profundos

Ainda que em geral se discuta quase obsessivamente as influências das jornadas de 1968, sobretudo no que se refere às modificações culturais e comportamentais da sociedade contemporânea – liberdade sexual, crise do autoritarismo familiar, etc. –, o grande debate explícito ou implícito que organiza a reflexão em curso, que poderíamos definir de mais fina, centra-se na tentativa de explicação das razões e significados profundos daqueles acontecimentos, e, sobretudo agora, de sua validade programática ou superação, esgotamento e crise.

Apresentam-se comumente em forma analógica os sucessos ocorridos há quatro décadas como o ápice de cataclismo geológico que, após forte acumulação de forças, iniciou processo de liberação das fortes tensões anteriormente reprimidas, em 1967, seguido-se a essa pré-convulsão, fortes e variados abalos tectônicos, com um principal e grande epicentro, em 1968, e movimentos secundários posteriores, nos meses seguintes àquele ao ano referencial.

Ainda que essa comparação circunscreva a importante sucessão e ritmos dos acontecimentos ocorridos, com grande destaque, sobretudo nos USA, na Itália e na Alemanha Federal, na Espanha em 1967, e, a seguir, principalmente na França, México, Brasil, Polônia, Paquistão, em 1968, ela sequer esboça as razões e significados profundos dos fatos em discussão, já que não elucida minimamente as origens e singularidades das fortíssimas tensões e sucessiva distensões sociais vividas em importantes regiões da Europa, América e Ásia, e, sobretudo, as causas da extenuação, dissolução ou frustração daquele movimento.

Expansão e crise

Na segunda metade dos anos 1960, iniciava-se o esgotamento da longa expansão de pós-guerra, vivida com destaque pelos USA e pela Europa Ocidental, nos anos 1947-1973, já definida como “os anos dourados” do capitalismo.[3] Nesse período, sobretudo o mundo do trabalho europeu, fortalecido pela expansão econômica conhecida após o conflito mundial, seguia mantido em forte subordinação política, social e econômica – desigualdades salariais; jornada de trabalho longas e duras, etc. –, realidade apresentada pelas direções políticas e sindicais social-democratas, socialistas e stalinistas como parte da própria natureza social, capaz de ser gradativamente reformadas mas já não mais superadas.

Mesmo concretizando-se nacionalmente, a crise capitalista em desenvolvimento assumia caráter, ritmos e expressões crescentemente mundiais, devido à crescente internacionalização da economia. Porém, um significativo fenômeno subjetivo imbricava-se a essa tensão objetiva vivida com destaque pelo mundo do trabalho. Importantes sucessos enfraqueciam o controle e o monopólio político-ideológico dos trabalhadores pelas direções comunistas, socialistas e social-democratas hegemônicas, realidade muito viva na França, na Itália, na Alemanha, países de forte e organizado proletariado.

A luta de libertação nacional do pequenino povo vietnamita, primeiro contra a França, a seguir contra os USA, potência capitalista hegemônica após a II Guerra Mundial, ensejava poderoso crescimento da consciência mundial da possibilidade-necessidade da derrota do imperialismo, já fortalecido pela vitória da Revolução Argelina, em 1962, após oito anos de lutas e duzentos mil mortos. Esse impulso fortalecera-se já significativamente, não apenas na América Latina, com a vitória paradigmática da revolução cubana, em 1959, seguida, dois anos mais tarde, por sua definição socialista. A possibilidade de derrota do imperialismo e do capitalismo, pelo confronto social direto, caso fosse necessário, apresentava-se como importante saída, para significativos setores do movimento socialista, sobretudo após a importante derrota sofrida no Brasil, em 1964, e a hecatombe da Indonésia, no ano seguinte.

Jovens brancos e negros

Nos Estados Unidos, a crescente mobilização da juventude pobre branca, arrastada à força para a carnificina imperialista, convergia, alimentava-se e alimentava a ruptura já iniciada, nos anos anteriores, com a organização e radicalização da luta pelos direitos civis, por importantes setores da comunidade negra estadunidense, que desvelaram diante dos olhos do mundo a hipocrisia da pretensa democracia social e política estadunidense, sob a vigência plena do capitalismo. Também essas mobilizações e suas formas de luta influenciavam fortemente a consciência das novas gerações estudantis e operárias, sobretudo da Europa, América e Ásia, nascidas após o grande conflito.

Na Europa Ocidental, os influxos da revolução na Argélia, em Cuba e na Indochina e da crise de hegemonia estadunidense refletiram-se, inicialmente, no estudantado da Alemanha e da Itália, em 1967, e, a seguir, da França, em 1968. Por suas características estruturais, os estudantes eram o setor que melhor expressava as profundas tensões sociais nacionais e mais facilmente podia independizar-se política e ideologicamente das direções social-democratas, socialistas e stalinistas tradicionais.

Ainda que originário sobretudo dos segmentos sociais médios, que ingressava em instituições de ensino superiores que mantinham sua organização destinada aos segmentos sociais dominantes, principalmente o estudantado alemão, italiano e francês mantinha reais vínculos orgânicos com as classes trabalhadoras, através dos jovens aprendizes e dos estudantes-operários. Esses contatos davam-se também através das organizações políticas populares, social-democratas, socialistas e stalinistas, as quais os jovens integravam, em bom número, através dos organismos destinados aos jovens e aos estudantes, dos quais se afastariam, no desenvolvimento da crise daqueles anos.

Convergência operário-estudantil

Os vínculos ligando o mundo estudantil ao operário foram de essencial importância nos sucessos de 1967-1968, já que a profundidade dos sobressaltos sociais conhecidos nas nações mais diretamente estremecidas por aqueles acontecimentos dependeu sobretudo do acolhimento e da potenciação, das mobilizações da juventude estudantil e popular, pelo movimento operário. Realidade que podemos apreciar na solução paradigmaticamente divergente dessa equação nos Estados Unidos e na França.

Nos USA, o núcleo central da classe operária, que em geral jamais conheceu autonomia política mesmo relativa diante do capital, manteve-se refratário, insensível e comumente hostil às mobilizações pacifistas e anti-racistas, ensejando que a forte fratura do consenso e hegemonia dominantes assumisse sobretudo expressões políticas e ideológicas de rejeição à cultura, ao comportamento e ao consumo capitalistas, e jamais à produção e à organização capitalista propriamente ditas. Essa última ruptura não se realizou sequer em forma programática.

A não-recepção do movimento pacifista e anti-racista por parte dos núcleos centrais dos trabalhadores estadunidenses ensejou que os fortes sobressaltos dos anos 1960-1970 fossem a seguir apreendidos em geral como crise entre as gerações, perdendo-se enorme parte de seu conteúdo evocativo e programático, sobretudo após a soldadura das fissuras no consenso social pelas classes dominantes, a partir do governo Ronald Reagan [1981-89]. O que permitiu que se empreendesse, a seguir, verdadeira criminalização e abominação daqueles movimentos, e a neutralização ou eliminação física da vanguarda por eles produzida, processo já iniciado anteriormente, com o assassinato de Malcolm X, em 1965, de Martin Luther King, em 1968.

Étudiants, ouvriers, même combat?

Na França, ao contrário, as lutas estudantis, sobretudo parisienses, de inícios de maio, foram acolhidas pela classe trabalhadora, por movimento de três semanas, de greve geral, com mais de dez milhões de trabalhadores, e ocupação de fábricas encimadas por bandeiras vermelhas, que estabeleceu, nos fatos, dualidade de poderes no país. Dualidade que não se objetivou na proposta de conquista do governo apenas pela incapacidade do operariado de superar politicamente a direção do PCF, que comandou a frustração-dissolução do movimento semi-insurrecional, ao canalizá-lo para solução eleitoral de julho, que demarcou a clara derrota e refluxo popular.

Se na França a aliança operário-estudantil levou o país às portas de governo popular, de cunho ou orientação operária e socialista, no Paquistão, a confluência das lutas do estudantado com a população trabalhadora foi mais longe, ensejando, após quatro meses de duros combates, a queda, em 1969, da ditadura militar de Ayub Khan, que vinha sendo sustentada pelo imperialismo estadunidense. Uma conquista frustrada a seguir devido ao refluxo do movimento revolucionário mundial.

A Itália, ao contrário, constituiu caso singular, já que as mobilizações iniciadas em 1967 ensejaram longa permanência de confluência, política e orgânica, entre estudantes radicalizados e segmentos da classe operária em ruptura com o colaboracionismo do PCI, que manteve, porém, a hegemonia sobre o coração central da classe trabalhadora. Aquele processo se esgotou dez anos mais tarde, com o refluxo das lutas de massa, que facilitou a ação irresponsável das organizações armadas, com destaque para as Brigadas Vermelhas, que contribuíram para gravíssima derrota política da esquerda como um todo. Fenômeno conhecido igualmente pela Alemanha Federal, sobretudo com a Fração do Exército Vermelho.[4]

Crise objetiva-subjetiva

O estremecimento geral conhecido por países como a França, Itália, Alemanha Federal, Estados Unidos, Paquistão, México, Brasil, etc. demarcou o já referido esgotamento da expansão capitalista de pós-guerra, no contexto da primeira grande crise de hegemonia conhecida, por um lado, pelo imperialismo, no que se refere ao mundo do capital, e, por outro, do stalinismo e da social-democracia, no que diz respeito ao mundo do trabalho. Processos que se materializaram segundo as realidades das diversas nações envolvidas pelos sucessos.

Na esfera subjetiva, o avanço da revolução mundial determinou profunda ruptura do stalinismo e da social-democracia. O fim daquele monopólio foi demarcado pela redescoberta de velhos e novos teóricos revolucionários, como Karl Korsch, León Trotsky, Rosa Luxemburgo, Franz Fanon, Georg Lukacs, Guevara, Isaac Deutscher, Wilhelm Reich, etc.; pelo renascimento do debate marxista, com destaque para a economia e a teoria da dependência – Charles Bettelheim, Ernest Mandel, Henri Lefevbre, Herbert Marcuse, Paul Baran, Paul Sweezy, etc. –, e, igualmente, pela emergência de organizações políticas revolucionárias de corte sobretudo trotskista, maoísta, guevaristas, autonomistas, fortes sobretudo nos segmentos da juventude estudantil e operária radicalizadas. Todo esse movimento caracterizado pela profunda rejeição ao parlamentarismo. Sobretudo na Itália, o novo ativismo político foi conhecido como oposição extra-parlamentar.

O próprio fenômeno das organizações armadas européias e latino-americanas encontra parte de sua explicação no impulso revolucionário ensejado pela vitória cubana, pela guerra de libertação vietnamita e pelas rupturas de 1967-1968 que, no referente à Europa, galvanizaram e lançaram segmentos jovens principalmente das classes médias, sobretudo após o refluxo da mobilização de massas, em lutas protagonistas, vistas por seus participantes como parte do combate anticapitalista e antiimperialista mundial. Ações desvinculadas do movimento social, utilizadas pelo imperialismo e governos conservadores contra a esquerda e o mundo do trabalho.

O geral e o particular

O processo de galvanização subjetiva mundial vivido em 1967-1968 deu-se no contexto de profunda interdeterminação do geral e do particular, do mundial e do nacional. Um processo no qual os meios de comunicação, com destaque para a mídia, fortemente potenciada, sobretudo na Europa, nos anos anteriores, pela popularização da televisão, ensejaram poderosos influxos positivos para o movimento social em avanço, através de uma difusão intensiva de mobilizações e de lutas. Ainda que esses sucessos fossem anatematizadas pela mídia em nível da narrativa oral, sobretudo a capacidade das imagens de reverberarem o sentido dos processos que registravam, sobretudo junto a receptores vivendo, mais ou menos, objetiva e subjetivamente, os mesmos influxos, apoiou, incentivou e orientou jornadas congêneres em outras partes do mundo.

O ano de 1968 abriu-se com a vitória da ofensiva do Ano Ted, seguindo-se em maio as jornadas francesas, e, muito logo, a Marcha dos Cem Mil do Rio de Janeiro e as manifestações e lutas vitoriosas no Paquistão. Como por primeira vez em 1917, diante literalmente dos olhos da população mundial, a revolução materializava-se como processo literalmente palpável. O mundo do trabalho desbordava objetivamente as fronteiras políticas, ideológicas e simbólicas que lhe haviam sido delimitadas pela normalidade institucional, para se espraiar poderosamente, transformando seu programa em alternativa social e existencial real para as populações nacionais e mundiais.

Esse processo de transbordamento revolucionário exercia uma fortíssima atração sobre os setores médios, com destaque para intelectuais, artistas, políticos, jovens militantes ou não, etc., afastados anteriormente da atração exercida pela revolução e pelo mundo do trabalho pela ação hegemônica do stalinismo nos países do Leste europeu e entre a grande classe operária organizada. A crescente opção subjetiva e não raro orgânica de cientistas sociais e acadêmicos pelo socialismo ensejou a ampliação horizontal e vertical da crítica da sociedade e da produção capitalista, nos campos da história, sociologia, economia, política, artes, etc., contribuindo poderosamente para o fortalecimento do mundo do trabalho.  Esse fenômeno foi fortíssimo na França pós-1968.

A revolução ao alcance da mão

O socialismo, o racionalismo, o ateísmo, o solidarismo, tornavam-se valores fortemente prestigiados, enquanto o capitalismo, o irracionalismo, o espiritualismo, o individualismo desvalorizavam-se e desqualificavam-se diante dos olhos de milhões e milhões de indivíduos, sob o influxo direto e indireto, consciente e inconsciente, da revolução mundial em marcha. Transbordava através do mundo a confiança em um futuro muito próximo em que o homem seria, finalmente, não mais o lobo, mas o amigo do homem.

O ano de 1968 seria o de menor vocações sacerdotais no século 20. Sem interesse e necessidade de olhar, por frustração e desespero, para as coisas do céu e do além, o homem e a mulher, transcendidos pelas possibilidades que viam abrir-se diante de si, voltavam-se desbordando de confiança para o mundo material e espiritual terreno do aqui e do agora.  Galopando desenfreado através do mundo, o indomável corcel da revolução inoculou seu fulgor, em forma mais ou menos radical, em uma vasta geração de militantes sociais, em geral muito jovens.

Por seu inesperado radicalismo e longevidade, esse processo terminou determinando, mais tarde, a criação de neologismo, “soixantuitards, na França, “sessantotini”, na Itália, para descrever, positiva ou pejorativamente, conforme o lado da trincheira, a geração de homens e mulheres, hoje com sessenta e setenta anos que, apesar de dizimada pelas deserções dos anos 1980-90, segue ainda, passados quarenta anos, irremediavelmente influenciada em seus comportamentos e visões de mundo por aqueles anos e jornadas magníficos em que a conquista do céu esteve ao alcance das mãos.

O que não avança, retrocede

Já foi dito que a revolução não se instala, da noite para o dia, mesmo quando se trata do dia da revolução.  A imposição da derrota histórica do mundo do trabalho pelo capital, que vivemos plenamente nos dias de hoje, não se deu igualmente de um dia, mês ou ano para o outro, após o refluxo da grande onda revolucionária de 1968, já em fins daquele ano, com destaque para a França, Brasil e México, neste último país com o terrível massacre de Tlatelolco, de 2 de outubro de 1968, com talvez quatrocentos mortos, ainda que a luta se expandisse, no ano seguinte, no Japão, na Argentina, com o Cordobazo, na China, com a Comuna de Xangai, e na Itália, com o Outono quente. A partida continuou sendo jogada, ainda por alguns anos com as classes trabalhadoras e populares na ofensiva, antes que a maré revolucionária sofresse dolorosa reversão.

As razões e cronologia gerais da derrota do empuxe revolucionário, com forte aceleração em 1967-1968, exigem discussão bem mais ampla e complexa. Apesar da derrota imperialista e vitória popular no Vietnã do Sul [1974], Angola [1975], Moçambique [1975], Iêmen, Etiópia, Nicarágua [1978], a vaga popular mundial sofreu golpes significativos quando das derrotas da Revolução Chilena, em 1973, na América Latina, Portuguesa, em 1975, na Europa, e, finalmente, Afegã, em 1988, na Ásia, devido ao peso qualitativo desses movimentos. O fortalecimento da contra-revolução entre a classe operária polonesa, através do Solidariedade, desempenhou importante papel nesse processo.

Em verdade, a vaga revolucionária mundial já esmorecera, em fins da década de 1970, retrocedendo nos anos oitenta, para ser definitivamente batida nos anos 1990. Nesse processo, desempenharam importante papel os governos Ronald Reagan [1981-89], nos Estados Unidos, Margaret Thatcher [1979-1990], na Inglaterra, e o longo poder do papa Woytilla [1978-2005], exercido um pouco através de todo o mundo.

Contra-revolução vitoriosa

A derrota do grande impulso revolucionário, que conhecera forte aceleração em 1967-8, e o seu esmagamento geral, vinte anos mais tarde, em 1989, através da recuperação hoje nos seus momentos finais pela produção capitalista da URSS e das nações de economia nacionalizada e planejada da Europa, Ásia e América, deveram-se, em última instância, à imobilidade política e social das classes trabalhadoras estadunidenses e soviéticas, incapazes de superarem, mesmo em forma limitada, a dominação capitalista e burocrática sob a qual se encontravam, garantindo amplo espaço de recuperação-metamorfose para os segmentos dominantes daqueles países.

As complexas razões de tal fenômenos ainda não foram elucidados a contento, em boa parte devido ao próprio recuo objetivo e subjetivo, vivido desde os anos 1980, pelo mundo do trabalho e seus cada vez mais rarefeitos quadros intelectuais orgânicos, processo que se concluiu com a contra-revolução neoliberal de fins daquele decênio, que ainda pesa dolorosamente sobre todos nós, como assinalado.

A derrota da maré revolucionária, com forte eclosão em 1967-8, enseja, não a obsolescência de seu programa, como proposto habitualmente por apologistas da opressão, apoiados sobretudo na prova da vitória capitalista. Ao contrário, determina a urgência da retomada-concretização geral da proposta levantada há quarenta anos de reorganização social do mundo, para a superação contradições postas pela desordem capitalista. Contradições que, hoje, devido seu caráter geral e profundidade, comprovam dolorosamente a lembrança de Rosa Luxemburgo, há quase um século, de que à humanidade apresentam-se como alternativa apenas o socialismo ou a barbárie.


 

* Intervenção na mesa redonda de 14 de maio de 2008, no “Seminário 40 anos de 1968: continuidades e rupturas”, UFF, Niterói, Rio de Janeiro.

** Mário Maestri, 59, é historiador e professor do Curso de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UPF, RS.

[1]  Cf., ver outros, sobre a Itália: CAPANNA, Mario. Formidabili quegli anni. Milano: BUR, 1998; MASSARI, Roberto. Il ’68: come e perché. Bolsena: Massari, 1998; BASCETTA, M. et. Al.   Enciclopedia del '68.  Milano: Manifestolibri, 2008; ALESSANDRO, Bertante. Contro il '68: la generazione infinita. Milano:  Agenzia X, 2008; sobre o México, GUEVARA NIEBLA, Gilberto. Libertad bajo protesta, historia de un proceso, México: Federación Editorial Mexicana, 1973; GUEVARA NIEBLA, Gilberto. La democracia en la calle: Crónica del movimiento estudiantil mexicano, México: Siglo XXI, 1988; REVUELTAS, José. México 68: juventud y revolución, México: Era, 1978; ZERMEÑO, Sergio, México: una democracia utópica. El movimiento estudiantil del 68. México: Siglo XXI, 1978; SCHERER, Julio y MONSIVÁIS, Carlos Parte de guerra: Tlatelolco 1968: documentos del general Marcelino Garcia Barragan: los hechos y la historia. México: Aguilar, 1999; sobre a França, BENSAID (Daniel) et WEBER (Henri), Mai 68: une répétition générale. Paris: Maspéro, 1968; COHN-BENDIT, Daniel; GEISMAR, Alain; SAUVAGEOT, Jacques. La révolte étudiante, les animateurs parlent, Paris: Éditions du Seuil, 1968; DREYFUS-ARMAND, Geneviève & GERVEREAU, Laurent. (Org.) Mai 1968: les mouvements étudiants en France et dans le monde. Paris: Bibliothèque de documentation internationale contemporaine, 1988; DREYFUS-ARMAND, Geneviève; FRANK, Robert; LÉVY, Marie-Françoise; ZANCARINI-FOURNEL, Michelle. Les Années 68: Le temps de la contestation. Paris: Institut d’histoire du temps présent; Bruxelles, Complexe, 2000; GLUCKSMAN, André. Stratégies et révolution en France en 1968. Paris: Bourgois, 1968; TOURAINE, Alain. Le mouvement de Mai 1968 ou le communisme utopique. Paris: Seuil, 1968; sobre a Alemanha: KLIMKE, Martin / SCHARLOTH, Joachim (Hrsg.) Handbuch 1968: zur Kultur- und Mediengeschichte der Studentenbewegung. Stuttgart: Verlag J.B. Metzler, 2007; KOENEN, Gerd. Das Rote Jahrzehnt: Unsere kleine deutsche Kulturrevolution 1967-77. Köln: Kiepenheuer und Witsch Verlag, 2001; NORBERT, Frei. 1968: Jugendrevolte und Protest. München: dtv, 2008; UWE, Wesel. Die verspielte Revolution 1968 und die Folgen. München: Karl Blessing Verlag, 2002.

[2]  Cf.  entre outros: ALI, Tariq. O Poder das Barricadas: Uma autobiografia dos anos 60. São Paulo: Boitempo, 2008; ALMEIDA JR., Antônio Mendes de. Movimento estudantil no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1981; França, QUATROCCHI, Angelo & NAIRN, Tom. O começo do fim: França, maio de 1968. [1968] Trad. M.A. Reis. Rio de Janeiro: Record, 1998;ALVES, Márcio Moreira. 68 mudou o mundo: a explosão dos sonhos e a guinada conservadora num ano que valeu por décadas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993; FERRY, Luc; RENAUT, Alain. Pensamento 68. São Paulo: Ensaio, 1985; GARCIA, Marco Aurélio; VIEIRA, Maria Alice (org.). Rebeldes e contestadores: 1968: Brasil, França, Alemanha. São Paulo: Ed. Fundação Perseu Abramo, 1998; GOLDFELDER, Sonia. A primavera de Praga. São Paulo: Brasiliense, 1981; MARTINS FILHO, João Roberto. Rebelião estudantil: 1968 - México, França e Brasil. Campinas, Mercado das Letras, 1996; GORENDER, Jacob. Combate nas trevas: A esquerda brasileira. Das ilusões perdidas à luta armada. São Paulo: Ática, 1987; MARTINS FILHO, João Roberto. (org.). 1968 faz 30 anos. Campinas: Mercado das Letras, São Carlos, Ed. da UFSCar, 1998; MATOS, Olgária. Paris 1968: as barricadas do desejo. São Paulo: Brasiliense, 1981; PERRONE, Fernando. '68 relatos de guerra: Praga, São Paulo, Paris. São Paulo: Busca Vida, 1988; PONGE, Robert. [Org.] 1968: o ano das muitas primaveras. Porto Alegre: SMCPOA, 1998.

[3]   Cf. CHASNAIS, François et al. Uma nova fase do capitalismo? São Paulo: Cemarx, Xamã, 2003. pp. 15 et seq.

[4] PRINZ,  Alois. Disoccupate le strade dai sogni: La vita di Ulrike Meinhof. Trad. M. Marotta. Roma: Arcana, 2007; BOCCA, Giorgio. Noi Terroristi: 12 anni di lotta armata ricostruiti e discussi con i protagonisti.  Milano: Garzanti, 1985; Progetto Memoria. La mappa perduta. Roma: Sensibili alle foglie, 1994.

 

 

 

 

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