|
MÁRIO
MAESTRI
Historiador e professor do Curso de
História e do Programa de Pós-Graduação em História da UPF, RS

|
|
O Sentido Histórico de 1968
por Mário Maestri
Desde
inícios de 2008, sobretudo na Europa, realizam-se encontros,
seminários, palestras, lançamentos de livros e de documentários
sobre 1968. Essas atividades alcançam seu apogeu no presente mês de
maio, devido ao célebre sucesso em Paris, há quarenta anos, que, em
geral, tendem, por sua relevância, a obscurecer o caráter
multinacional daquelas jornadas. No Brasil, as celebrações
programadas foram igualmente diversas, sobretudo porque os fenômenos
que estremeceram boa parte do mundo expressaram-se poderosamente
entre nós, com ápice nos meses de junho-julho daquele ano germinal.
Existe já uma enorme produção bibliográfica sobre os
acontecimentos que cumprem quatro décadas, referente sobretudo aos
países em que eles expressaram-se em forma mais poderosamente, como
a Alemanha Federal, a China, a Espanha, os Estados Unidos, a França,
a Itália, o Japão, o México, o Paquistão, a Tcheco-Eslováquia, etc.[1] Há
também valiosos ensaios de interpretação do fenômeno como um todo.
Lamentavelmente, mesmo com as atuais celebrações, apenas uma muito
pequena parte dessa produção encontra-se traduzida ao português,
ainda que já haja considerável bibliografia nacional sobre aqueles
acontecimentos.[2]
Como ocorre no Brasil, comumente os atos
comemorativos em curso dedicam-se prioritariamente à apresentação
histórica dos sucessos de 1968, pois já fazem parte de um passado
relativamente distante, que obriga necessariamente a sua recuperação
histórica, para ser apropriado pelas novas gerações que nasceram
após os mesmos. Uma recuperação facilitada, nesse transcurso das
quatro décadas de 1968, pela presença ainda significativa de
protagonistas daquelas jornadas, o que certamente não ocorrerá,
quando das celebrações do próximo cinqüentenário, em 2018.
Significados profundos
Ainda que em geral se discuta quase obsessivamente as
influências das jornadas de 1968, sobretudo no que se refere às
modificações culturais e comportamentais da sociedade contemporânea
– liberdade sexual, crise do autoritarismo familiar, etc. –, o
grande debate explícito ou implícito que organiza a reflexão em
curso, que poderíamos definir de mais fina, centra-se na
tentativa de explicação das razões e significados profundos daqueles
acontecimentos, e, sobretudo agora, de sua validade programática ou
superação, esgotamento e crise.
Apresentam-se comumente em forma analógica os
sucessos ocorridos há quatro décadas como o ápice de cataclismo
geológico que, após forte acumulação de forças, iniciou processo de
liberação das fortes tensões anteriormente reprimidas, em 1967,
seguido-se a essa pré-convulsão, fortes e variados abalos
tectônicos, com um principal e grande epicentro, em 1968, e
movimentos secundários posteriores, nos meses seguintes àquele ao
ano referencial.
Ainda que essa comparação circunscreva a importante
sucessão e ritmos dos acontecimentos ocorridos, com grande destaque,
sobretudo nos USA, na Itália e na Alemanha Federal, na Espanha em
1967, e, a seguir, principalmente na França, México, Brasil,
Polônia, Paquistão, em 1968, ela sequer esboça as razões e
significados profundos dos fatos em discussão, já que não elucida
minimamente as origens e singularidades das fortíssimas tensões
e sucessiva distensões sociais vividas em importantes regiões
da Europa, América e Ásia, e, sobretudo, as causas da extenuação,
dissolução ou frustração daquele movimento.
Expansão e crise
Na segunda metade dos anos 1960, iniciava-se o
esgotamento da longa expansão de pós-guerra, vivida com destaque
pelos USA e pela Europa Ocidental, nos anos 1947-1973, já definida
como “os anos dourados” do capitalismo.[3] Nesse
período, sobretudo o mundo do trabalho europeu, fortalecido pela
expansão econômica conhecida após o conflito mundial, seguia mantido
em forte subordinação política, social e econômica – desigualdades
salariais; jornada de trabalho longas e duras, etc. –, realidade
apresentada pelas direções políticas e sindicais social-democratas,
socialistas e stalinistas como parte da própria natureza social,
capaz de ser gradativamente reformadas mas já não mais superadas.
Mesmo concretizando-se nacionalmente, a crise
capitalista em desenvolvimento assumia caráter, ritmos e expressões
crescentemente mundiais, devido à crescente internacionalização da
economia. Porém, um significativo fenômeno subjetivo imbricava-se a
essa tensão objetiva vivida com destaque pelo mundo do trabalho.
Importantes sucessos enfraqueciam o controle e o monopólio
político-ideológico dos trabalhadores pelas direções comunistas,
socialistas e social-democratas hegemônicas, realidade muito viva na
França, na Itália, na Alemanha, países de forte e organizado
proletariado.
A luta de libertação nacional do pequenino povo
vietnamita, primeiro contra a França, a seguir contra os USA,
potência capitalista hegemônica após a II Guerra Mundial, ensejava
poderoso crescimento da consciência mundial da
possibilidade-necessidade da derrota do imperialismo, já fortalecido
pela vitória da Revolução Argelina, em 1962, após oito anos de lutas
e duzentos mil mortos. Esse impulso fortalecera-se já
significativamente, não apenas na América Latina, com a vitória
paradigmática da revolução cubana, em 1959, seguida, dois anos mais
tarde, por sua definição socialista. A possibilidade de derrota do
imperialismo e do capitalismo, pelo confronto social direto, caso
fosse necessário, apresentava-se como importante saída, para
significativos setores do movimento socialista, sobretudo após a
importante derrota sofrida no Brasil, em 1964, e a hecatombe da
Indonésia, no ano seguinte.
Jovens brancos e negros
Nos Estados Unidos, a crescente mobilização da
juventude pobre branca, arrastada à força para a carnificina
imperialista, convergia, alimentava-se e alimentava a ruptura já
iniciada, nos anos anteriores, com a organização e radicalização da
luta pelos direitos civis, por importantes setores da comunidade
negra estadunidense, que desvelaram diante dos olhos do mundo a
hipocrisia da pretensa democracia social e política estadunidense,
sob a vigência plena do capitalismo. Também essas mobilizações e
suas formas de luta influenciavam fortemente a consciência das novas
gerações estudantis e operárias, sobretudo da Europa, América e
Ásia, nascidas após o grande conflito.
Na Europa Ocidental, os influxos da revolução na
Argélia, em Cuba e na Indochina e da crise de hegemonia
estadunidense refletiram-se, inicialmente, no estudantado da
Alemanha e da Itália, em 1967, e, a seguir, da França, em 1968. Por
suas características estruturais, os estudantes eram o setor que
melhor expressava as profundas tensões sociais nacionais e mais
facilmente podia independizar-se política e ideologicamente das
direções social-democratas, socialistas e stalinistas tradicionais.
Ainda que originário sobretudo dos segmentos sociais
médios, que ingressava em instituições de ensino superiores que
mantinham sua organização destinada aos segmentos sociais
dominantes, principalmente o estudantado alemão, italiano e francês
mantinha reais vínculos orgânicos com as classes trabalhadoras,
através dos jovens aprendizes e dos estudantes-operários. Esses
contatos davam-se também através das organizações políticas
populares, social-democratas, socialistas e stalinistas, as quais os
jovens integravam, em bom número, através dos organismos destinados
aos jovens e aos estudantes, dos quais se afastariam, no
desenvolvimento da crise daqueles anos.
Convergência operário-estudantil
Os vínculos ligando o mundo estudantil ao operário
foram de essencial importância nos sucessos de 1967-1968, já que a
profundidade dos sobressaltos sociais conhecidos nas nações mais
diretamente estremecidas por aqueles acontecimentos dependeu
sobretudo do acolhimento e da potenciação, das mobilizações da
juventude estudantil e popular, pelo movimento operário. Realidade
que podemos apreciar na solução paradigmaticamente divergente dessa
equação nos Estados Unidos e na França.
Nos USA, o núcleo central da classe operária, que em
geral jamais conheceu autonomia política mesmo relativa diante do
capital, manteve-se refratário, insensível e comumente hostil às
mobilizações pacifistas e anti-racistas, ensejando que a forte
fratura do consenso e hegemonia dominantes assumisse sobretudo
expressões políticas e ideológicas de rejeição à cultura, ao
comportamento e ao consumo capitalistas, e jamais à produção
e à organização capitalista propriamente ditas. Essa última ruptura
não se realizou sequer em forma programática.
A não-recepção do movimento pacifista e anti-racista
por parte dos núcleos centrais dos trabalhadores estadunidenses
ensejou que os fortes sobressaltos dos anos 1960-1970 fossem a
seguir apreendidos em geral como crise entre as gerações,
perdendo-se enorme parte de seu conteúdo evocativo e programático,
sobretudo após a soldadura das fissuras no consenso social pelas
classes dominantes, a partir do governo Ronald Reagan [1981-89]. O
que permitiu que se empreendesse, a seguir, verdadeira
criminalização e abominação daqueles movimentos, e a neutralização
ou eliminação física da vanguarda por eles produzida, processo já
iniciado anteriormente, com o assassinato de Malcolm X, em 1965, de
Martin Luther King, em 1968.
Étudiants, ouvriers,
même combat?
Na França, ao contrário, as lutas estudantis,
sobretudo parisienses, de inícios de maio, foram acolhidas pela
classe trabalhadora, por movimento de três semanas, de greve geral,
com mais de dez milhões de trabalhadores, e ocupação de fábricas
encimadas por bandeiras vermelhas, que estabeleceu, nos fatos,
dualidade de poderes no país. Dualidade que não se objetivou na
proposta de conquista do governo apenas pela incapacidade do
operariado de superar politicamente a direção do PCF, que
comandou a frustração-dissolução do movimento semi-insurrecional, ao
canalizá-lo para solução eleitoral de julho, que demarcou a clara
derrota e refluxo popular.
Se na França a aliança operário-estudantil levou o
país às portas de governo popular, de cunho ou orientação operária e
socialista, no Paquistão, a confluência das lutas do estudantado com
a população trabalhadora foi mais longe, ensejando, após quatro
meses de duros combates, a queda, em 1969, da ditadura militar de
Ayub Khan, que vinha sendo sustentada pelo imperialismo
estadunidense. Uma conquista frustrada a seguir devido ao refluxo do
movimento revolucionário mundial.
A Itália, ao contrário, constituiu caso singular, já
que as mobilizações iniciadas em 1967 ensejaram longa permanência de
confluência, política e orgânica, entre estudantes radicalizados e
segmentos da classe operária em ruptura com o colaboracionismo do
PCI, que manteve, porém, a hegemonia sobre o coração central da
classe trabalhadora. Aquele processo se esgotou dez anos mais tarde,
com o refluxo das lutas de massa, que facilitou a ação irresponsável
das organizações armadas, com destaque para as Brigadas Vermelhas,
que contribuíram para gravíssima derrota política da esquerda como
um todo. Fenômeno conhecido igualmente pela Alemanha Federal,
sobretudo com a Fração do Exército Vermelho.[4]
Crise objetiva-subjetiva
O estremecimento geral conhecido por países como a
França, Itália, Alemanha Federal, Estados Unidos, Paquistão, México,
Brasil, etc. demarcou o já referido esgotamento da expansão
capitalista de pós-guerra, no contexto da primeira grande crise de
hegemonia conhecida, por um lado, pelo imperialismo, no que se
refere ao mundo do capital, e, por outro, do stalinismo e da
social-democracia, no que diz respeito ao mundo do trabalho.
Processos que se materializaram segundo as realidades das diversas
nações envolvidas pelos sucessos.
Na esfera subjetiva, o avanço da revolução mundial
determinou profunda ruptura do stalinismo e da
social-democracia. O fim daquele monopólio foi demarcado pela
redescoberta de velhos e novos teóricos revolucionários, como Karl
Korsch, León Trotsky, Rosa Luxemburgo, Franz Fanon, Georg Lukacs,
Guevara, Isaac Deutscher, Wilhelm Reich, etc.; pelo renascimento do
debate marxista, com destaque para a economia e a teoria da
dependência – Charles Bettelheim, Ernest Mandel, Henri Lefevbre,
Herbert Marcuse, Paul Baran, Paul Sweezy, etc. –, e, igualmente,
pela emergência de organizações políticas revolucionárias de corte
sobretudo trotskista, maoísta, guevaristas, autonomistas, fortes
sobretudo nos segmentos da juventude estudantil e operária
radicalizadas. Todo esse movimento caracterizado pela profunda
rejeição ao parlamentarismo. Sobretudo na Itália, o novo ativismo
político foi conhecido como oposição extra-parlamentar.
O próprio fenômeno das organizações armadas européias
e latino-americanas encontra parte de sua explicação no impulso
revolucionário ensejado pela vitória cubana, pela guerra de
libertação vietnamita e pelas rupturas de 1967-1968 que, no
referente à Europa, galvanizaram e lançaram segmentos jovens
principalmente das classes médias, sobretudo após o refluxo da
mobilização de massas, em lutas protagonistas, vistas por seus
participantes como parte do combate anticapitalista e
antiimperialista mundial. Ações desvinculadas do movimento social,
utilizadas pelo imperialismo e governos conservadores contra a
esquerda e o mundo do trabalho.
O geral e o particular
O processo de galvanização subjetiva mundial vivido
em 1967-1968 deu-se no contexto de profunda interdeterminação do
geral e do particular, do mundial e do nacional. Um processo no qual
os meios de comunicação, com destaque para a mídia, fortemente
potenciada, sobretudo na Europa, nos anos anteriores, pela
popularização da televisão, ensejaram poderosos influxos positivos
para o movimento social em avanço, através de uma difusão intensiva
de mobilizações e de lutas. Ainda que esses sucessos fossem
anatematizadas pela mídia em nível da narrativa oral, sobretudo a
capacidade das imagens de reverberarem o sentido dos processos que
registravam, sobretudo junto a receptores vivendo, mais ou menos,
objetiva e subjetivamente, os mesmos influxos, apoiou, incentivou e
orientou jornadas congêneres em outras partes do mundo.
O ano de 1968 abriu-se com a vitória da ofensiva do
Ano Ted, seguindo-se em maio as jornadas francesas, e, muito logo, a
Marcha dos Cem Mil do Rio de Janeiro e as manifestações e lutas
vitoriosas no Paquistão. Como por primeira vez em 1917, diante
literalmente dos olhos da população mundial, a revolução
materializava-se como processo literalmente palpável. O mundo do
trabalho desbordava objetivamente as fronteiras políticas,
ideológicas e simbólicas que lhe haviam sido delimitadas pela
normalidade institucional, para se espraiar poderosamente,
transformando seu programa em alternativa social e existencial real
para as populações nacionais e mundiais.
Esse processo de transbordamento revolucionário
exercia uma fortíssima atração sobre os setores médios, com destaque
para intelectuais, artistas, políticos, jovens militantes ou não,
etc., afastados anteriormente da atração exercida pela revolução e
pelo mundo do trabalho pela ação hegemônica do stalinismo nos países
do Leste europeu e entre a grande classe operária organizada. A
crescente opção subjetiva e não raro orgânica de cientistas sociais
e acadêmicos pelo socialismo ensejou a ampliação horizontal e
vertical da crítica da sociedade e da produção capitalista, nos
campos da história, sociologia, economia, política, artes, etc.,
contribuindo poderosamente para o fortalecimento do mundo do
trabalho. Esse fenômeno foi fortíssimo na França pós-1968.
A revolução ao alcance da mão
O socialismo, o racionalismo, o ateísmo, o
solidarismo, tornavam-se valores fortemente prestigiados, enquanto o
capitalismo, o irracionalismo, o espiritualismo, o individualismo
desvalorizavam-se e desqualificavam-se diante dos olhos de milhões e
milhões de indivíduos, sob o influxo direto e indireto, consciente e
inconsciente, da revolução mundial em marcha. Transbordava através
do mundo a confiança em um futuro muito próximo em que o homem
seria, finalmente, não mais o lobo, mas o amigo do homem.
O ano de 1968 seria o de menor vocações sacerdotais
no século 20. Sem interesse e necessidade de olhar, por frustração e
desespero, para as coisas do céu e do além, o homem e a mulher,
transcendidos pelas possibilidades que viam abrir-se diante de si,
voltavam-se desbordando de confiança para o mundo material e
espiritual terreno do aqui e do agora. Galopando desenfreado
através do mundo, o indomável corcel da revolução inoculou seu
fulgor, em forma mais ou menos radical, em uma vasta geração de
militantes sociais, em geral muito jovens.
Por seu inesperado radicalismo e longevidade, esse
processo terminou determinando, mais tarde, a criação de neologismo,
“soixantuitards”,
na França, “sessantotini”, na Itália, para descrever,
positiva ou pejorativamente, conforme o lado da trincheira, a
geração de homens e mulheres, hoje com sessenta e setenta anos que,
apesar de dizimada pelas deserções dos anos 1980-90, segue ainda,
passados quarenta anos, irremediavelmente influenciada em seus
comportamentos e visões de mundo por aqueles anos e jornadas
magníficos em que a conquista do céu esteve ao alcance das mãos.
O que não avança, retrocede
Já foi dito que a revolução não se instala, da noite
para o dia, mesmo quando se trata do dia da revolução. A imposição
da derrota histórica do mundo do trabalho pelo capital, que vivemos
plenamente nos dias de hoje, não se deu igualmente de um dia, mês ou
ano para o outro, após o refluxo da grande onda revolucionária de
1968, já em fins daquele ano, com destaque para a França, Brasil e
México, neste último país com o terrível massacre de Tlatelolco, de
2 de outubro de 1968, com talvez quatrocentos mortos, ainda que a
luta se expandisse, no ano seguinte, no Japão, na Argentina, com o
Cordobazo, na China, com a Comuna de Xangai, e na
Itália, com o Outono quente. A partida continuou sendo
jogada, ainda por alguns anos com as classes trabalhadoras e
populares na ofensiva, antes que a maré revolucionária sofresse
dolorosa reversão.
As razões e cronologia gerais da derrota do empuxe
revolucionário, com forte aceleração em 1967-1968, exigem discussão
bem mais ampla e complexa. Apesar da derrota imperialista e vitória
popular no Vietnã do Sul [1974], Angola [1975], Moçambique [1975],
Iêmen, Etiópia, Nicarágua [1978], a vaga popular mundial sofreu
golpes significativos quando das derrotas da Revolução Chilena, em
1973, na América Latina, Portuguesa, em 1975, na Europa, e,
finalmente, Afegã, em 1988, na Ásia, devido ao peso qualitativo
desses movimentos. O fortalecimento da contra-revolução entre a
classe operária polonesa, através do Solidariedade,
desempenhou importante papel nesse processo.
Em verdade, a vaga revolucionária mundial já
esmorecera, em fins da década de 1970, retrocedendo nos anos
oitenta, para ser definitivamente batida nos anos 1990. Nesse
processo, desempenharam importante papel os governos Ronald Reagan
[1981-89], nos Estados Unidos, Margaret Thatcher [1979-1990], na
Inglaterra, e o longo poder do papa
Woytilla [1978-2005], exercido um pouco através de todo o mundo.
Contra-revolução vitoriosa
A derrota do grande impulso revolucionário, que
conhecera forte aceleração em 1967-8, e o seu esmagamento geral,
vinte anos mais tarde, em 1989, através da recuperação hoje nos seus
momentos finais pela produção capitalista da URSS e das nações de
economia nacionalizada e planejada da Europa, Ásia e América,
deveram-se, em última instância, à imobilidade política e social das
classes trabalhadoras estadunidenses e soviéticas, incapazes de
superarem, mesmo em forma limitada, a dominação capitalista e
burocrática sob a qual se encontravam, garantindo amplo espaço de
recuperação-metamorfose para os segmentos dominantes daqueles
países.
As complexas razões de tal fenômenos ainda não foram
elucidados a contento, em boa parte devido ao próprio recuo objetivo
e subjetivo, vivido desde os anos 1980, pelo mundo do trabalho e
seus cada vez mais rarefeitos quadros intelectuais orgânicos,
processo que se concluiu com a contra-revolução neoliberal de fins
daquele decênio, que ainda pesa dolorosamente sobre todos nós, como
assinalado.
A derrota da maré revolucionária, com forte eclosão
em 1967-8, enseja, não a obsolescência de seu programa, como
proposto habitualmente por apologistas da opressão, apoiados
sobretudo na prova da vitória capitalista. Ao contrário,
determina a urgência da retomada-concretização geral da proposta
levantada há quarenta anos de reorganização social do mundo, para a
superação contradições postas pela desordem capitalista.
Contradições que, hoje, devido seu caráter geral e profundidade,
comprovam dolorosamente a lembrança de Rosa Luxemburgo, há quase um
século, de que à humanidade apresentam-se como alternativa apenas o
socialismo ou a barbárie.
Cf., ver outros, sobre a Itália: CAPANNA,
Mario.
Formidabili quegli anni.
Milano: BUR, 1998; MASSARI, Roberto. Il
’68: come e perché. Bolsena: Massari, 1998; BASCETTA, M.
et. Al. Enciclopedia del '68. Milano:
Manifestolibri, 2008; ALESSANDRO, Bertante. Contro il '68:
la generazione infinita. Milano: Agenzia X, 2008; sobre o
México,
GUEVARA NIEBLA, Gilberto. Libertad bajo protesta,
historia de un proceso, México: Federación Editorial
Mexicana, 1973; GUEVARA NIEBLA, Gilberto. La
democracia en la calle: Crónica del movimiento
estudiantil mexicano, México: Siglo XXI, 1988;
REVUELTAS, José. México 68: juventud y
revolución, México: Era, 1978; ZERMEÑO, Sergio, México:
una democracia utópica. El movimiento estudiantil
del 68. México: Siglo XXI, 1978; SCHERER, Julio y MONSIVÁIS,
Carlos Parte de guerra: Tlatelolco 1968: documentos
del general Marcelino Garcia Barragan: los hechos y la
historia. México: Aguilar, 1999; sobre a França,
BENSAID (Daniel) et
WEBER (Henri),
Mai 68:
une répétition générale.
Paris: Maspéro, 1968; COHN-BENDIT, Daniel; GEISMAR, Alain;
SAUVAGEOT, Jacques.
La révolte étudiante, les animateurs parlent,
Paris: Éditions du Seuil, 1968; DREYFUS-ARMAND, Geneviève &
GERVEREAU, Laurent.
(Org.)
Mai 1968:
les mouvements étudiants en
France et dans le monde.
Paris: Bibliothèque de
documentation internationale contemporaine, 1988;
DREYFUS-ARMAND, Geneviève; FRANK, Robert; LÉVY,
Marie-Françoise; ZANCARINI-FOURNEL, Michelle.
Les Années
68:
Le temps de la contestation.
Paris: Institut d’histoire du temps présent; Bruxelles,
Complexe, 2000; GLUCKSMAN, André.
Stratégies et révolution en
France en 1968.
Paris: Bourgois, 1968; TOURAINE, Alain.
Le
mouvement de Mai 1968 ou le communisme utopique. Paris:
Seuil, 1968; sobre a Alemanha: KLIMKE, Martin / SCHARLOTH,
Joachim (Hrsg.) Handbuch 1968: zur Kultur- und
Mediengeschichte der Studentenbewegung. Stuttgart: Verlag
J.B. Metzler, 2007; KOENEN, Gerd. Das Rote Jahrzehnt:
Unsere kleine deutsche Kulturrevolution 1967-77. Köln:
Kiepenheuer und Witsch Verlag, 2001; NORBERT, Frei. 1968:
Jugendrevolte und Protest.
München: dtv, 2008; UWE, Wesel. Die
verspielte Revolution 1968 und die Folgen.
München: Karl Blessing Verlag, 2002.
PRINZ,
Alois. Disoccupate le strade dai sogni: La vita di
Ulrike Meinhof. Trad. M. Marotta. Roma: Arcana, 2007; BOCCA,
Giorgio. Noi Terroristi: 12 anni di lotta armata
ricostruiti e discussi con i protagonisti. Milano:
Garzanti, 1985; Progetto Memoria. La mappa perduta.
Roma: Sensibili alle foglie, 1994.
|
|
versão para imprimir (arquivo em pdf)
|