Trânsito: que pensar? Que fazer?
por Raymundo de Lima
Morrem
35 mil pessoas por ano no trânsito brasileiro. Maringá, cidade
planejada e de meio porte no interior do Paraná, vem batendo o
seu próprio recorde de acidentes no trânsito: só em / 2008 mais
7 pessoas perderam a vida, é uma morte a cada 5 dias. E quantos
perdem uma parte do corpo? Quantos ficam traumatizados? São 1968
ocorrências registradas no centro da cidade. Sábado é o dia mais
trágico de ocorrências no trânsito para os maringaenses. O
envolvimento com motociclistas é 56,5%.
Em qualquer cidade brasileira as causas dos
acidentes no trânsito podem ser o álcool, drogas, buracos,
animais na pista, sinalização inadequada, desrespeito a
sinalização, sensação de impunidade, velocidade irresponsável,
falta de atenção, motoqueiros “costurando” etc.
Tais infrações acima apontam para a “mãe” das
causas: a falta de educação, a falta de responsabilidade para
dirigir, falta de respeito às leis do trânsito e a sensação de
impunidade do motorista. Também há causas de fundo: o
irracionalismo dos políticos que viram as costas para as
pesquisas sobre as causas dos acidentes de trânsito, a
morosidade do poder público para impor regras mais duras,
fiscalização ostensiva e medidas para disciplinar os motoristas.
Por que não proíbem os motoqueiros trafegarem perigosamente
entre os carros, colocando em risco a vida deles e dos demais?
Por outro lado, os pais falham na educação dos
filhos, sobretudo quando conduzem bebês no colo e crianças no
banco da frente, ou quando presenteiam adolescentes com motos.
Adolescentes são os que mais exageram na bebida. Ainda que o
veículo seja conduzido por um maior habilitado, um grupo de
adolescentes alcoolizado aumenta dez vezes a chance de cometer
um acidente. As pesquisas alertam que os jovens entre 18 e 25
anos são os que mais matam e se matam no trânsito brasileiro.
As auto-escolas falham nos seu propósito de
ensino-treino, ou seja, além de ensinar a dirigir, também
deveria proporcionar ao futuro motorista uma verdadeira educação
da cidadania. Não acredito que um pit bull no trânsito
pode ser pequenez em casa. A formação da nova geração de
motoristas precisa ser revista e aprimorada.
A barbárie de nosso trânsito implica mais
responsáveis: a psicologia e seus testes. Há décadas são
questionados a metodologia dos testes psicológicos usados para
essa finalidade. Faltam pesquisas e um debate sobre a
cientificidade dessa psicologia ou psiquiatria responsável pela
habilitação ou impedimento dos motoristas.
Os fatores culturais deveriam também ser
levantados dentre as causas dessa barbárie. O carro é um
objeto-fetiche, dá poder, prazer de vida e vazão à pulsão de
morte. Sábado indica maior probabilidade de acidentes no
trânsito, porque Maringá recebe um maior número de visitantes de
cidades menores cujos motoristas foram condicionados a dirigir
despreocupados na sua tranqüila e pequena cidade de origem.
Sábados, geralmente os motoristas se sentem mais relaxados, daí
sua desatenção.
Maringá, Londrina e outras cidades do Paraná
adotaram um sinaleiro que indica aos motoristas o tempo de
espera e o tempo de fluxo. Mas, o problema é que esse sinaleiro
fez surgir motoristas viciados em avançar o último sinal
vermelho ou aproveitando o último verde. Câmeras instaladas em
algumas esquinas mais movimentadas foram espalhadas pela cidade
visando coibir as transgressões dos motoristas. Se facilitar
pedestres e carros são atropelados por motoristas potencialmente
criminosos. Talvez os guardas de trânsito fossem mais eficientes
do que as câmeras, que não tem autoridade.
Também não vemos guardas nos finais de semana
coibindo crianças de viajar no banco da frente. Há motoristas
que colocam seu filho pequeno no colo, ao volante, nos finais de
semana. Que hábitos ou vícios tais pais estão desenvolvendo nos
filhos?
Os donos de carros espaçosos demonstram tanto
ostentação como incivilidade nas cidades do interior.
Pode ser propriedade privada, mas o uso do veículo tem que
respeitar as regras públicas do trânsito. Para estes, as regras
do trânsito cuja finalidade é ordenar o espaço público serve
apenas para os outros. No dia-a-dia é visível a falta de
educação e desrespeito desses motoristas para com pedestres e
outros motoristas de carros menores. Na frente das escolas há
mães que param em local proibido, falam ao celular com ar de
importantes, e acham que estão certas, caso alguém reclame. E há
aquelas que deixam os filhos jogarem lixo pela janela, enfim, há
tantos pontos-cegos nos nossos motoristas.
Parafraseando o
sociólogo Wight Mills, se o problema de nosso trânsito fosse de
apenas 1% da população, pode-se dizer que se trata de um
problema pessoal. Mas quando existe um alto índice de acidentes
no trânsito, sem dúvida, é um problema social e educacional. A
primeira medida urgente é melhorar a educação dos motoristas,
sobretudo, da nova geração.