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IVONALDO LEITE
Doutor em Ciências da Educação, na
Área de Especialização Sociologia e Economia da Educação, pela
Universidade do Porto/Portugal; Docente no Departamento de
Educação da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (DE/UERN).
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A nova divisão internacional do trabalho e os desafios
latino-americanos
por Ivonaldo Leite
Desde há tempos, sabemos que a relação entre as
forças do mercado, alusivas a comércio, movimento de capitais e
mão-de-obra, não ocorre neutramente, num terreno vazio, fazendo com
que o curso da evolução sócio-histórica dos países seja homogênea.
Como bem realçou Marx, foi o aparecimento da grande indústria que
permitiu a divisão do trabalho, atribuindo à cada parte do mundo
funções econômicas distintas.
Fundamentalmente, a correlação de forças entre as
diferentes nações engendra uma geografia internacional de
produção/absorção de riquezas e de criação/destruição de postos de
trabalho, que, ao fim e ao cabo, abrem portas a múltiplas formas de
dominação de um país/região por outro/a, através das dimensões
econômica, militar, política e cultural. Sem muito palavrório: A
divisão internacional do trabalho é resultado da lógica de
funcionamento do modo capitalista de produzir (Wallerstein, 1979).
Ela não decorre de um ordenamento natural e nem tampouco, de per
si, garante os supostos “benefícios igualitários” imaginados
pelas construções teóricas desenvolvidas em torno das vantagens
comparativas.
Quando se diz que a atual divisão internacional do
trabalho, a terceira, difere das duas anteriores, deve-se ter
presente, por exemplo, que estas buscaram, de determinada maneira,
suporte na produção. Bem diferentes são as coisas hoje. É fato que a
primeira divisão foi impulsionada pelas duas revoluções industriais
dos séculos XVIII e XIX, sendo a segunda configurada no pós-Segunda
Guerra, no quadro da então Guerra Fria, donde surgiu um “conjunto de
nações intermediárias”, a exemplo dos ditos “tigres asiáticos”, bem
como, na América Latina, dos países que, apesar da dependência,
alcançaram algum grau de desenvolvimento, tornando-se mesmo
exportadores de produtos manufaturados.
Por sua vez, a terceira divisão internacional do
trabalho deita as suas raízes entre o fim da década de 1960/início
da de 1970. Data desta altura o esgotamento das bases institucionais
do desenvolvimento capitalista constituídas no pós-Segunda Guerra.
Com o estiolamento do pacto firmado pelo acordo de Bretton Woods,
evaporaram-se os mecanismos de controle financeiro que forçavam a
maior valorização produtiva do capital e o comprometimento com o
pleno emprego, por via das políticas keynesianas. Daí emerge uma
intensa movimentação do capital financeiro, que, alimentado pelas
taxas de juros, trava a expansão produtiva. A financeirização
fictícia do capitalismo dos oligopólios expressa a sua face, por
exemplo, na irracionalidade
que é a contenda das ações, em busca do lucro, sem a mediação da
produção.
De resto, três variáveis têm marcado o curso da
terceira divisão internacional do trabalho: a revolução
técnico-científica, o processo de globalização e a regionalização
(Dos Santos, 1995). A primeira condiciona a evolução das forças
produtivas no sentido de um gasto crescente em pesquisa e
desenvolvimento, planejamento, design e na formação de
mão-de-obra de alta qualificação, ao mesmo tempo que, em decorrência
da automação, dispensa o trabalho produtivo, ampliando o excedente
de desempregados. O processo de globalização conecta todo o
planeta, com livres vias para a circulação do capital especulativo.
A regionalização - à primeira vista um paradoxo num tempo
de globalização, se não se considerar a concorrência
inter-monoplista – leva a formação de blocos de países e tende a
gerar poderes supra-estatais.
É perante essa conjuntura que a América Latina se
encontra hoje posta. Após anos tentando escapar do conceito de
dependência como ponto de referência para explicar a realidade
latino-americana, a análise social da região volta a se deparar com
as questões primeiras colocadas pelo mesmo. É que, por mais que se
queira encerrar em esquemas as possibilidades estruturais da
história, esta nos torna, a cada momento, dupes de nous-mêmes,
e nos surpreende com desdobramentos imprevistos.
A América Latina situa-se no contexto global de
maneira dependente. Está longe de ser uma protagonista central no
desenvolvimento da revolução científico-técnica. Na verdade, ela
recebe as influências desta sob a forma de importação de tecnologias
e conhecimentos.
Um capítulo à parte no continente latino-americano é
a América do Sul. Tendo ascendido a governos de países seus líderes
definidos como de esquerda, não têm sido poucos os que identificam
uma virada popular na mesma, a romper com as estruturas que
historicamente lhe caracterizam. De outra parte, há os que não vêem
nada mais do que, nalguns casos, discursos populistas. Seja como
for, as ações de Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador),
Cristina Kirschner (Argentina), Michellet Bachelet (Chile), Tabaré
Vázquez (Uruguai), Lula (Brasil) e Hugo Chávez (Venezuela) têm
figurado na agenda do debate político atual. Do grupo, sobressaem-se
Chávez e Morales como os que, à esquerda, têm sido mais ativos na
iniciativa política. Contudo, sem arroubos, é recomendável cautela
nas apreciações, até porque, independente da retórica pessoal dos
governantes, o que está em causa é a necessidade de enfrentar
desafios concretos, como condição para que a América do Sul (e a
Central) supere os seus problemas socais e a sua condição de
dependência,
no cenário, agora, de uma nova divisão internacional do trabalho – o
que passa pela questão da integração. Dos desafios a enfrentar,
refiro apenas três.
O primeiro diz respeito à hegemonia
norte-americana na região. Data do fim da Segunda Guerra a formação
na América Latina de um amplo aparelho estadunidense. Ele arrancou
com o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR),
assinado no Rio de Janeiro em 1947, estabelecendo a “unidade”
interamericana contra o “inimigo externo”, donde resultou a
Organização dos Estados Americanos (OEA). Mais tarde, a criação do
Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) veio a potencializar
ainda mais o referido aparelho. A partir daí, ações como a chamada
Aliança para o Progresso consubstanciaram a ingerência
norte-americana, abrindo caminho para a intervenção política direta,
que foi materializada através do patrocínio/apoio às ditaduras
militares instauradas na região. A este respeito, foi paradigmática
a intervenção norte-americana em Santo Domingo, em 1965, com o
respaldo da OEA.
Em boa verdade, o expansionismo norte-americano no
continente decorre de uma concepção que considera a América
Espanhola/Portuguesa como um território interno dos Estados Unidos,
na medida em que, por exemplo, a ligação entre o Atlântico e o
Pacífico se faz por via da América Central e do Caribe. O lema “a
América para os americanos”, da doutrina Monroe, ao fim e ao cabo,
deu expressão histórica ao sentimento imperial do país na região.
Mais recentemente, a tentativa de criar a Área de Livre Comércio das
Américas (ALCA) inscreve-se nessa lógica de domínio imperial,
disfarçado, no entanto, sob as tintas de pretensos acordos
diplomáticos.
O segundo desafio diz respeito à decisão
político-institucional de fazer a integração. Fundamentalmente, é
preciso ter em linha de conta que a integração latino-americana não
depende só de ações diplomáticas conjuntas dos Estados em relação ao
exterior, mas demanda sobretudo a capacidade de gerar instâncias
autônomas, instituições e procedimentos capazes de a formatar.
A polêmica em volta dos interesses brasileiros na
Bolívia, com a decisão do Presidente Evo Morales de nacionalizar a
produção de gás e petróleo, é um exemplo das dificuldades
político-institucionais da integração. Também são exemplos neste
sentido as declarações de paraguaios segundo as quais o Brasil é um
país imperialista, bem como os desentendimentos entre argentinos e
uruguaios.
O terceiro desafio refere-se ao caráter da
integração. Antes de mais nada, é preciso, definitivamente, por a
baixo a tese de que a América Latina tende ao subdesenvolvimento por
causa da falta de capitais. Na realidade, eles são grandes
exportadores dos seus excedentes em forma de preços relativos
desfavoráveis, lucros das empresas transnacionais, pagamentos de
serviços de uma dívida externa ardilosamente montada e remessas de
rendas do establishment local para os países capitalistas
centrais.
Perante tal quadro, não resta à integração
latino-americana senão uma perspectiva contra-hegemônica,
com um projeto político estruturado em etapas que contemplem o
curto, o médio e o longo prazo. Firmando as suas bases na consciente
vontade popular, na ação autônoma dos Estados regionais e na busca
de um universal dialético que abstrai os elementos
mais simples dos particulares concretos, esse projeto há de seguir a
senda de um outro mundo possível, que, ao socializar o
bem-estar, ponha termo à extrema contradição entre a dimensão social
da produção e a sua apropriação privada.
Como se constata, principalmente tendo em conta a
nova divisão internacional do trabalho, os desafios para que a
América Latina supere a dependência e realize a sua integração são
bastante concretos. Deitar-se-ão por terra, portanto, as
proclamações de lideranças que não passem de mera retórica, assim
como elas próprias, se tergiversarem no personalismo, não resistirão
ao crivo da história. Afinal, além de esta ser, conforme a
sabedoria latina realça, mestra da vida, senhora dos tempos e luz da
verdade, é nela, como esfera da práxis, que se comprova ou
não a procedência do que é dito como discurso.
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