LEANDRO KONDER

Filósofo marxista brasileiro. Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor da Universidade Federal Fluminense e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

 

 

 

 

 

Nota do editor:

Os textos desta série foram publicados pelo autor no jornal carioca Tribuna da Imprensa, ao longo do ano de 1990. No final de cada artigo é indicada a data de publicação. Os artigos foram reunidos e publicados em "Intelectuais brasileiros & marxismo" (Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1991). O autor, a quem agradecemos, autorizou a publicação na REA. Também registramos o agradecimento ao Prof. Paulo Cunha.

 

 

Intelectuais Brasileiros & Marxismo

Sérgio Paulo Rouanet (N. em 1934)

por Leandro Konder*

 

Sérgio Paulo Rouanet (N. em 1934)Dia 26 de setembro de 1990. Walter Benjamin morreu há exatamente cinqüenta anos. O Instituto Goethe está patrocinando um simpósio sobre o escritor alemão. Sérgio Paulo Rouanet e eu, convidados, aproveitamos um momento de folga para passear pelo centro da cidade de São Paulo, olhando os livros velhos nos “sebos”.

De repente, aparece diante de nós uma mulher de aspecto humilde, desdentada, que se dirige a mim e diz, sorrindo:

− O senhor, com esses cabelos brancos, devia ser governador de São Paulo. Ia ser muito bom pra nós.

Depois, ela se volta para o meu amigo e fala:

− O senhor poderia ser o Papa.

Em seguida, sempre sorrindo, desaparece.

Passado um primeiro momento de perplexidade, Rouanet comenta:

− A intuição popular tem sua sabedoria. Se você fosse governador de São Paulo, provavelmente faria um governo melhor do que aqueles que o estado tem tido. E se eu fosse Papa faria um pontificado politicamente mais progressista do que o de João Paulo II.

Logo, porém, a moça desdentada reaparece e nos explica:

− Fugi hoje de manhã da clínica onde estava internada. Me deram choques na cabeça. E as freiras me davam pouca comida, me tratavam mal. Sou doida, sim, mas não quero ficar lá. E não tenho dinheiro para comer.

Dou-lhe uma nota que pode assegurar um modesto almoço. E ela, antes de sumir novamente, se despede, agradecendo:

− Pode estar certo de que eu não vou comprar cachaça, não.

Prosseguimos nossa caminhada. Rouanet admite, bem humorado e um pouco melancólico:

− Minha teoria da intuição popular e sua sabedoria ficou um tanto prejudicada...

*          *          *

A historinha serve para ilustrar duas das características essenciais do modo de sentir e de pensar – e mesmo do modo de ser – de Sérgio Paulo Rouanet, diplomata de carreira (atual embaixador do Brasil na Dinamarca) e, ao mesmo tempo, ensaísta e crítico literário de primeiríssima categoria. Rouanet é um sujeito sempre disposto a reconsiderar sua maneira de ver as coisas, quando as coisas se esquivam às suas interpretações. E, talvez para não se apegar demasiado às teorias que elabora, cultiva um tom brincalhão, um ligeiro distanciamento irônico, em relação a seus próprios juízos peremptórios.

Disposição para rever suas posições no diálogo e postura divertida em face de seu próprio discurso, no entanto, não significam, no nosso ensaísta, fraqueza de convicção. Rouanet é, há muitos anos, um incansável lutador: na “batalha das idéias”, ele sustenta, num combate incessante ao irracionalismo, os valores da razão.

Rouanet tem a coragem intelectual de se escandalizar com a exacerbação de um movimento que, estimulado pela “indústria cultural” e pela radicalização da dinâmica do mercado capitalista, substitui a idéia de uma unidade do gênero humano por uma fragmentação infinita, numa multiplicidade incontrolável de experiências culturais particulares que não admitem nenhuma síntese, já que estão previamente legitimadas por um relativismo cínico.

Em nome do combate à “tentação totalitária”, e muitas vezes invocando motivações tidas como “nacionalistas”, correntes reacionárias estão hoje dinamitando todos os esforços conseqüentes no sentido de pensar a “universalidade” da experiência humana. Rouanet, em entrevista concedida recentemente a Luciano Trigo, denuncia a atitude desses dinamitadores: “É uma atitude reacionaríssima. É como o governo sul-africano dizer que os negros devem viver confinados em guetos porque têm sua própria cultura. É a posição do Len Pen, na França, que acha que os franceses têm o direito de defender sua identidade cultural diante dos imigrantes” (O Globo, 5-10-1990).

A defesa da razão contra as diversas modalidades de irracionalismo faz parte, para Rouanet, da preservação do espaço onde os seres humanos podem superar a estreiteza de seus particularismos, de suas idiossincrasias, podem se encontrar, se enriquecer mutuamente, uns incorporando as experiências dos outros, no plano da universalidade.

Rouanet está inteiramente convencido da interdependência da razão e da democracia. Por isso, ele se empenha em encaminhar a reflexão na única direção em que ela pode contribuir, com perfeita coerência, para a auto-renovação do pensamento racional: a da busca da universalidade, através da autocrítica da razão e da sua permanente abertura para o que é novo e para o que é diferente.

O que a razão pode nos proporcionar – diz o nosso ensaísta no livro A razão cativa (editora Brasiliense, 1985) – é sempre um “modesto saber, sempre provisório, sempre sujeito a revisão, incapaz de oferecer respostas definitivas, mas a única via possível para a verdade”. Nossa consciência, assim, está condenada a oscilar “entre a lucidez, nunca permanente, e a opacidade, sempre superável”.

A essa concepção de razão corresponde “um novo conceito de objetividade”, que Rouanet encontra em Antonio Gramsci, na firme recusa do pensador marxista italiano a uma “objetividade extra-histórica e extra-humana”. A razão e a objetividade não se podem pretender imunes às distorções ideológicas. E Rouanet, comentando a “filosofia da práxis” de Gramsci, observa que existe “uma diferença fundamental entre a filosofia da práxis e as demais ideologias: ela é a única que se sabe mortal, a única que se pensa em sua transitoriedade de verdade provisória, correspondendo a um momento histórico preciso”. Essas palavras se encontram numa análise comparativa das posições de Althusser e de Gramsci, num livro intitulado Imaginário e dominação (ed. Tempo Brasileiro, 1978).

O conceito de razão com que Rouanet trabalha, então, não se prende às limitações e às ingenuidades dos pensadores da “Ilustração” francesa, ao otimismo cândido do “Século das Luzes”. Ele trata de escapar, também, aos aspectos pré-freudianos da visão que os marxistas costumam ter das relações entre as distorções ideológicas e o conhecimento histórico. Para o nosso ensaísta, em seu esforço para superar o “psicologismo” individualista, os marxistas acabaram deixando de lado a investigação dos problemas ligados ao espaço interno da problemática da consciência, que é o espaço do desejo. Freud trouxe uma contribuição imprescindível à investigação dos problemas humanos que se manifestam nessa área, que os marxistas não souberam explorar.

Freud se torna, com isso, para Rouanet, um autor decisivo. Ele submete os textos do criador da psicanálise a uma leitura generosa, que procura apaixonadamente aproveitar idéias capazes de fortalecer a razão e a luta pela democratização da sociedade. Em alguns momentos, é possível até que essa leitura de Freud por Rouanet seja excessivamente generosa; é possível que ele tenha minimizado ou atenuado elementos complexos e perturbadores da concepção do homem – bastante pessimista – adotada por Freud.

Na ocasião em que A razão cativa apareceu, o psicanalista Jurandir Freire Costa advertiu para o fato de que Rouanet desconhecia a alienação “originária e estrutural” do ego, tal como Freud o via; e indagou, polemicamente, se “Rouanet, tentando conciliar Freud e Habermas, não obriga, às vezes, os conceitos psicanalíticos a dizerem o que a política e a filosofia gostariam de escutar?”

Podemos, por conseguinte, suspeitar de um determinado uso da psicanálise a serviço de um saber mais abrangente. Que saber seria esse? Que conhecimento englobaria tanto a psicanálise como a história e a política, ou a filosofia?

Seria um saber de tipo antropológico? Mal a hipótese nos ocorre, somos levados a afastá-la, com prudência, porque verificamos que Rouanet vê com acentuada desconfiança a perspectiva que vem sendo adotada pelos antropólogos. Numa entrevista concedida há tempos ao Jornal do Brasil, o nosso ensaísta declarou: “Toda a antropologia contemporânea, ou quase toda ela, é dominada pela idéia do relativismo cultural, a idéia de que não existem padrões universais de julgamento e de avaliação, de que os padrões são puramente condicionados” (24-9-1988).

O saber mais abrangente, capaz de propiciar os melhores fundamentos para um conceito amplo de razão, é mesmo a filosofia. E na filosofia o pensador que merece, atualmente, a maior atenção de Rouanet é o alemão Jürgen Habermas. Em 1980, aliás, Rouanet já tinha preparado a edição de uma coletânea de ensaios de Habermas em português e tinha escrito (em colaboração com sua mulher, Bárbara Freitag) a introdução ao volume Habermas (ed. Ática). Nos últimos dez anos, a importância de Habermas como interlocutor vem crescendo, para o ensaísta brasileiro: paralelamente a Walter Benjamin (de quem ele é tradutor e sobre quem escreveu o magnífico Édipo e o anjo, que a editora Tempo Brasileiro lançou em 1981), Habermas é seguramente o autor que Rouanet freqüenta com maior proveito.

No ensaio final do volume As razões do Iluminismo (ed. Companhia das Letras, 1987), Rouanet sublinha a significação do conceito de razão comunicativa, proposto por Habermas. O filósofo alemão distingue entre uma razão instrumental, sistêmica, ligada ao trabalho, à dominação técnica da realidade objetiva pelo sujeito, e uma razão processual, inter-subjetiva, que se liga à necessidade do diálogo, à busca de um consenso na comunicação entre os sujeitos. Atualmente, vivemos um período histórico no qual a razão sistêmica, instrumental, vem se expandindo cada vez mais e apresenta características “imperialistas”, impondo uma drástica redução ao espaço da razão comunicativa. No entanto, segundo Habermas, os seres humanos continuam a necessitar do entendimento mútuo e a manter uns com os outros uma certa relação dialógica.

Num livro publicado anteriormente (Teoria crítica e psicanálise, editora Tempo Brasileiro, 1983), Rouanet já deixara claro que endossava a revisão de Marx encaminhada por Habermas (apoiado em Freud); enquanto Marx enxergava o ser humano como animal laborans, isto é, como um ser que surge e cresce no trabalho, permanecendo portanto preso à razão instrumental, Freud (relido por Habermas) via o homem como um ser que precisava ser compelido ao trabalho, através de um sacrifício pulsional. Nas palavras de Rouanet: “O homem se organiza em sociedade para sobreviver no confronto com uma natureza hostil, mas essa sobrevivência exige ao mesmo tempo que as pulsões excedentes, libidinais e agressivas, sejam controladas, sem o que não seriam liberadas as energias para o trabalho.” A concepção do homem por Freud tem, assim, uma vantagem sobre a perspectiva de Marx: ela permite que nós reconheçamos uma dimensão da realidade humana que não cabe na ótica da razão instrumental, quer dizer, ela nos possibilita reconhecermos que os homens, naquilo em que o trabalho os frustrava, se viram obrigados a buscar compensações, se viram “condenados à repressão e à fantasia”. Com isso, constituíram as bases da razão comunicativa.

Desde Kant, a razão tem um conteúdo programático inequivocamente crítico: libertar o homem de todas as formas de tutela, internas ou externas. Ser racional significa ser autônomo, conhecer e agir livremente. Em Hegel e em Marx, o sujeito racional se empenhou em assumir seu enraizamento histórico. Marx levou esse empenho longe, tratou de aprofundar os andaimes da razão, apoiando-a na ação do proletariado. Esse enfoque, no entanto, se revelou problemático; com a crise do marxismo, a razão se enrijeceu na instrumentalidade, ficou congelada em esquemas estéreis e acabou perdendo o lugar que havia encontrado. Com a teoria de Habermas – de acordo com Rouanet – a razão volta a ter um lugar próprio: “ela se enraíza nas estruturas da intersubjetividade mediatizada pela linguagem”, já que os homens, de algum modo, não podem viver sem se comunicar uns com os outros.

Diante dessa recuperação da razão, Rouanet se entusiasma. Vibra com o reaparecimento dos “velhos ideais do Iluminismo”, com a revalorização enérgica do conhecimento. “Ousa conhecer!” (“Sapere aude!”), recomendava Kant. Graças ao estímulo que nos traz a teoria da ação comunicativa, podemos enfrentar com firmeza e com serenidade a banalização desmobilizadora da vida cultural, promovida pelo “pós-moderno”. A razão, rejuvenescida, revigorada em seu espírito crítico e autocrítico, encarnada na antiga coruja da deusa Minerva, se sente suficientemente forte para defender a nobre causa da universalidade, mesmo no meio “desta apoteose do particularismo tropicalista que é o carnaval” (Jornal do Brasil, 24-9-1988).

Percebo na vitalidade das convicções racionalistas de Rouanet muita coisa que me encanta. A vocação democrática, o apreço pelo conhecimento, a recusa das facilidades do pragmatismo, a inspiração nitidamente humanista, a combinação do otimismo iluminista com a corajosa abertura do pensamento para o novo. E também a importância atribuída à linguagem – à comunicação intersubjetiva – na construção da razão.

Só tenho um receio:o de que, de repente, nos reapareça a louquinha que cruzou o nosso caminho em São Paulo. Imagino o que diríamos se ela surgisse outra vez, diante de nós, fantasiada de chacrete, e nos advertisse, com seu simpático sorriso desdentado: “Quem não se comunica se trumbica!”.

15-10-1990 [1]

 

* Filósofo marxista brasileiro. Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor da Universidade Federal Fluminense e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

[1] Cinco meses após a publicação deste ensaio, Rouanet foi nomeado Secretário de Cultura do governo federal.

** In: KONDER, Leandro. Intelectuais Brasileiros e Marxismo. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1991, p.87-93.

   

 

 

 

 

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