Dia
26 de setembro de 1990. Walter Benjamin morreu há exatamente cinqüenta anos. O
Instituto Goethe está patrocinando um simpósio sobre o escritor alemão. Sérgio
Paulo Rouanet e eu, convidados, aproveitamos um momento de folga para passear
pelo centro da cidade de São Paulo, olhando os livros velhos nos “sebos”.
De repente, aparece diante de nós uma mulher de aspecto humilde,
desdentada, que se dirige a mim e diz, sorrindo:
− O senhor, com esses cabelos brancos, devia ser governador de
São Paulo. Ia ser muito bom pra nós.
Depois, ela se volta para o meu amigo e fala:
− O senhor poderia ser o Papa.
Em seguida, sempre sorrindo, desaparece.
Passado um primeiro momento de perplexidade, Rouanet comenta:
− A intuição popular tem sua sabedoria. Se você fosse governador
de São Paulo, provavelmente faria um governo melhor do que aqueles que o estado
tem tido. E se eu fosse Papa faria um pontificado politicamente mais
progressista do que o de João Paulo II.
Logo, porém, a moça desdentada reaparece e nos explica:
− Fugi hoje de manhã da clínica onde estava internada. Me deram
choques na cabeça. E as freiras me davam pouca comida, me tratavam mal. Sou
doida, sim, mas não quero ficar lá. E não tenho dinheiro para comer.
Dou-lhe uma nota que pode assegurar um modesto almoço. E ela,
antes de sumir novamente, se despede, agradecendo:
− Pode estar certo de que eu não vou comprar cachaça, não.
Prosseguimos nossa caminhada. Rouanet admite, bem humorado e um
pouco melancólico:
− Minha teoria da intuição popular e sua sabedoria ficou um tanto
prejudicada...
* * *
A historinha serve para ilustrar duas das características
essenciais do modo de sentir e de pensar – e mesmo do modo de ser – de Sérgio
Paulo Rouanet, diplomata de carreira (atual embaixador do Brasil na Dinamarca)
e, ao mesmo tempo, ensaísta e crítico literário de primeiríssima categoria.
Rouanet é um sujeito sempre disposto a reconsiderar sua maneira de ver as
coisas, quando as coisas se esquivam às suas interpretações. E, talvez para não
se apegar demasiado às teorias que elabora, cultiva um tom brincalhão, um
ligeiro distanciamento irônico, em relação a seus próprios juízos peremptórios.
Disposição para rever suas posições no diálogo e postura
divertida em face de seu próprio discurso, no entanto, não significam, no nosso
ensaísta, fraqueza de convicção. Rouanet é, há muitos anos, um incansável
lutador: na “batalha das idéias”, ele sustenta, num combate incessante ao
irracionalismo, os valores da razão.
Rouanet tem a coragem intelectual de se escandalizar com a
exacerbação de um movimento que, estimulado pela “indústria cultural” e pela
radicalização da dinâmica do mercado capitalista, substitui a idéia de uma
unidade do gênero humano por uma fragmentação infinita, numa
multiplicidade incontrolável de experiências culturais particulares que
não admitem nenhuma síntese, já que estão previamente legitimadas por um
relativismo cínico.
Em nome do combate à “tentação totalitária”, e muitas vezes
invocando motivações tidas como “nacionalistas”, correntes reacionárias estão
hoje dinamitando todos os esforços conseqüentes no sentido de pensar a
“universalidade” da experiência humana. Rouanet, em entrevista concedida
recentemente a Luciano Trigo, denuncia a atitude desses dinamitadores: “É uma
atitude reacionaríssima. É como o governo sul-africano dizer que os negros devem
viver confinados em guetos porque têm sua própria cultura. É a posição do Len
Pen, na França, que acha que os franceses têm o direito de defender sua
identidade cultural diante dos imigrantes” (O Globo, 5-10-1990).
A defesa da razão contra as diversas modalidades de
irracionalismo faz parte, para Rouanet, da preservação do espaço onde os seres
humanos podem superar a estreiteza de seus particularismos, de suas
idiossincrasias, podem se encontrar, se enriquecer mutuamente, uns incorporando
as experiências dos outros, no plano da universalidade.
Rouanet está inteiramente convencido da interdependência da razão
e da democracia. Por isso, ele se empenha em encaminhar a reflexão na única
direção em que ela pode contribuir, com perfeita coerência, para a
auto-renovação do pensamento racional: a da busca da universalidade, através da
autocrítica da razão e da sua permanente abertura para o que é novo e
para o que é diferente.
O que a razão pode nos proporcionar – diz o nosso ensaísta no
livro A razão cativa (editora Brasiliense, 1985) – é sempre um “modesto
saber, sempre provisório, sempre sujeito a revisão, incapaz de oferecer
respostas definitivas, mas a única via possível para a verdade”. Nossa
consciência, assim, está condenada a oscilar “entre a lucidez, nunca permanente,
e a opacidade, sempre superável”.
A essa concepção de razão corresponde “um novo conceito de
objetividade”, que Rouanet encontra em Antonio Gramsci, na firme recusa do
pensador marxista italiano a uma “objetividade extra-histórica e extra-humana”.
A razão e a objetividade não se podem pretender imunes às distorções
ideológicas. E Rouanet, comentando a “filosofia da práxis” de Gramsci, observa
que existe “uma diferença fundamental entre a filosofia da práxis e as demais
ideologias: ela é a única que se sabe mortal, a única que se pensa em sua
transitoriedade de verdade provisória, correspondendo a um momento histórico
preciso”. Essas palavras se encontram numa análise comparativa das posições de
Althusser e de Gramsci, num livro intitulado Imaginário e dominação (ed.
Tempo Brasileiro, 1978).
O conceito de razão com que Rouanet trabalha, então, não se
prende às limitações e às ingenuidades dos pensadores da “Ilustração” francesa,
ao otimismo cândido do “Século das Luzes”. Ele trata de escapar, também, aos
aspectos pré-freudianos da visão que os marxistas costumam ter das relações
entre as distorções ideológicas e o conhecimento histórico. Para o nosso
ensaísta, em seu esforço para superar o “psicologismo” individualista, os
marxistas acabaram deixando de lado a investigação dos problemas ligados ao
espaço interno da problemática da consciência, que é o espaço do
desejo. Freud trouxe uma contribuição imprescindível à investigação dos
problemas humanos que se manifestam nessa área, que os marxistas não souberam
explorar.
Freud se torna, com isso, para Rouanet, um autor decisivo. Ele
submete os textos do criador da psicanálise a uma leitura generosa, que procura
apaixonadamente aproveitar idéias capazes de fortalecer a razão e a luta pela
democratização da sociedade. Em alguns momentos, é possível até que essa leitura
de Freud por Rouanet seja excessivamente generosa; é possível que ele tenha
minimizado ou atenuado elementos complexos e perturbadores da concepção do homem
– bastante pessimista – adotada por Freud.
Na ocasião em que A razão cativa apareceu, o psicanalista
Jurandir Freire Costa advertiu para o fato de que Rouanet desconhecia a
alienação “originária e estrutural” do ego, tal como Freud o via; e
indagou, polemicamente, se “Rouanet, tentando conciliar Freud e Habermas, não
obriga, às vezes, os conceitos psicanalíticos a dizerem o que a política e a
filosofia gostariam de escutar?”
Podemos, por conseguinte, suspeitar de um determinado uso
da psicanálise a serviço de um saber mais abrangente. Que saber seria esse? Que
conhecimento englobaria tanto a psicanálise como a história e a política, ou a
filosofia?
Seria um saber de tipo antropológico? Mal a hipótese nos ocorre,
somos levados a afastá-la, com prudência, porque verificamos que Rouanet vê com
acentuada desconfiança a perspectiva que vem sendo adotada pelos antropólogos.
Numa entrevista concedida há tempos ao Jornal do Brasil, o nosso ensaísta
declarou: “Toda a antropologia contemporânea, ou quase toda ela, é dominada pela
idéia do relativismo cultural, a idéia de que não existem padrões universais de
julgamento e de avaliação, de que os padrões são puramente condicionados”
(24-9-1988).
O saber mais abrangente, capaz de propiciar os melhores
fundamentos para um conceito amplo de razão, é mesmo a filosofia. E na filosofia
o pensador que merece, atualmente, a maior atenção de Rouanet é o alemão Jürgen
Habermas. Em 1980, aliás, Rouanet já tinha preparado a edição de uma coletânea
de ensaios de Habermas em português e tinha escrito (em colaboração com sua
mulher, Bárbara Freitag) a introdução ao volume Habermas (ed. Ática). Nos
últimos dez anos, a importância de Habermas como interlocutor vem crescendo,
para o ensaísta brasileiro: paralelamente a Walter Benjamin (de quem ele é
tradutor e sobre quem escreveu o magnífico Édipo e o anjo, que a editora
Tempo Brasileiro lançou em 1981), Habermas é seguramente o autor que Rouanet
freqüenta com maior proveito.
No ensaio final do volume As razões do Iluminismo (ed.
Companhia das Letras, 1987), Rouanet sublinha a significação do conceito de
razão comunicativa, proposto por Habermas. O filósofo alemão distingue entre
uma razão instrumental, sistêmica, ligada ao trabalho, à dominação técnica da
realidade objetiva pelo sujeito, e uma razão processual, inter-subjetiva, que se
liga à necessidade do diálogo, à busca de um consenso na comunicação entre os
sujeitos. Atualmente, vivemos um período histórico no qual a razão sistêmica,
instrumental, vem se expandindo cada vez mais e apresenta características
“imperialistas”, impondo uma drástica redução ao espaço da razão comunicativa.
No entanto, segundo Habermas, os seres humanos continuam a necessitar do
entendimento mútuo e a manter uns com os outros uma certa relação dialógica.
Num livro publicado anteriormente (Teoria crítica e
psicanálise, editora Tempo Brasileiro, 1983), Rouanet já deixara claro que
endossava a revisão de Marx encaminhada por Habermas (apoiado em Freud);
enquanto Marx enxergava o ser humano como animal laborans, isto é, como
um ser que surge e cresce no trabalho, permanecendo portanto preso à razão
instrumental, Freud (relido por Habermas) via o homem como um ser que precisava
ser compelido ao trabalho, através de um sacrifício pulsional. Nas palavras de
Rouanet: “O homem se organiza em sociedade para sobreviver no confronto com uma
natureza hostil, mas essa sobrevivência exige ao mesmo tempo que as pulsões
excedentes, libidinais e agressivas, sejam controladas, sem o que não seriam
liberadas as energias para o trabalho.” A concepção do homem por Freud tem,
assim, uma vantagem sobre a perspectiva de Marx: ela permite que nós
reconheçamos uma dimensão da realidade humana que não cabe na ótica da razão
instrumental, quer dizer, ela nos possibilita reconhecermos que os homens,
naquilo em que o trabalho os frustrava, se viram obrigados a buscar
compensações, se viram “condenados à repressão e à fantasia”. Com isso,
constituíram as bases da razão comunicativa.
Desde Kant, a razão tem um conteúdo programático inequivocamente
crítico: libertar o homem de todas as formas de tutela, internas ou externas.
Ser racional significa ser autônomo, conhecer e agir livremente. Em Hegel e em
Marx, o sujeito racional se empenhou em assumir seu enraizamento histórico. Marx
levou esse empenho longe, tratou de aprofundar os andaimes da razão, apoiando-a
na ação do proletariado. Esse enfoque, no entanto, se revelou problemático; com
a crise do marxismo, a razão se enrijeceu na instrumentalidade, ficou congelada
em esquemas estéreis e acabou perdendo o lugar que havia encontrado. Com
a teoria de Habermas – de acordo com Rouanet – a razão volta a ter um lugar
próprio: “ela se enraíza nas estruturas da intersubjetividade mediatizada pela
linguagem”, já que os homens, de algum modo, não podem viver sem se comunicar
uns com os outros.
Diante dessa recuperação da razão, Rouanet se entusiasma. Vibra
com o reaparecimento dos “velhos ideais do Iluminismo”, com a revalorização
enérgica do conhecimento. “Ousa conhecer!” (“Sapere aude!”), recomendava
Kant. Graças ao estímulo que nos traz a teoria da ação comunicativa, podemos
enfrentar com firmeza e com serenidade a banalização desmobilizadora da vida
cultural, promovida pelo “pós-moderno”. A razão, rejuvenescida, revigorada em
seu espírito crítico e autocrítico, encarnada na antiga coruja da deusa Minerva,
se sente suficientemente forte para defender a nobre causa da universalidade,
mesmo no meio “desta apoteose do particularismo tropicalista que é o carnaval” (Jornal
do Brasil, 24-9-1988).
Percebo na vitalidade das convicções racionalistas de Rouanet
muita coisa que me encanta. A vocação democrática, o apreço pelo conhecimento, a
recusa das facilidades do pragmatismo, a inspiração nitidamente humanista, a
combinação do otimismo iluminista com a corajosa abertura do pensamento para o
novo. E também a importância atribuída à linguagem – à comunicação
intersubjetiva – na construção da razão.
Só tenho um receio:o de que, de repente, nos reapareça a
louquinha que cruzou o nosso caminho em São Paulo. Imagino o que diríamos se ela
surgisse outra vez, diante de nós, fantasiada de chacrete, e nos advertisse, com
seu simpático sorriso desdentado: “Quem não se comunica se trumbica!”.
15-10-1990
In: KONDER, Leandro. Intelectuais Brasileiros e
Marxismo. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1991,
p.87-93.